Por Marina Amaral,
da AGÊNCIA PÚBLICA
Vladimir Safatle é filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo (Caio Castor/Agência Pública)
O Estado brasileiro tem todas as
condições para lidar com a crise
do coronavírus, protegendo a população. Mas o Brasil não tem como
enfrentar a pandemia com Jair Bolsonaro na presidência do país.
Para o filósofo Vladimir Safatle, professor
livre-docente da Universidade de São Paulo, o presidente “potencializa a crise”
ao travar e desarticular as medidas de combate à epidemia e proteção às
pessoas, o que deve motivar a maioria da população a se mobilizar “de forma
horizontal” pelo impeachment do presidente.
“Uma coisa que poderia nascer dessa
experiência de uma luta coletiva contra a pandemia é um afeto político fundamental,
de solidariedade genérica: ‘minha vida depende de pessoas que eu nem sei quem
são’. Elas não parecem comigo, não fazem parte do meu grupo, e essas pessoas
são fundamentais; o que demonstra que nós temos um destino coletivo. Só que a
esquerda, de tão presa que ela está em outro tipo de pauta, não consegue
vocalizar uma pauta de solidariedade genérica universal”, diz o filósofo que
assinou uma proposição de três deputados do PSOL que obteve mais de 1 milhão de
assinaturas pelo impeachment do presidente. A direção do partido criticou
publicamente a iniciativa.
Confira a entrevista de Safatle, que
também falou sobre o trauma da sociedade diante da impossibilidade de enterrar
seus mortos e dos cenários que imagina no Brasil e no mundo depois da pandemia.
No caos em que estamos com a pandemia do
coronavírus se acelerando, o senhor tem defendido o impeachment do presidente
Bolsonaro. O senhor acha que temos condição de viver um processo como esse em
um momento em que estamos fechados em casa e o Congresso trabalha a distância,
ocupado com as medidas de combate à pandemia?
Acho que a única coisa sensata a
fazer nessa condição exatamente de pandemia é lutar pelo impeachment porque
ficou claro que o Brasil não tem condições de gerir duas crises ao mesmo tempo
– e o Bolsonaro é uma crise ambulante. Ele trava todas as medidas, desarticula
todas as medidas, mobiliza setores da população para que burlem as medidas que
são necessárias para contenções mínimas e ele aproveita essa situação para
criar um sistema de destruição de qualquer possibilidade de garantias da classe
trabalhadora, da classe mais desfavorecida.
Essa MP, a flexibilização de demissões em uma situação como essa, os trabalhadores terem até 70% do seu salário reduzido, isso mostra como ele potencializa a crise, ele multiplica a crise. O Brasil não tem a menor condição de suportar isso por mais tempo.
Essa MP, a flexibilização de demissões em uma situação como essa, os trabalhadores terem até 70% do seu salário reduzido, isso mostra como ele potencializa a crise, ele multiplica a crise. O Brasil não tem a menor condição de suportar isso por mais tempo.
Sobre mobilização: só uma ação feita
por três deputados do PSOL, completamente minoritários, foi capaz de levantar 1
milhão de assinaturas que foram entregues pela deputada Fernanda Melchionna
(PSOL-RS) ao presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia. As últimas pesquisas
que temos, do Atlas Político, dá que 47% são a favor do impeachment e isso sem
nenhuma mobilização. Você pode imaginar o que aconteceria se todos os setores
oposicionistas, ou pelo menos todos os setores de esquerda, tivessem uma
mobilização contínua? Esse grupo [a favor do impeachment] aumentaria substancialmente,
fazendo com que você tivesse uma força muito clara, por um lado.
E por outro, você pode não conseguir botar gente na rua mas há vários outros dispositivos pra pressionar o governo, pra mostrar pra um governo que ele não tem mais nenhuma legitimidade de cobrança. Greve geral, recusas em colaborar em diversos níveis, desobediência civil. O problema é que a esquerda não tem mais nenhuma gramática de combate.
E por outro, você pode não conseguir botar gente na rua mas há vários outros dispositivos pra pressionar o governo, pra mostrar pra um governo que ele não tem mais nenhuma legitimidade de cobrança. Greve geral, recusas em colaborar em diversos níveis, desobediência civil. O problema é que a esquerda não tem mais nenhuma gramática de combate.














