O presidente Lula chega à semana decisiva antes do primeiro turno com a
liderança preservada, a aprovação em alta e o adversário obrigado a explicar
Por Miguel do Rosário
Jornalista e editor do blog O
Cafezinho.
Publicado em 11 de setembro de 2026
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| Crédito: Ricardo Stuckert/PR |
Depois de uma
semana extremamente dura para o presidente Lula, marcada por reveses em algumas
pesquisas e pela dificuldade de encontrar um tom diante da crise no Supremo, o
balanço de sexta é relativamente bom para o Planalto. O Datafolha divulgado
hoje mantém o presidente na liderança do primeiro turno e lhe devolve uma
vantagem numérica no segundo, com efeito psicológico importante para a
campanha, para a militância e para toda a frente democrática e popular que o
sustenta.
Foi um alívio. E
justamente por isso o maior erro da campanha de Lula, daqui para a frente, será
relaxar e achar que está tudo bem porque o presidente aparece 2 pontos à frente
de Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Dois pontos são
empate. Assim como não devemos ficar aflitos quando Flávio surge 1 ou 2 pontos
na frente em alguma pesquisa, tampouco podemos ficar tranquilos quando Lula
aparece com a mesma vantagem, porque estatisticamente é idêntico.
Na minha humilde
opinião, a direção da campanha está errada. Ela não aponta para o futuro e não
trabalha para oferecer ao eleitor a expectativa de algo novo.
A tese de sistema
contra antissistema, e a ideia de que a esquerda defende as instituições
enquanto a direita as ataca, me parece uma tremenda besteira. O povo nunca foi
e nunca será amigo de black blocs, mas gosta das instituições apenas na medida
em que elas lhe oferecem coisas boas, o que é óbvio.
O problema da
campanha, portanto, não passa pela defesa ou não das instituições, nem pela
posição a favor ou contra o sistema. Está em oferecer o novo, o ousado, e volto
a repetir o que venho dizendo há meses, quiçá anos: ferrovias e energia solar.
Conversei há pouco
com uma pessoa da direção da campanha e saí apreensivo. Ouvi que também se
queria defender o VLT e a ferrovia, mas que isso “não foi aprovado”.
Como assim não foi
aprovado? O PT está tocando a maior obra de mobilidade urbana da América
Latina, o VLT de Salvador, com dinheiro do governo Lula, e a direção da
campanha acha que o governo não deve colocar trilhos como uma de suas
bandeiras?
Além de não
defender a ferrovia, o presidente vai esconder o que faz? Esconder uma obra
dessas, na Bahia, em plena campanha, é desperdiçar o único argumento que a
direita não tem como copiar, o de que a esquerda oferece, com ações concretas,
expectactivas e sonhos de futuro.
Feito o alerta,
vamos aos fatos. O maior susto da semana veio na terça-feira, 8 de setembro de
2026, quando o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF,
afastou por liminar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o
diretor de inteligência da corporação, Leandro Almada, atendendo a um pedido do
partido Novo.
A Segunda Turma
formou maioria em minutos, com Fux e Nunes Marques, até que Gilmar Mendes pediu
vista. O país assistiu, a menos de um mês da eleição, a uma intervenção
judicial sobre o comando da PF que a Advocacia-Geral da União classificou como
invasão da competência exclusiva do presidente da República.
O elefante foi
retirado da sala, felizmente, no dia seguinte. O presidente do Supremo, Edson
Fachin, anulou tanto a liminar de Mendonça quanto a decisão de Flávio Dino que
a havia revertido horas antes, manteve Andrei Rodrigues no cargo e convocou
sessão extraordinária do plenário para a terça-feira, 15 de setembro de 2026.
Haverá novos embates
na semana que vem, mas a natureza da briga mudou. O que se anuncia agora é um
duelo entre ministros, Mendonça de um lado e Alexandre de Moraes do outro, sem
envolver tanto o governo e sem tocar na estrutura da polícia que investiga o
próprio banco de Daniel Vorcaro.
É nesse cenário que
chega o Datafolha desta sexta-feira. No primeiro turno, Lula tem 39% das
intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro, numa pesquisa em que os dois
subiram, o presidente em 1 ponto e o senador em 2, em relação ao levantamento
de 3 de setembro de 2026.
Augusto Cury caiu
de 8% para 6%. Ronaldo Caiado tem 4%, Renan Santos 3% e Romeu Zema 2%, enquanto
brancos e nulos somam 6% e indecisos 4%.
Pela primeira vez
neste ciclo, o instituto divulgou também os votos válidos. Nessa régua, que é a
da urna, Lula chega a 43% e Flávio a 38%, uma distância de 5 pontos que o
próprio Datafolha descreve como vantagem provável do petista, ainda que nos
limites da margem de erro.
No segundo turno, o
quadro é de empate técnico com o presidente à frente. Lula tem 46% e Flávio
44%, os mesmos números de 3 de setembro de 2026, com brancos e nulos recuando
de 9% para 8% e os indecisos de 2% para 1%.
O senador não
avança nem quando o eleitorado se decide. Em 18 de agosto de 2026 o placar era
47 a 43, e desde então Flávio ganhou 1 ponto e parou.
Nos outros cenários
de segundo turno, o presidente vence todos os adversários testados. Ele faz 46%
contra 41% de Caiado, 48% contra 39% de Zema, 48% contra 37% de Renan Santos e
45% contra 43% de Cury, que pela primeira vez foi incluído numa simulação de
segundo turno pelo instituto.
Na pesquisa
espontânea, aquela em que nenhum nome é apresentado ao eleitor, Lula subiu de
31% para 33% e Flávio de 22% para 25%. A rejeição permanece empatada, com 46%
dizendo que não votariam de jeito nenhum em cada um dos dois, num movimento em
que o senador cedeu 1 ponto e o presidente ganhou 1.
A notícia mais
importante da pesquisa, porém, está na aprovação do governo. Ela subiu 2 pontos
em uma semana, de 45% para 47%, enquanto a desaprovação recuou de 51% para 50%
e os que não sabem avaliar caíram de 4% para 3%.
Para um presidente
que tenta a reeleição, esse é o fator decisivo, mais do que qualquer cenário de
voto. Uma alta de 2 pontos parece pequena, mas indica um movimento do
eleitorado na direção de Lula justamente na semana em que tudo conspirava contra
ele.
Na avaliação
qualitativa, os que consideram o governo ótimo ou bom passaram de 31% para 32%,
os que o julgam ruim ou péssimo seguem em 42% e os que o veem como regular
permanecem em 25%. A diferença entre desaprovação e aprovação, que era de 6 pontos
em 3 de setembro de 2026, encolheu para 3.
Um patamar de 47%
de aprovação basta para ganhar uma eleição. Quem desaprova um governo nem
sempre vai às urnas para puni-lo, ao passo que quem aprova tende a comparecer e
a votar pela continuidade.
Por isso esse
índice costuma andar colado ao voto do candidato no segundo turno, e às vezes
até no primeiro. Os 47% de hoje ficam a apenas 1 ponto dos 46% que o Datafolha
atribui a Lula contra Flávio.
O levantamento
ouviu 2.002 pessoas de 16 anos ou mais, presencialmente, entre 8 e 10 de
setembro de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais e 95% de
confiança. Registrada no TSE sob o número BR-01833/2026, a pesquisa custou R$
307.641,60, pagos pela Empresa Folha da Manhã, que edita a Folha de S.Paulo, e
pela Globo Comunicação e Participações.
A semana terminou
melhor para o presidente também porque o eixo do escândalo se deslocou. Ao
levantar parcialmente o sigilo dos autos da Operação Compliance Zero, por
cobrança pública de Lula e ordem de Fachin, o STF transformou em documento
oficial o que até então circulava por vazamentos sorrateiros e seletivos para a
imprensa.
Agora os dados são
públicos, e são outros os nomes que aparecem. Os relatórios da Polícia Federal
mostram que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado desde julho de 2026 no
inquérito sobre o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, por
suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Segundo despacho do
próprio Mendonça, o senador negociou diretamente com Vorcaro um repasse de US$
24 milhões para a produção e fez, nas palavras do relator, cobranças incisivas
pela liberação do dinheiro. Outro relatório da PF, com sigilo derrubado na
noite desta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, descreve pagamentos mensais
de R$ 500 mil do banqueiro a um ex-chefe de supervisão do Banco Central.
O mais assustador
está numa decisão de Mendonça de 2 de março de 2026. Ali o ministro foi
obrigado a admitir que o Banco Master movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões em
operações de câmbio para uma empresa suspeita de lavar dinheiro do PCC, como O
Cafezinho mostrou nesta sexta em reportagem sobre os documentos liberados pelo STF.
Em outras palavras,
o dinheiro que irrigou o banco de Vorcaro tem, segundo a PF, uma ponta no crime
organizado e outra nos fundos de previdência de servidores. E é desse mesmo
banco que saiu o financiamento cobrado pelo candidato da direita para o filme
sobre o pai.
Lula chega à semana decisiva antes do primeiro
turno com a liderança preservada, a aprovação em alta e o adversário obrigado a
explicar, com documentos públicos, sua relação com os esquemas criminosos do
Banco Master. A campanha ainda precisa achar o tom, mas a semana que parecia
perdida terminou com o presidente mais forte.