quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ameaças sincronizadas à reeleição do Lula

 

Colunista Jeferson Miola sugere que decisão de Flávio Dino conteve ofensiva de André Mendonça, mas alerta para novas frentes contra Lula

Por Jeferson Miola (Colunista do Brasil 247)

Jeferson Miola é articulista, colunista do Brasil 247, integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea) e ex-coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

Publicado em 10 de setembro de 2026

Lula, Flávio Dino e André Mendonça Crédito: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação

A estratégia golpista da extrema-direita no STF com as manipulações de André Mendonça para impedir a reeleição de Lula e eleger Flávio Bolsonaro foi interceptada pelo contragolpe de Flávio Dino.

Apesar disso, no entanto, a dinâmica golpista não terminou; seus desdobramentos ainda são imprevisíveis, mas a reação a tempo deteve o curso dos acontecimentos antes que evoluíssem para um quadro irreversível e de consequências trágicas para nossa democracia.

Ainda que extremamente perigosa, esta não é a única ameaça à reeleição do presidente Lula. E ela se sincroniza com outras ameaças que, ainda que possam ter centros de comando distintos, confluem no objetivo comum de derrotar Lula, inclusive por meio de operações criminosas.

A ameaça do golpe no STF

Ao longo dos meses como relator que conduziu de modo enviesado os casos Master e INSS, André Mendonça conseguiu a proeza de fixar na opinião pública a ideia de que o governo Lula seria responsável pelos mega-escândalos de corrupção de bolsonaristas e aliados.

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desapareceram do noticiário produzido com vazamentos criminosos originados no gabinete de Mendonça. E Fábio Luís passou a ser citado pela mídia como uma espécie de “CEO da corrupção” no Brasil.

Especialistas em pesquisas avaliam que a atuação de Mendonça pode ter sido o fator relevante que influenciou as pesquisas eleitorais e reacendeu a expectativa de vitória do bloco anti-Lula, que então animou um movimento comum de atores econômicos, midiáticos e políticos –não só bolsonaristas, mas sob a liderança bolsonarista– que projetam se beneficiar com a derrota do Lula.

A ameaça com a interferência estrangeira

A eleição do Brasil ocupa o centro das prioridades da extrema-direita internacional. Está havendo interferência direta dos EUA e de Israel no processo eleitoral com apoio interno de setores entreguistas e traidores que se apresentam como falsos patriotas.

A interferência se dá por meio de agências de inteligência, financiamentos clandestinos, ataques cibernéticos, “fazendas de robôs” etc, e não se descarta a possibilidade de que estrangeiros estejam atuando no território brasileiro a partir do Consulado dos EUA em São Paulo e da Embaixada em Brasília.

Alertas a esse respeito têm sido feitos com distintas ênfases e ângulos de abordagem por especialistas e analistas, e podem ser acessados em reportagens publicadas em portais de comunicação contra-hegemônicos.

A Globo com o fantasma da corrupção

Nas entrevistas do Jornal Nacional, a Rede Globo surpreendeu até mesmo alguns dos seus comentaristas honestos com a conduta escandalosamente faccional que adotou nas entrevistas com Lula e Flávio Bolsonaro para produzir uma poderosa arma peça de propaganda anti-Lula.

Os entrevistadores foram condescendentes com as contradições e mentiras do gângster-filho, mas emparedaram Lula sobre o tema da corrupção a partir de dados vazados pelo gabinete de André Mendonça com o objetivo nítido de excitar o imaginário popular antipetista com a falsa imputação de corrupção.

A primeira tentativa grotesca da Globo neste ano de ressuscitar o fantasma da corrupção contra o PT para exploração eleitoral foi em março, quando repetiu a gangue da Lava Jato e apresentou um organograma das “conexões do Daniel Vorcaro” que tinha a fotografia do Lula como personagem central, cercado de outras figuras ligadas a ele e ao PT.

A fabricação do fenômeno Augusto Cury

Não há consenso entre analistas sobre o crescimento súbito e exponencial das intenções de voto em Augusto Cury nas pesquisas.

É consensual, no entanto, que tal crescimento foi fortemente impulsionado através das redes sociais. Não se descarta a possibilidade de apoio operacional de Pablo Marçal, ativista pró-bolsonarista, e de mecanismos da extrema-direita internacional nas plataformas com custos financeiros significativos não-rastreáveis.

O objetivo desta estratégia seria consolidar uma parcela expressiva de votos “independentes”, de eleitores “fora da polarização”, com valores e pautas mais associadas à direita para, no segundo turno, canalizar tais votos para Flávio Bolsonaro.

Flerte do PIB com Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro conseguiu estabelecer uma linha de diálogo com o PIB que se imaginava impossível, inclusive com empresários, banqueiros e rentistas supostamente refratários ao gângster, mas que passaram a se alentar com a possibilidade de vê-lo no Planalto.

As oligarquias dominantes são colonizadas, entreguistas e dilapidadoras, pensam unicamente no assalto desenfreado e desimpedido ao butim de Estado.
Essa escória não tem nenhum compromisso com um ideal de nação, igualdade e justiça social, e não hesitará em aderir à campanha do filho do Bolsonaro se ele se mostrar eleitoralmente viável, mesmo que isso represente jogar o país no precipício.

Desafios da campanha Lula para derrotar Trump, Bolsonaros e as oligarquias

De hoje a 4 de outubro serão os 24 dias mais decisivos e fundamentais da nossa história. A confluência de forças que militam pela derrota do Lula é poderosíssima, mas não invencível.

A campanha do Lula se multiplica em centenas de milhares de iniciativas militantes individuais e coletivas. E é multiplicada pelas quase duas mil candidaturas às Assembléias Legislativas, à Câmara e ao Senado.

Esse enorme contingente militante precisa ter como prioridade central ocupar o território de todo país, com metas de visitas do máximo de lares de brasileiros para conversar diretamente com a população para apresentar as realizações e propostas do quarto mandato do Lula, e para alertar sobre os riscos de um governo de bandidos que transformará o Brasil numa autocracia entregue aos Estados Unidos.

A eventual eleição de Flávio Bolsonaro significaria para o Brasil e para o povo brasileiro uma realidade infinitamente pior que o terrível mandato do pai dele com as cúpulas militares.

Assista o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=809GHMtC3Eg&t=5s

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ao que tudo indica, André Mendonça quer causar uma crise institucional

Seja como vítima, seja como acusado, o ministro não poderia tomar a decisão de afastar Andrei Rodrigues. Para Alfredo Attié, o Partido Novo também não teria legitimidade para pedir esse afastamento

Por Joaquim de Carvalho (Jornalista)

André Mendonça.   Crédito: Carlos Moura/SCO/STF

A decisão de André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada, levanta uma questão sobre possível usurpação de competência. Quem escolhe o diretor-geral da PF é o presidente da República. Além disso, como observa o jurista Alfredo Attié, presidente da Academia Paulista de Direito, parece “muito duvidoso que um partido político tenha legitimidade para propor uma ação como essa”.

Ressalvando que falava “em abstrato, sem conhecimento do processo, apenas da decisão”, Attié também destacou que o afastamento “sem oitiva das autoridades mostra-se potencialmente ilegal, sendo certo que, se há evidência de erros cometidos em procedimentos determinados, o afastamento tem de se dar em relação a esses feitos, não dos cargos”.

Há outro problema na decisão de André Mendonça: poderia ele próprio decidir sobre fatos nos quais aparece, conforme a versão que se adote, como acusado ou como vítima?

O problema pode ser colocado de maneira simples.

O relatório de inteligência da Polícia Federal utilizado por Alexandre de Moraes para pedir a investigação de Mendonça atribui ao ministro possíveis irregularidades na condução das investigações. O presidente do STF, Edson Fachin, determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre a admissibilidade dessas acusações e, posteriormente, que Mendonça apresente sua defesa.

Se os fatos descritos nesse relatório tiverem procedência, Mendonça ocupa a posição de autoridade acusada e diretamente interessada na controvérsia.

Mendonça, porém, sustenta exatamente o contrário. Em sua decisão, afirma que o relatório é irregular e que ele próprio foi submetido a “monitoramento e coleta dirigida ilegal” pela inteligência da PF.

Se essa segunda hipótese estiver correta, surge o problema inverso: Mendonça deixa de ser apenas o julgador dos acontecimentos e passa a se apresentar como vítima das condutas que fundamentaram sua própria decisão.

Em qualquer das duas hipóteses, portanto, há uma questão objetiva de impedimento ou suspeição que precisa ser enfrentada antes do mérito. Não parece institucionalmente saudável que uma autoridade acusada decida sobre seus acusadores, assim como não parece adequado que uma autoridade que se declara vítima determine medidas cautelares contra aqueles aos quais atribui a agressão.

É precisamente por isso que o episódio ultrapassa Andrei Rodrigues e a Polícia Federal. O que está em discussão agora é a capacidade do próprio Supremo de estabelecer quem pode julgar fatos nos quais integrantes da Corte aparecem pessoalmente envolvidos.

O problema alcança também o colegiado chamado a referendar a decisão.

Kassio Nunes Marques votou para manter o afastamento, embora reportagem baseada em relatório do Coaf tenha revelado que uma consultoria que recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master realizou pagamentos de R$ 281,6 mil ao escritório de seu filho, Kevin Marques. O advogado afirma que os valores remuneraram serviços técnicos e jurídicos. O ministro declarou não possuir relação de proximidade com Daniel Vorcaro.

Luiz Fux também acompanhou Mendonça. No caso de Fux, as informações publicadas até agora mostram uma aproximação de Vorcaro com seu filho, Rodrigo Fux, que esteve em um camarote VIP para o qual foi convidado pelo ex-banqueiro. Rodrigo afirma que houve uma tentativa de aproximação comercial, mas que ela não prosperou, e nega ter advogado para Vorcaro. Não há, nas fontes consultadas, comprovação de pagamento de Vorcaro ao filho de Fux.

Essas circunstâncias não permitem concluir automaticamente pelo impedimento dos ministros. Mas, diante de um processo que nasceu justamente das relações de Vorcaro com autoridades e seus familiares, tornam indispensável que eventuais impedimentos ou suspeições sejam examinados com transparência antes da definição de quem participará do julgamento.

Gilmar Mendes interrompeu a análise ao pedir vista do processo, afirmando a necessidade de examiná-lo melhor. O julgamento fica suspenso, embora a decisão de Mendonça continue produzindo efeitos e já tenha recebido os votos favoráveis de Fux e Nunes Marques.

O pedido de vista pode acabar oferecendo ao Supremo algo de que a Corte parece necessitar neste momento: tempo para encontrar uma saída institucional para um conflito que deixou de envolver apenas a legalidade de atos da Polícia Federal e passou a colocar ministros uns contra os outros.

Essa saída, contudo, não deveria ser construída pela escolha de um dos lados da disputa.

Se existem elementos que colocam em dúvida a atuação de Alexandre de Moraes no caso Vorcaro, eles precisam ser examinados por autoridades que não estejam envolvidas nos fatos. Da mesma maneira, as acusações dirigidas contra André Mendonça não deveriam ser julgadas por ele próprio — nem deveria ele comandar investigações sobre fatos nos quais afirma ter sido vítima.

Uma solução institucional possível seria, portanto, afastar ambos da condução dos procedimentos diretamente relacionados a essa controvérsia, sem que isso represente antecipação de culpa de qualquer deles. A finalidade seria exatamente a oposta: permitir que os fatos sejam examinados por julgadores sem envolvimento pessoal no conflito.

A crise chegou a um ponto em que já não basta perguntar quem está certo — Moraes, Mendonça, a Polícia Federal ou seus dirigentes. É preciso primeiro responder a uma pergunta mais elementar:

Quem, neste caso, ainda reúne condições jurídicas para julgar quem?

O Supremo precisa encontrar essa resposta antes que uma disputa entre autoridades se transforme definitivamente em uma disputa entre instituições. Nesse cenário, quem ganha são aqueles que se alimentam das crises — no caso, a extrema direita, cujos integrantes, como se dizia no passado, são pescadores em águas turvas.

Depois do 8 de janeiro de 2023, protagonizado por antigos aliados políticos de André Mendonça, o ministro do STF estabeleceu uma nova data para envergonhar aqueles que prezam a Justiça e a democracia: 8 de setembro de 2026.

Assista o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=KjVLHNe9nzg&t=2s

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O operador interno do golpe: Mendonça produz a crise que Washington precisava

André Mendonça transforma a crise do STF em matéria-prima para um novo enquadramento de Washington: de Moraes como “censor” à suspeita de um Estado de vigilância

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)

André Mendonça Crédito: Victor Piemonte/STF | Brasil 247/DALL-E

André Mendonça atravessou uma fronteira que muda a natureza da crise no Supremo. Ao acusar a inteligência da Polícia Federal de monitorá-lo sistematicamente, falar em “arapongagem institucional”, associar Alexandre de Moraes ao conhecimento dessas informações e recorrer à imagem totalitária de 1984, o ministro deixou de disputar apenas a condução de uma investigação. Produziu uma representação muito mais corrosiva do Estado brasileiro: a de um aparelho público que teria passado a vigiar clandestinamente autoridades do próprio país. Ao afastar a direção da Polícia Federal, colocou Supremo, PF e Executivo numa mesma zona de ruptura. A crise deixou de ser apenas um choque entre ministros e passou a atingir a legitimidade recíproca das instituições.

É justamente aí que está o fato político novo. Durante mais de um ano, Alexandre de Moraes foi construído nos Estados Unidos como o rosto de um suposto regime de censura. Decisões contra plataformas digitais, investigados e operadores da extrema direita foram arrancadas do conflito político brasileiro e traduzidas como ameaça à liberdade de expressão, às empresas norte-americanas e, depois, aos próprios interesses dos Estados Unidos. A narrativa produziu consequências materiais: atravessou o Congresso e o Executivo norte-americanos, alimentou sanções, medidas comerciais e pressão diplomática. Washington já demonstrou que consegue converter uma interpretação política sobre o Judiciário brasileiro em instrumento de coerção.

Mendonça acrescenta agora algo que essa narrativa ainda não possuía. Censura é controle da palavra. Vigilância é poder sobre o indivíduo. A acusação de que um ministro do Supremo teria sido monitorado por estruturas de inteligência exige uma arquitetura muito maior do que a figura isolada de um juiz autoritário. Ela convoca polícia, coleta de informações, circulação de dados, cadeia de comando e conhecimento institucional. Moraes pode deixar de ser apresentado apenas como o magistrado que silencia adversários e passar a ser associado à imagem de um sistema que observa, investiga e neutraliza. Mendonça não falou em “deep state brasileiro”, mas colocou em circulação uma linguagem que pode ser traduzida nessa direção com facilidade.

Isso não significa que suas acusações estejam definitivamente provadas. Elas precisam ser investigadas, confrontadas e submetidas ao devido processo. Essa distinção é indispensável porque a força política do episódio nasce justamente da diferença entre o tempo da prova e o tempo do poder. Uma investigação precisa estabelecer fatos e responsabilidades. Uma operação política precisa apenas produzir uma interpretação suficientemente plausível para circular antes que o processo seja concluído. Washington já possui a infraestrutura política, jurídica e econômica capaz de receber essa matéria e dar consequência a ela. A arma não nasceu com a crise. O que surgiu agora foi uma munição nova.

Para compreender por que Mendonça ocupa posição tão sensível nesse processo, é preciso olhar menos para sua biografia formal e mais para os circuitos pelos quais circulou. A ANAJURE apoiou publicamente sua indicação ao Supremo e mantém relação institucional com a Alliance Defending Freedom, organização jurídica conservadora norte-americana ligada ao Blackstone Legal Fellowship. A Academia ANAJURE reuniu Mendonça e dirigentes desse circuito. Em outra frente, ele participou de programas oficiais de formação anticorrupção em Washington, esteve em ambientes de cooperação com Departamento de Justiça, FBI e SEC e, quando ministro da Justiça, manteve interlocução com a embaixada dos Estados Unidos em temas de segurança pública e crimes cibernéticos. Durante a Lava Jato, também esteve no centro da controvérsia sobre o acesso da defesa de Lula a registros de cooperação entre autoridades brasileiras e o FBI.

Há ainda sua circulação por redes internacionais pró-Israel. Em 2024, Mendonça integrou viagem a Israel organizada e financiada por entidades privadas ligadas à defesa pública do Estado israelense, criticou depois a posição diplomática brasileira sobre Gaza e participou de ambientes institucionais que aproximam conservadorismo religioso, política e defesa de Israel. Nenhum desses vínculos prova subordinação, comando estrangeiro ou direção de suas decisões. Prova, porém, circulação, afinidade e inserção em redes transnacionais que conectam direito, religião, segurança e política. É nesse nível, e somente nele, que essas relações importam para compreender sua posição atual.

Operador, aqui, não é sinônimo de agente. Um agente pressupõe vínculo, comando ou orientação demonstrável. Um operador histórico pode agir por convicção própria e ainda desempenhar uma função objetiva numa correlação de forças maior. O que define essa função não é uma suposta ordem secreta recebida de Washington, mas o efeito material do ato. Mendonça está no centro de uma das instituições mais poderosas do Estado brasileiro e produz decisões capazes de atravessar imediatamente fronteiras jurídicas, informacionais e diplomáticas. Ele não precisa pedir sanções nem formular a narrativa norte-americana. Basta produzir, no exercício do cargo, elementos que outros atores sabem transportar e converter.

Esse circuito já está aberto. A extrema direita brasileira aprendeu a internacionalizar conflitos domésticos traduzindo decisões judiciais, investigações e disputas eleitorais para o vocabulário político dos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro tornou-se um dos principais intermediários dessa ponte ao atuar em Washington, defender sanções contra Moraes e apresentar a crise brasileira como evidência de autoritarismo. O episódio atual oferece algo qualitativamente distinto: não apenas a denúncia de adversários do Supremo, mas documentos, decisões e acusações produzidos por um ministro da própria Corte. A contestação ganha, assim, autoridade institucional antes de atravessar a fronteira.

A divisão de trabalho é objetiva. Mendonça produz o fato institucional. A extrema direita formula o enquadramento. Intermediários transportam a narrativa. O ecossistema trumpista amplifica. O Estado norte-americano possui instrumentos para transformar percepção em custo econômico, diplomático ou financeiro. Nenhuma dessas etapas exige uma sala de comando comum. Convergência não é conspiração. Na política de poder, atores diferentes podem agir por interesses próprios e produzir resultados complementares. É precisamente aí que Mendonça se torna operador interno da ruptura: sua atuação aumenta o valor estratégico de uma crise que Washington já vinha explorando.

O mecanismo ganha profundidade quando a possibilidade de punição externa começa a entrar no cálculo doméstico. Se ministros, autoridades e instituições sabem que uma decisão tomada em Brasília pode produzir sanção em Washington, o poder externo já interfere no ambiente interno antes de qualquer nova medida ser anunciada. Soberania deixa então de ser apenas uma questão jurídica. O Estado permanece formalmente livre para decidir, mas suas escolhas passam a carregar o risco de uma retaliação definida por outra potência. O condicionamento antecede a coerção.

Para um país do Sul Global, essa assimetria é decisiva. Potências centrais não precisam fabricar todas as crises da periferia. Basta reconhecer quais contradições internas podem ser convertidas em vantagem externa. Quanto mais fragmentado o centro decisório brasileiro, menor o custo de pressioná-lo. Um ministro confronta a Polícia Federal, a PF contesta a interpretação do ministro, o Executivo reage para preservar sua autoridade e o Supremo precisa arbitrar um conflito que já corrói sua própria legitimidade. O Estado começa a ser colocado contra si mesmo exatamente quando uma potência externa dispõe de meios para selecionar interlocutores, punir adversários e transferir o conflito para arenas em que a assimetria de poder lhe é favorável.

É aí que o golpe do século XXI se afasta da imagem clássica. Não precisa haver tanques diante do Congresso nem generais anunciando uma nova ordem. A ruptura pode preservar formalmente as instituições enquanto esvazia sua capacidade real de decidir. O tribunal continua aberto, o governo continua eleito, a polícia continua funcionando e a Constituição permanece em vigor. Mas autoridades passam a calcular o risco de sanções pessoais, atores domésticos procuram em Washington a força que não conseguem produzir internamente e decisões soberanas são submetidas à expectativa permanente de retaliação estrangeira.

Defender a soberania brasileira, por isso, não significa blindar Alexandre de Moraes, a Polícia Federal ou qualquer autoridade. Se houve abuso, espionagem ilegal, favorecimento ou crime, que tudo seja investigado, provado e punido no Brasil. Uma democracia que protege seus próprios agentes contra a lei oferece munição a quem pretende deslegitimá-la. O que não pode ser normalizado é outra coisa: transformar uma fragilidade interna em autorização para que Washington adquira o poder de definir quem, dentro do Estado brasileiro, merece governar, julgar, investigar ou permanecer no cargo.

A história dos golpes na periferia raramente começa no instante em que a ordem constitucional cai. Antes existe uma batalha pela autoridade de definir o legítimo. Quando essa autoridade começa a migrar para fora do território nacional, a ruptura já está em curso, mesmo que nenhuma instituição tenha sido fechada. Mendonça não precisa ser agente de Washington para funcionar como operador interno de uma correlação de forças que favorece Washington. Basta que a fissura produzida dentro do Estado seja convertida, fora dele, em capacidade de coerção sobre o Brasil.

O problema, portanto, não é apenas o que André Mendonça pretende fazer com Alexandre de Moraes.

É o que Washington poderá fazer com o Brasil a partir da crise que Mendonça acaba de produzir.

Assista o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=t9GVHA8H3eA&t=2s

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O golpe por dentro do Supremo

André Mendonça abre o maior golpe desferido no STF às vésperas da eleição e transforma a própria instituição em campo de batalha da guerra híbrida contra o Brasil

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista) e Luciana Bauer (Jornalista)

Publicado em 1 de setembro de 2026



 

André Mendonça.  Crédito: Victor Piemonte/STF

Às vésperas da eleição presidencial, André Mendonça transforma elementos de uma investigação ainda sem conclusão judicial em combustível para uma guerra interna no STF, rompendo – de forma brutal e sem arcabouço constitucional que o embase – o equilíbrio institucional da Corte. Uma frente de desestabilização que converge com os interesses da extrema direita brasileira e com a ofensiva dos Estados Unidos contra a soberania política e digital do Brasil.

Quando o Estado é colocado contra o próprio Estado

A pouco mais de um mês da eleição presidencial, o golpe mudou de lugar. Em 8 de janeiro de 2023, foi preciso quebrar vidraças, arrombar portas e invadir o Supremo Tribunal Federal. Agora, a desestabilização avança por dentro da própria institucionalidade. André Mendonça, ministro do STF, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e um dos magistrados responsáveis pela condução do processo eleitoral, retirou o sigilo de material ainda submetido à apuração, expôs uma investigação que alcança integrantes das mais altas estruturas do Estado e lançou o Supremo numa guerra interna cujas consequências ultrapassam qualquer disputa pessoal com Alexandre de Moraes.

É preciso dizer desde o início o que está e o que não está em discussão. Não existe, até aqui, conclusão judicial que permita condenar Moraes pelas informações que emergiram do caso Banco Master. Se houver crime, que seja investigado, provado e punido. O problema é precisamente outro. Antes que a Justiça produzisse uma verdade processual, a suspeita foi lançada ao espaço público como fato político. Em poucas horas, Moraes, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Gabriel Galípolo passaram a habitar a mesma atmosfera de suspeição de forma centripetra e possivelmente coordenada com a imprensa e vazadores que desde a Lava Jato operam impunes. A extrema direita imediatamente transformou essa matéria bruta em arma eleitoral. O STF deixou de aparecer como instituição capaz de processar uma crise e passou a aparecer como parte da própria crise.

É aqui que o acontecimento revela sua verdadeira dimensão. Um golpe no século XXI não precisa começar com tanques diante do Congresso. Pode começar quando os mecanismos do Estado são utilizados de maneira a destruir a confiança no próprio Estado, quando o procedimento antecede a prova, quando o vazamento produz sentença social antes do contraditório e quando uma instituição é empurrada para a guerra contra si mesma. O que André Mendonça abriu não é apenas uma crise no Supremo. É uma fissura no centro do sistema de contenção democrática brasileiro no momento exato em que esse sistema será colocado à prova pelas eleições de 2026. Mendonça hoje foi mais eficaz que as turbas ensandecidas a depredar o Supremo no dia do Golpe. 

Se Cunha iniciou o golpe de 2016. Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de 2027 dando tons de messianismo constitucional ao que podemos taxar de conduta totalmente inconstitucional para com seus pares. 

O Supremo é julgado por um plenário e não pela imprensa. Mendonça não opera mais dentro das quatro linhas do estado de direito.

O ministro terrivelmente lavajatista Mendonça não apenas recebeu informações produzidas pela Polícia Federal. Ele movimentou a máquina. Determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico sobre referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, separou esse material em uma nova frente processual, abriu vista à Procuradoria-Geral da República e, antes mesmo de uma manifestação conclusiva do Ministério Público, retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública. Depois, pediu que o assunto fosse levado a uma sessão presencial do Plenário. A sucessão dos atos importa porque revela algo maior do que uma divergência jurídica: uma investigação ainda em formação foi convertida, por decisão institucional, em acontecimento político nacional.

É nesse ponto que o método se torna tão grave quanto o conteúdo. A direção da Polícia Federal reagiu duramente e passou a questionar se o relator havia ultrapassado a função de supervisionar a investigação para assumir um papel ativo na produção de uma linha investigativa própria. Ministros do Supremo falaram em ruptura das regras internas e em um ambiente de vale-tudo. A PGR foi colocada numa posição ainda mais delicada, porque aparece ao mesmo tempo como instituição responsável por controlar juridicamente a investigação e como uma das estruturas atingidas pelas referências reveladas. O resultado é um curto-circuito institucional: quem investiga passa a ser questionado, quem fiscaliza passa a integrar a crise e quem deveria arbitrar o conflito passa a lutar pela própria legitimidade.

A guerra híbrida opera exatamente nessa zona cinzenta. Ela não precisa fabricar documentos falsos quando pode explorar documentos verdadeiros fora de seu tempo processual. Fora da logica constitucional e dos direitos e garantias fundamentais. Não precisa inventar uma acusação quando pode retirar um fragmento de contexto, lançá-lo na circulação pública e deixar que o ecossistema político produza a condenação. O tempo jurídico exige prova. O tempo informacional exige impacto. Quando esses dois tempos entram em choque, vence primeiro quem controla a percepção. 

Por isso, o ato mais poderoso não foi a descoberta de uma mensagem, mas a transformação da investigação em espetáculo antes que a própria investigação pudesse dizer o que aquelas mensagens significavam. A partir desse instante, a Justiça deixou de conduzir sozinha o processo. A opinião pública, as redes, as campanhas eleitorais e os interesses políticos passaram a disputar o sentido do material em tempo real. E quando o sentido é capturado antes da prova, o processo continua aberto nos autos, mas a sentença política já começou a ser executada nas ruas. 

As portas de um novo golpe com STF com tudo estão abertas: um novo golpe com o supremo fragilizado e vilipendiado como estamos vendo por um dos seus próprios ministros sera matéria fácil para ser tragado pelo próximo golpista de plantão em eleições.

É aqui que a crise deixa de ser apenas jurídica e revela sua natureza histórica. A guerra híbrida não precisa destruir o Estado de uma vez. Sua forma mais eficiente é fazê-lo perder progressivamente a capacidade de reconhecer quem o ataca, enquanto suas próprias instituições são empurradas umas contra as outras. O conflito passa a utilizar a legalidade, a informação, a economia, a tecnologia e a disputa eleitoral como partes de uma mesma correlação de forças. Tudo continua aparentemente funcionando. Os tribunais julgam, a polícia investiga, a imprensa publica, as plataformas distribuem, os candidatos discursam. Mas, por baixo dessa normalidade, a autoridade que sustenta o conjunto começa a ser corroída.

A contradição é brutal. O STF, que depois de 8 de janeiro se tornou uma das principais barreiras institucionais contra a extrema direita golpista, passa agora a produzir diante do país a imagem de uma Corte dividida, desconfiada de si mesma e incapaz de estabelecer sequer um terreno comum para processar a própria crise. A Polícia Federal contesta o procedimento de um ministro do Supremo. A Procuradoria-Geral da República é chamada a fiscalizar uma investigação na qual seu próprio chefe aparece mencionado. O Banco Central entra no circuito da suspeição. Em vez de uma instituição proteger a estabilidade da outra, forma-se uma cadeia de atritos capaz de consumir a legitimidade de todas.

‘Há uma aposta muito perversa na desestabilização institucional do Brasil’, alerta Carol Proner

 

Análise da jurista ocorre após divulgação de material sobre mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro

Conteúdo postado por: Leonardo Lucena

Publicado em 1 de setembro de 2026


Carol Proner Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

247 – A jurista Carol Proner denunciou nesta terça-feira (1) que existe no Brasil uma tentativa de levar o País ao “caos institucional, desqualificando advogados, rivalizando juízes, procuradores e a própria Polícia Federal, ao tempo em que favorece estratégias eleitorais sorrateiras”. A integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) sinalizou que investigações técnicas precisam ser preservadas dentro do Supremo Tribunal Federal, mas também alertou contra “uma aposta muito perversa de desestabilização institucional do Brasil” que estaria sendo orquestrada por opositores do governo.

A estudiosa comentou a repercussão do material tornado público pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça sobre trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A PF enviou ao relator o documento com os diálogos. 

“Para quem estuda processo constitucional, o Brasil é o ‘hit’ do momento. A situação de hoje beira o inacreditável e expõe o modelo democrático diante dos grandes arranjos de concentração de poder econômico e político”, continuou a jurista. 

“Manchete de todos os jornais é a escandalosa notícia de que um ministro da Suprema Corte, com base em vazamentos de informações policiais para setores da imprensa, acusa outro ministro de cometer advocacia administrativa, abuso de poder e outros ilícitos”. 

Pedro Serrano

A jurista Carol Proner também destacou a importância da análise feita pelo jurista Pedro Serrano, que deu entrevista à TV 247 nesta terça (1). Em participação no programa Boa Noite 247, o estudioso demonstrou confiança nas investigações do STF e disse que “o plenário do Supremo é soberano na democracia”.

Conforme destacou a jurista Carol Proner, Serrano expôs “a complexidade do problema” em um contexto de “avalanche de fatos e direcionamento para linchamentos midiáticos”. “Serrano identifica a incidência de lógicas cruzadas entre sistema de justiça e sistema midiático, este pretendendo prevalecer sobre o outro”, pontuou ela.

“Naturalmente são sistemas que se relacionam entre si, mas um não pode superar a lógica do outro, sob pena de censura ou cerceamento de defesa e garantias: a jurisdição não pode ser exercida para censurar a imprensa. Por sua vez, a imprensa não pode pretender substituir a jurisdição em juízos de justiça. Esse é o ponto de partida para entender”.

Extrema direita

A jurista defendeu a integridade das investigações, porém não foi à tona que ela citou “aposta perversa”, mesmo sem mencionar a família Bolsonaro e a extrema direita brasileira. Nos últimos anos, políticos bolsonaristas e seus apoiadores estimularam ações golpistas contra o STF.

Além das 29 pessoas condenadas pelo Supremo na investigação sobre o plano golpista elaborado ainda no governo Bolsonaro, ministros da Corte também emitiram mais de 1,4 mil condenações nas investigações dos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram as estruturas do STF, do Palácio do Planalto e do Congresso. 

Os ataques da família Bolsonaro ao STF aumentaram após setembro do ano passado. No dia 11 daquele mês, magistrados condenaram Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista. 

Marcelo Uchôa

Outro jurista – Marcelo Uchôa – se manifestou sobre o material tornado público pelo STF e comentou sobre cobertura jornalística acerca dos casos Moraes e o do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que mentiu sobre os recursos enviados por Vorcaro ao filme Dark Horse, retrato biográfico de Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar atualmente após ser condenado por ministros do STF a 27 anos de cadeia na investigação sobre a trama golpista.

O senador da extrema direita havia afirmado que Daniel Vorcaro suspendeu em maio de 2025 os pagamentos destinados a Dark Horse. Mas o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que o ex-banqueiro fez um novo repasse ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, em 16 de setembro do ano passado. O fundo administra os recursos ligados à produção do filme.

A transferência, no valor de US$ 1,6 milhão, ocorreu oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar de Vorcaro parcelas em atraso. Com esse novo pagamento, o montante enviado pelo empresário ao longa passou de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões, valor superior a R$ 65 milhões.

Os investigadores também apuram se Vorcaro fez outro repasse de US$ 1,6 milhão ao filme. Em 22 de outubro do ano passado, Flávio Bolsonaro procurou novamente o ex-banqueiro. Caso essa transferência tenha ocorrido, o total disponibilizado pelo empresário para investir na produção chegaria a US$ 14 milhões, o equivalente a R$ 72 milhões.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Fundação Perseu Abramo lança livro nos 10 anos do golpe contra Dilma Rousseff

Obra reúne 16 artigos de pesquisadores e lideranças que analisam as origens, os mecanismos e os impactos da farsa do impeachment no país

Conteúdo postado por: Redação Brasil 247

Publicado em 31 de agosto de 2026.



Presidente Dilma Rousseff na tribuna do Senado durante o Golpe de 2016. Crédito: Marcos Oliveira/Agência Senado

247 – Para lembrar os dez anos do processo que resultou no golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff, a Fundação Perseu Abramo, centro de formação política e de produção de conhecimento do PT, em parceria com a Editora Hucitec, lançou a coletânea “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências”.

O livro reúne 16 artigos que analisam, de forma consistente, todo o ciclo político do episódio, compreendendo desde as suas raízes nas jornadas de junho de 2013 até as suas repercussões e resultados na conjuntura atual.

A obra traz textos de um conjunto diversificado de acadêmicos, jornalistas, pesquisadores e ativistas. Entre os colaboradores estão Paulo Vannuchi, ex-ministro de Direitos Humanos e integrante do Comitê das Nações Unidas contra Desaparecimentos Forçados; Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação (CELACC); Sérgio Amadeu, doutor em Ciência Política pela USP e professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC); e Jessé de Souza, sociólogo, advogado, escritor e professor titular da UFABC.

A organização do volume foi conduzida pela presidente do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo, Eleonora Menicucci — professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ex-ministra de Política para as Mulheres —, ao lado dos professores Lincoln Secco, do Departamento de História da USP e coordenador do Grupo de Estudos de História e Economia Política (GMarx-USP), e Ramatis Jacino, do Programas de Pós-Graduação em Economia Política Mundial da UFABC e de História da Unifesp. Os três organizadores também assinam artigos na publicação.

Na contracapa, a deputada federal Gleisi Hoffmann, que atuou como ministra-chefe da Casa Civil no governo Dilma Rousseff e acompanhou o processo no Senado Federal, destaca a dimensão política e de gênero da investida. “Este livro é fruto do compromisso com a verdade e com a memória. Ao reunir diferentes olhares, ajuda a compreender como se construiu a ponte para o futuro, o golpe que afastou Dilma sem base legal consistente. Como senadora da República, acompanhei cada passo daquele processo perverso e truculento. Vi ataques políticos e institucionais e também uma carga misógina evidente na forma de tratar a presidenta e de tentar deslegitimá-la. Não era um combate apenas a uma governante, mas a um projeto que ampliou direitos e o próprio sentido da democracia de 1988 para cá”, avalia a parlamentar.

O prefácio da obra é assinado pelo diretor do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que reforça o papel da publicação na disputa pela memória histórica. Okamotto aponta que o afastamento ocorreu sem sustentação jurídica e que a narrativa distorcida prevaleceu sobre a realidade factual: “Há acontecimentos que as classes dominantes insistem em nomear de forma enganosa. O que ocorreu no Brasil em 2016 foi chamado de impeachment, de rito constitucional, de resposta às ruas. Mas quem viveu aqueles dias de perto – quem esteve nos corredores do Palácio do Planalto, quem ouviu o choro contido de trabalhadores e trabalhadoras que, pela primeira vez na vida, haviam se sentido representados por um governo – sabe, no fundo da alma, que aquilo foi um golpe. Este livro existe para que essa verdade não seja engolida pelo tempo”.

Em sua reflexão no prefácio, Okamotto acrescenta ainda: “Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. E isso não era um detalhe técnico: era o centro da questão. Mas, quando a mentira circula mais rápido que a verdade, quando os algoritmos amplificam o ódio e silenciam a razão, os fatos passam a importar menos do que a narrativa. O espetáculo se impõe ao direito. A encenação prevalece sobre a prova”.

Com um total de 432 páginas, o livro reproduz também o discurso proferido por Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, no plenário do Senado Federal, durante a sessão que consumou a aprovação do impeachment.

A obra “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências” está disponível para download gratuito no site da Fundação Perseu Abramo, e a versão impressa pode ser adquirida através da loja virtual da Editora Hucitec.

EM TEMPO: Convém lembrar que a ex-presidente Dilma foi reconduzida ao cargo de Presidente do Banco do BRICS + com apoio da China e da Rússia. Lembrando que Putin cedeu a vaga que caberia a Rússia. O ódio da maioria dos  políticos, incluindo do PSB de João Campos, é que, naquela época,  não mandavam na presidente Dilma. Outrossim, aqui em Pernambuco, boa parte dos políticos odeiam a governadora Raquel, porque eles não mandam nela. Ok, Moçada!

domingo, 30 de agosto de 2026

“Trump percebeu que Lula pode vencer”, diz Leonardo Trevisan

 Na visão de Leonardo Trevisan, a conduta do Itamaraty foi determinante para equilibrar o tabuleiro

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247 – O longo telefonema de cerca de uma hora e meia entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reflete uma mudança significativa na postura da Casa Branca em relação ao Brasil. Em entrevista concedida ao jornalista Florestan Fernandes Jr. na TV 247, o professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan avaliou que a disposição de Washington para o diálogo direto e desprovido de arroubos retóricos decorre tanto da pressão de grandes corporações norte-americanas quanto do pragmatismo eleitoral de Trump, que reconhece a força política e a competitividade de Lula no cenário nacional.

Para Trevisan, o gesto de Trump foi calibrado pelo peso de cerca de 6 mil empresas norte-americanas de médio e grande porte que possuem cadeias produtivas consolidadas no mercado brasileiro. A reação imediata de gigantes globais — como Coca-Cola, Tesla e eBay — contra as tarifas impostas pelo governo norte-americano demonstrou que o setor produtivo dos EUA não deseja ver seus interesses sacrificados por movimentações meramente ideológicas.

A disputa geopolítica e o avanço da China

De acordo com o analista, outro fator decisivo para a abertura das conversas em alto nível é o avanço estratégico dos investimentos chineses no Brasil, especialmente em setores de ponta como energia limpa, mobilidade elétrica e minerais críticos, incluindo terras raras.

“A diplomacia empresarial fez de alguma forma Trump perceber que havia uma disputa de espaço no futuro imediato do Brasil. Se os Estados Unidos deixassem para negociar tardiamente, encontrariam esse espaço ocupado por competidores que falam mandarim”, destacou o professor durante o programa.

Trevisan ressaltou o papel de interlocutores pragmáticos, como Richard Grenell — que anteriormente manteve reuniões com o vice-presidente Geraldo Alckmin —, em contraponto à ala mais beligerante e ideológica associada ao senador Marco Rubio. Segundo o especialista, o isolamento da ala radical representa uma derrota política interna para os setores que tentavam subordinar a política externa à agenda do bolsonarismo.

Firmeza diplomática do Itamaraty

Na visão de Leonardo Trevisan, a conduta do Itamaraty foi determinante para equilibrar o tabuleiro. Ao sinalizar prontidão para responder com medidas de retaliação e manter a firmeza institucional sem provocações, a diplomacia brasileira forçou o governo norte-americano a sentar à mesa em condições de respeito mútuo e soberania.

Durante a conversa com Florestan Fernandes Jr., o professor pontuou que os argumentos que motivaram o “tarifaço” careciam de fundamentação fática e que a clareza da resposta do governo brasileiro desarmou a narrativa de tutela externa. O episódio consolida uma vitória diplomática e política expressiva para o Palácio do Planalto, demonstrando capacidade de negociação e preservação da autonomia nacional no cenário global.

A íntegra da análise e os bastidores das negociações bilaterais podem ser assistidos no corte da entrevista com o Professor Leonardo Trevisan na TV 247.

https://www.youtube.com/watch?v=XQaOO1reJVk&t=9s