sexta-feira, 22 de maio de 2026

Gisele Agnelli vê Flávio Bolsonaro ‘com muitos problemas’, mas faz alerta sobre a ‘direita transnacional’

Em entrevista à TV 247, a cientista política e socióloga confirmou a existência de núcleos de apoio ao bolsonarismo nos EUA



Gisele Agnelli, Flávio Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Reprodução (TV247) I Jefferson Rudy/Agência Senado I Patrick B. Ruddy/Casa Branca)




Redação Brasil 247

247 - A cientista política e socióloga Gisele Agnelli afirmou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, que o bolsonarismo mantém uma “grande estrutura de ajuda” nos Estados Unidos, país onde a estudiosa reside e presidido atualmente por Donald Trump, representante da extrema direita estadunidense. A analista comentou a negociação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para visitar os EUA. 

Em análise na TV 247, Gisele pontuou que os novos escândalos do Banco Master deixam o parlamentar da extrema direita brasileira “com muitos problemas na campanha”, mas, de acordo com a analista, lideranças do campo progressista precisam estar atentos para a atuação de uma “direita transnacional”. H

“Depois que Bolsonaro tentou o golpe, houve uma migração muito forte do bolsonarismo para a Flórida”, afirmou Gisele, em referência à trama golpista iniciada no governo bolsonarista. O caso resultou em 29 condenações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal. Jair Bolsonaro recebeu a pena mais alta, de 27 anos de prisão.

Autora da obra 'Autocracia Made in USA', a pesquisadora também abordou as relações externas de Flávio Bolsonaro. Conforme a estudiosa, o político da extrema direita “tem acesso muito grande ao Marco Rúbio”, citado no relato como secretário de Defesa dos EUA.

Novos escândalos

Os recentes desdobramentos envolvendo o Banco Master alcançam o senador Flávio Bolsonaro. Segundo reportagem publicada pelo The Intercept Brasil no último dia 13, o parlamentar da extrema direita brasileira tratou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro de um financiamento de R$ 134 milhões para viabilizar a produção do filme Dark Horse, biografia cinematográfica de Jair Bolsonaro (PL). De acordo com a publicação, R$ 61 milhões desse montante foram efetivamente repassados.

Vorcaro, dono do Banco Master, está na mira da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. Investigadores apontam que o esquema de fraudes financeiras movimentou ao menos R$ 12 bilhões.

Um balanço divulgado pela Agência Brasil na última segunda-feira (18) informou que a PF bloqueou R$ 27 bilhões em bens e valores no caso Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero. A investigação já resultou em mais de 20 prisões temporárias e no cumprimento de 116 mandados de busca e apreensão.

Fases da investigação

A etapa inicial da Compliance Zero ocorreu em 18 de novembro e levou sete pessoas à prisão temporária, incluindo Daniel Vorcaro. À época, o Banco de Brasília (BRB), instituição vinculada ao governo do Distrito Federal, negociava a aquisição do Banco Master. O Banco Central barrou a operação antes da ação da PF. Mesmo sem concluir a compra, o BRB adquiriu parte dos títulos do Master que, segundo a investigação, seriam fraudados.

A apuração também atingiu a alta direção do banco público. O episódio resultou no afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que está preso e negocia uma delação premiada. Daniel Vorcaro também busca um acordo com a Justiça para relatar os crimes atribuídos a ele em troca de possível redução de pena.

As fases posteriores da Operação Compliance Zero ocorreram em janeiro, março, abril e maio. Nesse período, a Polícia Federal aprofundou o mapeamento das ligações de Daniel Vorcaro e do Banco Master, com atenção a operadores, intermediários e estruturas empresariais que podem ter atuado na movimentação de recursos.

Com o avanço das investigações, o Banco Central oficializou a liquidação judicial do conglomerado do Banco Master. A medida também alcançou Letsbank, Will Bank e Banco Pleno.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Como Messias pode ter salvado a reeleição de Lula

 

Messias pode ter feito ao governo Lula o favor que nenhum aliado conseguiu fazer em quase dois anos: forçá-lo a olhar

 Por Fernando Horta (Historiador)


 

Jorge Messias e Presidente Lula (Foto: Ton Molina/Agência SenadoFabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, ocorrida na semana passada, foi recebida pela imprensa e por boa parte do campo governista como uma derrota política inequívoca. E, em sentido estrito, foi. Mas é preciso distinguir entre derrotas que sangram e derrotas que ensinam — entre o golpe que enfraquece o adversário e o golpe que, dado cedo demais no relógio eleitoral, oferece ao adversário aquilo de que ele mais precisava: tempo, informação e a quebra de uma série de ilusões que o paralisavam. O episódio Messias é, possivelmente, deste segundo tipo. E é justamente por isso que vale a pena ler o ocorrido não como o início do fim do terceiro mandato Lula, mas como o ponto de inflexão a partir do qual a reeleição de 2026 voltou a ser uma possibilidade material — e não apenas um desejo do campo democrático.

As quatro hipóteses sobre o fracasso

Há, em circulação, quatro linhas explicativas para o que aconteceu, e nenhuma delas é, isoladamente, suficiente. A primeira aponta para uma aliança tácita — chamemos de "demoníaca", já que opera nas sombras — entre setores do próprio STF e a direita e extrema-direita, cujo objetivo não declarado é a contenção das investigações em torno do escândalo do Banco Master. Aceitar Messias seria perder uma camada de blindagem dentro do tribunal num momento em que essa blindagem é, para alguns ministros e para uma parcela significativa do Congresso, uma questão de sobrevivência reputacional e até patrimonial.

A segunda linha é internamente judicial. Messias, ao longo do processo, alinhou-se de modo perceptível à ala evangélica do STF e fez sinalizações públicas favoráveis a um conjunto de normas internas de regência do tribunal — propostas que parte considerável do corpo de ministros leu como ameaça ao corporativismo da Corte. Em termos diretos: o STF aceita pacificamente quase qualquer perfil ideológico, mas resiste com unhas e dentes a qualquer indicado que possa, uma vez dentro, mexer nas prerrogativas do clube. Messias foi enquadrado nessa segunda categoria.

A terceira hipótese diz respeito aos erros do próprio indicado. Messias parece ter calculado que o "apoio evangélico" — que é uma carta retórica importante no discurso da direita — funcionaria também como moeda de troca real no Senado. Privilegiou contatos eclesiais em detrimento da articulação política tradicional, deixando ministros do Supremo e senadores sem o telefonema, sem o café, sem aquela conversa de duas horas no gabinete que, no Brasil, ainda decide tudo o que importa. Foi, em alguma medida, vítima do próprio mito que a direita constrói sobre si mesma

— o de que o evangelismo é uma das balizas decisórias do bloco — e descobriu, tarde, que essa baliza opera apenas quando convém ao bloco.

A quarta linha responsabiliza o próprio governo pela "falta de empenho" na indicação. Esta é, das quatro, a única que tem um componente de cálculo político posterior: ao incorporá-la, o Palácio do Planalto se reapresenta como agente minimamente competente, capaz de admitir limites operacionais e corrigir rota. As três primeiras hipóteses não se excluem entre si — coexistem e respondem, juntas, por boa parte do fracasso. A quarta é, antes, um dispositivo de recuperação narrativa do que uma explicação plenamente autônoma.

Por qualquer ângulo que se olhe, no entanto, três questões emergem como denominadores comuns. E é nelas que está o aprendizado.

Os três sintomas estruturais

terça-feira, 19 de maio de 2026

Cessar-fogo no Irã não passa de um embuste

 



 







José Goulão – Abril Abril

Como seria de esperar, o cessar-fogo na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não passa de uma miragem. Apesar do ruído provocado por supostas cedências do Irã aos inimigos agressores e por enxurradas de declarações e as suas contrárias produzidas pelo transtornado Donald Trump, desmontar esta confusão levantada para consumo midiático é, afinal, muito simples. Washington está tentando se recompor do fracasso de todos os objetivos políticos e militares da guerra, de modo a poder voltar a atacar; ou então busca uma saída airosa que, em termos de propaganda, possa transformar a derrota em vitória. Como, por exemplo, as tropas imperiais atlantistas fizeram no Afeganistão.

A mais recente decisão do presidente dos EUA (a prorrogação unilateral do cessar-fogo) não introduz qualquer alteração no status quo. É, afinal, uma declaração de derrota, disfarçada através de um gesto de suposta boa vontade que traz a contradição dentro dele. Para haver um autêntico cessar-fogo é necessário que os Estados Unidos abandonem a estratégia de bloqueio contra os portos iranianos, que o Irã considera um ato de guerra e desrespeita a cessação de hostilidades declarada há cerca de 20 dias. Mais uma canhestra jogada de propaganda na medida da imbecilidade do seu autor, uma vez que a intenção de manter as tentativas de bloqueio persiste. Não deixemos, porém, de interpretar o gesto unilateral como uma manifestação estadunidense de pouca vontade para combater, como quem busca uma maneira de declarar vitória no meio do imbróglio a que aderiu por pressão sionista.

Por muitas estratégias vencedoras que o presidente dos Estados Unidos deseje exibir-nos, multiplicando-se em mentiras e contradições, no fim tudo se resume a uma única linha de conduta: Trump dança a música que Netanyahu toca.

No que diz respeito a esta nova fase da guerra contra o Irã, isso acontece, pelo menos, desde a primeira quinzena de fevereiro último. No dia 11 desse mês, o chefe do regime sionista fez uma extensa apresentação na Sala da Situação na Casa Branca – onde raramente têm assento estadistas estrangeiros – perante Trump e um núcleo restrito dos seus assessores.

Os pressupostos para uma bem-sucedida agressão contra o Irã apresentados por Benjamin Netanyahu, com toda a convicção, partiram dos princípios de que Teerã estaria maduro para uma mudança de regime; a vitória numa ação militar seria quase certa; o programa iraniano de mísseis balísticos poderia ser destruído em poucas semanas; o poder “dos aiatolás” estaria tão enfraquecido que seria incapaz de bloquear o Estreito de Ormuz; o aparelho militar iraniano não tinha capacidade para atacar os aliados dos Estados Unidos e de Israel no Golfo. Além disso, apoiado em pareceres seguros do Mossad, o chefe sionista garantiu que, logo aos primeiros bombardeios, as populações agredidas iriam sublevar-se contra o regime, promovendo tumultos e rebeliões; e que os curdos do Iraque não hesitariam em invadir território iraniano, dispensando os militares norte-americanos de «pôr os pés em terra», e assim acelerariam a queda do regime.

Netanyahu apresentou também uma lista dos dirigentes seculares que poderiam encabeçar um novo regime iraniano, nomeadamente Reza Pahlevi, o herdeiro do antigo Xá, residente nos Estados Unidos, que assim iria repor a monarquia fiel a Washington.

«Parece ótimo», declarou Trump aos presentes quando Netanyahu acabou a exposição. Pelo menos é o que revela o relato da reunião publicado pelo New York Times.

Nem todos os assessores emitiram pareceres tão otimistas. Por exemplo, o general Dan Caine, chefe das Forças Armadas, expressou reservas em relação ao plano, mas declarou, desde logo, que se submeteria à vontade presidencial. «Os israelenses precisam de nós, por isso sabem ser muito persuasivos», atreveu-se a dizer o general, mas o presidente estava surdo aos pareceres dos assessores. O vice-presidente Vance, que viajava pelo estrangeiro, expressou depois uma posição idêntica, como quem adverte «não digam que não vos avisei», mas também não foi escutado.

De acordo com dados publicados pela mais destacada comunicação social do governo Trump, ainda não confirmados por via oficial, as reservas do general Caine acabaram por ser parcialmente úteis em fase posterior, ao dissuadir o presidente de usar uma bomba nuclear contra o Irã. A par do principal chefe militar, todos os outros assessores presidenciais diretos, com exceção do psicopata Peter Hegseth, ministro da Guerra, manifestaram idêntica opinião em relação à intenção presidencial, qualificando-a como uma tragédia suicida sem retorno e, potencialmente, de âmbito global. Trump não premiu o botão, mas nada nos garante, na convulsão dos seus distúrbios mentais, que a ideia tenha sido posta de lado.

No dia seguinte ao da reunião na Sala da Situação, em 12 de fevereiro, oficiais estadunidenses de inteligência “especialistas em Irã” apresentaram a Trump um relatório simples, na esperança de que este compreendesse o essencial. O documento dividia-se em quatro cenários de análise quanto aos possíveis resultados de uma eventual operação militar baseada nos pressupostos de Netanyahu: “Decapitação” do regime com o assassinato do chefe religioso Ali Khamenei; a fraqueza do Irã para conseguir atacar países árabes do Golfo; as eventuais revoltas populares contra o aparelho de poder que explodiriam logo aos primeiros bombardeios; e a mudança de regime para um outro de características seculares.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Dark Horse é a ponta do iceberg: filme sobre Bolsonaro entra no radar de investigações sobre emendas, lavagem e até feminicídio

Inquéritos conectam produtora de Karina Gama a repasses de emendas, ao escândalo do Wi-Fi Livre em SP e ao empresário Alex Bispo, preso por morte da companheira

18 de maio de 2026

Por Joaquim de Carvalho (Jornalista)



Ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no longa "Dark Horse", e Karina Ferreira da Gama, produtora do filme (Foto: Reprodução )

O filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro vendida como uma produção internacional financiada por capital privado estrangeiro, passou a ocupar o centro de uma teia de investigações que envolve suspeitas de desvio de emendas parlamentares, contratos públicos milionários, fintech, sorteios regionais, lavagem de dinheiro e até um caso de feminicídio.

No epicentro desse enredo aparece Karina Ferreira da Gama Bernassi, executiva da produtora Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de redes de Wi-Fi gratuito.

Segundo o dossiê elaborado por fontes policiais, Karina teria construído um ecossistema empresarial baseado em ONGs, produtoras audiovisuais, uma fintech e empresas de “filantropia premiável”, criando uma estrutura capaz de captar dinheiro público, pulverizar recursos e remeter valores ao exterior por meio de contratos culturais.

O caso ultrapassou a esfera municipal e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo o dossiê, no que diz respeito ao Congresso Nacional, o gabinete do ministro Flávio Dino abriu diligências para apurar a destinação de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, ambas ligadas a Karina Gama.

Os nomes citados na investigação incluem os deputados federais Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. O objetivo seria verificar se verbas enviadas às ONGs acabaram beneficiando direta ou indiretamente a estrutura da Go Up Entertainment e a produção de Dark Horse.

O dossiê afirma ainda que Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil e também aparece como produtor executivo do filme. Já Eduardo Bolsonaro é apontado como produtor executivo com influência direta sobre decisões financeiras da produção.

A suspeita central é de que parte das emendas teria sido triangulada através das ONGs para financiar despesas estruturais e operacionais do longa-metragem. A produção sustenta, oficialmente, que o projeto não utilizou recursos da Lei Rouanet nem dinheiro público direto, o que, à luz das revelações recentes, soa com piada.

Paralelamente, o Departamento Estadual de Investigações Criminais, da Polícia Civil de São Paulo, apura o contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura paulistana e o Instituto Conhecer Brasil para expansão do programa Wi-Fi Livre SP. A investigação aponta suspeitas de direcionamento do edital, superfaturamento e pagamento por serviços inexistentes.

Segundo auditorias citadas no dossiê, menos de 3.200 pontos de internet teriam sido efetivamente entregues, apesar do contrato prever cerca de 20 mil instalações. Há ainda relatos de pagamentos integrais por manutenção de redes que sequer funcionavam.

O ponto mais delicado envolve a empresa Favela Conectada, ligada ao empresário Alex Leandro Bispo dos Santos. A companhia recebeu R$ 12 milhões do Instituto Conhecer Brasil para operacionalizar parte do projeto.

O nome de Alex Bispo ganhou notoriedade nacional após sua prisão sob suspeita de espancar a companheira, a influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva, e jogá-la do 10º andar de um prédio em São Paulo. 

A empresa dele havia recebido os R$ 12 milhões ligados ao programa de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo, como previa o contrato com uma das ONGs de Karina, que a influenciadora Maria Katiane (a vítima do feminicídio) assinou como testemunha.

A empresa Favela Conectada teria sido subcontratada para instalar 2 mil pontos de internet, embora o serviço efetivamente entregue tenha sido muito inferior ao previsto. 

A pergunta que não pode ser calada: Alex devolveu dinheiro para Karina? Se devolveu, esse dinheiro entrou no esquema de lavagem de dinheiro que a Polícia Civil de São Paulo teria detectado?

A pergunta é necessária porque a morte de Katiane acabou atraindo atenção da Polícia Civil para os extratos bancários e contratos ligados ao núcleo operacional de Karina Gama, abrindo uma nova frente investigativa sobre lavagem de dinheiro e movimentações financeiras suspeitas.

Outro eixo da investigação envolve a Cactvs Instituição de Pagamento S.A., descrita no documento como uma espécie de “cofre regulado” do grupo. A fintech seria responsável por processar pagamentos relacionados tanto ao Wi-Fi Livre quanto a operações de títulos de capitalização e sorteios regionais.

O dossiê -- a que a influenciadora Aline Dutra, conhecida como Esquerdogata, teve acesso -- cita operações como “Tapajós de Prêmios”, sistema de filantropia premiável que movimentaria milhões em microtransações pulverizadas no Norte e Nordeste. 

Apurações realizadas por mim confirmam a veracidade das informações contidas no dossiê. Esse modelo permitiria criar grande volume de entradas financeiras difíceis de rastrear individualmente.

As investigações sustentam a hipótese de que a combinação entre ONGs, fintech e sorteios regionais teria criado um circuito fechado de circulação financeira: o dinheiro público entra nas ONGs, mistura-se ao caixa dos sorteios, é processado internamente pela fintech e reaparece como investimento cultural na produtora cinematográfica.

O dossiê aponta ainda o empresário Michael Brian Davis como operador internacional do esquema. Naturalizado norte-americano, ele aparece como sócio da Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos e responsável pela estrutura financeira internacional da produtora.

Segundo a análise, contratos de coprodução audiovisual permitiriam remessas ao exterior sob justificativa de investimentos culturais, dificultando o rastreamento das autoridades brasileiras. O documento também menciona supostas conexões financeiras com Daniel Vorcaro, apontado como possível financiador da operação.

O que emerge do conjunto de informações é que Dark Horse pode ser apenas a face mais visível de uma estrutura muito maior, que conecta política, dinheiro público, produção cultural, operações financeiras e influência internacional.

Embora boa parte das acusações ainda esteja sob investigação e não existam condenações, o caso já reúne elementos suficientes para provocar reações no STF, no Ministério Público, na Polícia Civil e em órgãos de controle financeiro. 

E quanto mais as investigações avançam, mais o filme sobre Bolsonaro deixa de parecer cinema, e assume contornos de thriller político-policial em plena vida real, um escândalo que revela o submundo corrupto e violento da extrema direita. 

sábado, 16 de maio de 2026

Relação da Casa dos Ventos com a TotalEnergies ajuda a explicar ofensiva contra leilão de energia estratégico para o País

Governo Lula considera o certame essencial para garantir a expansão segura da oferta de energia no País, mas vem sendo alvo de um poderoso lobby privado

16 de maio de 2026

Relação da Casa dos Ventos com a TotalEnergies ajuda a explicar ofensiva contra leilão de energia estratégico para o País (Foto: Brasil 247)

Redação Brasil 247

247 – A ofensiva privada contra o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026, liderada pelo bilionário cearense Mário Araripe, ganhou dimensão estratégica dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Integrantes do setor elétrico avaliam que a disputa envolve não apenas divergências sobre a matriz energética brasileira, mas também interesses bilionários ligados ao curtailment — o corte compulsório da geração renovável — e à relação entre a Casa dos Ventos, de Araripe, e a gigante francesa TotalEnergies.

Para o governo federal, a manutenção do leilão é considerada fundamental para garantir a expansão segura da oferta de energia no Brasil e evitar riscos futuros de apagões no Sistema Interligado Nacional (SIN). O Ministério de Minas e Energia e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sustentam que o País precisa ampliar rapidamente a contratação de potência firme e despachável para assegurar estabilidade ao sistema elétrico nos próximos anos.

A avaliação técnica é de que a forte expansão de fontes intermitentes — como solar e eólica — elevou os desafios operacionais do sistema. Em determinados momentos do dia, principalmente no início da noite, a geração solar desaparece abruptamente e a produção eólica também pode sofrer oscilações. Sem fontes capazes de entrar rapidamente em operação para suprir a demanda, cresce o risco de desequilíbrios no abastecimento.

Por isso, o governo considera o LRCAP peça central da estratégia energética nacional. A contratação de usinas térmicas e outras fontes firmes é vista como necessária para garantir segurança energética durante a transição para uma matriz cada vez mais renovável. 

O que é curtailment

O debate ocorre justamente no momento em que o setor renovável enfrenta os efeitos crescentes do chamado curtailment. O mecanismo ocorre quando o ONS determina cortes obrigatórios na geração de energia eólica e solar devido ao excesso de oferta ou limitações na capacidade de transmissão.

Na prática, usinas renováveis deixam de produzir energia mesmo havendo vento e sol disponíveis. O fenômeno se intensificou nos últimos anos com a rápida expansão da geração renovável, especialmente no Nordeste, onde há momentos em que o sistema não consegue absorver toda a energia produzida.

Os cortes passaram a afetar diretamente a rentabilidade de empresas do setor, reduzindo receitas e pressionando investidores. 

Casa dos Ventos e TotalEnergies no centro da disputa

É nesse contexto que cresce a pressão de grupos ligados às renováveis pela expansão do armazenamento por baterias, considerado uma solução para armazenar energia excedente e reduzir os impactos do curtailment.

Segundo fontes do setor elétrico, a relação entre a Casa dos Ventos e a TotalEnergies ajuda a explicar parte da ofensiva contra o LRCAP 2026. Em 2022, a companhia francesa adquiriu participação em ativos da empresa de Mário Araripe em uma operação de US$ 550 milhões, correspondente a 34% da companhia, com cláusulas de earn-out vinculadas ao desempenho futuro dos projetos.

O modelo prevê que parte do valor final da operação dependa da evolução e da rentabilidade dos ativos renováveis. Pelo acordo, a TotalEnergies também poderá ampliar sua participação na empresa ao longo dos anos.

Com o avanço do curtailment, porém, fontes do setor afirmam que os resultados financeiros dos ativos adquiridos passaram a sofrer forte pressão. A avaliação nos bastidores é de que reduzir os prejuízos causados pelos cortes de geração tornou-se prioridade estratégica para a companhia francesa e para a Casa dos Ventos. 

Lobby em favor do leilão de baterias

Executivos da própria TotalEnergies já declararam publicamente que baterias são consideradas essenciais para reduzir os efeitos do curtailment no Brasil. A empresa também confirmou interesse em disputar, ao lado da Casa dos Ventos, o futuro leilão de armazenamento previsto pelo Ministério de Minas e Energia para 2026.

Nesse ambiente, o deputado Danilo Forte (PP-CE), aliado histórico do setor eólico e defensor da expansão de baterias, passou a intensificar críticas ao LRCAP após o certame, atuando no lobby contrário a um projeto estratégico do Ministério de Minas e Energia.

Nos bastidores do setor elétrico, a atuação do parlamentar é vista como convergente com os interesses econômicos da Casa dos Ventos e de agentes ligados às renováveis. A percepção é de que há uma tentativa de enfraquecer ou atrasar a consolidação do leilão de capacidade para acelerar soluções mais favoráveis ao setor de baterias. 

Governo vê risco de insegurança energética

Apesar de defender o avanço das baterias e reconhecer seu papel no futuro da transição energética, o governo Lula sustenta que o Brasil ainda necessita ampliar rapidamente a oferta de potência firme para evitar vulnerabilidades no abastecimento.

A preocupação ganhou força diante do crescimento acelerado da demanda por energia, da eletrificação da economia e da dependência crescente de fontes intermitentes. Técnicos do setor avaliam que a ausência de contratação de capacidade adicional poderia elevar o risco de déficits de potência e até de apagões em horários críticos.

Por isso, a confirmação do LRCAP 2026 passou a ser tratada como prioridade estratégica pelo governo federal. A recente decisão da Justiça Federal que negou pedido de suspensão do leilão foi interpretada dentro do Planalto e do Ministério de Minas e Energia como uma vitória importante para a segurança energética brasileira e para a preservação da previsibilidade regulatória do setor elétrico. Esta vitória, no entanto, não impediu outros movimentos junto a órgão como o Tribunal de Contas da União, para tentar evitar a concretização do leilão.

A avaliação no governo é de que o Brasil precisa equilibrar a expansão das renováveis com a garantia de estabilidade operacional do sistema. Nesse cenário, o embate em torno do LRCAP extrapola o debate técnico e se transforma em uma disputa bilionária sobre o futuro da matriz energética nacional.

Planejamento de filme sobre Jair Bolsonaro previa cotas de US$ 1 milhão e chance de imigração para os EUA

Investigação apura se recursos do filme, que contou com dinheiro de fundos ligados a Daniel Vorcaro, financiaram despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA

15 de maio de 2026



 

Eduardo Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Flávio e Jair Bolsonaro (Foto: Jessica Koscielniak/Reuters I Reprodução I Divulgação )



Redação Brasil 247

247 - Um plano de investimentos ligado ao filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL), oferecia a investidores milionários a possibilidade de "oportunidade de imigração" para os Estados Unidos. Segundo o site The Intercept Brasil, a proposta fazia parte do pacote mais caro de investimento no longa-metragem, avaliado em US$ 1,1 milhão, equivalente a cerca de R$ 5,5 milhões na cotação atual.

A reportagem aponta que o projeto cinematográfico tem o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como produtores-executivos. O contrato da produção recebeu assinatura digital de Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024. 

Estratégia previa cotas milionárias

O plano de captação de recursos do filme foi estruturado em diferentes categorias de investimento. Segundo os documentos revelados, a produção previa a venda de 40 cotas de US$ 500 mil, totalizando US$ 20 milhões.

Além disso, também estavam previstas cinco cotas de US$ 1 milhão cada. Os investidores que adquirissem os pacotes mais elevados teriam direito a participação no conselho do filme, podendo opinar sobre decisões relacionadas à produção.

De acordo com a reportagem, a proposta prometia aos investidores o retorno integral do valor aplicado, acrescido de 20%. Após os pagamentos, o lucro remanescente seria dividido igualmente entre produtores e investidores. O material ainda apresentava projeções otimistas de arrecadação mundial para o longa, com cenários estimados em US$ 45 milhões, US$ 70 milhões e até US$ 100 milhões. 

Investigação mira destino dos recursos

Uma das principais linhas de investigação busca esclarecer se os recursos captados para o filme foram efetivamente destinados à produção cinematográfica. A Polícia Federal apura se as transferências financeiras teriam servido para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado licenciado vive no país desde fevereiro do ano passado e não retornou ao Brasil desde então. 

Contrato detalha papel de Eduardo Bolsonaro

Os documentos revelados pela reportagem apontam que Eduardo Bolsonaro e Mario Frias assumiram funções diretamente ligadas à captação de recursos para o projeto. O contrato estabelece que os produtores-executivos deveriam atuar no “envolvimento nas considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme e preparação de informações e documentação para investidores”.

O texto também menciona atividades relacionadas à busca de incentivos fiscais, patrocínios, colocação de produtos e outras formas de financiamento para a produção. 

Caso envolve banqueiro preso pela PF

A investigação também envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em Brasília sob acusação de liderar um esquema bilionário de fraudes financeiras, segundo a Polícia Federal. Vorcaro teria desembolsado cerca de R$ 61 milhões relacionados ao projeto cinematográfico. O The Intercept Brasil também divulgou um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro pressiona Vorcaro pelos pagamentos ligados ao filme.

EM TEMPO: Como dizia o ex-presidente do governo militar, general Ernesto Geisel: Bolsonaro é um mal militar. O Comandante e General do governo Geisel, Leônidas Pires, proibiu Bozo de visitar as dependências do Exército Brasileiro. Será que o filme iria narrar esse episódio? Será que iria dizer que Bozo queria explodir a Adutora do Rio Guandu no RJ?  Será que o filme iria dizer que Bozo fazia parte do Baixo Clero (Parlamentares despreparados) no Congresso Nacional? Será que o filme iria falar das ligações do Clã Bozo com as Milícias do RJ? Será que iria mencionar a tentativa de Golpe de 08.01.2023? Será que Trump iria classificar Bozo como "terrorista"? É realmente assustador como é que alguns militares de alta patente, graduados pela AMAN, alguns treinados nos EUA e poliglotas,  foram na onda de Bozo, sabendo eles que Bozo era um mal militar.? Ou será que os generais Geisel e Leônidas Pires, não deixaram nenhuma  lição? Ok, Moçada!

terça-feira, 12 de maio de 2026

“O SNI é suspeito de matar JK”, afirma o jornalista Ivo Patarra, que investiga o caso há 29 anos

 

"Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação Condor"

Por Alex Solnik (Jornalista)

12 de maio de 2026


 

Juscelino Kubitschek

De acordo com a investigação realizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério de Direitos Humanos, a morte do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira não foi acidental, como se supunha até então. Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação Condor, que foi criada nos Estados Unidos, pela CIA, para eliminar os principais opositores dos regimes ditatoriais no Brasil, no Chile, na Argentina e no Uruguai. O jornalista Ivo Patarra descobriu algo mais: os possíveis mandantes do atentado.

EU: O que aconteceu naquele dia com o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira?

IVO: Dia 22 de agosto de 1976. Era um domingo. O acidente, entre aspas...

EU: Não, peraí, peraí, era um domingo, era um domingo. Onde estava o Juscelino e para onde ele foi?

IVO: Ele estava hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo. E, por volta das 14:00, viajou ao Rio de Janeiro, de carro.

EU: Qual era o carro? Quem era o motorista?

IVO: Era o Opala dele, quer dizer, o Opala que ele deu para o Geraldo Ribeiro, que era o motorista dele há 36 anos, motorista executivo da mais alta confiança, e eles pegaram esse carro para ir ao Rio de Janeiro. No caminho, pararam em Resende, onde Juscelino tinha uma reunião.

EU: Quem o chamou para essa reunião?

IVO: Ele foi chamado para essa reunião por pessoas que se apresentaram como emissários do governo do general-presidente Ernesto Geisel. Juscelino, supondo que poderia ser candidato, digamos assim, nas eleições de 78, mesmo que fosse no Colégio Eleitoral, achava que tinha que fazer uma ponte com os setores militares, a gente estava num regime militar, ele não poderia encarar uma eleição sem o mínimo apoio militar. Então, ele foi para essa reunião, que se deu no Hotel Fazenda Villa-Forte, em Resende, logo após a divisa São Paulo-Rio. Era um hotel que ficava a 500 metros da pista São Paulo-Rio e lá ele ficou por 90 minutos, das 16h30 às 18h00.

EU: Quem era o dono do hotel?

IVO: O proprietário era o Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte (*), e o hotel ficou conhecido como “o Hotel do SNI”. O Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte foi um dos organizadores, um dos criadores do temível SNI, o Serviço Nacional de Informações, a Polícia Secreta do Regime Militar, que foi criado em 1964. O primeiro chefe do SNI foi o general Golbery do Couto e Silva. É importante dizer isso porque, em 1976, esse mesmo Golbery era o braço direito do general presidente Ernesto Geisel como ministro-chefe da Casa Civil. E lembrando que, em 1955, o mesmo Golbery foi preso numa rebelião militar que tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Então, já tinha um problema entre os dois.

EU: Quem estava nessa reunião no Hotel Fazenda Villa-Forte?

IVO: Não se sabe. Não se sabe quem estava nessa reunião.

EU: Enquanto Juscelino ficou lá dentro... onde ficaram o carro e o motorista?

IVO: Havia um estacionamento no local. E o motorista, como todo motorista executivo, não só de presidente da República, de governador, prefeito, deputado, senador, vereador, o motorista executivo fica sempre do lado do carro porque a autoridade chega e vai embora e está sempre com pressa e, além de tudo, ele guarda o carro estando ao lado do veículo sem que ninguém chegue perto. E aí você tem já uma contradição enorme na saída do JK desse hotel, onde ele ficou noventa minutos, não se sabe o que aconteceu lá dentro, eu entendo que ele pode ter sido humilhado ali, e quando o Geraldo Ribeiro, o motorista dele, engata a marcha ré, para tirar o carro do estacionamento - e quem contou à Comissão da Verdade foi o jornalista Carlos Heitor Cony - perguntou ao encarregado do estacionamento se alguém havia mexido no carro.

EU: Mas espera aí, o Geraldo não ficou o tempo todo ao lado do carro?

IVO: O Geraldo foi provavelmente atraído para dentro do hotel. para tomar um café, será que ele foi drogado?, será que ele foi envenenado?... o fato é que ao perguntar isso para o guardador, e pela resposta que o guardador dá, ele também não estava lá, porque ele não é um cara assertivo e categórico, claro que não mexeram no carro, estava aqui tomando conta, não, ele simplesmente disse, “não, eu não vi nada”.

EU: O Cony contou se o Geraldo em algum momento saiu de perto do carro?

IVO: Não. O Cony só contou que esteve lá e, conversando com o guardador de carros, o guardador relatou isso para ele, que quando o Geraldo Ribeiro engatou a ré no Opala, perguntou se alguém tinha mexido no carro.

EU: Cony conversou com mais alguém no hotel?

IVO: Até onde se sabe, só com o encarregado do estacionamento.

EU: Bom, se o estacionamento tinha um guardador e o motorista perguntou se alguém tinha mexido no carro, é óbvio que ele não ficou o tempo todo ao lado do carro, não é?

IVO: Sim, isso é o mais provável.

EU: Então pronto, agora... o Juscelino entra no carro, o Geraldo já estranhou alguma coisa no carro, e eles pegam a Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro. E o que acontece, então?

IVO: Eles vão andar só três quilômetros. E aí você tem o acidente. O que acontece? Na hora que o Opala entra na Dutra, pelo trevo, ali em Resende, onde está o hotel, está vindo pela esquerda de São Paulo um ônibus da Viação Cometa, e ele vem em alta velocidade, porque saiu com atraso de São Paulo, ele estava descontando o atraso. O motorista da Cometa, Josias Nunes de Oliveira, viu o Opala entrando na Dutra, mas ele vinha pela esquerda e passou e foi embora. Três quilômetros adiante, numa manobra arriscada, que um motorista com a competência do Geraldo Ribeiro, com a responsabilidade de estar levando o Juscelino Kubitschek dentro do carro, não faria em circunstâncias normais, ele ultrapassa o ônibus do Josias Nunes de Oliveira pela direita. Lembrando que o ônibus vinha razoavelmente rápido, porque ele estava atrasado. Numa situação normal, o carro do Juscelino esperaria atrás do ônibus, que iria passar dois caminhões que estavam logo à frente à direita, e normalmente o ônibus iria para a direita e o carro do Juscelino passaria o ônibus pela esquerda. Não. O carro do Juscelino faz uma manobra arriscada, temerária, de passar em alta velocidade o ônibus pela direita, lembrando que a Dutra ainda é assim, são duas pistas só, pista da esquerda e pista da direita. Então, ele comete esse ato grave, temerário, e logo…

EU: Sabe-se a quantos quilômetros por hora ele estava?

IVO: Eu imagino que o carro estivesse talvez a 120 por hora, o ônibus a 90, que é uma velocidade razoável, e passageiros que estavam dentro do ônibus repararam que o carro estava instável, meio descontrolado, não a ponto de estar desgovernado ainda. Mas, assim que ele ultrapassa o ônibus pela direita, faz uma inflexão radical para a esquerda e já passa quase que imediatamente para a outra pista da Dutra. Ele pula um canteiro central que tinha dez ou doze centímetros e cai na pista da contramão da Dutra. De repente.

EU: Quem contou isso? O motorista do ônibus?

IVO: Sim, isso está, inclusive, nas perícias feitas na época.

EU: O motorista depôs na Comissão da Verdade?

IVO: Sim, localizamos o Josias em Campinas. Mas deixa eu te explicar. O carro vai para a outra pista da Dutra, a pista Rio - São Paulo. Agora, vamos tentar congelar essa cena. Você tem um Opala, uma situação gravíssima, quer dizer, ele atravessa o canteiro central e entra na contramão na Dutra. Vamos congelar ali, para a gente tentar entender. Se fosse uma situação normal, pela velocidade que ele estava, em meio segundo ele atravessaria a faixa da esquerda, a faixa da direita e o acostamento da Dutra, e estaria do outro lado da pista, onde até hoje é assim, e você tem um campo de gramíneas no mesmo nível, ou seja, não teria acontecido nada se ele depois de atravessar o canteiro central tivesse atravessado a Dutra, mas ele não faz isso, o carro desgovernado começa a andar para a direita na contramão e ele começa a andar exatamente contra os carros ou veículos que viriam na pista Rio - São Paulo! Uma loucura! Não há nas perícias sinal de marca de pneu brecando. Então, o carro simplesmente começa a andar na contramão e vai andar nessa contramão por quatro, talvez cinco segundos, até se chocar contra uma carreta carregada com 30 toneladas de gesso. Um detalhe. Depois da Comissão da Verdade, o motorista que estava numa outra carreta, exatamente atrás da carreta contra a qual o carro do Juscelino bateu, relata ter visto Geraldo Ribeiro, o motorista do Juscelino Kubitschek, com a cabeça tombada entre o volante e a porta. Ou seja, se isso realmente aconteceu, ele já não estava consciente, talvez ele já não estivesse nem vivo, se isso for verdade.

EU: Então, com esse choque, com essa colisão, os dois morreram na hora, o motorista e o Juscelino?

IVO: Morreram, tiveram mortes ali praticamente na hora.

EU: O Juscelino estava no banco da frente?