Edmilson Costa*
Ao contrário do que muitos imaginam, nem sempre um grande superávit comercial é apropriado internamente pelo Brasil. Muito embora o país tenha registrado um elevado saldo na balança comercial em 2025, grande parte desse saldo pode não permanecer no circuito econômico nacional porque muitas das empresas públicas brasileiras foram privatizadas nas últimas décadas, além do fato de que a política neoliberal implantada a partir dos anos 90 conduziu a um processo de desindustrialização nacional, fatores que deixaram o brasil dependente das estruturas comerciais, tecnológicas e financeiras do capital internacional. Um dado aparentemente paradoxal é o fato de que o Brasil alcançou um superávit comercial de cerca de U$ 60 bilhões, um resultado muito significativo. No entanto, se olharmos o conjunto das contas do setor externo brasileiro, veremos que esse resultado foi anulado por um déficit de magnitude maior na balança de transações correntes (US$ 68,8 bilhões), resultado que, na prática, deixa o Brasil como nação devedora no balanço das contas externas.
Neste artigo vamos abordar a mecânica desse fenômeno, que é um dos mais dramáticos e menos conhecidos da economia brasileira, tanto em função das especificações técnicas do problema, o que dificulta a compreensão por parte do público em geral, mas principalmente porque é politicamente inconveniente para as autoridades governamentais tratar publicamente esse problema, pois a balança de transações correntes ou conta do setor externo brasileiro constitui um dos núcleos centrais da subordinação da economia brasileira ao capital estrangeiro. Essa conta registra todas as transações entre o Brasil e o resto do mundo ou, mais tecnicamente, é o principal agregado do setor externo que contabiliza, em determinado período (mês, trimestre, ano), as transações entre residentes do País e não residentes e envolve os fluxos de bens e serviços, rendas e transferências correntes. Em termos políticos, a balança de transações correntes mede a inserção do País na divisão internacional do trabalho e o grau de dependência ou autonomia em relação ao capital internacional. Quando o País obtém superavit nas transações correntes significa que é credor líquido em relação às outras nações; quando é deficitário, necessita de financiamento para cobrir o déficit.
Como fui professor de disciplina de Contabilidade Nacional vou procurar explicar de forma didática cada uma das principais variáveis dessas transações e, num segundo momento, tirar conclusões sobre as implicações políticas e econômicas que cada uma das variáveis dessa conta implica na economia do País, nas relações com o exterior e na vida cotidiana das pessoas, de forma a que todos possam entender os gargalos estruturais da economia brasileira. A balança de transações correntes é um bom posto de observação para avaliarmos as relações do País com o resto do mundo. Então vejamos: a estrutura geral da balança de transações correntes é composta de quatro grandes contas: balança comercial; balança de serviços; renda primária e transferências correntes ou renda secundária. Essas quatro variáveis medem a posição do País nas suas relações com o exterior, ou seja, aferem se o País é credor ou devedor em relação ao resto do mundo. Consequentemente, definem a capacidade ou necessidade de financiamento externo da economia e, principalmente, revelam o grau de subordinação estrutural da economia brasileira em relação ao capital financeiro internacional.
Observemos agora cada
uma das contas da balança de transações correntes e seus aspectos econômicos e
políticos. Primeiro, a balança comercial, que é a conta mais conhecida:
registra as exportações e importações do País. Ao longo de 2025 o Brasil
exportou US$ 350.899 bilhões e importou US$ 290.947 bilhões, o que resultou num
saldo de US$ 59.952 bilhões, fato que significa um montante muito expressivo,
embora a maioria desse saldo seja resultado da venda de produtos primários e
bens manufaturados de segunda ordem. Outro dado positivo nas transações
correntes foi alcançado na Renda Secundária ou Transferências correntes, que
envolvem as remessas de imigrantes para famílias no Brasil, transferências de
estrangeiros para o exterior e transferências governamentais, como doações
internacionais, contribuições com organismos multilaterais e ajuda humanitária.
O resultado dessas duas variáveis das transações correntes foi um saldo
positivo de US$ 5.543 bilhões. Ou seja, somando-se os dois saldos encontraremos
um superavit de US$ 65.495 bilhões. Como veremos mais adiante, esse resultado,
largamente positivo, foi inteiramente drenado pelo déficit nas demais contas.









