segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Pepe Escobar vê eleição brasileira como batalha decisiva pela soberania nacional em meio à disputa entre potências

Jornalista relaciona o segundo turno à rivalidade entre Estados Unidos e China, ao controle dos recursos estratégicos brasileiros e à transformação da comunicação política pelas redes sociais

Conteúdo postado por: Redação Brasil 247


Pepe Escobar. Crédito: Brasil247

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para 25 de outubro, representa um momento decisivo para a soberania nacional e para a posição do Brasil na nova ordem mundial. Em uma edição de seu programa Pepe Café, Escobar comparou a disputa política brasileira à Batalha de Stalingrado, episódio da Segunda Guerra Mundial que simbolizou a resistência soviética diante da ofensiva nazista.

 “O Brasil está vivendo o momento de sua Batalha de Stalingrado. É o momento de resistir até o fim, e a maré vai virar. É literalmente uma Batalha de Stalingrado política e cultural”, afirmou o jornalista, em tradução do inglês.

Na avaliação de Escobar, o resultado da eleição brasileira terá repercussões que ultrapassam a política interna, envolvendo o futuro das relações do país com os Estados Unidos, a China, a Rússia e os demais integrantes do Sul Global.

Brasil ocupa posição estratégica na disputa geopolítica

Escobar argumenta que o Brasil reúne características que o tornam especialmente relevante para as grandes potências: vastas reservas minerais, abundância de água, capacidade de produção de alimentos, recursos energéticos e uma posição geográfica favorável no Atlântico Sul.

Segundo o analista, essas condições conferem ao país um potencial singular de desenvolvimento econômico e de protagonismo internacional.

Ele destaca que o Brasil dispõe de rotas marítimas de exportação menos dependentes de pontos de estrangulamento estratégicos, como os estreitos de Ormuz e Malaca.

Na interpretação de Escobar, a combinação desses fatores explica o interesse crescente das grandes potências na orientação política e econômica brasileira.

O jornalista relaciona esse interesse à estratégia dos Estados Unidos de preservar sua influência sobre a América Latina em um contexto de crescente competição internacional.

Escobar associa política de Trump à disputa pelo Hemisfério Ocidental

Na análise apresentada no Pepe Café, Escobar sustenta que o governo de Donald Trump busca reafirmar o domínio norte-americano sobre o Hemisfério Ocidental, especialmente diante do fortalecimento econômico e tecnológico da China.

O jornalista interpreta essa orientação como uma atualização da Doutrina Monroe, formulada no século XIX, que historicamente esteve associada à influência dos Estados Unidos sobre as Américas.

Escobar considera que o Brasil ocupa uma posição central nessa disputa devido à dimensão de sua economia e à importância de seus recursos naturais.

Para ilustrar a resistência brasileira à condição de área de influência exclusiva de outra potência, o analista recupera a expressão associada ao economista Paulo Nogueira Batista Júnior: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Segundo Escobar, a questão central é saber qual será o grau de autonomia do país para decidir sobre seus recursos, suas relações comerciais e suas estratégias de desenvolvimento.

Analista critica comunicação política e influência das plataformas digitais

Outro eixo importante da análise é a transformação da disputa política pelas redes sociais.

Escobar argumenta que as plataformas digitais alteraram profundamente a formação da opinião pública e a maneira como candidatos e governos se comunicam com a sociedade.

Na sua avaliação, o debate político passou a ser cada vez mais condicionado por influenciadores, algoritmos e pela capacidade de produzir mensagens de grande circulação.

O jornalista considera que o campo político ligado ao presidente Lula enfrentou dificuldades para compreender plenamente essas mudanças durante o primeiro turno.

Escobar também analisa o uso das redes sociais pelo presidente Donald Trump, destacando como suas declarações frequentes passam a dominar o noticiário internacional.

Para o analista, essa dinâmica revela uma transformação estrutural da comunicação política, na qual a intensidade e a velocidade da circulação de mensagens frequentemente se sobrepõem ao debate aprofundado sobre políticas públicas.

Abstenção e participação dos jovens entram na análise

Escobar também dedicou parte de seu comentário à abstenção eleitoral registrada no primeiro turno brasileiro.

O jornalista afirmou que a ausência de dezenas de milhões de eleitores representa um fenômeno que precisa ser compreendido em suas diferentes dimensões, incluindo desinteresse político, dificuldades práticas de deslocamento e a circulação de mensagens nas redes sociais.

Ele levantou a hipótese de que determinados conteúdos digitais possam contribuir para o desestímulo à participação eleitoral, mas não apresentou evidências que permitam quantificar esse eventual efeito.

O analista também destacou a importância da participação dos jovens no debate público e observou que as novas gerações possuem maior familiaridade com as linguagens e ferramentas das plataformas digitais.

Na sua avaliação, os partidos e as organizações políticas tradicionais precisam compreender melhor essas transformações.

Escobar levanta suspeitas sobre tecnologia eleitoral sem apresentar provas

Durante o programa, Escobar também questionou a relação entre mercados de previsão eleitoral, empresas de análise de dados e tecnologias utilizadas em processos políticos.

Ele citou a plataforma Polymarket, a empresa Palantir e a agência norte-americana de pesquisas avançadas DARPA ao levantar suspeitas sobre possíveis interferências tecnológicas em eleições.

O jornalista sugeriu que a capacidade de antecipação de resultados por mercados de previsão poderia indicar conhecimento privilegiado ou eventual manipulação.

Essas alegações, contudo, não foram acompanhadas de provas de interferência na apuração dos votos brasileiros. A precisão de uma previsão eleitoral, por si só, não demonstra fraude, e não há no material apresentado elementos que comprovem manipulação dos sistemas de votação do Brasil.

As declarações devem, portanto, ser entendidas como suspeitas formuladas pelo analista, e não como fatos estabelecidos.

Oriente Médio e sistema financeiro internacional

Na parte internacional do programa, Escobar abordou a escalada das tensões no Oriente Médio, especialmente envolvendo Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Turquia e Paquistão.

O jornalista relatou informações ainda não confirmadas sobre a possibilidade de cobrança de tarifas para a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, com pagamentos em riais iranianos e utilização da infraestrutura financeira chinesa.

Segundo a hipótese apresentada, esse mecanismo poderia reduzir a dependência de sistemas internacionais de pagamentos vinculados ao Ocidente.

Escobar também comentou as complexidades das relações militares entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão e os riscos de agravamento do conflito no Iêmen.

O analista reconheceu que parte das informações recebidas por suas fontes ainda precisava de confirmação.

Na sua interpretação, essas disputas fazem parte de uma transformação mais ampla da ordem internacional, caracterizada pelo fortalecimento de centros alternativos de poder econômico, financeiro e militar.

O futuro do Brasil na nova ordem mundial

Ao concluir sua análise, Escobar voltou ao papel estratégico do Brasil.

O jornalista considera que o país reúne condições materiais para ampliar sua participação na economia internacional, desenvolver tecnologias próprias e exercer maior influência nas instituições multilaterais.

Entretanto, argumenta que a realização desse potencial depende de decisões políticas relacionadas ao controle dos recursos naturais, à industrialização, à autonomia tecnológica e à inserção internacional.

Escobar também criticou setores das elites econômicas brasileiras, aos quais atribui resistência histórica a projetos de desenvolvimento nacional autônomo.

A análise apresentada no Pepe Café combina uma leitura geopolítica da disputa presidencial brasileira com críticas à concentração de poder econômico e tecnológico no sistema internacional.

Seu argumento central é que o futuro do Brasil não será definido apenas pelas relações entre partidos e governos, mas também pela capacidade do país de preservar autonomia em um cenário de crescente rivalidade entre potências.

Assista ao vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=7Iq52eoukzQ

domingo, 11 de outubro de 2026

Mega ato pró-Lula ocupa a avenida Paulista e mobiliza apoiadores para o segundo turno

Manifestação reúne movimentos sociais, estudantes, artistas e lideranças políticas em São Paulo; organizadores estimam 1 milhão de participantes

Conteúdo postado por: Luis Mauro Filho

Publicado em 11 de outubro de 2026

Crédito: Imagem/Ricardo Stuckert



 






247 – Um ato em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ocupou a avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (11), reunindo movimentos sociais, entidades estudantis, artistas e lideranças políticas. A manifestação, denominada Marcha pela Democracia, teve como principal objetivo ampliar a mobilização eleitoral para o segundo turno da disputa presidencial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A concentração começou por volta das 11h, nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo (Masp), e avançou em direção à Praça Roosevelt. Segundo a Revista Fórum, por volta das 14h os participantes ocupavam as seis faixas da avenida Paulista, em uma extensão de pelo menos cinco quarteirões. Os organizadores estimaram a participação de 1 milhão de pessoas, mas não havia uma contagem oficial do público até aquele momento.

O evento contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), de Fernando Haddad (PT), Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede) e do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL). Também participaram os governadores reeleitos Jerônimo Rodrigues (PT), da Bahia, Rafael Fonteles (PT), do Piauí, e Elmano de Freitas (PT), do Ceará.

Organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o mega ato reuniu representantes de diferentes setores da sociedade civil. Bandeiras partidárias e faixas em defesa da democracia, da educação pública, do Bolsa Família e do fim da escala de trabalho 6×1 marcaram a manifestação.

A mobilização também contou com a articulação de entidades ligadas à educação, à ciência e à tecnologia, como a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

A presença de representantes dessas organizações ampliou a participação de diferentes segmentos sociais no evento, que integrou a estratégia da campanha petista para intensificar as atividades de rua antes da votação decisiva.

Lula convoca eleitores que não votaram no primeiro turno

O presidente aproveitou o ato para pedir aos apoiadores que intensificassem o diálogo com os brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno. A redução da abstenção foi um dos principais temas de seu discurso na avenida Paulista.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 33,4 milhões de eleitores deixaram de votar na primeira etapa das eleições presidenciais, o equivalente a 21,08% do eleitorado. O número representou o maior contingente de ausentes em uma eleição geral desde 1998.

 “Temos quase 30 milhões de pessoas que não foram votar. Nós temos a obrigação de conversar com as pessoas”, declarou Lula, utilizando uma estimativa aproximada do total de eleitores ausentes.

O presidente também fez um apelo específico aos brasileiros com mais de 70 anos, para os quais o voto é facultativo. Ao defender a participação desse grupo no segundo turno, ressaltou a importância da presença dos eleitores mais velhos nas decisões sobre o futuro do país.

“A idade não faz a gente ficar velho”, afirmou, ao mencionar os filhos, os netos e a responsabilidade com a pátria.

A campanha de Lula considera a mobilização dos eleitores ausentes uma das possibilidades para ampliar sua votação no segundo turno. O comparecimento desse contingente poderá influenciar o resultado da disputa presidencial.

 

Na véspera da manifestação, o presidente já havia utilizado suas redes sociais para convocar os apoiadores a participar da Marcha pela Democracia.

“Estarei na Paulista para que a gente faça o maior ato da história de São Paulo. Bora, São Paulo!”, escreveu Lula.

Presidente critica decisão do TSE sobre o canal “Exército do Lula”

O ato ocorreu poucas horas depois de uma decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, que determinou a suspensão das atividades do canal “Exército do Lula”, no WhatsApp.

A medida foi tomada a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que acusou o canal de disseminar conteúdos considerados falsos pela Justiça Eleitoral.

 Criado e administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o canal reunia aproximadamente 3,3 milhões de integrantes e havia se tornado uma das ferramentas de comunicação e mobilização digital dos apoiadores do presidente.

A decisão judicial determinou a interrupção de novas publicações e proibiu o ingresso de participantes até a homologação do resultado eleitoral.

Lula criticou a medida antes de participar da manifestação na avenida Paulista e informou que seus advogados deveriam questionar a determinação.

“Eu acho um absurdo. Acho que nossos advogados vão ter que entrar com pedido de explicação”, afirmou.

O presidente também declarou estar “desconfiado do comportamento da corte eleitoral” e afirmou que sua campanha não aceitaria “intromissão indevida da Justiça Eleitoral”.

A suspensão do canal passou a integrar a disputa jurídica entre as campanhas presidenciais em torno da propaganda eleitoral e da atuação de grupos políticos nas plataformas digitais.

Mobilização busca ampliar participação no segundo turno

A realização do ato na avenida Paulista marcou uma nova etapa das atividades de campanha de Lula, com a participação de organizações estudantis, movimentos sociais, representantes do governo federal e lideranças políticas de diferentes estados.

A mobilização reuniu pautas sociais e trabalhistas, incluindo a defesa do fim da escala 6×1, além de reivindicações relacionadas à educação pública, à proteção social e à democracia.

A escolha da avenida Paulista, tradicional espaço de grandes manifestações políticas em São Paulo, também permitiu à campanha reunir seus apoiadores em uma demonstração pública de mobilização na reta final da disputa presidencial.

Com o segundo turno se aproximando, o esforço para ampliar o comparecimento eleitoral tornou-se uma das prioridades da candidatura petista. O resultado do primeiro turno, marcado pela ausência de mais de 33 milhões de eleitores, colocou a abstenção no centro das estratégias das campanhas.

sábado, 10 de outubro de 2026

A juventude nas ruas pode devolver a Lula o viço da vitória

As mobilizações estudantis abrem uma possibilidade de renovação política: reunir a experiência de Lula à consciência de uma geração que reivindica seu futuro, analisa o colunista João Lister (Advogado e Psicanalista)

Publicado em 10 de outubro de 2026.


 

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha em Natal: o evento "Lula no Rio Grande do Norte: O Brasil Pronto Pra Mais", realizado no cruzamento rua Baraúna com a cel. Estevam, Natal – RN. Crédito: Ricardo Stuckert


Há um vigor nas manifestações estudantis em apoio a Lula que merece ser compreendido para além das imagens de multidões. Jovens que ocupam as ruas, organizam assembleias e assumem publicamente uma posição estão produzindo um acontecimento político: transformam a inquietação com o futuro em disposição para construí-lo. Essa energia pode devolver à campanha de Lula o viço de uma consciência que se renova e, com ele, a possibilidade da vitória.

A mobilização ganhou expressão imediatamente após o primeiro turno. Em 5 de outubro, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do campus do Gragoatá e percorreram ruas de Niterói. No dia seguinte, a agenda divulgada pela Mídia NINJA já reunia mais de 40 assembleias, plenárias e atos em 14 estados e no Distrito Federal, com atividades previstas até 13 de outubro. O calendário compreende encontros realizados e novas convocações, revelando uma articulação que vai além das passeatas.

Em 7 de outubro, secundaristas e universitários caminharam da Candelária à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Segundo a Agência Brasil, suas reivindicações incluíam educação pública, direitos sociais, democracia e o fim da escala de trabalho 6×1. São temas que aproximam a experiência estudantil da vida de milhões de brasileiros: estudar, trabalhar, ter tempo para viver e poder planejar o amanhã.

No dia 8, a mobilização alcançou outras cidades. A CNN registrou manifestações em São Paulo, Curitiba e Brasília, além de atividades em universidades de diferentes regiões. UNE e coletivos estudantis participaram das convocações, e a defesa da educação pública, da permanência nos estudos e do Pé-de-Meia apareceu entre as pautas.

O significado político desse movimento está na passagem da preocupação individual à ação coletiva. Quem acompanha uma eleição sozinho, diante de uma tela, pode sentir que o resultado já está decidido e que sua participação pouco importa. Ao encontrar outras pessoas dispostas a agir, percebe que possui voz e capacidade de intervenção. A presença compartilhada pode converter ansiedade em coragem e desalento em responsabilidade.

Essa mudança tem especial importância para Lula. Uma liderança com longa trajetória precisa continuar oferecendo um horizonte de futuro. Sua experiência ganha força quando encontra demandas que ainda não foram atendidas, expectativas que permanecem abertas e gerações que desejam participar das decisões. Os estudantes podem renovar esse encontro.

O rejuvenescimento de uma campanha acontece quando novas vozes passam a participar de seu sentido. Uma jovem que reivindica condições para permanecer na universidade, um estudante que trabalha e questiona a escala 6×1, um pesquisador preocupado com a continuidade de sua formação trazem problemas concretos para o debate. Com eles, o apoio eleitoral ganha conteúdo e a candidatura pode recuperar capacidade de inspirar.

Há também uma potência sociológica nessa circulação. O estudante pertence simultaneamente a diferentes espaços: instituição de ensino, família, trabalho, bairro, amizades e redes digitais. As questões discutidas numa assembleia podem chegar à mesa de uma casa e à conversa entre colegas. A defesa da universidade pública passa, assim, a dialogar com o esforço de pais e mães que desejam melhores oportunidades para seus filhos.

Esse movimento expressa uma ideia de país. Educação, ciência, trabalho digno e democracia integram a possibilidade de ascensão social e de autonomia nacional. Ao colocá-los nas ruas, os estudantes afirmam que o futuro brasileiro deve ser uma construção pública, acessível também a quem depende de políticas sociais para estudar e viver com dignidade.

A força dessa juventude inclui sua capacidade de cobrar. Apoiar Lula pode coexistir com exigir mais recursos para a educação, melhores condições de permanência e respostas às dificuldades cotidianas. Uma consciência política viva interroga, propõe e participa. A campanha se renova quando reconhece essa autonomia e permite que ela tenha consequências em seus compromissos.

Naturalmente, manifestações não permitem antecipar o resultado das urnas. A dimensão dos atos, por si só, não mede a opinião de todo o eleitorado. Seu valor está em abrir uma possibilidade: ampliar a participação, recolocar questões substantivas no debate e recuperar a confiança de que a ação democrática pode produzir mudanças.

É esse o viço de consciência que a juventude pode oferecer a Lula. A experiência histórica de uma liderança encontra a urgência de quem tem a maior parte da vida pela frente. Nesse encontro, a campanha pode voltar a falar com convicção sobre o país que ainda precisa ser construído.

Os estudantes estão tornando visível sua disposição de participar dessa construção. Sua presença pode dar à candidatura de Lula uma energia renovada, capaz de sustentar a caminhada até a vitória. Ao reivindicar o próprio futuro, essa juventude oferece ao Brasil uma razão concreta para voltar a ter esperança.

Na tempestade de informações que inunda a campanha, a mais relevante é a de que Lula-Alckmin está virando o jogo

Instituto que acertou na mosca o resultado do primeiro já capta efeito do medo pela volta do bolsonarismo ao poder, maior reconhecimento aos programas sociais do governo e força da mobilização estudantil nas ruas.

Autor: Marco Damiani (Editor especial do Brasil 247)

Publicado em 10 de outubro de 2026

Lula e Geraldo Alckmin. Crédito: Ricardo Stuckert

O povo está assustado – e isso é bom para todo o Brasil, a começar pelo próprio povo. A tática bolsonarista de sair ‘governando’ antes da hora vem ajudando a campanha de reeleição. As mensagens transmitidas pelo mentiroso 01 sobre mudar a Constituição para dar-lhe, em primeiro lugar, cinco anos de gestão de poder e, no contexto ampliado, quebrar as garantias individuais ali estabelecidas, mostraram a ponta do iceberg que está pela frente na rota de opção pela extrema-direita.

O insistente anúncio de um ajuste fiscal draconiano, com um ataque voraz sobre os programas sociais, pegou mal até mais fortemente do que a intenção de rasgar a Carta de 1988. Nesse padrão, a encarnação dos extremistas deixou-se carimbar como o sujeito que nunca dará reajustes honestos sobre o salário mínimo. Por estas e muitas outras mais, “com Flávio você perde” é um ótimo slogan, por capturar o medo crescente no inconsciente coletivo.

A campanha bolsonarista está enredada em contradição. No programa de rádio deste sábado, 10, no horário eleitoral gratuito, o ventríloquo do que há de pior na política brasileira diz que o povo quer mudança, a ser representada em sua figura bordada pela falsidade, mas encerra com um ping-pong de perguntas e respostas que derruba a própria  tese.

“Farmácia Popular continua?”, questiona a locutora. “Continua”, responde o mentiroso. “Minha Casa Minha Vida continua? ‘Continua’”. “Bolsa Família continua? ‘Continua, com reajuste’”, promete o candidato do mal, trucando na lorota. Quem escuta fica sem entender. Se ele quer mudar, porque diz que vai continuar? Por oportunismo, interesse inconfesso e costume.

Flávio é o sonho do colunista que gosta de ser agressivo. Chamá-lo de mentiroso, por exemplo, tem vitória assegurada, em um eventual processo judicial, para quem faz a afirmação. Repita-se a verdade, pois: men-ti-ro-so. O filho do inominável, como muitos democratas se referem ao desastrado golpista Bolsonaro pai, mente até no currículo, do qual constava uma pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ que nunca fez.

No rolo multimilionário e obscuro em torno do filme Dark Horse, o nome do PL disse, de pronto, “não tem isso aí”, e depois admitiu que, sim, tinha isso aí e, aos poucos, conforme foi sendo descoberto, passou a admitir tudo, da dinheirama tomada do esquema do corruptor Daniel Vorcaro ao estreito relacionamento com o próprio, a quem considera “irmão”. É lícito que se lembre e pergunte: você quer um mitômano na Presidência da República?

O engodo arraigado em Flávio Bolsonaro é um dado da realidade. Quem nele vota mal se importa, ok, mas a melhor notícia da primeira semana do segundo turno é a de que as forças da luz estão mais fortes agora.

O instituto Vox Brasil, que projetou a diferença inferior a 2 pontos percentuais a favor de Flávio sobre Lula no primeiro turno, agora já inverte a cena e aponta a chapa do presidente e do vice Geraldo Alckmin à reeleição com 1,5 ponto à frente. Na tempestade de informações e ‘fake news’ em que a disputa presidencial se transformou, esse dado da pesquisa que se mostrou de alta precisão é, neste momento, o mais importante a ser considerado. Precisamente porque sustenta, para quem gosta de se pautar pelos levantamentos de opinião, a virada que está em pleno curso, a olhos vistos.

“O Lula não perdeu o seu eleitor, este é que, simplesmente, não foi votar no primeiro turno”, explica o diretor do Vox, Alberto Barros. Para este segundo turno, o estatístico diz que o presidente e seu vice estão seguindo pelo caminho certo para encontrar o votante que ficou ausente. “A chapa sabe onde estão as suas bases: no Nordeste, nas mulheres e nos católicos. É aí que está intensificando a campanha.”

Um dado novo, que tem gerado cenas espetaculares em diferentes grandes cidades do País, vem dos estudantes universitários. Aos milhares, em manifestações com o sentido de defender o ensino, tal qual o conhecemos, frente ao projeto que prega a ignorância, eles têm feito os atos mais numerosas da história do aguerrido estudantil brasileiro. Cada um deles têm pai, mãe, irmãos, parentes, amigos que igualmente podem se sensibilizar pela causa. O vermelho dos comícios pró-Lula do primeiro tempo, organizados pelo PT, ganharam cores múltiplas. Completam-se. Trata-se de uma soma – sim, uma ampliação – sobre o que se viu no segundo turno.

A esperança está no ar. A campanha de Lula melhorou. Tem agora até um pequeno jingle alegre, usa a palavra mudança, que entra em voga em toda eleição, e também termos como prosperidade, olha só. Algo aconteceu lá dentro a partir do que tivemos aqui fora. O vice-presidente passou a ter mais voz, e bem disse Geraldo Alckmin neste sábado: “Eu governei São Paulo por quatro vezes, o presidente Lula governou o Brasil por três vezes, nós temos a experiência para fazer as mudanças necessárias com segurança e tranquilidade”, nessa linha.

O quadro está entrando nos eixos. Lula-Alckmin se aprumou e cresce; o outro lado ainda tenta se encontrar. A malandragem continua lá. A Polícia Federal recolheu nada menos que R$ 27 milhões de reais destinados à compra de votos no primeiro turno. Táticas desonestas desse tipo podem se repetir. É de se acreditar que o governo reforce as providências para que a disputa seja limpa no momento decisivo do voto. As chances de salvar o Brasil do desastre prometido pelo bolsonarismo estão em alta.

EM TEMPO: Está correto dar ao vice Alckmin  mais visibilidade para conquistar o voto da Centro Direita e dos indecisos. Afinal o Vice de Lula dar de 10 a zero no vice de Flávio Bozo. Ok, Moçada!; 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Como explicar a vitória de Flávio Bolsonaro?

O espelho partido do Brasil: a vitória do bolsonarismo escancara um eleitorado que prefere endossar a perversidade ao invés de defender seus próprios interesses, exigindo da esquerda o abandono da ingenuidade para disputar os ausentes.

Autor: Luis Felipe Miguel - Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).


Flávio Bolsonaro. Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

Não existe eufemismo possível para descrever o resultado de anteontem, isto é, 04.10.2026. Foi uma tragédia. A extrema-direita saiu na frente na corrida presidencial e fez barba, cabelo e bigode no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais.

O mais triste de tudo é sermos confrontados com esta imagem, sem disfarces, de quem são os nossos concidadãos. Afinal, nesta altura do campeonato, é improvável que ainda exista um único brasileiro que não tenha noção de quem é Flávio Bolsonaro: um despreparado. Um frouxo. Um mentiroso. Um corrupto. Um amigo de assassinos. Sob este ponto de vista, o voto no 22 foi “consciente”. Não foi desavisado. E isto é algo que precisamos encarar de frente.

Como sempre, depois de uma derrota dessas, não falta quem venha dizer que não se pode culpar o eleitorado, que a esquerda tem que aprender a respeitá-lo e pensar em seus próprios erros. A “soberba da esquerda” é, em geral, apresentada como a causa. Será mesmo?

Sim, há muitos erros sobre os quais pensar. Vou falar deles depois. Mas cabe, em primeiro lugar, entender o que estão dizendo os 56 milhões de votos no candidato do PL no primeiro turno.

Não dá para explicar a vitória de Flávio Bolsonaro pela manipulação da informação. Ela existe, é claro, mas não a ponto de apagar a imagem de quem é o candidato. Não dá sequer para explicá-la só pela burrice das pessoas, que serão as primeiras vítimas das políticas que ele eventualmente implementará, mas que não aprenderam nem depois de já terem passado pelo governo do pai. Sim, burrice: vamos chamar as coisas pelo nome.

Alguns argumentam que o voto na extrema-direita tem suas razões. Por exemplo, que o sacerdote pilantra que orienta as

escolhas políticas reacionárias é também alguém que oferece consolo e apoio espiritual em algumas circunstâncias. Ou que a violência urbana que atinge em primeiro lugar as classes populares explica a sedução de propostas “duras” de segurança pública.

Mas isso apenas nos diz que esse voto não é aleatório, que tem alguma motivação. Permanece o fato de que ele expressa uma profunda incapacidade de relacionar as escolhas políticas com suas consequências esperadas, de vinculá-las aos interesses ligados às condições reais de vida.

Ter uma motivação para o voto não significa que o voto é esclarecido, pelo simples fato de que essa motivação pode ser… burra. Por exemplo: eu posso ter votado em Augusto Cury porque acredito em autoajuda. Isso faz com que meu voto tenha uma razão de ser. Nem por isso ele demonstra qualquer discernimento.

A apneia do sono está ligada a este item doméstico (pare de usá-lo)Dormez

A ignorância política das massas – e incluo aqui, igualmente, trabalhadores pobres e classes médias – é um componente do sistema político vigente, ativamente produzido e reproduzido por inúmeros aparelhos. Cabe ao campo popular trabalhar permanentemente para combatê-la. A constatação da burrice dominante é, portanto, uma acusação contra a esquerda, que não fez ou fez mal o seu trabalho.

Mas, além disso, um componente central do voto em Flávio Bolsonaro é o desinteresse pela sorte dos outros, a ausência de sentimento de solidariedade, o desprezo pela vida alheia. É o triunfo da antiga Lei de Gérson, de que o que importa é levar vantagem em tudo. Se pudesse, cada um queria vender um pedaço do país, cobrar uma rachadinha dos funcionários, ganhar um agrado do Daniel Vorcaro, participar de uma orgia com prostitutas de luxo, arranjar um pistoleiro para liquidar os desafetos.

De brinde, vem a submissão das mulheres, a inferiorização dos negros, a pancada nos gays, nas lésbicas e nos travestis. O bolsonarismo revela uma pulsão pela violência que habita muitas pessoas. Racismo, misoginia, homofobia e desprezo pelos mais pobres seriam atrativos tão poderosos que compensariam todas as perdas. Não tem só burrice, tem perversidade. O que é muito pior.

É preciso investigar como chegamos a essa decadência moral generalizada, que é própria da metástase da sociedade capitalista. E reconhecer que o nosso campo tem fracassado na disputa dos valores que devem organizar o mundo social. Ou, pior do que fracassado: desistido da disputa.

Marca Catarinense faz maior liquidação do ano.Oferta em Destaque

As mentalidades são produzidas socialmente. Nós sabemos disso. Mas chega um ponto em que temos que atribuir responsabilidade às pessoas por suas escolhas. Senão, perdoaremos todos. Quem sabe dos dissabores sofridos por Jack, o Estripador? Os traumas de Adolf? Os complexos de Jair?

Tem um samba de Wilson Batista, que Paulinho da Viola canta, que fala de um filósofo popular e termina com uma síntese de seu pensamento, de claros ecos rousseaunianos: “Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou / A culpa é da sociedade que o transformou”.

Não sei se nascemos realmente bons, mas com certeza somos frutos do ambiente. Só que, a partir de certo momento, não tem jeito, cada um de nós assume seus B.O.s. Passou dos 18 anos, responde por seus atos – e a gente deixa a filosofia no seu canto.

Sendo assim, investiguemos as causas, lutemos contra elas, mas também enfrentemos a verdade: metade do eleitorado brasileiro é, se não perverso, seduzível pela perversidade. Não vamos romantizar o povo. Embora essa romantização tenha uma longa tradição na sensibilidade da esquerda, de Nicolau Maquiavel a Jean-Jacques Rousseau e em diante, ela não é boa conselheira.

O reabilitamento dessas pessoas é uma tarefa de longo prazo. Muitas delas são irrecuperáveis e a questão sempre será como contê-las. No curtíssimo prazo, porém, o desafio é outro: como virar a eleição presidencial.

Há pouca esperança de virar votos de bolsonaristas. Não há escândalo que resolva: rachadinha, milícia, Daniel Vorcaro, orgia, nem Nossa Senhora dá conta. É preciso garimpar o que for possível nos menos de 10 milhões de votos dos candidatos que não chegaram ao segundo turno, mas sabemos que a colheita será magra. Afinal, mais da metade desses votos foram para extremistas de direita: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O melhor resultado possível é que se transformem em voto nulo.

A luta principal é pelos eleitores que não foram votar (33,5 milhões) ou que votaram em branco ou nulo (6 milhões). Esse pessoal é potencialmente mais sensível a temas como o fim da escala seis por um, a proibição das bets, a manutenção do SUS ou a conveniência de não ter um miliciano no Palácio do Planalto.

É difícil? Sim. É impossível? Não. O mais difícil é superar o desânimo depois do resultado de domingo. Um desânimo que não é só com a eleição. Não sabemos se haverá um futuro para a humanidade – com Flávio Bolsonaro na presidência, com a política de devastação ambiental que certamente implantará, fica ainda mais difícil. Mas não sabemos, sobretudo, se a humanidade merece ter futuro.

Como sou otimista inveterado, digo que devemos deixar esse desânimo para lá e retomar a campanha. São 20 dias para superar uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos. Um pouco mais de 100 mil votos por dia.

É difícil? Sim. É impossível? Não.

EM TEMPO: Convém considerar que a maioria da população brasileira, bem como do mundo inteiro, é de Direita, oscilando entre a Extrema Direita e a Centro Direita. O que ocorreu é que considerável parcela da Centro Direita, a qual sempre deu a vitória ao presidente Lula, desta vez preferiu se ausentar, anular o voto ou até mesmo votar num extremista de Direita. Portanto, a tarefa consiste em reconquistar o voto da Centro Direita. Sendo assim, é imprescindível maior inserção do vice Geraldo Alckmin. O que nos deixa perplexos é nos depararmos com o alto índice de despolitização da população, uma vez que o Flávio Bozo é altamente despreparado para ser candidato a Presidente da República. É o caso do presidente Javier Milei na Argentina. Ok, Moçada!