O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de
uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em
parte, uma mentira administrada
Por Gustavo Tapioca (Jornalista)
22 de janeiro de 2026
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| Mark Carney (Foto: REUTERS/Denis Balibouse) |
O discurso de Donald Trump, em Davos, expôs ao vivo
a falência moral e política do projeto que pretende impor ao mundo. Entre
ameaças, chantagens e o velho delírio imperial travestido de “patriotismo”,
Trump reafirmou a doutrina do ultimato: obedeça ou sofra as consequências.
Foi exatamente esse mecanismo — a transformação do
comércio, da diplomacia e até da soberania em instrumentos de coerção — que
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, denunciou com precisão cirúrgica. Em
Davos, Carney anunciou o que muitos evitavam dizer em voz alta: a “ordem
baseada em regras” acabou. E, com ela, acabou o teatro.
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de
uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em
parte, uma mentira administrada. Um teatro funcional. Um pacto silencioso para
manter o mundo operando. Mas, no discurso de Mark Carney encenação é declarada
morta. O que entra em seu lugar é a era Trump em estado puro: coerção, tarifas
como arma, soberania sob ameaça e um imperialismo que já não precisa fingir que
respeita limites.
A “ordem baseada em
regras” era uma mentira útil — e nós aceitamos viver dentro dela - Carney não começa com diplomacia. Começa com uma
sentença de sinceridade brutal.
Sim: nós sabíamos que a história da “ordem baseada
em regras” era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes escapariam delas
quando fosse conveniente. Sabíamos que as regras do comércio eram aplicadas de
forma assimétrica. Sabíamos que o direito internacional era invocado com rigor
variável, dependendo de quem era a vítima e de quem era o acusado.
E, mesmo assim, o mundo seguia.
Porque aquela mentira tinha função. Era o “pacto”
que permitia previsibilidade mínima. A farsa era o amortecedor. A hipocrisia
era a engrenagem que evitava o colapso. Carney diz isso sem floreio: a
hegemonia americana — apesar dos abusos — forneceu “bens públicos” ao sistema:
rotas marítimas seguras, um sistema financeiro relativamente estável, uma
arquitetura de segurança coletiva e um conjunto de mecanismos de resolução de
disputas.
Por isso, diz Carney, “pusemos o letreiro na
janela”. Participamos dos rituais. E, na maior parte do tempo, evitamos apontar
o abismo entre o discurso e a realidade.
Até que veio o trumpismo.
O momento em que o
império decide parar de fingir - O que Carney chama de “fim do pacto” é o que o mundo sente como vertigem
histórica: não se trata apenas de mais um ciclo político em Washington.
Trata-se de uma mutação do próprio comportamento imperial.
Antes, o império precisava do verniz moral.
Precisava do idioma da “democracia”, da “liberdade”, das “regras”, da
“responsabilidade”. Mesmo quando violava esse idioma, ele o preservava como
instrumento de legitimidade.
O trumpismo rompe essa obrigação.
Ele devolve a política internacional ao terreno nu
e cru da coerção: manda quem pode, obedece quem precisa. E não pede desculpas.
Ao contrário: exibe a brutalidade como virtude.
Carney descreve o presente como o fim de uma
“ficção agradável” e o começo de uma “realidade dura”. O que isso significa, na
prática? Significa que já não existe nem sequer o teatro que sustentava o
sistema.
O mundo saiu da hipocrisia administrada e entrou na
arbitrariedade declarada.
Tarifa não é imposto:
é ultimato. Comércio não é acordo: é arma - O trecho mais revelador do discurso de Carney é
quando ele identifica a mudança de natureza da economia global.
As tarifas deixam de ser política comercial e
passam a ser instrumento de coerção. Cadeias de suprimento deixam de ser
planejamento e passam a ser mecanismo de submissão. A integração econômica
deixa de ser cooperação e passa a ser um sistema de alavancas usado para punir,
chantagear e reordenar o tabuleiro a partir do interesse do mais forte.
Essa é a doutrina trumpista em estado bruto: o
mundo não é uma mesa de negociação — é um ringue de pressão. E quem controla o
acesso a mercados, tecnologia e financiamento controla o destino de países
inteiros.
Não há nada de “loucura” nisso, no sentido clínico.
Há método. Há projeto. Há cálculo.
A “loucura” trumpista é, na verdade, a
racionalidade da chantagem.
Tucídides volta a
governar: “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem” - Carney recorre ao clássico para traduzir a barbárie
moderna: o mundo voltou a ser lembrado diariamente do princípio de Tucídides —
“os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem”.
Mas ele não recorre a isso para celebrar o cinismo.
Pelo contrário: para denunciar o que o cinismo produz.
Porque, quando o mundo aceita esse princípio como
“natural”, ele passa a viver de joelhos. O problema deixa de ser apenas o abuso
do império; passa a ser a adesão resignada dos demais.
É aqui que Carney muda o eixo: o combate começa com
a recusa de aceitar o abuso como destino.
A parábola do
lojista: quando o mundo põe o cartaz na vitrine para evitar problema - Carney utiliza uma das imagens mais fortes do
discurso: a história do lojista que coloca um cartaz na vitrine — um slogan em
que ele não acredita — apenas para evitar problemas. Não é fé. É
autopreservação. Não é convicção. É medo.
Essa parábola é o retrato do sistema internacional.
Durante décadas, muitos países aceitaram o ritual por prudência: repetiram
discursos vazios, assinaram papéis, fingiram equivalências, toleraram
seletividades, aceitaram humilhações. Tudo para evitar o pior.
Carney está dizendo: isso acabou.
A era Trump não permite mais o luxo da encenação.
Porque ela não se satisfaz com o cartaz na vitrine. Ela quer a loja inteira.
Ela quer o estoque. Ela quer o balcão. Ela quer a rua. Ela quer o mapa.
Groenlândia: quando
o mapa vira mercadoria, a soberania vira detalhe - Há um símbolo que atravessa o momento global: a
obsessão trumpista com a Groenlândia e o retorno de um discurso expansionista
que parecia enterrado no século XX.
Carney reafirmou apoio à soberania da Groenlândia e
da Dinamarca — e o gesto vale como alerta: se é preciso reafirmar soberania em
público, é porque a soberania está sendo tratada como negociável.
Quando o império se permite brincar com território,
o mundo inteiro entende a mensagem: ninguém está fora de risco. A soberania
deixa de ser princípio e vira variável. O direito vira retórica. E o mapa passa
a ser reorganizado pelo músculo, não pela norma.
Esse é o salto civilizatório para trás que o
trumpismo tenta normalizar.
“Potências médias”
ou colônias do século XXI: a convocação de Carney é um grito de sobrevivência
- Carney não oferece
consolo. Oferece tarefa.
A única resposta possível, ele sugere, é a união
das chamadas “potências médias” — países que não são superpotências, mas têm
peso, capacidade de coalizão e algum grau de autonomia estratégica — para
impedir que o mundo seja reduzido ao cardápio de um punhado de impérios.
A frase que circulou como síntese brutal do momento
— “se você não está à mesa, está no cardápio” — é a chave.
O trumpismo reorganiza a política internacional
como banquete. E a pergunta, para países médios, é objetiva: vamos sentar na
mesa ou aceitar virar prato?
A palavra proibida
em Davos: honestidade - O fecho conceitual
do discurso é simples e devastador: “o poder dos menos poderosos começa com
honestidade”.
Honestidade, aqui, é abandonar a ilusão de que
“cumprir regras” protege. É reconhecer que alianças não são seguros contra
agressão. É entender que a integração econômica pode virar algema. É admitir
que a norma internacional existe, mas vale — cada vez mais — apenas onde o
poder permite.
A honestidade que Carney propõe é, no fundo, uma
ruptura psicológica: parar de fingir que o império é árbitro e aceitar que ele
se comporta como proprietário.
O Brasil na mira:
soberania, tarifas, chantagem e a correia de transmissão bolsonarista - É aqui que o discurso de Davos encontra o Brasil
com precisão cirúrgica.
O trumpismo não é um fenômeno isolado. Ele se espalha
por meio de satélites: governos de extrema direita e elites subordinadas que
repetem o roteiro do caos, da guerra cultural e da submissão econômica. O
bolsonarismo, no Brasil, foi exatamente isso: a tentativa de rebaixar o Estado
nacional a uma posição de dependência e obediência, enquanto destruía por
dentro a democracia e a capacidade de decisão soberana.
A era Trump exposta por Carney é a era em que
países como o Brasil podem ser empurrados para três armadilhas ao mesmo tempo:
1.
chantagem comercial (tarifas, restrições,
condicionantes);
2.
chantagem tecnológica (dependência de
plataformas, dados, infraestrutura);
3.
chantagem política (interferência,
deslegitimação institucional, corrosão democrática).
Quando Carney diz que o pacto acabou, ele está
dizendo também que o Brasil não pode mais operar como figurante de uma ficção.
Porque, na realidade dura do trumpismo, a ingenuidade custa soberania.
E a tragédia brasileira é que existe, aqui, uma força política treinada
para atuar como correia de transmissão desse projeto: um campo de extrema
direita que já tentou implodir a democracia e que trabalha para reduzir o país
a uma peça da engrenagem imperial. Não por patriotismo, mas por alinhamento
servil.