quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Abuso da força letal pela polícia gera mais insegurança no Brasil, diz Human Rights Watch

Quase 6 mil pessoas morreram em ações de forças de segurança em 2025

04 de fevereiro de 2026



Protesto contra a chacina policial que deixou mais de 120 pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

 



Por Leonardo Sobreira

Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil - O uso irrestrito da força letal pela polícia como estratégia de segurança no país tem resultado em mais violência e insegurança, em vez de deixar as cidades brasileiras mais seguras. A avaliação é do diretor da organização não governamental Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz.

A entidade divulgou, nesta quarta-feira (4), seu Relatório Mundial 2026, em que analisa a situação dos direitos humanos em mais de 100 países. H

Os dados compilados no relatório mostram que, entre janeiro e novembro de 2025, forças policiais mataram 5.920 pessoas no país, e que os brasileiros negros têm três vezes e meia mais chances de se tornarem vítimas do que os brancos.

A entidade destaca a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, que matou 122 pessoas em outubro do ano passado. Chamada de Operação Contenção, a ação foi realizada nos Complexos da Penha e Alemão para capturar lideranças da facção Comando Vermelho.

“O que não funciona é entrar na favela atirando. Isso não desmantela grupos criminosos, só cria mais insegurança e coloca os próprios policiais em risco”, disse César Muñoz.

Saúde mental dos policiais

Em 2025, 185 policiais foram mortos, segundo dados do Ministério da Justiça. Outros 131 cometeram suicídio.

Segundo a HRW, a taxa de suicídio entre policiais é muito mais alta do que no restante da população, o que reflete a exposição desses agentes à violência e o apoio inadequado à sua saúde mental.

“O nosso pedido é que tenha propostas baseadas na ciência e em dados. Propostas que realmente desmantelem grupos criminosos, que atuem com base em inteligência na investigação, [de forma] independente, para identificar essas ligações ou vínculos entre grupos criminosos e agentes do Estado, e sua infiltração na economia legal”, explicou Muñoz.

Muñoz afirma que a letalidade policial continua em níveis tão altos, principalmente, pela falta da devida apuração dos casos de morte decorrente de intervenção policial.

“Podemos ver isso na Operação Contenção, do Rio de Janeiro, em outubro [de 2025]. Um dos problemas no Rio, especialmente, é que a perícia é totalmente subordinada à Polícia Civil, e não tem a necessária independência para fazer o trabalho de forma adequada”, criticou.

Ele ressalta que, embora algumas mortes pela polícia sejam em legítima defesa, muitas são execuções extrajudiciais.

Corrupção policial

Além disso, os abusos cometidos pela polícia e a corrupção dentro das forças de segurança pública são fatores que levam as comunidades a desconfiar das autoridades. Isso faz com que fiquem menos propensas a denunciar crimes e colaborar com as investigações.

“Polícias violentas e polícias corruptas fortalecem a ação do crime organizado”, afirmou a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, no lançamento do relatório da HRW.

“A gente não pode ignorar que essas facções só tomaram a dimensão que tomaram e se expandiram de tal forma no Brasil porque elas contam com a corrupção do Estado.”

Ela acrescenta que “uma polícia violenta não é uma polícia forte, é uma polícia frágil que fica vulnerável ao crime organizado”.

A especialista avalia que é preciso investir em mecanismos de controle da atividade policial e destacou o papel do Ministério Público no processo de investigar os casos.

“A polícia pode, sim, fazer o uso da força para proteger a si mesma e para proteger a terceiros. Mas a gente não pode aceitar que isso seja utilizado como uma desculpa para execuções sumárias e abusos, como a gente viu no caso do massacre no Rio de Janeiro, no final do ano passado, com mais de 120 mortos”, destacou.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Por que Lula incomoda Trump e seu projeto fascista

A lógica silenciosa da guerra híbrida contra o Brasil num mundo em rearranjo

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)


 

Lula e Trump se reúnem na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Quando o ataque é direto, a soberania unifica. Quando o conflito se disfarça de cordialidade, o desgaste opera por dentro. Trump sabe disso. Por isso evita o confronto com Lula, desloca a pressão para instituições, economia e narrativas e transforma a "boa relação" em instrumento de contenção. Nada é acaso. Tudo é método.

Quando Donald Trump afirma ter boas relações com Vladimir Putin, Xi Jinping, Recep Tayyip Erdogan ou Narendra Modi, ninguém sério entende isso como ausência de conflito. Ao contrário. Trump elogia, respeita e conversa, enquanto sanciona, tarifa, cerca militarmente, bloqueia tecnologia e pressiona aliados. A cordialidade verbal nunca foi sinônimo de conciliação. Sempre foi forma de conduzir o conflito. O erro é tomar o tom pela substância.

Esse padrão é recorrente e verificável. Trump não rompe relações para atacar. Ele mantém canais abertos enquanto age por outros vetores. A guerra comercial contra a China não impediu elogios públicos a Xi. As sanções contra a Rússia coexistiram com declarações amistosas sobre Putin. A pressão sobre a Turquia veio acompanhada de gestos pessoais a Erdogan. A lógica é simples: o conflito não precisa ser anunciado para ser exercido. Ele opera melhor quando não se apresenta como guerra.

É nesse padrão que o caso brasileiro precisa ser lido. Não como exceção, mas como variação. Trump não evita confrontar Lula por simpatia, nem por fraqueza. Evita o confronto direto porque ele sabe exatamente o que o confronto produz quando o adversário ocupa uma posição específica no tabuleiro global. E Lula, hoje, ocupa essa posição.

Aqui está a diferença central. Ao contrário de outros líderes, Lula não aceita o jogo do conflito silencioso. Ele expõe. Ele nomeia. Ele fala em público, nos fóruns certos, diante das audiências certas. Ele chama a falta dentro da grande área, com o estádio cheio e o juiz olhando. Denuncia assimetrias, cobra responsabilidade das potências centrais, defende autonomia e recusa a naturalização da tutela. Isso muda a equação.

Quando Lula confronta, ele não o faz por bravata. Ele faz porque sabe que a disputa central é política, simbólica e estrutural. E sabe que, nesse plano, o silêncio favorece sempre o lado mais forte. O incômodo nasce daí. Não do conteúdo isolado de uma fala, mas do efeito acumulado de expor o jogo diante do mundo.

Trump percebe isso. E não cai. Não transforma o embate em duelo pessoal. Não responde na mesma moeda. Não eleva o conflito ao plano simbólico direto, onde Lula ganha densidade, visibilidade e capacidade de articulação internacional. Ao contrário. Ele absorve o ataque, mantém cordialidade pública e desloca a disputa para onde ela rende mais e custa menos.

Esse deslocamento tem método. O primeiro vetor é institucional. A pressão deixa de mirar o presidente e passa a incidir sobre a arquitetura do Estado. Questiona-se a legitimidade das decisões, constrói-se a narrativa do abuso, acusa-se a Justiça de extrapolar limites. Não é uma divergência jurídica. É uma tentativa de corroer a capacidade soberana de decidir, regular e punir.

O segundo vetor é econômico. Tarifas, ameaças comerciais e instabilidade induzida aparecem como respostas técnicas, não políticas. Esse enquadramento é deliberado. Ele oculta o conteúdo coercitivo sob a linguagem da economia e dificulta a mobilização social. O custo é imposto sem barulho, sem bandeira, sem inimigo visível. Funciona como disciplina material.

O terceiro vetor é narrativo. Ao deslocar o conflito para temas como liberdade de expressão, plataformas digitais e regulação, cria-se uma inversão eficaz. O Estado que regula passa a ser retratado como agressor. A potência que pressiona se apresenta como defensora de princípios universais. Não é necessário convencer a maioria. Basta gerar confusão suficiente para paralisar a reação.

Esses vetores operam juntos. A pressão institucional fragiliza a autoridade do Estado. A pressão econômica desgasta por dentro. A pressão narrativa fornece justificativa moral para ambas. O resultado é um conflito permanente, porém difuso. Sem choque, sem clímax, sem fechamento soberano. É nesse ponto que a normalização se torna mais eficaz do que o ataque aberto.

Por isso Trump mantém o discurso cordial. Não é contradição. É amortecedor. Ele reduz a percepção de agressão externa ao mesmo tempo em que a coerção segue operando nos pontos sensíveis. A ausência de confronto direto não sinaliza recuo. Sinaliza sofisticação. O conflito não diminuiu. Ele apenas se tornou menos visível e mais difícil de enfrentar.

Lula incomoda porque rompe essa lógica. Porque insiste em tornar o conflito legível. Porque expõe o caráter político do que se vende como técnico. Porque recoloca o Brasil como ator, não como variável. Em um mundo em rearranjo, onde a multipolaridade deixa de ser abstração e passa a ser disputa concreta, isso tem peso real.

Transformar Lula em antagonista direto seria um erro estratégico. Isso ampliaria sua estatura, facilitaria a construção de solidariedades e reforçaria sua imagem como liderança capaz de desafiar assimetrias. Trump sabe disso. Por isso evita o duelo. Prefere conter sem personalizar, pressionar sem confrontar, desgastar sem provocar fechamento.

O alerta é simples e urgente. Quando o conflito parece diminuir, ele pode estar apenas mudando de forma. Quando a retórica amacia, a pressão pode estar se reorganizando. Normalização não é paz. Muitas vezes, é a etapa mais perigosa da disputa. Entender isso não é exercício acadêmico. É condição para não ser derrotado sem perceber que a guerra continua.

EM TEMPO: Convém lembrar que os Democratas, nos EUA, são simpáticos ao presidente Lula. Tanto é verdade que o Senado apoiou o fim do "Tarifaço" com apoio de alguns Republicanos do governo Trump. Lembrando que o Brasil é o segundo maior fornecedor de alimentos do mundo. Lula é "Pop Star" e quem quiser chorar que fique à vontade. Ok, Moçada!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

“O Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá”, diz Lula em meio à ofensiva de Trump

Presidente é aplaudido ao afirmar que o canal é “administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas”

28 de janeiro de 2026

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)


Por Guilherme Levorato

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (28) que o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá como princípio estratégico para a integração regional e o comércio internacional. A declaração foi feita durante a sessão inaugural do Fórum Econômico Internacional da América Latina, realizado na capital panamenha, em um momento marcado por tensões geopolíticas e pela ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em temas ligados à política externa e ao comércio global.

Ao discursar no evento, Lula contextualizou sua posição a partir da necessidade de fortalecer a cooperação latino-americana diante de um cenário internacional instável. As declarações foram feitas no Panamá, país que sediou, há 200 anos, o Congresso que reuniu as jovens nações latino-americanas em busca de consolidar sua independência e definir seu papel no mundo, marco histórico citado pelo presidente ao longo de sua fala.

Lula ressaltou que, embora daquele congresso tenham surgido ideias fundamentais posteriormente incorporadas ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas — como a manutenção da paz, a solução pacífica de controvérsias, a igualdade jurídica entre os Estados e a integridade territorial —, o legado institucional foi insuficiente para consolidar mecanismos regionais eficazes. Segundo o presidente, dois séculos depois, a América Latina enfrenta um dos períodos de maior retrocesso em matéria de integração.

Nesse contexto, Lula criticou a fragmentação política da região e o enfraquecimento de iniciativas de cooperação. Ele mencionou o colapso da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), atribuindo o fracasso à intolerância política, e afirmou que a região voltou a se orientar mais para interesses externos do que para projetos próprios. O presidente alertou ainda para a influência de disputas ideológicas alheias, o avanço do extremismo político e a manipulação da informação, fatores que, segundo ele, esvaziaram cúpulas regionais e paralisaram a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Ao abordar o ambiente global, Lula afirmou que a ruptura da ordem liberal, o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo tornaram insuficientes antigos paradigmas de integração. Ele defendeu que a América Latina observe a experiência da União Europeia como referência, sem ignorar diferenças históricas, econômicas e culturais. Nesse ponto, citou a proximidade geográfica com a “maior potência militar do mundo”, referência direta aos Estados Unidos, ao mencionar o recrudescimento de “tentações hegemônicas” e a falta de convicção regional em torno de um projeto mais autônomo de inserção internacional.

O presidente também destacou indicadores recentes da economia brasileira para sustentar a defesa de um modelo baseado em democracia, multilateralismo e integração regional. Lula afirmou que o país tem registrado estabilidade política, social e econômica, atraído volumes recordes de capital estrangeiro e ampliado o comércio internacional. Segundo ele, em 2025, a corrente de comércio brasileira alcançou US$ 629 bilhões, resultado de uma estratégia de diversificação de parcerias com economias tradicionais e emergentes.

Lula afirmou ainda que, desde 2023, o Brasil cresce acima da média mundial, controla a inflação e registra o menor desemprego de sua história. Ele citou a valorização do salário mínimo, o aumento da renda dos trabalhadores, a saída do país do Mapa da Fome da ONU e a inclusão social de 17,4 milhões de pessoas em dois anos. O presidente também destacou o papel do Brasil na economia verde, com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, liderança em biocombustíveis e projetos voltados à transição energética.

Ao tratar da integração sul-americana, Lula destacou o avanço do programa brasileiro de rotas de integração, com obras em rodovias, hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, infovias e linhas de transmissão. Segundo ele, esse conjunto de investimentos tem potencial para ampliar significativamente o comércio intrarregional. Foi nesse contexto que o presidente afirmou: “Por isso o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas”, declaração que foi recebida com aplausos pelo público presente.

Lula concluiu defendendo que uma integração regional duradoura exige a participação de governos subnacionais, da sociedade civil e da iniciativa privada. Ele citou sistemas de pagamentos digitais, como o Pix, e programas de integração entre universidades e centros de pesquisa como instrumentos capazes de fortalecer laços regionais baseados em inovação, conhecimento e pragmatismo.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Forças Armadas propõem a Lula plano de R$ 800 bilhões para defesa nacional

Proposta prevê investimentos até 2040 e alerta para riscos à soberania nacional

26 de janeiro de 2026

 


16.04.2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do ministro da Defesa, José Mucio Monteiro Filho, comandante do Exército Brasileiro, Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, Comandante da Aeronáutica, Marcelo Kanitz Damasceno, Comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Almirante de Esquadra Renato Rodrigues de Aguiar Freire, durante cerimônia do Dia do Exército e de comemoração do Jubileu de 80 anos das vitórias da Força Expedicionária Brasileira, na Itália.Quartel-General do Exército – Forte Caxias - Brasília - DF. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

Por Paulo Emilio

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu no último dia 15 com os comandantes das Forças Armadas para discutir o cenário internacional e os desafios estruturais da defesa nacional no longo prazo. A reunião teve como pano de fundo a crise na Venezuela e os impactos geopolíticos recentes, que reacenderam alertas sobre a capacidade do Brasil de proteger seu território e seus interesses estratégicos.

De acordo com a coluna da jornalista Marcela Mattos, do SBT News, os chefes militares avaliaram que a ação militar que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um sinal de alerta sobre os riscos à soberania nacional e reforça a necessidade de um sistema de defesa robusto e preventivo.

Reunião abordou cenário internacional e crise na Venezuela

Participaram da conversa os comandantes do Exército, Tomás Paiva, da Marinha, Marcos Olsen, e da Aeronáutica, Marcelo Damasceno, além do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. A pedido do próprio presidente, os militares detalharam quais projetos estratégicos consideram essenciais para garantir a segurança do país nas próximas décadas.

Proposta militar aponta sucateamento e hiato tecnológico

De acordo com a reportagem, cada comandante apresentou uma lista de prioridades que inclui desde problemas imediatos, como o sucateamento de equipamentos e a falta de combustível, até projetos de maior envergadura voltados à modernização da defesa nacional. Nos bastidores, os militares avaliam que o Brasil enfrenta um hiato tecnológico significativo em relação a países mais equipados.

Investimento previsto supera todos os patamares históricos

Os cálculos preliminares indicam a necessidade de cerca de R$ 800 bilhões em investimentos entre 2025 e 2040 para que o país alcance um padrão considerado ideal de defesa. O montante está muito acima de qualquer nível histórico já destinado ao setor, o que evidencia a dimensão do desafio fiscal e político envolvido.

No fim do ano passado, o Congresso Nacional aprovou uma medida que permitiu um gasto adicional de R$ 30 bilhões em defesa ao longo de seis anos, por meio de uma exceção às regras fiscais. Ainda assim, representantes das Forças Armadas consideram o valor insuficiente e defendem alternativas extraorçamentárias para acelerar a modernização.

Drones e defesa antiaérea estão entre as principais preocupações

Entre os pontos de maior preocupação está o avanço das tecnologias de drones, que já operam com armamentos acoplados e sistemas de inteligência artificial. Os comandantes também ressaltaram a importância do fortalecimento da proteção antiaérea, considerada decisiva em conflitos recentes, como o da Ucrânia contra a Rússia.

Lula ouviu os argumentos apresentados e acolheu as preocupações expostas, mas evitou assumir compromissos públicos sobre valores ou prazos. A expectativa entre os militares é de que novas reuniões sejam realizadas para aprofundar o debate e discutir caminhos para ampliar os investimentos e redefinir a estratégia de defesa nacional no médio e no longo prazo.

EM TEMPO: Convém lembrar que foram nos governos Lula e Dilma que as Forças Armadas foram contempladas com verbas, equipamentos e transferência de tecnologia a cargo do Governo da França. Destacando caças e submarino. O que Bozo fez foi armar a população, liberando aquisição de armas e os CAC's. Ok, Moçada!

sábado, 24 de janeiro de 2026

“Só Lula pode nos livrar dos candidatos a vassalos de Trump”, diz Paulo Nogueira Batista Júnior

Economista afirma que a reeleição do presidente é decisiva para defender a soberania brasileira diante da escalada agressiva dos Estados Unidos


“Só Lula pode nos livrar dos candidatos a vassalos de Trump”, diz Paulo Nogueira Batista Júnior (Foto: ABR | Brasil247)

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Redação Brasil 247

247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior afirmou que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 é a principal barreira para impedir que o Brasil seja governado por vassalos de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. A declaração foi feita em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, em uma conversa dedicada aos riscos da conjuntura internacional e aos impactos dessa disputa sobre a política brasileira.

Para Paulo, o mundo atravessa um período de alta instabilidade, marcado por uma escalada de coerção e pressão por parte de Washington. Nesse cenário, ele sustenta que a disputa eleitoral no Brasil não pode ser tratada como uma alternância comum de poder, mas como uma escolha decisiva para preservar autonomia e soberania. H

Na entrevista, ao comentar declarações do ministro Fernando Haddad sobre a importância de Lula no cenário global, Paulo discordou do argumento de que a reeleição se justificaria sobretudo pela capacidade de interlocução diplomática. Para ele, o ponto central é a ameaça direta representada por uma direita que, segundo disse, endossou ações dos Estados Unidos contra a Venezuela.

"Nós estamos numa situação de alto risco por causa do comportamento da superpotência delinquente que são os Estados Unidos. Nós vimos o que eles são capazes de fazer na Venezuela. E nós estamos vendo o quê, Léo? Que todos os candidatos da direita à presidência, pré-candidatos, Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema, Ratinho, todos apoiaram a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. São todos candidatos a vassalos dos Estados Unidos", afirmou.

Em seguida, o economista reforçou que, na sua avaliação, Lula se tornou a única alternativa capaz de evitar que o país “caia na mão” desse campo político. "Então nós estamos numa situação que Lula é a única alternativa para evitar que o Brasil caia na mão dessa corja", declarou, explicando por que passou a adotar o lema: "Eu por isso que eu de Lula nunca critiquei, eu quero dizer o seguinte, que agora o mais importante é cerrar fileiras em torno do Lula para garantir a reeleição dele e afastar esse desastre".

Defesa da soberania nacional

Paulo argumentou que o apoio a uma intervenção estrangeira – e, especialmente, ao sequestro de um chefe de Estado – ultrapassa divergências ideológicas tradicionais e fere um princípio básico das relações internacionais: o respeito à soberania. Para ele, a estratégia mais eficiente no debate público não é “polemizar” sobre a figura do presidente venezuelano, mas sustentar um princípio universal.

"O ponto mais eficaz é a defesa intransigente da soberania de todos os países da América Latina. Isso é que é o ponto básico, não é ficar discutindo se o Maduro era um bom presidente ou não era", disse, ao avaliar que campanhas prolongadas de estigmatização moldaram percepções na opinião pública e reduziram a eficácia de debates personalistas.Na parte final da entrevista, ao ser questionado sobre pesquisas indicando apoio popular a ações contra a Venezuela, Paulo atribuiu esse quadro a processos de desinformação e à influência de veículos tradicionais. "A população brasileira, assim como a população europeia, assim como a população americana, sofre uma lavagem cerebral", afirmou, acrescentando que "a principal fonte de fake news ainda é a mídia tradicional".

Ao longo da conversa, o economista reiterou que o Brasil precisa se preparar para um mundo “duro”, em que pressões externas podem se intensificar. Mas, no recorte político interno, sua mensagem foi direta: a reeleição do presidente Lula, segundo ele, tornou-se um imperativo estratégico para impedir que o país seja conduzido por um projeto subordinado a Washington.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Todas as nações do mundo deveriam rejeitar o absurdo e perigoso "Conselho da Paz" de Trump

A recusa em aderir ao "Conselho da Paz" será um ato de respeito próprio nacional. A paz é um bem público global.

Por Jeffrey Sachs (Professor da Columbia University  e membro da ONU

23 de janeiro de 2026

Donald Trump (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)



Publicado originalmente no Common Dreams

Por Jeffrey Sachs e Sybil Fares - O chamado "Conselho da Paz" criado pelo presidente  Donald Trump  é profundamente prejudicial à busca pela paz e a qualquer nação que lhe conceda legitimidade. Trata-se de um cavalo de Troia para desmantelar as  Nações Unidas . Deveria ser rejeitado de imediato por todas as nações convidadas a participar.

Em sua  Carta , o Conselho de Paz (BoP) afirma ser uma “ organização internacional que busca promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e garantir a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos ”. Se isso lhe parece familiar, não é por acaso, pois esse é o mandato das Nações Unidas. Criada após a Segunda Guerra Mundial, a ONU tem como missão central a manutenção da paz e da segurança internacionais.

Não é segredo que Trump demonstra um desprezo aberto pelo  direito internacional  e pelas Nações Unidas. Ele próprio o afirmou durante seu  discurso  na Assembleia Geral em setembro de 2025 e, recentemente,  retirou-se  de 31 entidades da ONU. Seguindo uma longa tradição da política externa americana, ele tem violado sistematicamente o direito internacional, incluindo o bombardeio de sete países no último ano, nenhum dos quais autorizado pelo Conselho de Segurança e nenhum dos quais realizado em legítima defesa, nos termos da Carta das Nações Unidas (Irã, Iraque,  Nigéria ,  Somália ,  Síria ,  Iêmen e  Venezuela ). Agora, ele reivindica  a Groenlândia , com uma hostilidade descarada e aberta contra os aliados dos EUA na Europa.

E quanto a esse Conselho de Paz?

Em resumo, trata-se de um juramento de lealdade a Trump, que almeja o papel de presidente do mundo e árbitro supremo. O  Conselho Executivo do BoP será composto  por doadores políticos, familiares e assessores de Trump. Os líderes das nações que aderirem terão a oportunidade de interagir e receber ordens de figuras como  Marco Rubio , Steve Witkoff,  Jared Kushner  e  Tony Blair . O magnata dos fundos de hedge e  mega-doador do Partido Republicano,  Marc Rowan, também terá participação. Mais importante ainda, qualquer decisão tomada pelo BoP estará sujeita à aprovação de Trump.

Se a farsa dos representantes não for suficiente, as nações terão que pagar US$ 1 bilhão por um “assento permanente” no Conselho. Qualquer nação que participe deve saber o que está “comprando”. Certamente não está comprando paz ou uma solução para o povo palestino (já que o dinheiro supostamente se destina à reconstrução de Gaza). Está comprando acesso ostensivo a Trump enquanto isso servir aos seus interesses. Está comprando a ilusão de influência momentânea em um sistema onde as regras de Trump são impostas por capricho pessoal.

A proposta é absurda, sobretudo porque pretende "resolver" um problema que já possui uma solução global há 80 anos. As Nações Unidas existem precisamente para evitar a personalização da guerra e da paz. Foram concebidas após a devastação de duas guerras mundiais para estabelecer a paz global com base em regras coletivas e no direito internacional. A autoridade da ONU deriva, corretamente, da  Carta das Nações Unidas,  ratificada por 193 Estados-membros (incluindo os EUA, ratificada pelo  Senado federal dos EUA em julho de 1945) e fundamentada no direito internacional. Se os EUA não desejam cumprir a Carta, a Assembleia Geral da ONU deveria suspender as credenciais americanas, como já fez com a  África do Sul do Apartheid  .

O “Conselho da Paz” de Trump é uma afronta flagrante às Nações Unidas. Trump deixou isso explícito, declarando recentemente que o Conselho da Paz “ poderia ”  de fato substituir as Nações Unidas. Essa declaração por si só deveria encerrar a discussão para qualquer líder nacional sério. Participar, após tal declaração, é uma decisão consciente de subordinar o próprio país à autoridade global personalizada de Trump. É aceitar, de antemão, que a paz não é mais regida pela Carta da ONU, mas por Trump.

Ainda assim, algumas nações, desesperadas para se aproximarem dos EUA, podem morder a isca. Devem lembrar-se das sábias palavras do Presidente John F. Kennedy em  seu discurso de posse  : "  Aqueles que totalmente buscaram o poder cavalgando nas costas do tigre acabaram dentro dele ".

O histórico mostra que a lealdade a Trump nunca é suficiente para aplacar seu ego. Basta observar o longo desfile de ex-aliados, conselheiros e nomeados de Trump que foram humilhados, descartados e atacados por ele no momento em que deixaram de lhe ser úteis.

Para qualquer nação, participar do Conselho da Paz seria uma tolice estratégica. A adesão a esse órgão causará danos duradouros à reputação. Mesmo depois de Trump deixar a presidência, a associação com essa farsa será vista como um sinal de falta de bom senso. Permanecerá como uma triste prova de que, em um momento crítico, um sistema político nacional confundiu um projeto de vaidade com diplomacia, desperdiçando US$ 1 bilhão no processo.

Em última análise, a recusa em aderir ao "Conselho da Paz" será um ato de respeito próprio nacional. A paz é um bem público global. A ordem internacional baseada na ONU, por mais imperfeita que seja, deve ser reparada por meio do direito e da cooperação, e não substituída por uma caricatura idealizada. Qualquer nação que valorize o direito internacional e o respeito pelas Nações Unidas deve recusar-se imediatamente a associar-se a essa farsa do direito internacional.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Carney rasga a máscara do império: acabou o pacto e a farsa, começou a chantagem

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em parte, uma mentira administrada

Por Gustavo Tapioca (Jornalista)

22 de janeiro de 2026

 
Mark Carney (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

O discurso de Donald Trump, em Davos, expôs ao vivo a falência moral e política do projeto que pretende impor ao mundo. Entre ameaças, chantagens e o velho delírio imperial travestido de “patriotismo”, Trump reafirmou a doutrina do ultimato: obedeça ou sofra as consequências.

Foi exatamente esse mecanismo — a transformação do comércio, da diplomacia e até da soberania em instrumentos de coerção — que Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, denunciou com precisão cirúrgica. Em Davos, Carney anunciou o que muitos evitavam dizer em voz alta: a “ordem baseada em regras” acabou. E, com ela, acabou o teatro.

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em parte, uma mentira administrada. Um teatro funcional. Um pacto silencioso para manter o mundo operando. Mas, no discurso de Mark Carney encenação é declarada morta. O que entra em seu lugar é a era Trump em estado puro: coerção, tarifas como arma, soberania sob ameaça e um imperialismo que já não precisa fingir que respeita limites.

A “ordem baseada em regras” era uma mentira útil — e nós aceitamos viver dentro dela - Carney não começa com diplomacia. Começa com uma sentença de sinceridade brutal.

Sim: nós sabíamos que a história da “ordem baseada em regras” era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes escapariam delas quando fosse conveniente. Sabíamos que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. Sabíamos que o direito internacional era invocado com rigor variável, dependendo de quem era a vítima e de quem era o acusado.

E, mesmo assim, o mundo seguia.

Porque aquela mentira tinha função. Era o “pacto” que permitia previsibilidade mínima. A farsa era o amortecedor. A hipocrisia era a engrenagem que evitava o colapso. Carney diz isso sem floreio: a hegemonia americana — apesar dos abusos — forneceu “bens públicos” ao sistema: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro relativamente estável, uma arquitetura de segurança coletiva e um conjunto de mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, diz Carney, “pusemos o letreiro na janela”. Participamos dos rituais. E, na maior parte do tempo, evitamos apontar o abismo entre o discurso e a realidade.

Até que veio o trumpismo.

O momento em que o império decide parar de fingir - O que Carney chama de “fim do pacto” é o que o mundo sente como vertigem histórica: não se trata apenas de mais um ciclo político em Washington. Trata-se de uma mutação do próprio comportamento imperial.

Antes, o império precisava do verniz moral. Precisava do idioma da “democracia”, da “liberdade”, das “regras”, da “responsabilidade”. Mesmo quando violava esse idioma, ele o preservava como instrumento de legitimidade.

O trumpismo rompe essa obrigação.

Ele devolve a política internacional ao terreno nu e cru da coerção: manda quem pode, obedece quem precisa. E não pede desculpas. Ao contrário: exibe a brutalidade como virtude.

Carney descreve o presente como o fim de uma “ficção agradável” e o começo de uma “realidade dura”. O que isso significa, na prática? Significa que já não existe nem sequer o teatro que sustentava o sistema.

O mundo saiu da hipocrisia administrada e entrou na arbitrariedade declarada.

Tarifa não é imposto: é ultimato. Comércio não é acordo: é arma - O trecho mais revelador do discurso de Carney é quando ele identifica a mudança de natureza da economia global.

As tarifas deixam de ser política comercial e passam a ser instrumento de coerção. Cadeias de suprimento deixam de ser planejamento e passam a ser mecanismo de submissão. A integração econômica deixa de ser cooperação e passa a ser um sistema de alavancas usado para punir, chantagear e reordenar o tabuleiro a partir do interesse do mais forte.

Essa é a doutrina trumpista em estado bruto: o mundo não é uma mesa de negociação — é um ringue de pressão. E quem controla o acesso a mercados, tecnologia e financiamento controla o destino de países inteiros.

Não há nada de “loucura” nisso, no sentido clínico. Há método. Há projeto. Há cálculo.

A “loucura” trumpista é, na verdade, a racionalidade da chantagem.

Tucídides volta a governar: “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem” - Carney recorre ao clássico para traduzir a barbárie moderna: o mundo voltou a ser lembrado diariamente do princípio de Tucídides — “os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem”.

Mas ele não recorre a isso para celebrar o cinismo. Pelo contrário: para denunciar o que o cinismo produz.

Porque, quando o mundo aceita esse princípio como “natural”, ele passa a viver de joelhos. O problema deixa de ser apenas o abuso do império; passa a ser a adesão resignada dos demais.

É aqui que Carney muda o eixo: o combate começa com a recusa de aceitar o abuso como destino.

A parábola do lojista: quando o mundo põe o cartaz na vitrine para evitar problema - Carney utiliza uma das imagens mais fortes do discurso: a história do lojista que coloca um cartaz na vitrine — um slogan em que ele não acredita — apenas para evitar problemas. Não é fé. É autopreservação. Não é convicção. É medo.

Essa parábola é o retrato do sistema internacional. Durante décadas, muitos países aceitaram o ritual por prudência: repetiram discursos vazios, assinaram papéis, fingiram equivalências, toleraram seletividades, aceitaram humilhações. Tudo para evitar o pior.

Carney está dizendo: isso acabou.

A era Trump não permite mais o luxo da encenação. Porque ela não se satisfaz com o cartaz na vitrine. Ela quer a loja inteira. Ela quer o estoque. Ela quer o balcão. Ela quer a rua. Ela quer o mapa.

Groenlândia: quando o mapa vira mercadoria, a soberania vira detalhe - Há um símbolo que atravessa o momento global: a obsessão trumpista com a Groenlândia e o retorno de um discurso expansionista que parecia enterrado no século XX.

Carney reafirmou apoio à soberania da Groenlândia e da Dinamarca — e o gesto vale como alerta: se é preciso reafirmar soberania em público, é porque a soberania está sendo tratada como negociável.

Quando o império se permite brincar com território, o mundo inteiro entende a mensagem: ninguém está fora de risco. A soberania deixa de ser princípio e vira variável. O direito vira retórica. E o mapa passa a ser reorganizado pelo músculo, não pela norma.

Esse é o salto civilizatório para trás que o trumpismo tenta normalizar.

“Potências médias” ou colônias do século XXI: a convocação de Carney é um grito de sobrevivência - Carney não oferece consolo. Oferece tarefa.

A única resposta possível, ele sugere, é a união das chamadas “potências médias” — países que não são superpotências, mas têm peso, capacidade de coalizão e algum grau de autonomia estratégica — para impedir que o mundo seja reduzido ao cardápio de um punhado de impérios.

A frase que circulou como síntese brutal do momento — “se você não está à mesa, está no cardápio” — é a chave.

O trumpismo reorganiza a política internacional como banquete. E a pergunta, para países médios, é objetiva: vamos sentar na mesa ou aceitar virar prato?

A palavra proibida em Davos: honestidade - O fecho conceitual do discurso é simples e devastador: “o poder dos menos poderosos começa com honestidade”.

Honestidade, aqui, é abandonar a ilusão de que “cumprir regras” protege. É reconhecer que alianças não são seguros contra agressão. É entender que a integração econômica pode virar algema. É admitir que a norma internacional existe, mas vale — cada vez mais — apenas onde o poder permite.

A honestidade que Carney propõe é, no fundo, uma ruptura psicológica: parar de fingir que o império é árbitro e aceitar que ele se comporta como proprietário.

O Brasil na mira: soberania, tarifas, chantagem e a correia de transmissão bolsonarista - É aqui que o discurso de Davos encontra o Brasil com precisão cirúrgica.

O trumpismo não é um fenômeno isolado. Ele se espalha por meio de satélites: governos de extrema direita e elites subordinadas que repetem o roteiro do caos, da guerra cultural e da submissão econômica. O bolsonarismo, no Brasil, foi exatamente isso: a tentativa de rebaixar o Estado nacional a uma posição de dependência e obediência, enquanto destruía por dentro a democracia e a capacidade de decisão soberana.

A era Trump exposta por Carney é a era em que países como o Brasil podem ser empurrados para três armadilhas ao mesmo tempo:

1.       chantagem comercial (tarifas, restrições, condicionantes);

2.       chantagem tecnológica (dependência de plataformas, dados, infraestrutura);

3.       chantagem política (interferência, deslegitimação institucional, corrosão democrática).

Quando Carney diz que o pacto acabou, ele está dizendo também que o Brasil não pode mais operar como figurante de uma ficção. Porque, na realidade dura do trumpismo, a ingenuidade custa soberania.

E a tragédia brasileira é que existe, aqui, uma força política treinada para atuar como correia de transmissão desse projeto: um campo de extrema direita que já tentou implodir a democracia e que trabalha para reduzir o país a uma peça da engrenagem imperial. Não por patriotismo, mas por alinhamento servil.