quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Congressistas dos EUA cobram Rubio e Trump por tentativa de interferência nas eleições do Brasil

Grupo de 12 deputados cobra secretário de Estado dos EUA e aponta esforço do governo Donald Trump para influenciar a disputa presidencial no Brasil

Conteúdo postado por:  Paulo Emílio.

Publicado em 7 de outubro de 2026.



 

Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Donald Trump. Crédito: Reprodução

247 – Um grupo de 12 deputados democratas dos Estados Unidos acusou o governo do presidente Donald Trump de manter um “esforço contínuo” para influenciar as eleições brasileiras de 2026. Os parlamentares também cobraram explicações do secretário de Estado, Marco Rubio, sobre a revogação do visto diplomático da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Segundo o UOL, as acusações constam de uma carta enviada a Rubio na terça-feira (6). No documento, os congressistas classificam a retirada do visto da diplomata brasileira como uma medida “extraordinária e sem precedentes” e afirmam que a decisão representa uma nova escalada na deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Para os democratas, o episódio faz parte de uma sequência de ações da administração americana relacionadas à política interna brasileira. A carta sustenta que a revogação do visto de Viotti é a iniciativa mais recente do que os parlamentares descrevem como uma tentativa do governo Trump de influenciar a disputa eleitoral de 2026.

Deputados apontam sequência de ações contra o Brasil

Os congressistas citam as tarifas de 50% impostas ao Brasil e sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), além de medidas adotadas por Washington durante o processo contra o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL).

Segundo os parlamentares, essas iniciativas estiveram relacionadas ao que classificam como uma tentativa fracassada do governo Trump de proteger o ex-presidente brasileiro.

A carta também menciona contatos de integrantes da administração dos EUA com Bolsonaro e questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro. Na avaliação dos democratas, esse conjunto de ações demonstra uma tentativa de influenciar assuntos políticos internos do Brasil de maneiras que poderiam ameaçar as instituições democráticas e o processo eleitoral.

Os deputados afirmam ainda que medidas adotadas pelo Departamento de Estado teriam colocado em risco uma aproximação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Eles lembram que o presidente estadunidense elogiou Lula depois de um encontro entre os dois e manifestam preocupação com ações posteriores que, segundo a carta, buscariam “fabricar esta crise diplomática” a poucos meses das eleições brasileiras.

Revogação de visto entra no centro da crise

Segundo os congressistas, a revogação do visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti teria ocorrido em retaliação à decisão brasileira de negar vistos a dois integrantes do Departamento de Estado: Riley M. Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto da mesma área.

Os deputados cobram de Rubio informações sobre o objetivo da viagem dos dois funcionários ao Brasil e sobre quais reuniões estavam previstas.

A carta cita reportagens segundo as quais autoridades americanas pretendiam levantar questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro. O governo brasileiro teria negado os vistos por considerar que as visitas poderiam representar uma nova tentativa de influência nas eleições presidenciais de 2026.

Os parlamentares também querem saber se a Casa Branca participou da decisão de retirar o visto de Viotti e se Trump foi informado previamente.

Outro questionamento é se Rubio ou outras autoridades do Departamento de Estado autorizaram contatos com Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro ou representantes deles sobre a revogação do visto da embaixadora.

Democratas cobram provas sobre sistema eleitoral

Um dos principais pontos da carta envolve os questionamentos de autoridades americanas sobre a credibilidade das eleições brasileiras.

Os deputados exigem que o governo Trump apresente evidências que sustentem eventuais dúvidas sobre o sistema eleitoral do Brasil.

“Por que autoridades do Departamento de Estado buscaram examinar o sistema eleitoral brasileiro em meio a uma campanha presidencial ativa e quais evidências específicas o Departamento possui de que o sistema eleitoral do Brasil pode não ter credibilidade?”, questionam os congressistas.

O grupo também pergunta diretamente se o governo estadunidense considera a eleição presidencial brasileira de 2022 livre e justa e se o Departamento de Estado dispõe de alguma evidência de que a eleição de 2026 não será.

Relação com China e cooperação entram no alerta

Além das consequências políticas, os democratas cobram informações sobre eventuais avaliações do governo americano a respeito dos efeitos das medidas sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos.

Entre os possíveis impactos mencionados pelos congressistas estão uma maior aproximação brasileira com a China e prejuízos à cooperação bilateral no combate ao narcotráfico, na segurança regional e no comércio.

Os deputados defendem que as relações entre Washington e Brasília sejam orientadas pelo respeito à decisão soberana dos eleitores brasileiros.

Na carta, afirmam que a relação bilateral deveria se basear no respeito às escolhas democráticas dos brasileiros e “não ser determinada pelo fato de o candidato favorecido pelo presidente Trump vencer”.

Rubio tem prazo até 20 de outubro

Os 12 parlamentares deram ao Departamento de Estado prazo até 20 de outubro para responder por escrito aos questionamentos.

Assinam o documento Sydney Kamlager-Dove, Gregory Meeks, James McGovern, Pramila Jayapal, Nydia Velázquez, Jonathan Jackson, Sylvia Garcia, Dina Titus, Yvette Clarke, Mike Quigley, Jasmine Crockett e Madeleine Dean. Meeks é o principal democrata da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes.

A nova cobrança amplia a pressão dentro dos Estados Unidos sobre a atuação do governo Trump em relação ao processo eleitoral brasileiro.

Em 29 de setembro, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch enviaram outra carta a Rubio na qual alertaram para uma possível interferência na eleição presidencial brasileira. Eles perguntaram se o governo americano se comprometeria a reconhecer o resultado certificado das urnas e a manter relações diplomáticas normais com o candidato escolhido pelos eleitores.

Dias antes, 30 deputados e o senador independente Bernie Sanders também haviam questionado a política da administração Trump para o Brasil. De acordo com aquela carta, as medidas adotadas por Washington indicavam uma “aparente tentativa de interferir e potencialmente minar” as eleições brasileiras.

As manifestações anteriores citaram tarifas, investigações comerciais e a aproximação de Trump com o senador Flávio Bolsonaro (PL) entre os exemplos de possível interferência. A carta dos três senadores também cobrou explicações do Departamento de Estado sobre sua atuação junto a países do Hemisfério Ocidental no acompanhamento de processos eleitorais e judiciais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Entre radicalização à esquerda e montagem de frente ampla, PT começa a viver eleição da vida

Dilema é o primeiro a ser resolvido para enfrentar o segundo turno. Propostas antagônicas vão de aumento do salário mínimo a Geraldo Alckmin no Ministério da Fazenda; qual caminho seguir para ganhar o não eleitor do primeiro turno?

Por Marco Damiani (Jornalista)

Publicado em 5 de outubro de 2026.



 

 

Comício de Lula em Salvador. Crédito: Ricardo Stuckert

O PT está diante da eleição da vida. Após o desempenho arrasa-quarteirão do PL na eleição parlamentar, o partido não teve tempo de curar a ressaca e já entrou em um dilema. Claramente, em posicionamentos expressos ao longo do ‘day after’, líderes da legenda apontaram caminhos diferentes sobre como realizar uma virada inédita na eleição presidencial.

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Pela esquerda, a defesa é por medidas de governo como um reajuste forte no salário mínimo, a ser jogado dentro do pacote de bondades que o presidente Lula foi anunciando ao longo do primeiro turno. Com mais pragmatismo, uma ala parece ter tocado a atenção presidencial ao sugerir o anúncio do vice-presidente Geraldo Alckmin como ministro da Fazenda no próximo mandato.

As duas propostas são incompatíveis. Turbinar o mínimo levantaria novas críticas de irresponsabilidade fiscal. Indicar Alckmin seria passar a mensagem da austeridade, ao menos até um certo ponto. Essa linha combina mais com a anunciada disposição de Lula, logo após o anúncio do resultado, de dar mais protagonismo ao vice na campanha.

Para acirrar o discurso expressamente dirigido à base popular do partido, a defesa de um aumento imediato do salário mínimo vem acompanhada da implantação da tarifa zero no transporte público. Já se calculam os custos em R$ 100 bilhões, para implantação gradativa a partir das maiores cidades do país.

Em paralelo, um consenso que se vai formando entre lideranças do partido é o de que é preciso acirrar a desconstrução de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, passar mensagens de futuro para as pessoas. A dúvida presente é sobre como essas duas linhas de abordagem serão exploradas.

O foco está no campo dos 30,2 milhões de eleitores que se abstiveram de votar em primeiro turno. Esse contingente não costuma ser muito sensível a apelos de última hora. O histórico mostra números muito semelhantes nos dois turnos. Somados aos votos brancos e nulos, os não eleitores compuseram 25% do eleitorado de domingo. A aproximação do marqueteiro João Santana à campanha de Lula é um sinal de que haverá mudanças na forma das peças publicitárias. Cobra-se coordenação entre as várias frentes de comunicação da campanha, da TV à internet, passando pelos atos de rua e materiais de campanha. Notou-se que Lula, de campanhas vitoriosas com jingles históricos, não teve este ano uma música para chamar de sua. Bola fora.

Passado o impacto inicial da derrota em primeiro turno, houve reconhecimento de que Lula teve um bom desempenho, atribuindo-se a fatores inesperados a dianteira de Flávio. No Nordeste, especialmente, as dúvidas sobre a existência de compra de votos se multiplicam. A Polícia Federal anunciou a apreensão de R$ 30 milhões em espécie, no curso do primeiro turno, que seriam destinados a capturar eleitores. O questionamento faz sentido.

É falso dizer que há desânimo no partido, mas sim grande preocupação. O entendimento geral é o de que é possível virar, dada a menor diferença da história entre dois adversários que escalaram ao segundo turno. Fica a saber se o PT irá vencer o maior desafio de sua vida. 

Assista o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=TdsXKx1QIxM

EM TEMPO: Sou a favor que a campanha do presidente Lula seja pautada em convencer e politizar as pessoas a votarem no melhor, a favor da Democracia, da Soberania Nacional, da Petrobras, em Defesa  do Meio Ambiente, das Terras Raras, do aumento real do Salário Mínimo, dentre outros. Creio que o discurso deve defender as questões específicas, mas mostrando de forma didática que o candidato da Extrema-Direita será manobrado pelo governo Trump, o que causará enorme prejuízo nas condições de vida da nossa população. Sendo assim, o discurso deve ser pautado e direcionado para conquistar o eleitorado de Centro Direita (maioria dos eleitores) a se engajarem em uma Frente Ampla em defesa do país e do nosso futuro. Portanto, sem ódio, com disciplina e sem radicalização. Tentar conquistar, pacientemente,  os eleitores que se encantaram com um candidato da Extrema Direita, é preciso. BORA, LULA!

“Amanhã começa uma nova eleição”, diz Lula, após resultado do primeiro turno

Após disputa acirrada nas urnas, presidente projeta segundo turno e prega união para mostrar diferenças de propostas

Conteúdo postado por: Guilherme Levorato



 

Luiz Inácio Lula da Silva após votar em São Bernardo do Campo (SP), em 4 de outubro de 2026. Crédito: REUTERS/Alexandre Meneghini

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, em entrevista coletiva concedida após a apuração dos votos no primeiro turno das eleições, que a disputa entra em uma nova fase decisiva e que o trabalho de mobilização recomeça imediatamente, segundo informações concedidas em pronunciamento oficial. No pleito realizado neste domingo (4), Flávio Bolsonaro (PL) alcançou 47,1% dos votos válidos, enquanto o atual chefe do Executivo registrou 45,08%, confirmando a realização do segundo turno entre os dois candidatos.

Durante a declaração à imprensa, Lula ressaltou o papel do eleitorado e celebrou o exercício democrático no país. “Acabamos de ter uma lição da democracia no Brasil, por votação do povo brasileiro. Precisamos começar essa entrevista agradecendo aos milhões de brasileiros que foram às urnas dar seu voto”, declarou o presidente.

O candidato do PT também comentou sobre as expectativas criadas para a etapa inicial da eleição e projetou o cenário de debates para o período decisivo que se inicia. “O resultado, muitas vezes, é inesperado. Confesso que estava convencido que ia ganhar no primeiro turno. Mas eu também já pensei isso outras vezes. A gente tem o segundo turno, e o segundo turno é a hora da prova dos nove. É a hora de a gente mostrar a verdadeira fotografia do Brasil, de hoje e do Brasil que a gente quer”, afirmou.

Ao projetar o embate direto contra o adversário, Lula ressaltou que a nova fase permitirá um confronto mais claro de projetos para o país. “Então, a partir de amanhã, a gente começa uma nova campanha. Uma campanha entre apenas dois candidatos, em que a gente vai poder mostrar a diferença entre as propostas”, concluiu.

Assista o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=Az39nJBZWCU

sábado, 3 de outubro de 2026

Os EUA fecham suas representações antes da eleição. O que está sendo preparado para o dia seguinte

A dois dias da votação, Washington suspende seus serviços consulares em todo o Brasil e introduz um sinal de excepcionalidade numa eleição já marcada por pressão externa e disputa sobre a legitimidade das instituições

Por Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)



 

Bandeiras do Brasil e dos EUA. Crédito: Embaixada dos EUA/Divulgação

O fechamento não pode ser lido isoladamente. Ele ocorre depois de sanções, pressões sobre o STF, ações voltadas ao sistema eleitoral e uma disputa aberta pela influência dos Estados Unidos no hemisfério. A questão agora é entender que função esse gesto cumpre antes do voto e, sobretudo, depois dele.

O sinal antes do voto

Faltam quarenta e oito horas para a abertura das urnas e os Estados Unidos suspendem os serviços consulares de sua embaixada e de seus consulados no Brasil. Funcionários são orientados a permanecer em casa. Cidadãos americanos recebem a recomendação de não se aproximar das instalações diplomáticas. Washington fala em preocupações de segurança e para aí. Não informa quem ameaça, o que foi ameaçado, qual a capacidade de quem estaria por trás disso nem por que um episódio inicialmente associado à embaixada em Brasília exige uma medida que alcança todo o país. A Austrália fecha sua embaixada por um dia e reproduz o alerta americano. 

A dimensão da medida contrasta com a informação disponível. O próprio Departamento de Estado mantém o Brasil no nível 2 de seu alerta de viagem, por criminalidade e sequestro. Não há elevação nacional por terrorismo, crise política ou violência eleitoral. A excepcionalidade aparece nas representações americanas, não na classificação geral do país. É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas consular.

Uma operação psicológica não precisa começar com uma mentira. O elemento decisivo pode ser um acontecimento real, uma ação de Estado, uma imagem ou um sinal capaz de reorganizar a percepção de determinado público. Não há documento público que permita afirmar que o fechamento tenha sido formalmente planejado como uma operação psicológica, mas seria igualmente grave analisar uma ação dessa natureza sem observar seu efeito informacional. Uma potência estrangeira interrompe seus serviços diplomáticos a dois dias de uma eleição presidencial e não explica de maneira suficiente a dimensão da resposta. O resultado imediato é previsível. Instala-se a percepção de que existe alguma coisa grave que o público ainda não sabe. O prédio fechado passa a falar no lugar da nota oficial. A pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu e passa a ser o que pode acontecer.

Esse movimento encontra um terreno que já vinha sendo preparado. Em julho de 2025, Donald Trump declarou uma emergência nacional em relação ao Brasil. A ordem executiva afirmou que atos do governo brasileiro representavam uma ameaça à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos. O documento atacou diretamente Alexandre de Moraes, defendeu Jair Bolsonaro, questionou decisões do Supremo e incluiu a eleição presidencial brasileira de 2026 entre as preocupações de Washington. Também abriu caminho para tarifas adicionais e determinou acompanhamento permanente da situação brasileira pelo secretário de Estado. O governo americano, portanto, não chega a esta eleição como espectador. Antes mesmo da campanha entrar em sua reta final, questões internas do Brasil já haviam sido incorporadas à agenda de segurança nacional dos Estados Unidos.

A pressão atravessou a economia, o Judiciário e o processo eleitoral. Em julho deste ano, o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao país antes da eleição. Autoridades brasileiras disseram à Reuters que a visita buscaria lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral. Washington negou essa intenção e afirmou que a agenda seria rotineira. A divergência não elimina o dado central. O sistema eleitoral brasileiro já estava diretamente no campo de atuação diplomática americana. 

Em 29 de setembro, três senadores da Comissão de Relações Exteriores dos Estados Unidos escreveram ao secretário Marco Rubio acusando o governo Trump de promover uma campanha de pressão sobre o Brasil e perguntaram formalmente se Washington reconheceria o resultado certificado da eleição independentemente do vencedor. No documento, citam tarifas, sanções, a aproximação com Flávio Bolsonaro e ações que, segundo eles, podem enfraquecer a confiança nas instituições brasileiras. É uma acusação formulada por adversários políticos de Trump, mas dentro do próprio Congresso americano e sustentada por uma sequência concreta de decisões da administração.

No dia seguinte, a Reuters revelou que a Abin havia apresentado a representantes franceses e alemães alegações de interferência estrangeira na eleição brasileira. O material discutido nas reuniões descrevia ações americanas que iam de lawfare a formas abertas de interferência. São avaliações da inteligência brasileira e precisam ser tratadas como tal, mas já não é possível reduzir a discussão sobre ingerência externa a paranoia partidária ou especulação de rede social. O tema chegou aos serviços de inteligência, à diplomacia europeia e ao Congresso dos próprios Estados Unidos. Em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República para investigar informações sobre recursos americanos destinados a projetos voltados contra a atuação do Supremo. 

A AGU afirmou que, se comprovado, financiamento estrangeiro usado para ataques sistemáticos às instituições brasileiras poderia configurar uma estrutura de ingerência externa. A investigação ainda precisa estabelecer o que efetivamente ocorreu, mas o fato político já existe. O Estado brasileiro considerou suficientemente grave a possibilidade de interferência financiada do exterior para mobilizar seus órgãos de investigação às vésperas da eleição. No dia seguinte, as representações americanas fecharam.

É essa cronologia que dá ao episódio seu verdadeiro peso. A votação de domingo ainda não produziu resultado, violência ou crise institucional, mas o ambiente já recebeu um sinal oficial de anormalidade emitido pelos Estados Unidos. O efeito estratégico do fechamento está justamente aí. Ele introduz um marcador de risco antes de a eleição acontecer. Se o processo transcorrer normalmente, o episódio pode desaparecer tão rápido quanto surgiu. Se houver manifestação, confronto, contestação das urnas ou questionamento do resultado, o fechamento poderá adquirir outro significado e ser recuperado como indício de que o risco já era conhecido, de que havia instabilidade antes da votação ou de que as autoridades brasileiras não controlavam plenamente a situação. Não é necessário formular uma acusação explícita quando um sinal já está disponível para ser reutilizado depois.

Isso ganha peso num processo eleitoral em que a legitimidade das urnas já está sob disputa. O problema não começa na noite da apuração. Começa antes, quando diferentes forças procuram estabelecer quais interpretações estarão disponíveis caso o resultado contrarie seus interesses. Uma eleição não termina politicamente quando acaba a contagem dos votos, mas quando o resultado é reconhecido como legítimo por atores capazes de produzir consequências. No Brasil de 2026, essa disputa já ultrapassou as fronteiras nacionais. O fato de senadores americanos terem considerado necessário perguntar a Marco Rubio se o governo Trump reconhecerá formalmente o resultado certificado mostra que a questão não é abstrata.

Há também uma base material que a linguagem diplomática não consegue esconder. A atual Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos declara que Washington pretende reafirmar sua predominância no Hemisfério Ocidental, garantir acesso a locais estratégicos, proteger cadeias de suprimento e reduzir a presença de competidores externos sobre ativos considerados vitais. O documento prevê ainda o uso combinado de comércio, segurança, inteligência e presença militar e trata como objetivo americano desencorajar países da região de aprofundar determinadas relações com outras potências. A América Latina volta a ser encarada abertamente como espaço estratégico de disputa. Recursos naturais, infraestrutura, cadeias produtivas, tecnologia, rotas marítimas e alinhamento político fazem parte da mesma equação. O Brasil, pela dimensão territorial, econômica e política que possui, ocupa posição central nesse tabuleiro.

Estados defendem interesses concretos. Potências preservam áreas de influência, protegem mercados, recursos, rotas e posições estratégicas. Quando um país com o peso do Brasil tenta ampliar sua margem de decisão externa, entra em choque com projetos de poder que procuram limitar essa autonomia. Washington não precisa gostar ou desgostar de um governo brasileiro. Precisa avaliar se esse governo facilita ou dificulta seus objetivos. É nesse sentido que Lula importa para essa disputa. Seu governo representa uma orientação de política externa que reivindica autonomia, mantém relações profundas com a China, participa dos BRICS e procura aumentar a margem de decisão brasileira num sistema internacional em transição. A eleição define quem administrará essa relação de forças.

Nada disso autoriza preencher as zonas ainda obscuras com fantasia. Não sabemos quem fez a ameaça que Washington diz ter recebido, qual sua gravidade, quais informações permanecem sob sigilo ou se o fechamento foi concebido desde o início para produzir efeito eleitoral. O que sabemos é que ele ocorre dentro de uma sequência em que o governo americano já usou instrumentos econômicos contra o Brasil, atacou decisões do Supremo, colocou formalmente a eleição de 2026 dentro de sua agenda de segurança nacional, tentou enviar funcionários para discutir integridade eleitoral, aproximou-se da candidatura de Flávio Bolsonaro e passou a ser acusado de interferência tanto por autoridades brasileiras quanto por integrantes do Senado dos próprios Estados Unidos. Retirar o fechamento dessa sequência seria produzir uma leitura artificial do fato.

A questão brasileira, portanto, é muito mais séria do que saber se a porta de uma embaixada estará aberta na segunda-feira. O que está em disputa é a capacidade do país de conduzir sua eleição sem que uma potência estrangeira ajude a definir antecipadamente o ambiente psicológico no qual seu resultado será recebido. Se existe uma ameaça concreta contra instalações diplomáticas, sua dimensão interessa diretamente às autoridades brasileiras porque o território é brasileiro. Se uma medida de alcance nacional foi tomada com base nessa ameaça, a proporcionalidade entre risco e resposta também interessa ao Brasil. Washington conhece a informação que motivou sua decisão. A sociedade brasileira conhece apenas a decisão. É nessa distância entre o fato conhecido e aquilo que ainda precisa ser imaginado que operações de influência encontram espaço para produzir efeitos.

Dois dias antes da eleição, os Estados Unidos introduziram um novo elemento nesse ambiente. O que acontecer depois das urnas mostrará que uso político poderá ser feito dele.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>  


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Abin, França e Alemanha: o que está acontecendo com a eleição brasileira

A resposta está muito além das fake news. A articulação da Abin com estruturas europeias expõe uma disputa por soberania que já atravessa as eleições de 2026

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)

Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

A quatro dias do primeiro turno, a denúncia de interferência estrangeira mostra que a eleição brasileira já é observada como questão de inteligência, poder tecnológico e soberania nacional.

Quatro dias antes do voto

Em 30 de setembro de 2026, uma informação mudou o enquadramento da eleição brasileira. A Reuters revelou que representantes da inteligência do país receberam, entre 9 e 11 de setembro, uma delegação francesa e alemã em Brasília. Na mesa estavam interferência estrangeira, plataformas digitais e formas de resposta antes da votação. Pela França vieram integrantes da Viginum, especializada em interferência digital estrangeira, e da Arcom, reguladora de mídia e comunicação. A Alemanha enviou representantes de sua Agência Federal de Redes. Os documentos examinados pela Reuters registram entre os objetivos da missão a preparação de respostas coordenadas para o processo eleitoral de 2026.

Foi nesse encontro que representantes brasileiros falaram em interferência proveniente dos Estados Unidos e da Rússia. As duas atribuições, porém, não aparecem sustentadas da mesma forma. Segundo o relato conhecido, a atuação norte-americana teria ido do lawfare a formas de interferência reconhecidas publicamente. Sobre a Rússia, o documento acessado pela reportagem não apresenta evidência específica. Colocar as duas acusações no mesmo plano apagaria justamente o que a informação disponível permite distinguir.

A composição da reunião ajuda a entender por que ela importa. Viginum, Arcom e a agência alemã não foram a Brasília para discutir apenas uma postagem falsa ou um vídeo adulterado. São estruturas que lidam com regulação, redes, segurança e interferência. A presença delas indica que o problema eleitoral brasileiro já está sendo observado como algo que combina tecnologia, poder estatal e capacidade de influência transnacional.

A Abin vinha preparando esse terreno conceitual. Em seu documento de desafios para 2026, descreveu o domínio digital como arena de competição geopolítica, apontou a dependência brasileira de infraestrutura tecnológica estrangeira como vulnerabilidade e admitiu que grandes plataformas podem funcionar como vetores de influência dos Estados onde estão sediadas. O mesmo documento reúne guerra cognitiva, espionagem, coerção e infraestrutura crítica dentro de um espectro híbrido. A Política Nacional de Inteligência, por sua vez, trata interferência externa como atuação deliberada voltada a influenciar os rumos políticos do país em benefício de interesses estrangeiros.

O risco, portanto, não começa apenas quando alguém tenta tocar na urna. Pode aparecer muito antes, na capacidade de uma potência, empresa ou rede política alterar o ambiente em que o país decide. Às vésperas da votação, a questão é simples e incômoda. Quem possui meios para condicionar a decisão brasileira, por quais caminhos e a serviço de quais interesses?

A guerra está atrás da notícia

Durante muito tempo, o debate público sobre guerra informacional ficou preso à mentira visível. Procurava-se a postagem falsa, a fotografia adulterada, o vídeo manipulado, a frase inventada. Era necessário fazer isso, mas nunca bastou. Uma operação pode usar conteúdo verdadeiro, falso ou apenas deslocado de contexto. O que lhe dá força está na organização, no financiamento, na infraestrutura, na escolha do alvo e na capacidade de repetir um estímulo até transformá-lo em ambiente.

Minha pesquisa foi caminhando nessa direção ao longo dos últimos anos. Não por antecipação profética, muito menos por desejo de reivindicar primazia. Os próprios objetos impunham a mudança. Ao estudar metaintermediação algorítmica, autonomia cognitiva, gerrymandering digital e operações psicológicas, o problema reaparecia sob formas diferentes. Plataformas não transportam apenas informação. Classificam públicos, distribuem visibilidade, antecipam preferências e alteram o campo em que decisões são tomadas.

Em julho de 2025, eu já discutia o risco de uma infraestrutura capaz de antecipar escolhas interferir na própria formação da autonomia. Meses depois, ao tratar da guerra informacional em direção a 2026, a questão aparecia em termos de detecção, antecipação e capacidade estatal de resposta. A unidade de análise deixava de ser a peça isolada. O que precisava ser seguido era a operação.

A Viginum chegou institucionalmente a uma formulação muito próxima. O órgão francês deixa claro que não é uma agência de checagem de fatos. Seu objeto é o modo operatório informacional, observado por indicadores técnicos, comportamento dos operadores, coordenação, ferramentas, procedimentos e infraestrutura. Em junho de 2026, esse conceito foi incorporado a um marco comum do mecanismo de resposta rápida do G7, numa tentativa de deslocar a atenção das narrativas para os meios que tornam uma campanha possível.

Saber que uma mensagem é falsa ajuda a conter sua circulação. Descobrir quem a produziu, como foi distribuída, quais contas atuaram em conjunto, de onde vieram os recursos e que sistemas ampliaram seu alcance aproxima a investigação da estrutura responsável pelo efeito político. É nesse terreno que inteligência e jornalismo investigativo começam a se encontrar.

Recuo humilhante da Globo dá impulso à vitória de Lula em primeiro turno

Cancelamento do debate põe a emissora dos três patetas a nu; favorecimento ao candidato Flávio Bolsonaro dá chabu diante da covardia do próprio; presidente lidera Datafolha em todos os cenários; vai rolar!

Por Marco Damiani

Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro



Da esquerda para a direita, José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho Crédito: Tomás Arthuzzi / Grupo Globo

Mesmo para uma máquina de comunicação que tem em sua ficha corrida episódios aéticos e vexatórios, como a não cobertura jornalística das campanhas das Diretas, em 1984; o escândalo Proconsult, de contagem fajuta de votos para prejudicar a vitória de Leonel Brizola, em 1982, na disputa pelo governo do Rio de Janeiro; a edição canhestra do debate Lula-Collor, em 1989, em que até uma pasta vazia para o corrupto alagoano foi providenciada pelo chefão Boni; e muitos outros, lembrem aí, até mesmo para a Rede Globo o cancelamento do debate de candidatos a presidente marcado para a noite desta quinta-feira, 1, é um marco histórico de cabeça para baixo.

O recuo humilhante em horário nobre deixou claro para o Brasil toda a má intenção da emissora dos três patetas, digo, irmãos Marinho, embutida na formatação do programa. O modelo sempre foi o de prejudicar o candidato do campo popular e democrático, que seria jogado em uma arena de extremistas para ser chacinado entre provocações e distorções de informações. Estava, sim, tudo armado para que a cadeira do candidato à reeleição ficasse vazia, que a ela se dirigissem perguntas, com tréplicas, apesar do mutismo da réplica, em que Lula seria atingido por adjetivos pejorativos.

O probleminha, porém, foi que até o TSE presidido por Nunes Marques, o KN das relações com Daniel Vorcaro, com André ‘terrivelmente vocês sabem o que’ Mendonça, no pleno de 9 ministros, escandalizou-se com o ardil, proibindo-o. Justiça feita. Mais ainda, atrapalhou o plano a covardia de Flávio Bolsonaro, que, diante da presença de última hora do juvenil postulante Renan Filho, correu da raia. Haveria muito escândalo a explicar. Entraria leão e sairia gatinho.

Igualmente, se tudo desse certo para os interesses dos Marinho, o estúdio global poderia virar palco de uma aliança a favor da extrema-direita, com Zema carregando seu impressionante 1% nas pesquisas e Caiado, com seus dentes trancados, afirmando que tudo pode, menos Lula. Mais claramente, tudo redondo para o filho do Bozo sair fortalecido. De chabú!

A noite global já começou com os burros n’água quando, no Jornal Nacional, precisou exibir os resultados da pesquisa Datafolha divulgada hoje, em que Lula vence seus adversários, um a um, em primeiro e segundo turnos. Duro de apresentar, mas não havia, afinal, outro jeito. O troco viria no debate armado para promover o Bonzinho, só que não.

Ao se desmascarar diante de sua audiência, abortando o debate minutos antes de seu início, simplesmente porque não haveria mais como seguir o roteiro de ataque a Lula, a Globo deixou todo o paramento ir-se, ficou nua, revelou-se, mostrou o que realmente é: uma grande, pesada e antiga engrenagem de manipulação política.

Parabéns ao presidente Lula, que acertou em cheio ao recusar o Cavalo de Troia que lhe foi oferecido. Está agora sendo entrevistado por uma grande plataforma de internet, pavimentando o caminho para a vitória. Perdem todos os envolvidos na farsa grotesca. Vencem os democratas, com destaque para a militância do PT, que tem saudado, em multidões, o brio, a garra e a disposição do presidente para salvar o Brasil do golpismo bolsonarista. A vitória em primeiro turno, graças à rajada de Uzi disparada pela Globo, nunca foi uma possibilidade tão real e próxima quanto agora.

Viva Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil!

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A volta da Petrobras à distribuição de combustíveis: entenda por que esta notícia anunciada por Lula é tão importante

Presidente anuncia intenção de comprar uma distribuidora e recoloca em debate uma decisão criminosa do governo Bolsonaro: a privatização da BR Distribuidora

Conteúdo postado por:  Redação Brasil 247.

Publicado em 30 de setembro de 2026



 

Lula em entrevista a influenciadores. Crédito: Ricardo Stuckert

247 – O presidente Lula anunciou a intenção de fazer a Petrobras voltar ao mercado de distribuição de combustíveis por meio da aquisição de uma distribuidora. A declaração, feita a quatro dias do primeiro turno da eleição presidencial, tem uma dimensão que vai muito além de uma eventual operação empresarial: significa reconstruir um instrumento estratégico perdido pela estatal com a privatização da BR Distribuidora durante o governo de Jair Bolsonaro.

A iniciativa surge também em um momento de volatilidade internacional dos preços do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio. O governo vem utilizando diferentes instrumentos para impedir que a escalada das cotações internacionais seja integralmente transferida para a população brasileira, incluindo a manutenção de um auxílio de R$ 2,12 por litro de diesel.

Lula defende que a Petrobras tenha novamente presença direta na distribuição, um dos segmentos fundamentais da cadeia de combustíveis. Hoje, a estatal é extremamente relevante na produção e no refino, mas não possui mais a antiga estrutura que levava sua atuação diretamente até a distribuição e os postos.

É justamente nesse ponto que se encontra a importância estratégica do anúncio.

O desmonte da BR Distribuidora

A BR Distribuidora foi durante décadas um dos principais braços da Petrobras. Criada em 1971, permitia que a companhia atuasse de maneira integrada, do petróleo extraído no campo até a distribuição dos derivados no mercado nacional.

O processo de privatização começou antes do governo Bolsonaro, com a abertura de capital de 2017, quando 28,75% das ações foram vendidas. Mas foi em julho de 2019 que a Petrobras, já sob Bolsonaro, perdeu o controle da companhia ao vender mais 30% do capital. A operação movimentou R$ 8,56 bilhões, segundo documentos analisados pelo Tribunal de Contas da União. A participação da Petrobras caiu para menos de 50%, transferindo efetivamente o controle da distribuidora ao mercado privado.

A própria Petrobras registrou posteriormente a operação como a primeira privatização de uma empresa estatal brasileira realizada por meio do mercado de capitais.

O processo seria concluído em 2021, quando a Petrobras vendeu sua participação remanescente. A antiga BR passou a se chamar Vibra Energia e a Petrobras deixou completamente o capital da empresa.

Vista do ponto de vista estratégico, a privatização da BR foi um crime contra os interesses nacionais. O Brasil abriu mão de uma companhia construída durante décadas, com enorme capilaridade, conhecimento do mercado e presença em praticamente todo o território brasileiro. Quando ocorreu a perda de controle, a BR era a maior distribuidora do país, tinha cerca de 30% do mercado, quase 8 mil postos e atuação em 99 aeroportos, segundo informações registradas pelo próprio TCU.

Não se tratava, portanto, simplesmente de vender ações. O Estado brasileiro abriu mão de um instrumento capaz de conectar a produção e o refino da Petrobras ao mercado consumidor.

“Por que vender a BR? O que ganhamos com a privatização?”, questionou Lula ao anunciar sua intenção de reconstruir a presença da Petrobras nesse segmento.

Por que uma distribuidora faz diferença

O preço que chega ao posto não depende exclusivamente da Petrobras. Entre a refinaria e o consumidor existem distribuição, mistura obrigatória de biocombustíveis, tributos e margens de revenda.

Isso significa que reduzir o preço na refinaria não garante automaticamente que toda a redução chegue à bomba.

Uma Petrobras novamente presente na distribuição ampliaria sua capacidade de acompanhar a formação dos preços ao longo da cadeia e de competir diretamente em um mercado estratégico. Não significaria que o governo passaria a determinar administrativamente o preço cobrado por todos os postos, mas devolveria à estatal presença empresarial em um elo do qual ela se retirou.

A questão ganhou ainda mais relevância diante das transformações recentes do mercado brasileiro de combustíveis. Levantamento publicado em setembro mostrou que derivados vendidos por algumas refinarias privatizadas chegaram a apresentar preços muito superiores aos praticados pela Petrobras. Especialistas ouvidos na reportagem apontaram que a venda de ativos isolados produziu, em determinados mercados regionais, elevada concentração em vez da concorrência esperada.

É justamente esse tipo de experiência que reforça a discussão sobre o papel estratégico de uma companhia integrada.

Petrobras do poço ao consumidor

A lógica defendida por Lula é recuperar parte da integração histórica da Petrobras.

Uma empresa de petróleo não precisa necessariamente se limitar à extração do óleo ou ao refino. As grandes companhias internacionais do setor atuam em diferentes etapas da cadeia porque essa integração proporciona escala, informações sobre o mercado, capacidade logística e maior resiliência diante das oscilações internacionais.

A BR cumpria exatamente esse papel para a Petrobras.

Ao privatizá-la, o Brasil separou dois negócios que durante décadas haviam operado de forma integrada. Agora, para voltar ao segmento, a Petrobras terá de desembolsar recursos para comprar uma distribuidora — justamente o tipo de ativo do qual abriu mão poucos anos atrás.

Esse paradoxo ajuda a dimensionar o custo estratégico da privatização.

Governo tenta impedir abusos

O anúncio de Lula ocorre no momento em que o governo também endurece a fiscalização sobre os preços dos combustíveis.

O Executivo elevou de R$ 14 milhões para até R$ 500 milhões a multa máxima aplicável a práticas abusivas no setor. A medida alcança produtores, importadores, distribuidoras, transportadoras e postos que aumentem injustificadamente suas margens ou se recusem a abastecer o mercado mesmo dispondo de estoques.

Segundo dados divulgados pelo governo, centenas de estabelecimentos estão sendo fiscalizados diante da preocupação de que recursos públicos destinados a amortecer a alta internacional acabem apropriados ao longo da cadeia sem chegar ao consumidor.

O problema é particularmente importante quando o Estado utiliza subsídios ou reduz impostos. Se não houver concorrência suficiente e fiscalização, parte do benefício pode ficar retida nas margens empresariais.

A presença direta da Petrobras na distribuição adicionaria mais um instrumento a essa estratégia.

Dois projetos para a Petrobras

A discussão também explicita diferenças entre os projetos econômicos presentes na eleição presidencial.

Flávio Bolsonaro defende redução do tamanho do Estado, contenção dos gastos públicos e novas privatizações. Lula, por sua vez, sustenta uma estratégia desenvolvimentista em que empresas públicas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e BNDES funcionem como instrumentos de investimento e soberania econômica.

A divergência não é apenas ideológica. Ela envolve uma pergunta concreta: setores como petróleo, energia e combustíveis devem ser tratados apenas segundo a lógica privada de rentabilidade ou também como elementos da segurança econômica nacional?

Para Lula, a resposta passa pelo fortalecimento da Petrobras.

“Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente ao defender uma política econômica independente e rejeitar subordinação aos interesses de outras potências, inclusive dos Estados Unidos.

Uma decisão que vai além dos combustíveis

O retorno à distribuição também pode ganhar importância com a própria transformação da Petrobras em uma empresa de energia. Uma rede nacional de distribuição pode servir, no futuro, não apenas para gasolina, diesel e etanol, mas para biocombustíveis avançados, recarga elétrica e outros produtos ligados à transição energética.

Por isso, a decisão anunciada por Lula deve ser compreendida em perspectiva histórica.

O Brasil construiu durante décadas uma Petrobras integrada. Depois, desmontou partes dessa estrutura e privatizou ativos estratégicos sob a promessa de que a iniciativa privada produziria mais competição e eficiência.

Agora, diante de um novo choque internacional do petróleo, o país redescobre a importância de possuir instrumentos próprios para defender seu mercado interno.

A eventual compra de uma distribuidora não desfará automaticamente os efeitos da privatização da BR. Mas representará uma mudança profunda de direção: depois de anos de retirada, a Petrobras poderá voltar a ocupar o espaço que nunca deveria ter abandonado — a ligação direta entre sua enorme capacidade de produção e refino e o mercado brasileiro de combustíveis.