A plataforma de comunicação que reúne mensagens de texto, chamadas de voz, vídeos, compartilhamento de tela e transmissões em tempo real
Conteúdo postado por: Leonardo Lucena
Publicado em 12 de agosto de 2026
Plataforma do Discord. Crédito: Reprodução
247 – A Agência
Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord interrompa as
transmissões ao vivo no Brasil, sem afetar mensagens de texto nem chats de voz,
em meio à investigação sobre a morte de uma adolescente de 13 anos. A empresa
tem três dias para cumprir a decisão. Nascida em 2015, a plataforma de
comunicação que reúne mensagens de texto, chamadas de voz, vídeos,
compartilhamento de tela e transmissões em tempo real. Os relatos foram
divulgados nesta quarta-feira (12) no jornal O Globo.
O Discord organiza
as comunidades em espaços chamados de servidores. Cada servidor pode reunir
diferentes canais destinados a conversas por texto ou voz, além de permitir a
circulação de imagens, vídeos e outros conteúdos.
Administradores
também podem restringir o acesso a determinados servidores. Em comunidades
privadas, os participantes normalmente entram por meio de convites ou mediante
autorização. Essa estrutura permite criar grupos menores e direcionados, mas
também dificulta o acompanhamento externo do que acontece em determinados
espaços fechados.
O crescimento do
Discord ganhou força durante a pandemia de Covid-19, quando usuários passaram a
recorrer com maior frequência a ferramentas digitais para conversar, estudar,
jogar e manter atividades coletivas à distância. A plataforma deixou de atender
apenas ao universo gamer e conquistou estudantes, comunidades de fãs, criadores
de conteúdo e grupos interessados em socialização pela internet.
Como funcionam os servidores do
Discord
Os servidores
representam uma das principais diferenças entre o Discord e redes sociais
estruturadas em torno de um feed público de publicações.
Cada comunidade
pode criar vários canais dentro do mesmo servidor. Um grupo dedicado a jogos,
por exemplo, pode separar conversas por assunto, criar salas de voz e abrir
espaços específicos para transmissões de vídeo. Outros servidores podem reunir
estudantes, fãs de determinados temas ou comunidades privadas.
Essa característica
oferece aos usuários maior controle sobre a organização das conversas. Ao mesmo
tempo, autoridades e especialistas demonstram preocupação com servidores
fechados, já que grupos podem usar esses ambientes para ocultar práticas
abusivas ou ilegais e dificultar a identificação rápida de conteúdos nocivos.
Dados citados pelo
UOL a partir do site Business of Apps apontam cerca de 560 milhões de contas
registradas no mundo e aproximadamente 220 milhões de usuários ativos mensais.
A estimativa apresentada para o Brasil chega a cerca de 56,4 milhões de contas,
número que ajuda a dimensionar o alcance da plataforma no país.
O próprio Discord
estabelece idade mínima de 13 anos para usuários. A proteção de menores e os
mecanismos de verificação etária, ainda assim, entraram no centro da discussão
das autoridades brasileiras após uma sequência de episódios envolvendo crianças
e adolescentes.
Por que o Discord entrou na mira das
autoridades
Autoridades
brasileiras intensificaram as cobranças contra o Discord diante de denúncias
relacionadas a violência, assédio, chantagem, aliciamento e incentivo à
automutilação em comunidades da plataforma.
O caso que elevou a
pressão sobre a empresa envolve uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, em Mato
Grosso do Sul. Segundo as investigações, integrantes de um servidor privado
teriam influenciado a jovem em práticas de violência contra si mesma. O episódio
ocorreu durante uma transmissão ao vivo e levou a Polícia Civil de Mato Grosso
do Sul a ampliar as investigações.
O caso deu origem à
Operação Lívia, coordenada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com apoio
do Ministério da Justiça. A ação cumpriu sete mandados em cinco estados e
concentrou esforços na investigação de um grupo suspeito de recrutar jovens em
situação de vulnerabilidade emocional.
Segundo a
investigação, os suspeitos buscavam estabelecer uma relação de confiança com as
vítimas antes de submetê-las a coação, isolamento, humilhações e desafios que
envolviam níveis crescentes de violência. Os investigadores também analisam
equipamentos apreendidos durante a operação para identificar outros integrantes
e novas possíveis vítimas.
A análise das
evidências digitais já levou os investigadores à identificação de uma segunda
vítima em outro estado, segundo as informações divulgadas sobre a operação.
Denúncias contra a plataforma
cresceram
A preocupação com o
ambiente do Discord também acompanha o aumento das denúncias relacionadas à
plataforma.
Dados da SaferNet
Brasil citados no material original indicam 406 notificações envolvendo o
Discord nos sete primeiros meses deste ano. No mesmo período do ano anterior, a
organização contabilizou 264 registros. A diferença representa crescimento de
54%.
O avanço das
denúncias reforçou a pressão sobre empresas de tecnologia para que adotem
mecanismos mais eficientes de prevenção e resposta diante de conteúdos que
coloquem crianças e adolescentes em risco.
O Discord foi bloqueado no
Brasil?
Não. A determinação
da ANPD atinge especificamente as transmissões ao vivo e ferramentas
equivalentes de compartilhamento de vídeo.
Os usuários ainda
podem acessar recursos de texto e conversas por voz. A agência deu três dias
úteis à empresa para interromper as funcionalidades alcançadas pela medida e
demonstrar o cumprimento da ordem.
A restrição
continuará enquanto o Discord não comprovar a adoção e a eficácia de medidas
técnicas, mecanismos de segurança e políticas de governança voltadas à proteção
de crianças e adolescentes.
A empresa também
precisará obter autorização prévia da ANPD antes de restabelecer as
transmissões atingidas pela decisão.
Por que a ANPD decidiu suspender as
lives
A ANPD colocou a
proteção de crianças e adolescentes no centro da fiscalização. A agência
apontou riscos relacionados a casos de assédio, violência, automutilação e
suicídio dentro de ambientes da plataforma.
A fiscalização
também identificou uma limitação na arquitetura técnica do serviço. Segundo as
informações apresentadas, o Discord não consegue acessar o conteúdo audiovisual
de algumas transmissões em tempo real dentro de servidores fechados.
Essa característica
reduz a capacidade da empresa de identificar determinadas violações enquanto elas
acontecem. A plataforma passa a depender, nesses casos, de mecanismos
automatizados, sinais externos e denúncias encaminhadas pelos próprios
usuários.
A agência também
questionou alterações técnicas que o Discord realizou no recurso de transmissão
ao vivo no início de março, período próximo à entrada em vigor do ECA Digital.
Na avaliação apresentada pela fiscalização, as mudanças teriam reduzido
mecanismos disponíveis para ampliar a proteção de menores.
A decisão da ANPD
determina que a empresa demonstre, na prática, que consegue aplicar mecanismos
eficazes de segurança antes de retomar o serviço de transmissão ao vivo.
Janja defendeu bloqueio da plataforma
A morte da
adolescente também provocou reação da primeira-dama Rosângela da Silva, a
Janja, que defendeu publicamente a retirada do Discord do ar no Brasil.
A manifestação
ampliou o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais diante de
crimes ou práticas abusivas dentro de comunidades privadas e aumentou a pressão
sobre órgãos públicos para que adotassem medidas contra o serviço.
A ANPD optou, neste
momento, por restringir as transmissões ao vivo sem retirar completamente o
Discord do mercado brasileiro.
O que o Discord afirma sobre a
suspensão
O Discord reagiu à
medida e afirmou estar “desapontada” com a decisão. A empresa também
classificou a suspensão como “prematura” e argumentou que ainda estava dentro
do prazo para responder ao processo encaminhado pela ANPD.
Em seu
posicionamento, a plataforma afirmou que a avaliação apresentada pelas
autoridades não refletiria seus investimentos em segurança.
A empresa também
declarou que não tolera grupos ou indivíduos que promovam ou incentivem
violência e informou que mantém equipes voltadas à investigação de denúncias, à
retirada de conteúdos que violem suas regras e à cooperação com autoridades.
Em relação à morte
da adolescente, o Discord afirmou que identificou e desativou o servidor
privado ligado ao caso antes da morte da jovem. A empresa destacou que o grupo
exigia convite para acesso e não aparecia para os demais usuários em mecanismos
públicos da plataforma.
A suspensão das
lives mantém aberto o debate sobre a responsabilidade das plataformas na
proteção de menores e sobre a capacidade técnica das empresas de acompanhar
atividades que ocorrem dentro de comunidades fechadas. O Discord poderá retomar
as transmissões atingidas pela medida quando demonstrar à ANPD a eficácia das
ferramentas exigidas para reforçar a segurança de crianças e adolescentes.
Nota do Discord
“Recebemos a
determinação da ANPD e estamos cuidadosamente analisando seu conteúdo. A
caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que
construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários. O
Discord não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência.
Investigamos rapidamente e removemos o servidor privado, acessível somente por
convite, envolvido no caso pouco depois de sua criação, e seguimos cooperando
com as autoridades policiais na investigação.
Além disso, nossa investigação
encontrou evidências de que a atividade criminosa foi coordenada em outras
plataformas antes da criação do servidor no Discord e continuou nessas
plataformas após os indivíduos envolvidos terem sido banidos do Discord. Temos o
compromisso com a segurança dos nossos usuários e contamos com equipes
dedicadas em desarticular a atuação desses grupos, derrubar conteúdos que
violem nossas políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas
condutas em nossa plataforma. Esperamos continuar nossas conversas com
formuladores de políticas públicas no Brasil para promover uma experiência
online mais segura para todos os usuários, tanto no Discord quanto em toda a
internet.”






