Analista detalha como a nova dinâmica militar no Oriente Médio, a união inédita entre Irã e Iraque e o controle estratégico do Estreito de Ormuz impuseram uma derrota histórica ao imperialismo e ao petrodólar
Conteúdo postado por Redação Brasil 247
Publicado em 17 de julho de 2026
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| Crédito: Brasil 247 |
247 – O Oriente
Médio está diante de uma reconfiguração tectônica em sua geopolítica, e os
Estados Unidos perderam definitivamente a capacidade de ditar as regras do
jogo. Esta é a avaliação central do jornalista e analista internacional Pepe
Escobar, em uma contundente entrevista concedida ao cientista político
norueguês Glenn Diesen. Segundo Escobar, a tentativa de Washington de aplicar a
clássica cartilha do “dividir para governar” contra o Eixo da Resistência gerou
o efeito oposto: uma consolidação regional sem precedentes que colocou o
império contra a parede.
Escobar aponta que
a fragilidade estratégica da Casa Branca, sob uma liderança marcada por
impulsos erráticos e pela ausência de assessoria qualificada, arrastou o
Ocidente para um beco sem saída. “Eles perderam no front geopolítico, no front
militar e no front geoeconômico”, disparou o jornalista, desenhando o cenário
de uma derrota que ele classifica como “praticamente irreversível”.
O consenso de Teerã e a união
espiritual do Eixo
O ponto de virada
desta nova fase do conflito, explica Escobar, ficou evidente nos
impressionantes ritos fúnebres realizados recentemente em memória das
lideranças iranianas assassinadas. O analista destaca que as procissões não
apenas mobilizaram mais de 40 milhões de pessoas, mas unificaram
espiritualmente e politicamente xiitas no Iraque — em cidades sagradas como
Najaf e Karbala — e no Irã (Teerã, Qom e Mashhad).
Essa demonstração
de solidariedade transfronteiriça sela, de acordo com fontes internas acessadas
por Escobar, um consenso absoluto e inabalável no topo do Conselho de Segurança
Nacional do Irã e entre os comandantes do Corpo de Guardiões da Revolução
Islâmica (IRGC): a era das concessões ou acomodações diplomáticas com os
Estados Unidos acabou.
A liderança
iraniana, agora sob a firme e discreta condução de Mojtaba Khamenei, opera sob
a premissa de que qualquer diálogo com o Ocidente é uma armadilha. A visão
predominante é a de que Washington utiliza acordos e memorandos apenas para
ganhar tempo, reabastecer arsenais e preparar ataques surpresa. Se os EUA
cruzarem novas linhas vermelhas, o Irã já tem desenhado o seu “Plano B”: a
saída formal do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).
A resposta de um dia: o fator Iêmen e
a nova dissuasão
Um dos episódios
mais ilustrativos dessa mudança na correlação de forças foi a resposta das
forças iemenitas (Ansarallah) ao recente bombardeio da pista do Aeroporto
Internacional de Sana’a, que visava interromper um voo humanitário da companhia
iraniana Mahan Air.
Escobar relata que,
enquanto o Irã historicamente adota uma estratégia de paciência e respostas
calculadas a longo prazo, o Iêmen alterou radicalmente essa dinâmica. Em menos
de 24 horas após o ataque em Sana’a, as forças iemenitas responderam na
proporção de “dois para um”, atingindo alvos militares e de infraestrutura na
Arábia Saudita.
Essa velocidade de
retaliação enviou uma mensagem cristalina a Riade e a Washington: qualquer
agressão será respondida imediatamente e com poder destrutivo severo. Não por
acaso, aponta o jornalista, a monarquia saudita tem demonstrado pânico e
extrema cautela, ciente de que suas instalações petrolíferas e a estabilidade
de seus megaprojetos econômicos estão ao alcance direto dos drones e mísseis
hipersônicos do Iêmen.
A “bomba nuclear” de Teerã: o
controle absoluto das artérias comerciais
Mais do que o
desenvolvimento de ogivas, a verdadeira “bomba nuclear” do Irã no tabuleiro
global é geográfica e estratégica: o controle definitivo do Estreito de Ormuz.
Diesen e Escobar
convergiram no diagnóstico de que o conflito atual mudou de patamar. O que
começou como uma tentativa ocidental de promover uma “mudança de regime” em
Teerã transformou-se em uma batalha desesperada pelo controle das rotas
marítimas que oxigenam a economia global. A retórica de Washington de impor
taxas de trânsito ou bloqueios na região colide com a realidade militar de que
a Marinha do IRGC é quem dita as coordenadas no Golfo Pérsico.
“O Estreito de Ormuz é, a partir de
agora, um ponto de estrangulamento sob controle iraniano, ponto final”, afirma
Pepe Escobar.
O analista adverte
que uma ação combinada entre o Irã em Ormuz e o Ansarallah iemenita no Estreito
de Bab al-Mandab tem o potencial de paralisar o comércio internacional. Se o
fluxo de petróleo for interrompido, os preços do barril podem saltar rapidamente
para a faixa de 150 a 200 dólares. O resultado prático seria o colapso
sistêmico das economias ocidentais e o golpe de misericórdia no padrão do
petrodólar, pilar de sustentação da hegemonia financeira norte-americana.
A falência da diplomacia ocidental e
a emergência de um novo guarda-chuva regional
Diante do cenário
em que os Estados Unidos são vistos globalmente como uma entidade “incapaz de
cumprir acordos” — vide o abandono unilateral do JCPOA no passado e o
esvaziamento recente do Memorando de Entendimento de Versalhes —, o Oriente
Médio começa a desenhar sua própria arquitetura de segurança, à revelia de
Washington.
Pepe Escobar
revelou detalhes de uma intensa atividade diplomática de bastidores liderada
pelo Paquistão. Islamabad, que mantém um sólido pacto militar com a Arábia
Saudita e, ao mesmo tempo, canais de comunicação diretos e de alto nível com
Teerã, desponta como o articulador de um novo arranjo regional.
Este projeto de
segurança integraria potências como o próprio Paquistão, Arábia Saudita,
Turquia, Catar e Egito. O objetivo central é criar um mecanismo de
estabilização interna que minimize a necessidade — e a interferência — das
forças do Comando Central dos EUA (CENTCOM). Trata-se do Sul Global construindo
suas próprias salvaguardas contra o caos promovido pelo Ocidente.
A miopia histórica dos impérios e a
resiliência dos Estados-Civilização
Ao concluir a
análise, Pepe Escobar e Glenn Diesen enfatizaram o erro crasso e repetitivo da
mídia corporativa ocidental, que insiste em vender a narrativa de que
bombardeios estrangeiros seriam “recebidos com festa” pelas populações locais
para derrubar seus governos.
O Irã, lembra
Diesen, é uma fortaleza geográfica cercada por cadeias montanhosas, com uma
população de 93 milhões de pessoas que compreende o conflito atual em termos
existenciais: capitular significa o destino trágico de destruição total visto
na Líbia ou na Síria. Além disso, a cultura política local é profundamente
moldada por uma teologia de resiliência e justiça de longo prazo, onde o
conceito de reparação histórica transcende o imediatismo das agendas eleitorais
americanas.
Para Escobar, elites ocidentais falham por serem
“historicamente analfabetas” em relação ao que ele conceitua como
“Estados-Civilização”, como o Irã e a Rússia. A história demonstra que
tentativas externas de subjugar essas nações produzem o efeito inverso: elas
enterram suas divisões internas, coalescem e emergem muito mais fortes, ricas e
unificadas. Ao ignorar as lições da história, o império caminha a passos largos
para acelerar sua própria ruína geoeconômica.






