sexta-feira, 24 de abril de 2026

Muito cuidado com as pesquisas

·         24/04/2026

  • Texto extraído do Blog do Magno Martins
  • - Edição de Camila Emerenciano

  

 

 

Por Maurício Rands*

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção.

Alguns não se importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que, geralmente, é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha apresentou dados em descompasso com os de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos.

Especialistas apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional estabelecida, cometem lapsos metodológicos, sobretudo quando a eleição ainda está distante. À medida que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os ajustes na metodologia e na amostra.

No caso da Datafolha, em alguns estados, ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E, no início, concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença em relação às demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos, assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto.

Como lembrou Renato Meirelles, em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para Presidente quando, inicialmente, indagados sem o estímulo do disco com as alternativas.

Isso significa 96 milhões de pessoas que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos.

Outro fator que recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43% dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões de pessoas que declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar.

Acrescente-se a frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na última pesquisa Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira de 12%. Mas, na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28% a 26%).

Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição.

No Brasil, o índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro”, embora erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos.

Foi o caso de Jair Bolsonaro, que, em 2022, tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de “ótimo/bom” oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda quando a rejeição individual (o “não voto de jeito nenhum”) for maior que 30%, mesmo com o governo bem avaliado.

Nenhuma dessas exceções se aplica à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as ações do seu governo forem ainda mais conhecidas.

No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível.

*Advogado, professor de Direito Constitucional e PhD pela Universidade de Oxford

EM TEMPO: O TSE deve baixar uma Resolução exigindo que os institutos de pesquisa realizem a devida Prestação de Contas, mensalmente, assim como é exigido dos candidatos. Afinal, que "bondade" é essa de tanto financiamento das pesquisas, as quais não são baratas. Ok, Moçada!

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

PSOL aciona PGR por venda de mineradora e pede investigação de Caiado

·         Brasil, Sudeste

·         23/04/2026

  • Texto extraído do Blog do Magno Martins
  • - Edição de Thaís Leandro


 

 

 

 






Deputados do PSOL protocolaram representação na Procuradoria-Geral da República contra o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado para questionar a venda da mineradora Serra Verde à empresa americana USA Rare Earth.

O pedido foi apresentado por Sâmia Bomfim, com apoio de Glauber Braga e Fernanda Melchionna. Os parlamentares solicitam apuração da operação e análise da legalidade dos atos ligados à negociação. As informações são do blog da Julliana Lopes, da CNN Brasil.

No documento, o grupo sustenta que o negócio envolve um setor estratégico e aponta possível avanço sobre competências da União em temas como mineração e relações internacionais. Também pedem que a PGR avalie medidas judiciais cabíveis, inclusive no Supremo Tribunal Federal, caso entenda haver irregularidades no processo.

Na representação enviada à PGR, deputados do PSOL afirmam que Caiado extrapolou atribuições do cargo ao praticar uma espécie de “diplomacia paralela” ao assinar um memorando com representantes dos Estados Unidos sobre minerais críticos e terras raras. Segundo o documento, a condução de relações internacionais e a gestão estratégica de recursos minerais cabem à União, o que configuraria possível violação à soberania nacional. A CNN procurou Ronaldo Caiado e aguarda resposta.

A ofensiva ocorre em meio ao avanço do debate político sobre terras raras no Congresso. Havia expectativa de votação, na Câmara dos Deputados, de uma proposta relatada por Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) sobre o tema, mas o texto acabou retirado de pauta.

Neste mês, a bancada do PT na Câmara também apresentou projeto para criar a estatal Terrabras e ampliar a participação do Estado na exploração desses minerais, sob o argumento de reforço à soberania nacional.

O negócio que motivou a ação foi anunciado nesta semana e avalia a Serra Verde em cerca de US$ 2,8 bilhões, com pagamento em dinheiro e ações da compradora. O fechamento depende de aprovações regulatórias e está previsto para o terceiro trimestre de 2026.

EM TEMPO: A população deve ser mais criteriosa na escolha dos seus representantes para os poderes Legislativo e Executivo. Não é possível termos tantos políticos submissos ao arrogante Presidente dos EUA, Donald Trump. Ok, Moçada!

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Trump atropela Lula: negocia com Caiado violando interesse nacional ao comprar terras raras para acelerar indústria americana

Compra de mineradora brasileira por empresa dos EUA reacende debate sobre soberania e controle das terras raras no governo Lula

Por César Fonseca (Repórter)

 

Kuala Lampur, Malásia - 26/10/2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático-ASEAN (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

No momento em que se discute, no Governo Lula, a criação da Terrabrás, que o líder do PT, na Câmara, deputado Pedro Uczai(RGS) disse, na semana passada, ser fundamental para garantir a soberania nacional, em matéria de terras raras, ativo mais cobiçado pelas potências internacionais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, libera recursos governamentais para empresários americanos comprarem mineradora no Brasil, detentora dessa riqueza fundamental.

A transação foi anunciada com o presidente Lula ausente do país; ele está na Europa, e, nesta segunda-feira, 20, visita a Feira de Hannover, na Alemanha, onde destaca o prestígio brasileiro na produção de alternativas energéticas ao petróleo, motivo maior da guerra que se desenrola no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã.

O Palácio do Planalto, por enquanto, não emitiu nenhum comunicado oficial sobre essa transação comercial, estimada em cerca de 3 bilhões de dólares, com aporte de perto de 600 milhões pelo governo americano, para formação de Sociedade de Propósito Específico (SPE), envolvendo interesses norte-americanos estratégicos.

A transação, que obriga os partidos de esquerda, aliados do presidente, a debater o assunto no Congresso, para avaliar suas consequências relacionadas à soberania nacional, foi realizada pela empresa americana USA Rare Earth (USAR), listada na Nasdaq.

O anuncio do negócio polêmico, dadas suas implicações estratégicas, compreende acordo para adquirir 100% da empresa Serra Verde Group, dona da única mina que produz e processa terras raras no Brasil.

DESNACIONALIZAÇÃO INTEMPESTIVA

O fato é que o anuncio dessa negociação intempestiva se realiza no contexto da discussão mais intensa que se desenrola entre as grandes potências, especialmente, Estados Unidos e China, na corrida para dominação das terras raras e sua industrialização, para produção de tecnologias de vanguarda: veículos elétricos, microprocessadores, armas atômicas, baterias etc.

O assunto motivou o governo Lula a debater a conveniência de criação urgente de empresa estatal, denominada Terrabrás, como se fez, relativamente, ao petróleo, com criação da Petrobrás.

O objetivo fundamental é nacionalizar tal riqueza, demandada, atualmente, pela indústria nos países capitalistas desenvolvidos, no contexto da corrida tecnológica, especialmente, armamentista.

O assunto ganhou relevância depois da visita do presidente Lula ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando ganhou dimensão o interesse econômico estratégico americano de explorar terras raras no Brasil, onde são abundantes, tal como na China.

Atualmente, os chineses, tecnologicamente, já manufaturam/refinam o produto, dominando o mercado mundial.

ESPERTEZA ANTINACIONALISTA DE CAIADO

Nesse interim, o governo Lula foi pego de surpresa pelas declarações do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, candidato à presidência da República, pelo PSD, de que estaria negociando, diretamente, com o governo americano, a venda de terras raras goianas para os Estados Unidos.

A legislação brasileira assegura ao Estado nacional a prerrogativa constitucional de ser o titular absoluto das negociações desse produto estratégico, para o interesse nacional, o que levou o Palácio do Planalto a entrar na discussão.

O estado de Goiás é parte – e não o todo do território nacional –, para se arvorar no direito de realizar negociações privadas com empresas americanas ou com o estado americano ou outro qualquer, no plano das relações internacionais.

Criou-se, portanto, grande impasse político entre o governo federal e o governo de Goiás.

Desse modo, é previsto que o debate político ocorrerá, de forma intensa, sobre o assunto, especialmente, porque ele emerge no contexto de campanha eleitoral, na qual o governador de Goiás é declaradamente anti-Lula.

DESNACIONALIZAÇÃO INCONSTITUCIONAL

Evidencia-se fato, politicamente, absurdo, em sua essência: a Terrabrás, como projeto alentado pelo governo federal, está sendo, pelo governador de Goiás, desnacionalizada antes de nascer, como proposta que tem de ser aprovada pelo Congresso Nacional.

O negócio, para surpresa geral, foi anunciado com o presidente da República fora do país, deixando o mundo político perplexo.

As perguntas estão no ar: o governo Lula foi pego de surpresa ou permitiu a venda desse material estratégico que, segundo ele mesmo tem dito, somente será realizado com agregação de valor em nome do interesse da industrialização nacional?

A gestão do ativo estratégico é ou não de competência federal? 

Valem as leis civis, privadas, ou o governo só pode interferir no que é dele, como ocorre, por exemplo, relativamente, às terras devolutas, florestas, rios, lagos, terras lacustres etc?

O tema levanta questões geopolíticas.

A criação da Terrabrás, atropelada pela negociação Trump-Caiado, para atender interesse da industrialização americana, produzirá insatisfação da China, parceira do Brasil em diferentes áreas econômicas, porém, alvo de irritação de Donald Trump, cuja interesse maior, geopolítico e geoestratégico, conforme a Doutrina Monroe/Donroe, é afastar os chineses da América Latina.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Compra da mineradora Serra Verde teve financiamento de Trump e escancara a ausência de política brasileira para terras raras

Brasil corre o risco de ficar como fornecedor de matéria-prima na cadeia dominada por outros, no momento em que esses minerais definem o equilíbrio geopolítico

20 de abril de 2026

Por Joaquim de Carvalho (Colunista do Brasil 247)

A mina de terras raras em Goiás (Foto: Divulgação)


 









A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela USA Rare Earth expõe um novo capítulo da disputa global por minerais estratégicos e, ao mesmo tempo, a fragilidade da política mineral brasileira.

O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões, ocorre com forte apoio do governo de Donald Trump, que estruturou um modelo agressivo de política industrial: financiamento público bilionário, participação acionária estatal e garantia de preços mínimos por até 15 anos.

Mais do que uma aquisição empresarial, trata-se de uma operação geopolítica.

A Serra Verde começou a ser constituída em 2010 e levou mais de uma década para sair do papel, como é comum em projetos minerais complexos. 

Após mais de US$ 1 bilhão em investimentos e início da produção em 2024, tornou-se um ativo singular a única operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala, os quatro principais elementos magnéticos, o Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr) Disprósio (Dy) e Térbio (Tb).

É difícil decorar esses nomes, e inclusive eles ficam na parte de baixo da tabela periódica, que estudamos no ensino médico. Importante é saber que servem e isso explica o interesse do governo dos EUA.

Os dois primeiros (neodímio e praseodímio) formam a base dos chamados ímãs NdFeB (neodímio-ferro-boro), que são os mais fortes disponíveis comercialmente hoje. Já o disprósio e o térbio entram em menor quantidade, mas são cruciais porque aumentam a resistência ao calor, evitam perda de magnetismo em altas temperaturas e permitem uso em aplicações exigentes

Esses quatro elementos são fundamentais em tecnologias como: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e eletrônicos, e sistemas militares avançados, como mísseis de última geração.

A Serra Verde deve responder por parcela relevante da produção global fora da China até o fim da décade. Esse salto transformou a empresa na maior produtora de minerais críticos fora da Ásia, tornando inevitável o interesse de potências estrangeiras.

Antes mesmo da venda, a Serra Verde já era controlada por fundos internacionais — dois dos Estados Unidos e um do Reino Unido. Ou seja, o Brasil já havia perdido o controle financeiro do ativo. Aliás, o Brasil nunca teve esse controle.

A aquisição pela USA Rare Earth apenas aprofunda essa lógica: agora, além do capital, o controle estratégico passa a estar diretamente alinhado ao Estado americano.

Fundada em 2019, a USA Rare Earth nasceu com um objetivo claro: construir uma cadeia completa de terras raras nos Estados Unidos — da mineração à produção de ímãs industriais.

Nos últimos anos, a empresa adquiriu ativos no Reino Unido (Less Common Metals), investiu em processamento na França e desenvolve mina no Texas e fábrica de ímãs em Oklahoma, além de ter recebido investimento direto do governo americano, inclusive com participação acionária

Esse modelo — chamado de “mine-to-magnet” — é essencial para reduzir a dependência do Ocidente em relação à China, que domina até 90% do processamento global.

O interesse do governo Trump nos minerais críticos é direto:

Defesa: mísseis, radares e sistemas militares dependem desses elementos

Energia: turbinas eólicas e baterias exigem terras raras

Tecnologia: chips, smartphones e carros elétricos

Em outras palavras, trata-se de soberania industrial.

Por isso, Washington abandonou a lógica de mercado puro e passou a agir como planejador estratégico — financiando, garantindo preços e até assumindo participação nas empresas.

Enquanto os EUA tratam o tema como questão de segurança nacional, o Brasil segue sem política estruturada para minerais críticos.

Hoje, não há um marco regulatório específico para o setor. A única proposta relevante no Congresso é do deputado Patrus Ananias, que sugere a criação de uma reserva estratégica em áreas de Minas Gerais e São Paulo, explorando o potencial de regiões de origem vulcânica.

O projeto, porém, não avançou.

Na prática, o país não define regras claras para exploração, não cria incentivos industriais, e não estabelece proteção estratégica dos recursos

A compra da Serra Verde escancara uma contradição:

O Brasil possui recursos estratégicos centrais para a economia do futuro, mas não tem estratégia para eles.

Enquanto isso, os Estados Unidos financiam empresas, garantem mercado, organizam cadeias produtivas e compram ativos no exterior

O resultado é previsível: o país que detém o recurso não necessariamente detém o poder.

E, no ritmo atual, o Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor de matéria-prima em uma cadeia dominada por outros — exatamente no momento em que esses minerais definem o equilíbrio econômico e geopolítico do século XXI.

EM TEMPO: A população deve ser mais criteriosa na escolha dos seus representantes para o Executivo e o Legislativo, isto é, para defenderem a soberania nacional. Afinal, há uma porção de políticos conversando bobagem (fazendo o povo de bobo), fazendo confusão, mentindo, do "baixo clero" (despreparados), votando contra os interesses nacionais, dos trabalhadores e do meio ambiente. Ok, Moçada!

Recebido com pompa por Merz, Lula reforça parceria entre Brasil e Alemanha e defende acordo Mercosul-UE

Presidente brasileiro é recebido com honras excepcionais em Hannover, participa da maior feira industrial do mundo e cobra mais equilíbrio comercial

20 de abril de 2026



 

19.04.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante recepção oficial. Jardins do Palácio de Herrenhausen, Alemanha. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

Redação Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com honras raramente concedidas pelo governo alemão neste domingo, em Hannover, numa visita marcada pela tentativa de aprofundar os laços econômicos e políticos entre Brasil e Alemanha em meio a um cenário internacional de instabilidade. Segundo reportagem da Deutsche Welle, Lula foi recepcionado pelo chanceler federal Friedrich Merz com um protocolo de excepcional prestígio no palácio Herrenhausen, antiga residência dos reis de Hannover.

A recepção incluiu honras militares e um tratamento descrito como de “realeza”, protocolo que, segundo o relato, só havia sido oferecido anteriormente pelo governo alemão ao ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, cerca de uma década atrás. A visita de Lula ocorre no contexto da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, que neste ano tem o Brasil como país parceiro — um destaque que não ocorria com tamanha projeção desde 1980.

Após a cerimônia oficial e um encontro com Merz, Lula seguiu para a abertura da feira ao lado do líder alemão. A programação do presidente brasileiro na Alemanha se estende até terça-feira e inclui novos encontros bilaterais, participação em eventos empresariais e uma visita a Wolfsburg, sede mundial da Volkswagen. A agenda também prevê a terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre Alemanha e Brasil, mecanismo diplomático reservado a poucos parceiros estratégicos de Berlim.

O peso político da visita foi reforçado pela presença de oito ministros alemães que deixaram Berlim para participar das reuniões com integrantes do governo brasileiro. O gesto sinaliza o interesse da Alemanha em fortalecer sua relação com o Brasil num momento em que a economia alemã enfrenta estagnação, revisões negativas de crescimento e forte ansiedade em torno do ambiente global.

Alemanha vê Brasil como parceiro estratégico

A imprensa alemã deu grande destaque à visita de Lula. Um artigo publicado pelo jornal Süddeutsche Zeitung, citado pela reportagem, sustentou que o Brasil se tornou mais importante do que nunca para a Alemanha. A avaliação está ligada tanto ao potencial econômico brasileiro quanto ao papel de estabilidade que o país pode desempenhar num mundo tensionado por guerras, tarifas, disputas geopolíticas e enfraquecimento do multilateralismo.

Nesse contexto, o acordo entre Mercosul e União Europeia apareceu como um dos principais eixos da visita. Negociado ao longo de mais de duas décadas, o tratado volta ao centro da agenda de Brasil e Alemanha como instrumento para ampliar mercados, reduzir barreiras comerciais e dar novo impulso às economias dos dois blocos.

Durante a cerimônia de abertura da Hannover Messe, Merz deixou claro o entusiasmo com a aproximação. “Nossas relações se tornarão ainda mais estreitas. O acordo com Mercosul vai fortalecer todas as economias envolvidas”, afirmou o chanceler, na presença de Lula.

O dirigente alemão também destacou que o momento combina oportunidades e desafios. “Estamos reunidos num momento que, por um lado, não poderia ser melhor em termos de relações entre a Europa e a América do Sul”, disse, em referência ao acordo. Em seguida, acrescentou: “Mas também estamos reunidos num momento de grandes desafios e mudanças.”

Lula destaca relação de Estado e critica cenário internacional

sábado, 18 de abril de 2026

Lula fala para milhares na Espanha e pede coerência dos progressistas

Presidente participou de Mobilização Progressista Global (MPG)

18 de abril de 2026



 








Presidente Lula durante participação no evento de Mobilização Progressista Global (MPG), na Espanha (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Por Paulo Emilio

Pedro Rafael Vilela, repórter da Agência Brasil - Em viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na tarde deste sábado (18), na cidade de Barcelona, na Espanha, da primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG). O encontro reúne ativistas e organizações de esquerda de diferentes partes do mundo com o objetivo de defender a democracia com justiça social e combater o avanço da forças autoritárias de extrema-direita. Discursando em um centro de eventos para mais de 5 mil pessoas, incluindo outros chefes de Estado, Lula abriu sua fala dizendo que as pessoas não devem sentir vergonha em se apresentarem como progressistas ou de esquerda no mundo atual.

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

Ao destacar os avanços que o campo progressista conseguiu alcançar para grupos sociais como trabalhadores, mulheres, população negra e comunidade LGBTQIA+, o presidente ponderou que a esquerda não conseguiu superar o pensamento econômico dominante, abrindo caminho para forças reacionárias ganharem espaço na sociedade.

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

"O primeiro mandamento dos progressistas tem que ser a coerência", reforçou o presidente brasileiro.

"Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável", continuou.

Segundo Lula, a extrema-direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. 

"Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio", completou.

Mais cedo, ainda em Barcelona, o presidente participou, ao lado de outros líderes internacionais, da quarta edição do Fórum Democracia Sempre. O evento é uma iniciativa lançada em 2024 envolvendo os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. Em Barcelona, a reunião, organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, também contou com as participações dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Ciyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México) e do ex-presidente do Chile Gabriel Boric.

À plateia formada por ativistas do campo progressista, Lula disse que é preciso apontar o dedo para os verdadeiros culpados pela crise socioeconômica atual, que são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza mundial. "Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo". 

"Senhores da guerra"

Lula voltou a chamar os líderes de países que ocupam assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas de "senhores da guerra" e criticou os bilhões de dólares gastos em armas, que poderiam acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde a toda a população do planeta.

"O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes", disse.

Em outro trecho de seu discurso, Lula afirmou que a ameaça da extrema-direita não é apenas retórica, ela é real. "No Brasil, ela [extrema-direita] planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O papa Leão XIV disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos".

O presidente brasileiro ainda observou que a democracia não é um destino em si, mas precisa ser reafirmada diariamente, melhorando de verdade a vida das pessoas, para não perder credibilidade.

"Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança", afirmou. 

Agenda na Europa

Após o compromisso na Espanha Lula embarca para a Alemanha neste domingo (19), onde participará da Hannover Messe – a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo - que nesta edição homenageia o Brasil. Ainda na Alemanha, o presidente brasileiro terá uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

A viagem se encerrará dia 21, com uma rápida visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula se encontra com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

As ondas de protesto contra Trump


CréditosDerek French / EPA

Vijay Prashad

ABRIL ABRIL

Trump prometeu o fim das guerras e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa.

É fácil não gostar de Trump. Ele tem um estilo grosseiro, uma atitude perante o mundo que, num piscar de olhos, despreza as sutilezas da diplomacia e do direito internacional. «De um jeito ou de outro, vamos tomar a Groenlândia», afirmou em meados de janeiro de 2026; «Acredito que terei a honra de tomar Cuba», declarou em março. Vulgaridades como essas não eram vistas em público há muito tempo, talvez desde antes de 1945, pois, desde então, tais anseios imperiais têm sido mascarados por palavras como «democracia» e «direitos humanos». Simplesmente desejar um território pela riqueza de seus recursos não é aceitável, remete demais à era do domínio colonial — um retorno à linguagem do belga Leopoldo II (que disse que o Congo era um «magnífico bolo africano») e do britânico Cecil Rhodes (que disse: «Afirmo que somos a melhor raça do mundo e que, quanto mais do mundo habitarmos, melhor será para a raça humana»). Trump é uma versão menos elegante de Leopoldo e Rhodes, certamente com menos domínio da linguagem e dos termos de referência. Como é fácil zombar de Trump!

Nos Estados Unidos, a antipatia por Trump está em alta (com apenas um terço da população aprovando seu segundo mandato, uma queda de 11 pontos desde abril de 2025). Uma pesquisa, realizada pela Universidade de Massachusetts, constatou que as razões para a antipatia são várias: inflação, quedas no mercado de ações, paralisações do governo e, é claro, a guerra contra o Irã. Mas não basta apenas olhar para as pesquisas para compreender a realidade da antipatia por Trump. Ela é visível nas ruas. No dia 29 de março, nove milhões de pessoas participaram de mais de três mil e quinhentos protestos distintos em todos os estados dos Estados Unidos como parte da manifestação «No Kings». Esta é a terceira manifestação desse tipo; a primeira ocorreu em 14 de junho de 2025, atraindo cinco milhões de pessoas, e a segunda em 18 de outubro de 2025, reunindo entre seis e sete milhões de pessoas. Os números nesses protestos frequentes estão crescendo, e o perfil demográfico atraído por eles também está se expandindo para incluir ex-apoiadores de Trump.

Esses protestos, coloridos e animados, não foram explosões isoladas de indignação, mas a crista da onda visível de uma corrente mais profunda de dissidência contra uma longa trajetória do militarismo dos EUA, agora intensificada pela retórica e pelas ações de Trump.

Trump prometeu o fim das guerras no exterior e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos que a classe trabalhadora dos Estados Unidos enfrenta. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa e envolveu os EUA em diferentes formas de guerra em todos os continentes. A inflação, consequência natural da guerra — particularmente de uma guerra que previsivelmente resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz — afeta os Estados Unidos, talvez não tanto quanto outros países, mas o aperto intensifica-se, mesmo assim. Uma população que vê os preços subirem e o perigo de que tropas americanas sejam necessárias para uma guerra desgastante em solo iraniano é um povo que perde o interesse nas fanfarronices dos seus líderes. A precisão torna-se mais importante do que a ostentação.

Dê-me liberdade

A ideia de “No Kings” representa a rejeição à monarquia que forneceu o discurso para a Revolução Americana de 1776. É essa a referência dos protestos, procurando inspiração nos revolucionários contra o rei George III para o seu próprio ciclo de protestos. Não há mosquetes na multidão, apenas cartazes que refletem a diversidade de opiniões. Alguns dos cartazes remetem à possibilidade frustrada de uma presidente Kamala Harris (se ela fosse presidente, dizem, não teríamos que protestar, mas estaríamos no brunch — um indicador do caráter burguês de parte do desdém por Trump). Outros são mais duros, com uma postura mais antiguerra, se não anti-imperialista.