segunda-feira, 20 de abril de 2026

Compra da mineradora Serra Verde teve financiamento de Trump e escancara a ausência de política brasileira para terras raras

Brasil corre o risco de ficar como fornecedor de matéria-prima na cadeia dominada por outros, no momento em que esses minerais definem o equilíbrio geopolítico

20 de abril de 2026

Por Joaquim de Carvalho (Colunista do Brasil 247)

A mina de terras raras em Goiás (Foto: Divulgação)


 









A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela USA Rare Earth expõe um novo capítulo da disputa global por minerais estratégicos e, ao mesmo tempo, a fragilidade da política mineral brasileira.

O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões, ocorre com forte apoio do governo de Donald Trump, que estruturou um modelo agressivo de política industrial: financiamento público bilionário, participação acionária estatal e garantia de preços mínimos por até 15 anos.

Mais do que uma aquisição empresarial, trata-se de uma operação geopolítica.

A Serra Verde começou a ser constituída em 2010 e levou mais de uma década para sair do papel, como é comum em projetos minerais complexos. 

Após mais de US$ 1 bilhão em investimentos e início da produção em 2024, tornou-se um ativo singular a única operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala, os quatro principais elementos magnéticos, o Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr) Disprósio (Dy) e Térbio (Tb).

É difícil decorar esses nomes, e inclusive eles ficam na parte de baixo da tabela periódica, que estudamos no ensino médico. Importante é saber que servem e isso explica o interesse do governo dos EUA.

Os dois primeiros (neodímio e praseodímio) formam a base dos chamados ímãs NdFeB (neodímio-ferro-boro), que são os mais fortes disponíveis comercialmente hoje. Já o disprósio e o térbio entram em menor quantidade, mas são cruciais porque aumentam a resistência ao calor, evitam perda de magnetismo em altas temperaturas e permitem uso em aplicações exigentes

Esses quatro elementos são fundamentais em tecnologias como: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e eletrônicos, e sistemas militares avançados, como mísseis de última geração.

A Serra Verde deve responder por parcela relevante da produção global fora da China até o fim da décade. Esse salto transformou a empresa na maior produtora de minerais críticos fora da Ásia, tornando inevitável o interesse de potências estrangeiras.

Antes mesmo da venda, a Serra Verde já era controlada por fundos internacionais — dois dos Estados Unidos e um do Reino Unido. Ou seja, o Brasil já havia perdido o controle financeiro do ativo. Aliás, o Brasil nunca teve esse controle.

A aquisição pela USA Rare Earth apenas aprofunda essa lógica: agora, além do capital, o controle estratégico passa a estar diretamente alinhado ao Estado americano.

Fundada em 2019, a USA Rare Earth nasceu com um objetivo claro: construir uma cadeia completa de terras raras nos Estados Unidos — da mineração à produção de ímãs industriais.

Nos últimos anos, a empresa adquiriu ativos no Reino Unido (Less Common Metals), investiu em processamento na França e desenvolve mina no Texas e fábrica de ímãs em Oklahoma, além de ter recebido investimento direto do governo americano, inclusive com participação acionária

Esse modelo — chamado de “mine-to-magnet” — é essencial para reduzir a dependência do Ocidente em relação à China, que domina até 90% do processamento global.

O interesse do governo Trump nos minerais críticos é direto:

Defesa: mísseis, radares e sistemas militares dependem desses elementos

Energia: turbinas eólicas e baterias exigem terras raras

Tecnologia: chips, smartphones e carros elétricos

Em outras palavras, trata-se de soberania industrial.

Por isso, Washington abandonou a lógica de mercado puro e passou a agir como planejador estratégico — financiando, garantindo preços e até assumindo participação nas empresas.

Enquanto os EUA tratam o tema como questão de segurança nacional, o Brasil segue sem política estruturada para minerais críticos.

Hoje, não há um marco regulatório específico para o setor. A única proposta relevante no Congresso é do deputado Patrus Ananias, que sugere a criação de uma reserva estratégica em áreas de Minas Gerais e São Paulo, explorando o potencial de regiões de origem vulcânica.

O projeto, porém, não avançou.

Na prática, o país não define regras claras para exploração, não cria incentivos industriais, e não estabelece proteção estratégica dos recursos

A compra da Serra Verde escancara uma contradição:

O Brasil possui recursos estratégicos centrais para a economia do futuro, mas não tem estratégia para eles.

Enquanto isso, os Estados Unidos financiam empresas, garantem mercado, organizam cadeias produtivas e compram ativos no exterior

O resultado é previsível: o país que detém o recurso não necessariamente detém o poder.

E, no ritmo atual, o Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor de matéria-prima em uma cadeia dominada por outros — exatamente no momento em que esses minerais definem o equilíbrio econômico e geopolítico do século XXI.

EM TEMPO: A população deve ser mais criteriosa na escolha dos seus representantes para o Executivo e o Legislativo, isto é, para defenderem a soberania nacional. Afinal, há uma porção de políticos conversando bobagem (fazendo o povo de bobo), fazendo confusão, do "baixo clero" (despreparados), votando contra os interesses nacionais, dos trabalhadores e do meio ambiente. Ok, Moçada!

Recebido com pompa por Merz, Lula reforça parceria entre Brasil e Alemanha e defende acordo Mercosul-UE

Presidente brasileiro é recebido com honras excepcionais em Hannover, participa da maior feira industrial do mundo e cobra mais equilíbrio comercial

20 de abril de 2026



 

19.04.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante recepção oficial. Jardins do Palácio de Herrenhausen, Alemanha. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

Redação Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com honras raramente concedidas pelo governo alemão neste domingo, em Hannover, numa visita marcada pela tentativa de aprofundar os laços econômicos e políticos entre Brasil e Alemanha em meio a um cenário internacional de instabilidade. Segundo reportagem da Deutsche Welle, Lula foi recepcionado pelo chanceler federal Friedrich Merz com um protocolo de excepcional prestígio no palácio Herrenhausen, antiga residência dos reis de Hannover.

A recepção incluiu honras militares e um tratamento descrito como de “realeza”, protocolo que, segundo o relato, só havia sido oferecido anteriormente pelo governo alemão ao ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, cerca de uma década atrás. A visita de Lula ocorre no contexto da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, que neste ano tem o Brasil como país parceiro — um destaque que não ocorria com tamanha projeção desde 1980.

Após a cerimônia oficial e um encontro com Merz, Lula seguiu para a abertura da feira ao lado do líder alemão. A programação do presidente brasileiro na Alemanha se estende até terça-feira e inclui novos encontros bilaterais, participação em eventos empresariais e uma visita a Wolfsburg, sede mundial da Volkswagen. A agenda também prevê a terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre Alemanha e Brasil, mecanismo diplomático reservado a poucos parceiros estratégicos de Berlim.

O peso político da visita foi reforçado pela presença de oito ministros alemães que deixaram Berlim para participar das reuniões com integrantes do governo brasileiro. O gesto sinaliza o interesse da Alemanha em fortalecer sua relação com o Brasil num momento em que a economia alemã enfrenta estagnação, revisões negativas de crescimento e forte ansiedade em torno do ambiente global.

Alemanha vê Brasil como parceiro estratégico

A imprensa alemã deu grande destaque à visita de Lula. Um artigo publicado pelo jornal Süddeutsche Zeitung, citado pela reportagem, sustentou que o Brasil se tornou mais importante do que nunca para a Alemanha. A avaliação está ligada tanto ao potencial econômico brasileiro quanto ao papel de estabilidade que o país pode desempenhar num mundo tensionado por guerras, tarifas, disputas geopolíticas e enfraquecimento do multilateralismo.

Nesse contexto, o acordo entre Mercosul e União Europeia apareceu como um dos principais eixos da visita. Negociado ao longo de mais de duas décadas, o tratado volta ao centro da agenda de Brasil e Alemanha como instrumento para ampliar mercados, reduzir barreiras comerciais e dar novo impulso às economias dos dois blocos.

Durante a cerimônia de abertura da Hannover Messe, Merz deixou claro o entusiasmo com a aproximação. “Nossas relações se tornarão ainda mais estreitas. O acordo com Mercosul vai fortalecer todas as economias envolvidas”, afirmou o chanceler, na presença de Lula.

O dirigente alemão também destacou que o momento combina oportunidades e desafios. “Estamos reunidos num momento que, por um lado, não poderia ser melhor em termos de relações entre a Europa e a América do Sul”, disse, em referência ao acordo. Em seguida, acrescentou: “Mas também estamos reunidos num momento de grandes desafios e mudanças.”

Lula destaca relação de Estado e critica cenário internacional

sábado, 18 de abril de 2026

Lula fala para milhares na Espanha e pede coerência dos progressistas

Presidente participou de Mobilização Progressista Global (MPG)

18 de abril de 2026



 








Presidente Lula durante participação no evento de Mobilização Progressista Global (MPG), na Espanha (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Por Paulo Emilio

Pedro Rafael Vilela, repórter da Agência Brasil - Em viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na tarde deste sábado (18), na cidade de Barcelona, na Espanha, da primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG). O encontro reúne ativistas e organizações de esquerda de diferentes partes do mundo com o objetivo de defender a democracia com justiça social e combater o avanço da forças autoritárias de extrema-direita. Discursando em um centro de eventos para mais de 5 mil pessoas, incluindo outros chefes de Estado, Lula abriu sua fala dizendo que as pessoas não devem sentir vergonha em se apresentarem como progressistas ou de esquerda no mundo atual.

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

Ao destacar os avanços que o campo progressista conseguiu alcançar para grupos sociais como trabalhadores, mulheres, população negra e comunidade LGBTQIA+, o presidente ponderou que a esquerda não conseguiu superar o pensamento econômico dominante, abrindo caminho para forças reacionárias ganharem espaço na sociedade.

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

"O primeiro mandamento dos progressistas tem que ser a coerência", reforçou o presidente brasileiro.

"Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável", continuou.

Segundo Lula, a extrema-direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. 

"Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio", completou.

Mais cedo, ainda em Barcelona, o presidente participou, ao lado de outros líderes internacionais, da quarta edição do Fórum Democracia Sempre. O evento é uma iniciativa lançada em 2024 envolvendo os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. Em Barcelona, a reunião, organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, também contou com as participações dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Ciyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México) e do ex-presidente do Chile Gabriel Boric.

À plateia formada por ativistas do campo progressista, Lula disse que é preciso apontar o dedo para os verdadeiros culpados pela crise socioeconômica atual, que são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza mundial. "Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo". 

"Senhores da guerra"

Lula voltou a chamar os líderes de países que ocupam assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas de "senhores da guerra" e criticou os bilhões de dólares gastos em armas, que poderiam acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde a toda a população do planeta.

"O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes", disse.

Em outro trecho de seu discurso, Lula afirmou que a ameaça da extrema-direita não é apenas retórica, ela é real. "No Brasil, ela [extrema-direita] planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O papa Leão XIV disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos".

O presidente brasileiro ainda observou que a democracia não é um destino em si, mas precisa ser reafirmada diariamente, melhorando de verdade a vida das pessoas, para não perder credibilidade.

"Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança", afirmou. 

Agenda na Europa

Após o compromisso na Espanha Lula embarca para a Alemanha neste domingo (19), onde participará da Hannover Messe – a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo - que nesta edição homenageia o Brasil. Ainda na Alemanha, o presidente brasileiro terá uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

A viagem se encerrará dia 21, com uma rápida visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula se encontra com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

As ondas de protesto contra Trump


CréditosDerek French / EPA

Vijay Prashad

ABRIL ABRIL

Trump prometeu o fim das guerras e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa.

É fácil não gostar de Trump. Ele tem um estilo grosseiro, uma atitude perante o mundo que, num piscar de olhos, despreza as sutilezas da diplomacia e do direito internacional. «De um jeito ou de outro, vamos tomar a Groenlândia», afirmou em meados de janeiro de 2026; «Acredito que terei a honra de tomar Cuba», declarou em março. Vulgaridades como essas não eram vistas em público há muito tempo, talvez desde antes de 1945, pois, desde então, tais anseios imperiais têm sido mascarados por palavras como «democracia» e «direitos humanos». Simplesmente desejar um território pela riqueza de seus recursos não é aceitável, remete demais à era do domínio colonial — um retorno à linguagem do belga Leopoldo II (que disse que o Congo era um «magnífico bolo africano») e do britânico Cecil Rhodes (que disse: «Afirmo que somos a melhor raça do mundo e que, quanto mais do mundo habitarmos, melhor será para a raça humana»). Trump é uma versão menos elegante de Leopoldo e Rhodes, certamente com menos domínio da linguagem e dos termos de referência. Como é fácil zombar de Trump!

Nos Estados Unidos, a antipatia por Trump está em alta (com apenas um terço da população aprovando seu segundo mandato, uma queda de 11 pontos desde abril de 2025). Uma pesquisa, realizada pela Universidade de Massachusetts, constatou que as razões para a antipatia são várias: inflação, quedas no mercado de ações, paralisações do governo e, é claro, a guerra contra o Irã. Mas não basta apenas olhar para as pesquisas para compreender a realidade da antipatia por Trump. Ela é visível nas ruas. No dia 29 de março, nove milhões de pessoas participaram de mais de três mil e quinhentos protestos distintos em todos os estados dos Estados Unidos como parte da manifestação «No Kings». Esta é a terceira manifestação desse tipo; a primeira ocorreu em 14 de junho de 2025, atraindo cinco milhões de pessoas, e a segunda em 18 de outubro de 2025, reunindo entre seis e sete milhões de pessoas. Os números nesses protestos frequentes estão crescendo, e o perfil demográfico atraído por eles também está se expandindo para incluir ex-apoiadores de Trump.

Esses protestos, coloridos e animados, não foram explosões isoladas de indignação, mas a crista da onda visível de uma corrente mais profunda de dissidência contra uma longa trajetória do militarismo dos EUA, agora intensificada pela retórica e pelas ações de Trump.

Trump prometeu o fim das guerras no exterior e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos que a classe trabalhadora dos Estados Unidos enfrenta. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa e envolveu os EUA em diferentes formas de guerra em todos os continentes. A inflação, consequência natural da guerra — particularmente de uma guerra que previsivelmente resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz — afeta os Estados Unidos, talvez não tanto quanto outros países, mas o aperto intensifica-se, mesmo assim. Uma população que vê os preços subirem e o perigo de que tropas americanas sejam necessárias para uma guerra desgastante em solo iraniano é um povo que perde o interesse nas fanfarronices dos seus líderes. A precisão torna-se mais importante do que a ostentação.

Dê-me liberdade

A ideia de “No Kings” representa a rejeição à monarquia que forneceu o discurso para a Revolução Americana de 1776. É essa a referência dos protestos, procurando inspiração nos revolucionários contra o rei George III para o seu próprio ciclo de protestos. Não há mosquetes na multidão, apenas cartazes que refletem a diversidade de opiniões. Alguns dos cartazes remetem à possibilidade frustrada de uma presidente Kamala Harris (se ela fosse presidente, dizem, não teríamos que protestar, mas estaríamos no brunch — um indicador do caráter burguês de parte do desdém por Trump). Outros são mais duros, com uma postura mais antiguerra, se não anti-imperialista. 

Dez anos depois, Dilma está firme e de pé – e os golpistas desmoralizados

Golpeada pelos políticos mais inescrupulosos do País, ela hoje escreve um capítulo importante da construção do mundo multipolar

17 de abril de 2026



 

A presidenta do NDB, Dilma Rousseff, durante a plenária da COP (Foto: Paulo Mumia/COP30)

Dez anos depois da sessão que marcou o golpe de Estado contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, a história começa já foi reescrita não apenas pelos fatos, mas pela força incontornável da realidade. O tempo, juiz implacável, tratou de reposicionar personagens, desmontar farsas e expor as motivações que estavam por trás de um dos episódios mais sombrios da democracia brasileira.

Dilma Rousseff, a vítima central daquele processo, não apenas resistiu ao julgamento distorcido da história imediata, como se reergueu em uma dimensão ainda maior. Hoje, à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, em Xangai, ela ocupa uma posição estratégica no momento mais decisivo da geopolítica contemporânea: a transição para um mundo multipolar.

Em um cenário de declínio relativo do poder unipolar dos Estados Unidos e de fortalecimento de novos polos econômicos e políticos, o NDB surge como instrumento concreto de financiamento ao desenvolvimento fora das amarras tradicionais impostas por instituições como o FMI e o Banco Mundial. Dilma, nesse contexto, tornou-se uma das vozes mais relevantes na defesa de um novo paradigma global, baseado em soberania, cooperação e desenvolvimento compartilhado.

Enquanto isso, os arquitetos do golpe seguem uma trajetória inversa — a da desmoralização pública e histórica.

O PSDB, que durante décadas se apresentou como uma alternativa de poder no Brasil, foi praticamente destruído a partir da aventura política liderada por Aécio Neves. Incapaz de aceitar o resultado das urnas em 2014, Aécio abriu as portas para uma escalada de radicalização que culminaria no impeachment sem crime de responsabilidade. O partido que no passado foi protagonista da política nacional transformou-se em uma legenda residual, sem identidade e sem relevância.

Eduardo Cunha foi o símbolo mais acabado do submundo da política que tomou o centro do palco naquele período. Foi ele quem conduziu a sessão infame de 17 de abril de 2016, operando o processo com motivações pessoais e interesses nada republicanos. Sua posterior prisão e condenação por corrupção apenas confirmaram o que já era evidente: o golpe foi articulado sob a liderança de personagens comprometidos com o crime.

Michel Temer, que assumiu a presidência após a queda de Dilma, também não escapou do desgaste histórico. Seu governo, marcado por medidas impopulares e pela implementação de uma agenda regressiva, o transformou num dos políticos mais impopulares da história do País, ainda que apreciado pela Faria Lima. Sua trajetória agora pode ganhar novos contornos à luz de investigações recentes envolvendo o banco Master, que começa a revelar conexões perigosas entre o sistema financeiro e figuras do poder político.

O contraste não poderia ser mais eloquente. De um lado, uma líder política que foi afastada sem crime comprovado, mas que retorna ao centro do cenário global como protagonista de uma nova ordem internacional. De outro, os responsáveis por sua queda, cada vez mais associados a práticas condenáveis, derrotas políticas e irrelevância histórica.

A história, afinal, não absolve arbitrariedades. Ela as expõe.

Dilma Rousseff está de pé. E mais do que isso: está no lugar certo, na hora certa, contribuindo para a construção de um mundo mais equilibrado, onde países em desenvolvimento possam trilhar seus próprios caminhos sem tutelas externas.

Já os golpistas, dez anos depois, enfrentam o destino que costuma ser reservado àqueles que conspiram contra a democracia: o da desmoralização e da lata de lixo da História.

Reveja a entrevista concedida por Dilma a mim como presidenta do NDB:

https://www.youtube.com/watch?v=S0SdQzhiT7M&t=8s

EM TEMPO: A ex-presidente Dilna foi reeleita para presidir o Banco do BRICS com apoio da Rússia e da China. Convém lembrar quê o que mais irritava os políticos era o fato de ninguém  mandar na Ex-Presidente, assim como ninguém manda na governadora de PE, Raquel Lyra. Quem quiser chorar pode chorar, pois o choro faz bem a saúde. Por fim, quero lhes dizer que o PSB de João Campos, o "Nevado Dançarino", votou pela cassação da nossa ex-presidente Dilma, e agora o direitista João Campos diz que é "aliado de primeira hora" do presidente Lula e o PT. Idem para Marília. É uma resenha, não acha? Ok, Moçada!. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

'Não tenho medo': como o papa Leão abandonou as indiretas e endureceu o discurso contra Trump

Líder da Igreja Católica e presidente dos EUA trocaram farpas nos últimos dias. Trump chegou a chamar o pontífice de 'fraco' e publicou foto em que aparecia como Jesus.

Por Redação g1

14/04/2026

·         O papa Leão XIV e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocaram farpas nos últimos dias.

·         O embate ressaltou a mudança de tom do pontífice nas últimas semanas, que antes recorria a indiretas ou críticas mais discretas às políticas de Trump.

·         Leão é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Logo após ser eleito, em maio de 2025, ele se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário Marco Rubio no Vaticano.

·         A viagem para Washington nunca aconteceu, e Leão passou a criticar políticas do governo Trump, principalmente contra imigrantes.




'Não tenho medo do governo Trump', diz papa Leão XIV após críticas do presidente dos EUA

papa Leão XIV e o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, trocaram farpas entre domingo (12) e esta segunda-feira (13). O embate ressaltou a mudança de tom do pontífice nas últimas semanas, que antes apostava em indiretas ou críticas mais discretas às políticas de Trump.

Leão é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Logo após ser eleito, em maio de 2025, ele se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário Marco Rubio no Vaticano. Na ocasião, o papa foi convidado a visitar a Casa Branca.

A viagem para Washington nunca aconteceu, e Leão passou a criticar políticas do governo Trump, principalmente contra imigrantes. A fala mais contundente veio em novembro, sem citar o nome do presidente norte-americano.

“Se alguém está nos Estados Unidos ilegalmente, há maneiras de lidar com isso. Existem tribunais. Há um sistema judicial. Acho que há muitos problemas nesse sistema. Ninguém disse que os Estados Unidos devem ter fronteiras abertas”, afirmou.

“Quando pessoas levaram vidas corretas, muitas delas por 10, 15, 20 anos, tratá-las de uma forma que é, para dizer o mínimo, extremamente desrespeitosa e com episódios de violência é preocupante.”

Desde o fim de 2025, no entanto, o papa passou a atenuar o tom:

·                   demonstrou preocupação com a situação no Caribe e na Venezuela, mas chegou a sugerir maior pressão econômica contra o regime de Nicolás Maduro, em vez do uso da força;

·                   evitou comentar ameaças de Trump contra a Groenlândia e não mencionou a morte de cidadãos americanos em operações antimigratórias em janeiro;

·                   em fevereiro, limitou-se a dizer que via com “grande preocupação” as tensões entre Cuba e Estados Unidos e pediu que a violência fosse evitada.

Ainda em fevereiro, a agência AFP afirmou que o papa Leão adotava uma abordagem discreta diante do governo Trump. Uma das estratégias seria confiar em críticas feitas diretamente por bispos americanos, enquanto o Vaticano recorria a canais diplomáticos para dialogar com Washington.

“Leão é muito cauteloso. Sabe que a voz do papa é universal. Como americano, é um pouco um opositor natural do trumpismo”, disse à AFP uma fonte do Vaticano, sob condição de anonimato, à época.

O tom mudou de vez com a guerra no Irã.

'Deus não escuta'

Um dia após o início da guerra no Irã, o papa Leão disse estar “profundamente preocupado” e afirmou que uma grande tragédia poderia ocorrer caso a violência escalasse.

“Faço às partes envolvidas um apelo sincero para que assumam a responsabilidade moral de interromper a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”, disse.

No fim de março, o pontífice elevou o tom. Ao celebrar a missa de Domingo de Ramos, afirmou que Jesus não pode ser usado para justificar guerras e criticou lideranças mundiais, sem citar nomes.

“[Jesus] não escuta as orações daqueles que fazem guerras, mas as rejeita, dizendo: ‘Ainda que façais muitas orações, não ouvirei: as vossas mãos estão cheias de sangue’”, disse, citando uma passagem bíblica.

No dia 7 de abril, Leão classificou como “inaceitáveis” as ameaças contra o povo do Irã. As declarações foram feitas no mesmo dia em que Trump afirmou que uma “civilização inteira” poderia morrer em um ataque dos EUA caso um acordo não fosse fechado.

“A ameaça contra o povo do Irã é inaceitável. Há questões de direito internacional, mas, mais do que isso, é uma questão moral”, afirmou.

O papa manteve as críticas após o início da trégua entre Irã e Estados Unidos:

·                   na sexta-feira (10), o papa disse que Deus “não abençoa nenhum conflito” e afirmou que quem é discípulo de Cristo “nunca se coloca ao lado daqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas”;

·                   no sábado (11), Leão fez um apelo para que os líderes mundiais acabem com a “loucura da guerra”;

·                   no domingo (12), ele disse estar próximo do “amado povo libanês” e pediu cessar-fogo definitivo em todo o Oriente Médio.

Resposta de Trump

Trump publicou uma forte crítica ao papa Leão na noite de domingo (12). Na Truth Social, ele chamou o pontífice de “fraco” e disse que o líder da Igreja Católica tenta agradar a “esquerda radical”.

“Eu não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela. E não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos”, escreveu.

·                   Apesar das falas do presidente dos EUA, não há registros de que o papa Leão XIV tenha defendido que o Irã tenha uma arma nuclear.

·                   Em 2025, Leão fez um apelo para um mundo livre da ameaça nuclear. Já no mês passado, ele disse que as nações deveriam renunciar às armas.

Trump disse ainda que Leão só foi eleito para o cargo porque ele é o atual presidente dos EUA. Para ele, o pontífice deveria ser grato por isso.

“Leão deveria se recompor como papa, usar o bom senso, parar de agradar a esquerda radical e focar em ser um grande papa — não um político. Isso está prejudicando muito ele e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica.”

Trump também postou uma imagem feita por inteligência artificial em que aparecia usando uma túnica e com poderes de cura, em uma estética semelhante à de Jesus. A imagem foi excluída no dia seguinte após várias críticas, inclusive de apoiadores.

Nesta segunda-feira (13), Leão afirmou que não tem medo do governo Trump. Ele disse ainda que não fez nenhum ataque direto ao presidente dos Estados Unidos ao apelar pela paz ou criticar pessoas que promovem guerras.

“Colocar minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer aqui, creio eu, é não compreender qual é a mensagem do Evangelho. Lamento ouvir isso, mas continuarei com o que acredito ser a missão da Igreja no mundo hoje”, disse.

“Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível.”