segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

Como atentados (ou supostos atentados) são usados pela extrema direita para acabar com as democracias

Episódio envolvendo Trump em Washington é um entre tantos que ajudaram no projeto de poder autoritário, desde Hitler e passando por Bolsonaro.

Por Joaquim de Carvalho (Jornalista)



 

Trump fala após evacuação no jantar com correspondentes (Foto: Reprodução Youtube)

O episódio envolvendo Donald Trump, durante um jantar com jornalistas em Washington, ocorre em um momento de baixa popularidade do ex-presidente e de cenário adverso para o Partido Republicano, que enfrenta risco concreto de perder maioria na Câmara e no Senado nas eleições de novembro. O caso reabre o debate sobre atentados — ou supostos atentados — que marcaram a atuação da extrema direita ao longo da história recente. Não há casos notórios equivalentes que tenham beneficiado a esquerda de forma comparável. Não se trata aqui de endossar teorias conspiratórias, mas de observar que, em diversos contextos, esses episódios foram usados politicamente para empoderar lideranças e justificar medidas que tensionam ou violam garantias democráticas.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Alemanha, em 1933, com o incêndio do Reichstag. O episódio aconteceu poucas semanas após Adolf Hitler assumir o cargo de chanceler, em janeiro daquele ano. Embora o Partido Nazista já estivesse formalmente no poder, foi após o incêndio que se iniciou, de forma decisiva, a consolidação de um regime autoritário.

O evento foi imediatamente atribuído a uma suposta conspiração comunista. Em resposta, o governo aprovou o Decreto do Incêndio do Reichstag, que suspendeu direitos fundamentais, permitiu prisões em massa de opositores e instituiu mecanismos de censura. Foi nesse contexto que o poder nazista se expandiu de maneira efetiva, transformando uma vitória eleitoral em um regime de exceção baseado na repressão sistemática.

Décadas depois, nos Estados Unidos, episódios envolvendo ameaças contra o então candidato Donald Trump também ganharam destaque durante a campanha presidencial de 2016. O início da campanha foi marcado pelo caso de Michael Sandford, um jovem britânico de 19 anos que foi preso após tentar tomar a arma de um policial durante um comício em Las Vegas. Ele havia feito treinamento de tiro poucos dias antes e declarou às autoridades que pretendia matar o candidato.

Assim como ocorreria no Brasil, dois anos depois, no episódio envolvendo Adélio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora, o jovem Sandford foi diagnosticado com problemas mentais, incluindo depressão. Sandford também relatou ser autista, o que não é um problema mental. O episódio em Las Vegas teve ampla repercussão internacional e favoreceu eleitoralmente Trump, com a narrativa de que ele era perseguido.

Já na fase final da disputa, outro episódio ganhou visibilidade, embora com contornos distintos. Durante um comício, um homem identificado como Austyn Crites foi retirado do público após gritos de que estaria armado. A segurança interveio rapidamente, Trump foi retirado do palco e o evento chegou a ser interrompido. 

Posteriormente, verificou-se que Crites não portava arma e não havia tentativa concreta de atentado. O próprio envolvido afirmou ser apoiador de Trump e protestar contra a mídia. Ainda assim, o episódio contribuiu para manter o tema da ameaça à segurança no centro da cobertura da campanha, que terminaria com a vitória do candidato.

No Brasil, a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 foi profundamente impactada pelo atentado em Juiz de Fora, em 6 de setembro. Após o episódio, Bolsonaro apresentou crescimento significativo nas pesquisas de intenção de voto. Dois dias antes, integrantes de sua campanha haviam informado que ele passara a usar colete à prova de balas, diante de supostos riscos de segurança.

No episódio de Juiz de Fora, porém, Bolsonaro usava uma camiseta de campanha com a inscrição “Meu partido é o Brasil”, contrastando com situações anteriores, como em Rio Branco (AC), onde apareceu com jaqueta — apesar do calor — e fez declarações agressivas enquanto segurava um tripé, em cena que foi amplamente divulgada. “Vamos fuzilar a petralhada”, gritou.

No plano internacional, chama atenção o encontro, semanas antes do atentado, entre Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro, em Nova York. Eduardo Bolsonaro afirmou publicamente que Bannon teria alertado sobre a possibilidade de um atentado contra seu pai, que, na época, estava em segundo lugar na pesquisa Datafolha, com 19%. Já Lula tinha 39%. Sem o nome de Lula na pesquisa, que estava preso pela Lava Jato, Bolsonaro subia um pouco – 22% -, nada que o fizesse favorito.

O tema do atentado voltou à cena nos Estados Unidos em 2024, quando Trump foi novamente associado a um episódio envolvendo disparo de arma de fogo. O caso teve enorme repercussão. Especialistas observam que armas como o rifle AR-15 costumam provocar danos severos, mas, no caso de Trump, houve apenas um arranhão.

No Brasil, um episódio histórico frequentemente lembrado é o Atentado do Riocentro, em 1980. Durante a ditadura militar, uma explosão ocorrida em um veículo revelou um plano de setores da extrema direita: realizar um atentado e atribuí-lo à esquerda para justificar o endurecimento do regime, que naquele momento passava por um processo de abertura.

Outro caso de grande impacto foi o Ataques de 11 de setembro de 2001. Após os atentados, os Estados Unidos adotaram medidas como o Patriot Act, ampliando poderes de vigilância do Estado, além da criação de estruturas como o centro de detenção em Guantánamo, alvo de críticas por violações de direitos humanos..

O episódio deste sábado, nos Estados Unidos, já está sendo  utilizado politicamente por Flávio Bolsonaro, que estabeleceu paralelos com o atentado de Juiz de Fora, reintroduzindo o tema no debate público, enquanto Adélio, trancado em cela isolada no presídio de segurança máxima, não pode sequer dar entrevista.

“Coloco nas minhas orações o Presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e todos que estiveram no jantar em Washington. Tentar tirar a vida de quem pensa diferente usando balas ou facas não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá ou aqui no Brasil”, escreveu. Historicamente, é a extrema direita que costuma tirar a vida de quem pensa diferente.

A recorrência desses casos sugere que atentados — reais ou não, e sempre apresentados como ameaças — desempenham papel relevante em contextos políticos que favorecem o projeto da extrema direita. Este artigo não endossa teorias conspiratórias, mas elenca episódios históricos em que tais eventos foram mobilizados politicamente, contribuindo para o fortalecimento de projetos de poder e, em muitos casos, para a restrição de direitos e garantias democráticas.

domingo, 26 de abril de 2026

Saiba quem foi Olga Benário, que morreu no dia 23 de abril de 1942, numa câmara de gás nazista

Militante comunista alemã foi entregue pelo governo Vargas à Alemanha de Hitler e se tornou símbolo da resistência antifascista.

Olga Benário (Foto: Imagem criada por IA)



 








Redação Brasil 247

247 – Olga Benário Prestes, uma das figuras mais emblemáticas da luta contra o nazismo no século XX, foi assassinada em 23 de abril de 1942, em uma câmara de gás no campo de extermínio de Bernburg, na Alemanha. Militante comunista, judia e combatente internacionalista, sua trajetória cruza alguns dos episódios mais dramáticos da história brasileira e mundial.

Nascida em 1908, em Munique, Olga ingressou ainda jovem no movimento comunista alemão. Perseguida pelo regime nazista, acabou atuando em missões internacionais organizadas pela Internacional Comunista. Foi nesse contexto que conheceu o brasileiro Luiz Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes e uma das principais figuras da esquerda latino-americana.

Os dois foram enviados ao Brasil em 1935 para apoiar a organização da chamada Intentona Comunista. Presos após o fracasso do movimento, Olga e Prestes passaram a ser alvo direto da repressão do governo de Getúlio Vargas.

O papel controverso de Getúlio Vargas

Mesmo grávida de Prestes, Olga foi deportada em 1936 pelo governo Vargas para a Alemanha nazista — uma decisão que permanece até hoje como uma das mais controversas da história política brasileira. A extradição ocorreu apesar dos apelos internacionais e do fato de que, ao ser enviada de volta à Alemanha de Hitler, Olga enfrentaria perseguição certa por sua condição de judia e comunista.

A medida é frequentemente interpretada como um gesto de alinhamento do governo Vargas com regimes autoritários da época, além de evidenciar o caráter repressivo do Estado brasileiro naquele período. Olga foi entregue à Gestapo e passou por diversos presídios e campos de concentração.

Prisão, maternidade e morte

Na prisão, Olga deu à luz Anita Leocádia Prestes, que foi posteriormente entregue à avó paterna no Brasil após intensa campanha internacional. Separada da filha ainda bebê, Olga seguiu encarcerada em condições brutais.

Em 1942, foi transferida para o centro de extermínio de Bernburg, onde acabou assassinada na câmara de gás, como parte da política sistemática de eliminação promovida pelo regime nazista.

Prestes, prisão e reconciliação histórica

Luiz Carlos Prestes permaneceu preso no Brasil durante quase toda a década de 1930 e início dos anos 1940. Libertado em 1945, após a queda do Estado Novo, ele se tornaria uma das principais lideranças políticas do país.

Décadas depois, a memória de Olga Benário passou a ser oficialmente reconhecida pelo Estado brasileiro. Em um gesto de reparação histórica, o governo brasileiro anulou simbolicamente sua extradição e reconheceu a responsabilidade do Estado na sua entrega ao regime nazista.

A trajetória de Olga e Prestes também foi resgatada como símbolo de resistência política e de luta contra o fascismo. Sua história inspira livros, filmes e pesquisas, consolidando sua imagem como uma mártir da luta por justiça social.

Legado

Mais de oito décadas após sua morte, Olga Benário permanece como um dos nomes mais fortes da memória antifascista. Sua vida e seu assassinato expõem tanto a brutalidade do nazismo quanto as contradições da política brasileira da época.

Recordar sua história, especialmente em datas como esta, é também revisitar um período em que decisões de Estado tiveram consequências trágicas — e reafirmar a importância da memória histórica na defesa da democracia.

EM TEMPO: Informo-lhe que em meados de 2016 a filha de Olga Benário e Luis Carlos Prestes, a professora da UFRJ e Historiadora, Anita Leocádia Prestes, ministrou uma palestra relativa a trajetória política do Cavalheiro da Esperança, Comandante da Coluna Prestes, Senador, Engenheiro e Ex-militar do Exército Brasileiro, o seu pai  Luis Carlos Prestes, realizada  no Auditório do Garanhuns Palace Hotel, a convite do Secretário Político do PCB de PE, o camarada, jornalista e Ex-Vereador da Cidade de Recife, o Roberto Arraes. Ok, Moçada! 

sábado, 25 de abril de 2026

Entrevista de Edmilson Costa para Opera Mundi

Parte 1: pré-candidatura do PCB à Presidência

Transcrição realizada por Luca da Silva Ávila

Breno Altman: Boa noite. Hoje é 17 de março de 2026. Meu nome é Breno Altman e estamos dando início a mais um episódio do programa 20 Minutos.

A esquerda brasileira chega às eleições de 2026 atravessada por dilemas e desafios frente aos riscos de vitória da extrema direita. Nesse cenário, surgem candidaturas que questionam o projeto liderado pelo PT e pelo presidente Lula, apresentando uma crítica ao que consideram ser uma estratégia definida pela conciliação de classes.

Nesse contexto, insere-se a pré-candidatura de Edmilson Costa, presidente nacional do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Com uma longa trajetória vinculada ao marxismo, o PCB aposta na afirmação de um projeto socialista como alternativa à ordem vigente. Seu possível postulante ao Palácio do Planalto é um histórico militante comunista, desde os tempos da ditadura militar. Para compreendermos os objetivos e as propostas dessa pré-candidatura, vamos conversar com o próprio Edmilson Costa em mais uma entrevista com nomes que estão entrando na corrida presidencial. Fiquem conosco, já vamos começar.

Breno Altman: Boa noite, Edmilson. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite e por ter vindo aqui aos nossos estúdios.

Edmilson Costa: Boa noite, Breno. Quero agradecer o espaço e dizer que a Ópera Mundi é um canal progressista que sempre abre espaço para propostas alternativas. Agradeço muito pelo espaço.

Breno Altman: Muito obrigado. Edmilson, o que motiva sua pré-candidatura à presidência da República?

Edmilson Costa: A nossa pré-candidatura, a pré-candidatura do Partido Comunista Brasileiro, tem o objetivo de realizar a disputa política visando à mudança do país. Sabemos que vivemos uma situação complexa e difícil, e vamos colocar um conjunto de temas que outras candidaturas não querem ou não podem abordar, em função de suas identidades de classe, de suas posições ideológicas ou mesmo das alianças que fazem no período eleitoral. Entre esses temas estão a dramática situação da população brasileira, o enfrentamento ao imperialismo, a solidariedade internacional e a necessidade de um conjunto de reformas para mudar a realidade do nosso país.

Vivemos uma situação complexa e difícil, mas, como você sabe, os comunistas sempre atuaram em conjunturas assim. Até porque, se a vida fosse fácil, já teríamos chegado ao socialismo. Se olharmos o cenário internacional, veremos que a eleição de Trump mudou a qualidade da intervenção do imperialismo no mundo. Eles agora estão mais agressivos e não respeitam mais nem mesmo as próprias leis internacionais que criaram.

No plano interno, podemos dizer que a vitória de Lula teve uma importância fundamental, porque nos livrou daquele genocida que, neste momento, está preso. No entanto, Lula não cumpriu um conjunto de promessas feitas à população brasileira e governa essencialmente para o capital, restando à população apenas as migalhas da compensação social. Ou seja, essas questões merecem uma resposta política, e a nossa candidatura busca oferecer essas respostas.

Por quê? Porque temos a impressão de que a população está cansada da velha política que sempre privilegiou os ricos e poderosos em nosso país. A população também está cansada dos velhos políticos que prometem o paraíso nas campanhas eleitorais e, quando vencem, viram as costas para o povo.

E o que acontece na sociedade brasileira? Enquanto isso, vemos uma população na miséria, a maioria dos trabalhadores vivendo com baixos salários, a juventude sem perspectivas, serviços precarizados, a saúde em crise, o caos urbano e um conjunto de problemas que afetam diretamente a população mais pobre. Por outro lado, milionários, industriais, banqueiros, especuladores e grandes proprietários do agronegócio acumulam enormes lucros à custa do povo trabalhador.

Essa conjuntura também exige uma resposta. É nesse sentido que afirmamos: o Brasil precisa ser devolvido ao seu verdadeiro dono, que é o povo brasileiro. Nessas circunstâncias, o PCB e sua pré-candidatura elencaram cinco grandes transformações, que vamos desenvolver ao longo desta conversa. Consideramos essas transformações fundamentais para construir uma pátria próspera, democrática e soberana.

Também é importante destacar que essas propostas têm viabilidade, pois o Brasil está maduro para o socialismo. E por que está maduro? Porque todas as revoluções do século XX foram realizadas em países agrários. A Revolução Soviética ocorreu em um país agrário. A Revolução Chinesa, em um país agrário. A Revolução Vietnamita e a Revolução Cubana também.

No Brasil, as condições são extremamente favoráveis. Isso porque o país é industrializado, possui abundância de recursos, grande disponibilidade de água, uma ampla força de trabalho jovem e todas as matérias-primas necessárias para um processo de desenvolvimento — inclusive cerca de 21% das terras raras, pelas quais o imperialismo demonstra grande interesse atualmente.

Portanto, o socialismo no Brasil, ao contrário das experiências do século XX — que partiram de um patamar atrasado das forças produtivas —, partiria de um nível objetivamente superior, em um país industrializado e com plenas condições de desenvolvimento. Assim, as propostas que apresentamos buscam encaminhar esse processo de transição rumo ao poder popular e ao socialismo.

Breno Altman: Antigamente se dizia que, se a pobreza levasse ao socialismo, a Índia já teria feito a revolução. Mas também poderíamos dizer que, se condições econômicas maduras levassem ao socialismo, quem seria socialista seriam os Estados Unidos. O que falta, portanto, se as condições estão maduras no Brasil para que o socialismo possa se tornar uma perspectiva concreta na política do nosso país?

Edmilson Costa: Antes de tudo, é importante acrescentar um pouco mais sobre as condições objetivas que temos. Possuímos o segundo maior proletariado do continente. São cerca de 37 milhões de trabalhadores diretamente ligados à produção de valor e mais de 53 milhões nas áreas de serviços, comércio, etc. Portanto, essa base objetiva precisa ser trabalhada no sentido de transformarmos essas condições objetivas em condições subjetivas de organização.

Evidentemente, isso não é algo que cai do céu, que acontece de uma noite para o dia. Mas, se você tem essa base real, fica muito mais fácil desenvolver as condições subjetivas do que se não a tivesse. Também precisamos considerar que estamos na periferia do capitalismo, nos chamados elos débeis, onde as contradições são maiores e, portanto, mais favoráveis para avançar na construção dessas condições subjetivas.

Breno Altman: Qual é a estratégia que o PCB propõe para chegar ao socialismo e qual o papel que uma pré-campanha como a sua, dentro das regras da democracia liberal, poderia cumprir?

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Muito cuidado com as pesquisas

·         24/04/2026

  • Texto extraído do Blog do Magno Martins
  • - Edição de Camila Emerenciano

  

 

 

Por Maurício Rands*

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção.

Alguns não se importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que, geralmente, é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha apresentou dados em descompasso com os de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos.

Especialistas apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional estabelecida, cometem lapsos metodológicos, sobretudo quando a eleição ainda está distante. À medida que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os ajustes na metodologia e na amostra.

No caso da Datafolha, em alguns estados, ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E, no início, concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença em relação às demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos, assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto.

Como lembrou Renato Meirelles, em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para Presidente quando, inicialmente, indagados sem o estímulo do disco com as alternativas.

Isso significa 96 milhões de pessoas que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos.

Outro fator que recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43% dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões de pessoas que declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar.

Acrescente-se a frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na última pesquisa Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira de 12%. Mas, na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28% a 26%).

Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição.

No Brasil, o índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro”, embora erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos.

Foi o caso de Jair Bolsonaro, que, em 2022, tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de “ótimo/bom” oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda quando a rejeição individual (o “não voto de jeito nenhum”) for maior que 30%, mesmo com o governo bem avaliado.

Nenhuma dessas exceções se aplica à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as ações do seu governo forem ainda mais conhecidas.

No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível.

*Advogado, professor de Direito Constitucional e PhD pela Universidade de Oxford

EM TEMPO: O TSE deve baixar uma Resolução exigindo que os institutos de pesquisa realizem a devida Prestação de Contas, mensalmente, assim como é exigido dos candidatos. Afinal, que "bondade" é essa de tanto financiamento das pesquisas, as quais não são baratas. Ok, Moçada!

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

PSOL aciona PGR por venda de mineradora e pede investigação de Caiado

·         Brasil, Sudeste

·         23/04/2026

  • Texto extraído do Blog do Magno Martins
  • - Edição de Thaís Leandro


 

 

 

 






Deputados do PSOL protocolaram representação na Procuradoria-Geral da República contra o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado para questionar a venda da mineradora Serra Verde à empresa americana USA Rare Earth.

O pedido foi apresentado por Sâmia Bomfim, com apoio de Glauber Braga e Fernanda Melchionna. Os parlamentares solicitam apuração da operação e análise da legalidade dos atos ligados à negociação. As informações são do blog da Julliana Lopes, da CNN Brasil.

No documento, o grupo sustenta que o negócio envolve um setor estratégico e aponta possível avanço sobre competências da União em temas como mineração e relações internacionais. Também pedem que a PGR avalie medidas judiciais cabíveis, inclusive no Supremo Tribunal Federal, caso entenda haver irregularidades no processo.

Na representação enviada à PGR, deputados do PSOL afirmam que Caiado extrapolou atribuições do cargo ao praticar uma espécie de “diplomacia paralela” ao assinar um memorando com representantes dos Estados Unidos sobre minerais críticos e terras raras. Segundo o documento, a condução de relações internacionais e a gestão estratégica de recursos minerais cabem à União, o que configuraria possível violação à soberania nacional. A CNN procurou Ronaldo Caiado e aguarda resposta.

A ofensiva ocorre em meio ao avanço do debate político sobre terras raras no Congresso. Havia expectativa de votação, na Câmara dos Deputados, de uma proposta relatada por Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) sobre o tema, mas o texto acabou retirado de pauta.

Neste mês, a bancada do PT na Câmara também apresentou projeto para criar a estatal Terrabras e ampliar a participação do Estado na exploração desses minerais, sob o argumento de reforço à soberania nacional.

O negócio que motivou a ação foi anunciado nesta semana e avalia a Serra Verde em cerca de US$ 2,8 bilhões, com pagamento em dinheiro e ações da compradora. O fechamento depende de aprovações regulatórias e está previsto para o terceiro trimestre de 2026.

EM TEMPO: A população deve ser mais criteriosa na escolha dos seus representantes para os poderes Legislativo e Executivo. Não é possível termos tantos políticos submissos ao arrogante Presidente dos EUA, Donald Trump. Ok, Moçada!

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Trump atropela Lula: negocia com Caiado violando interesse nacional ao comprar terras raras para acelerar indústria americana

Compra de mineradora brasileira por empresa dos EUA reacende debate sobre soberania e controle das terras raras no governo Lula

Por César Fonseca (Repórter)

 

Kuala Lampur, Malásia - 26/10/2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático-ASEAN (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

No momento em que se discute, no Governo Lula, a criação da Terrabrás, que o líder do PT, na Câmara, deputado Pedro Uczai(RGS) disse, na semana passada, ser fundamental para garantir a soberania nacional, em matéria de terras raras, ativo mais cobiçado pelas potências internacionais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, libera recursos governamentais para empresários americanos comprarem mineradora no Brasil, detentora dessa riqueza fundamental.

A transação foi anunciada com o presidente Lula ausente do país; ele está na Europa, e, nesta segunda-feira, 20, visita a Feira de Hannover, na Alemanha, onde destaca o prestígio brasileiro na produção de alternativas energéticas ao petróleo, motivo maior da guerra que se desenrola no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã.

O Palácio do Planalto, por enquanto, não emitiu nenhum comunicado oficial sobre essa transação comercial, estimada em cerca de 3 bilhões de dólares, com aporte de perto de 600 milhões pelo governo americano, para formação de Sociedade de Propósito Específico (SPE), envolvendo interesses norte-americanos estratégicos.

A transação, que obriga os partidos de esquerda, aliados do presidente, a debater o assunto no Congresso, para avaliar suas consequências relacionadas à soberania nacional, foi realizada pela empresa americana USA Rare Earth (USAR), listada na Nasdaq.

O anuncio do negócio polêmico, dadas suas implicações estratégicas, compreende acordo para adquirir 100% da empresa Serra Verde Group, dona da única mina que produz e processa terras raras no Brasil.

DESNACIONALIZAÇÃO INTEMPESTIVA

O fato é que o anuncio dessa negociação intempestiva se realiza no contexto da discussão mais intensa que se desenrola entre as grandes potências, especialmente, Estados Unidos e China, na corrida para dominação das terras raras e sua industrialização, para produção de tecnologias de vanguarda: veículos elétricos, microprocessadores, armas atômicas, baterias etc.

O assunto motivou o governo Lula a debater a conveniência de criação urgente de empresa estatal, denominada Terrabrás, como se fez, relativamente, ao petróleo, com criação da Petrobrás.

O objetivo fundamental é nacionalizar tal riqueza, demandada, atualmente, pela indústria nos países capitalistas desenvolvidos, no contexto da corrida tecnológica, especialmente, armamentista.

O assunto ganhou relevância depois da visita do presidente Lula ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando ganhou dimensão o interesse econômico estratégico americano de explorar terras raras no Brasil, onde são abundantes, tal como na China.

Atualmente, os chineses, tecnologicamente, já manufaturam/refinam o produto, dominando o mercado mundial.

ESPERTEZA ANTINACIONALISTA DE CAIADO

Nesse interim, o governo Lula foi pego de surpresa pelas declarações do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, candidato à presidência da República, pelo PSD, de que estaria negociando, diretamente, com o governo americano, a venda de terras raras goianas para os Estados Unidos.

A legislação brasileira assegura ao Estado nacional a prerrogativa constitucional de ser o titular absoluto das negociações desse produto estratégico, para o interesse nacional, o que levou o Palácio do Planalto a entrar na discussão.

O estado de Goiás é parte – e não o todo do território nacional –, para se arvorar no direito de realizar negociações privadas com empresas americanas ou com o estado americano ou outro qualquer, no plano das relações internacionais.

Criou-se, portanto, grande impasse político entre o governo federal e o governo de Goiás.

Desse modo, é previsto que o debate político ocorrerá, de forma intensa, sobre o assunto, especialmente, porque ele emerge no contexto de campanha eleitoral, na qual o governador de Goiás é declaradamente anti-Lula.

DESNACIONALIZAÇÃO INCONSTITUCIONAL

Evidencia-se fato, politicamente, absurdo, em sua essência: a Terrabrás, como projeto alentado pelo governo federal, está sendo, pelo governador de Goiás, desnacionalizada antes de nascer, como proposta que tem de ser aprovada pelo Congresso Nacional.

O negócio, para surpresa geral, foi anunciado com o presidente da República fora do país, deixando o mundo político perplexo.

As perguntas estão no ar: o governo Lula foi pego de surpresa ou permitiu a venda desse material estratégico que, segundo ele mesmo tem dito, somente será realizado com agregação de valor em nome do interesse da industrialização nacional?

A gestão do ativo estratégico é ou não de competência federal? 

Valem as leis civis, privadas, ou o governo só pode interferir no que é dele, como ocorre, por exemplo, relativamente, às terras devolutas, florestas, rios, lagos, terras lacustres etc?

O tema levanta questões geopolíticas.

A criação da Terrabrás, atropelada pela negociação Trump-Caiado, para atender interesse da industrialização americana, produzirá insatisfação da China, parceira do Brasil em diferentes áreas econômicas, porém, alvo de irritação de Donald Trump, cuja interesse maior, geopolítico e geoestratégico, conforme a Doutrina Monroe/Donroe, é afastar os chineses da América Latina.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Compra da mineradora Serra Verde teve financiamento de Trump e escancara a ausência de política brasileira para terras raras

Brasil corre o risco de ficar como fornecedor de matéria-prima na cadeia dominada por outros, no momento em que esses minerais definem o equilíbrio geopolítico

20 de abril de 2026

Por Joaquim de Carvalho (Colunista do Brasil 247)

A mina de terras raras em Goiás (Foto: Divulgação)


 









A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela USA Rare Earth expõe um novo capítulo da disputa global por minerais estratégicos e, ao mesmo tempo, a fragilidade da política mineral brasileira.

O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões, ocorre com forte apoio do governo de Donald Trump, que estruturou um modelo agressivo de política industrial: financiamento público bilionário, participação acionária estatal e garantia de preços mínimos por até 15 anos.

Mais do que uma aquisição empresarial, trata-se de uma operação geopolítica.

A Serra Verde começou a ser constituída em 2010 e levou mais de uma década para sair do papel, como é comum em projetos minerais complexos. 

Após mais de US$ 1 bilhão em investimentos e início da produção em 2024, tornou-se um ativo singular a única operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala, os quatro principais elementos magnéticos, o Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr) Disprósio (Dy) e Térbio (Tb).

É difícil decorar esses nomes, e inclusive eles ficam na parte de baixo da tabela periódica, que estudamos no ensino médico. Importante é saber que servem e isso explica o interesse do governo dos EUA.

Os dois primeiros (neodímio e praseodímio) formam a base dos chamados ímãs NdFeB (neodímio-ferro-boro), que são os mais fortes disponíveis comercialmente hoje. Já o disprósio e o térbio entram em menor quantidade, mas são cruciais porque aumentam a resistência ao calor, evitam perda de magnetismo em altas temperaturas e permitem uso em aplicações exigentes

Esses quatro elementos são fundamentais em tecnologias como: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e eletrônicos, e sistemas militares avançados, como mísseis de última geração.

A Serra Verde deve responder por parcela relevante da produção global fora da China até o fim da décade. Esse salto transformou a empresa na maior produtora de minerais críticos fora da Ásia, tornando inevitável o interesse de potências estrangeiras.

Antes mesmo da venda, a Serra Verde já era controlada por fundos internacionais — dois dos Estados Unidos e um do Reino Unido. Ou seja, o Brasil já havia perdido o controle financeiro do ativo. Aliás, o Brasil nunca teve esse controle.

A aquisição pela USA Rare Earth apenas aprofunda essa lógica: agora, além do capital, o controle estratégico passa a estar diretamente alinhado ao Estado americano.

Fundada em 2019, a USA Rare Earth nasceu com um objetivo claro: construir uma cadeia completa de terras raras nos Estados Unidos — da mineração à produção de ímãs industriais.

Nos últimos anos, a empresa adquiriu ativos no Reino Unido (Less Common Metals), investiu em processamento na França e desenvolve mina no Texas e fábrica de ímãs em Oklahoma, além de ter recebido investimento direto do governo americano, inclusive com participação acionária

Esse modelo — chamado de “mine-to-magnet” — é essencial para reduzir a dependência do Ocidente em relação à China, que domina até 90% do processamento global.

O interesse do governo Trump nos minerais críticos é direto:

Defesa: mísseis, radares e sistemas militares dependem desses elementos

Energia: turbinas eólicas e baterias exigem terras raras

Tecnologia: chips, smartphones e carros elétricos

Em outras palavras, trata-se de soberania industrial.

Por isso, Washington abandonou a lógica de mercado puro e passou a agir como planejador estratégico — financiando, garantindo preços e até assumindo participação nas empresas.

Enquanto os EUA tratam o tema como questão de segurança nacional, o Brasil segue sem política estruturada para minerais críticos.

Hoje, não há um marco regulatório específico para o setor. A única proposta relevante no Congresso é do deputado Patrus Ananias, que sugere a criação de uma reserva estratégica em áreas de Minas Gerais e São Paulo, explorando o potencial de regiões de origem vulcânica.

O projeto, porém, não avançou.

Na prática, o país não define regras claras para exploração, não cria incentivos industriais, e não estabelece proteção estratégica dos recursos

A compra da Serra Verde escancara uma contradição:

O Brasil possui recursos estratégicos centrais para a economia do futuro, mas não tem estratégia para eles.

Enquanto isso, os Estados Unidos financiam empresas, garantem mercado, organizam cadeias produtivas e compram ativos no exterior

O resultado é previsível: o país que detém o recurso não necessariamente detém o poder.

E, no ritmo atual, o Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor de matéria-prima em uma cadeia dominada por outros — exatamente no momento em que esses minerais definem o equilíbrio econômico e geopolítico do século XXI.

EM TEMPO: A população deve ser mais criteriosa na escolha dos seus representantes para o Executivo e o Legislativo, isto é, para defenderem a soberania nacional. Afinal, há uma porção de políticos conversando bobagem (fazendo o povo de bobo), fazendo confusão, mentindo, do "baixo clero" (despreparados), votando contra os interesses nacionais, dos trabalhadores e do meio ambiente. Ok, Moçada!