As mobilizações estudantis abrem uma possibilidade de renovação política: reunir a experiência de Lula à consciência de uma geração que reivindica seu futuro, analisa o colunista João Lister (Advogado e Psicanalista)
Publicado em 10 de outubro de 2026.
Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, durante ato de campanha em Natal: o evento "Lula no Rio
Grande do Norte: O Brasil Pronto Pra Mais", realizado no cruzamento rua
Baraúna com a cel. Estevam, Natal – RN. Crédito: Ricardo Stuckert
Há um vigor nas
manifestações estudantis em apoio a Lula que merece ser compreendido para além
das imagens de multidões. Jovens que ocupam as ruas, organizam assembleias e
assumem publicamente uma posição estão produzindo um acontecimento político:
transformam a inquietação com o futuro em disposição para construí-lo. Essa
energia pode devolver à campanha de Lula o viço de uma consciência que se renova
e, com ele, a possibilidade da vitória.
A mobilização
ganhou expressão imediatamente após o primeiro turno. Em 5 de outubro,
estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do campus do Gragoatá e
percorreram ruas de Niterói. No dia seguinte, a agenda divulgada pela Mídia
NINJA já reunia mais de 40 assembleias, plenárias e atos em 14 estados e no
Distrito Federal, com atividades previstas até 13 de outubro. O calendário
compreende encontros realizados e novas convocações, revelando uma articulação que
vai além das passeatas.
Em 7 de outubro,
secundaristas e universitários caminharam da Candelária à Cinelândia, no Rio de
Janeiro. Segundo a Agência Brasil, suas reivindicações incluíam educação
pública, direitos sociais, democracia e o fim da escala de trabalho 6×1. São
temas que aproximam a experiência estudantil da vida de milhões de brasileiros:
estudar, trabalhar, ter tempo para viver e poder planejar o amanhã.
No dia 8, a
mobilização alcançou outras cidades. A CNN registrou manifestações em São Paulo,
Curitiba e Brasília, além de atividades em universidades de diferentes regiões.
UNE e coletivos estudantis participaram das convocações, e a defesa da educação
pública, da permanência nos estudos e do Pé-de-Meia apareceu entre as pautas.
O significado político
desse movimento está na passagem da preocupação individual à ação coletiva.
Quem acompanha uma eleição sozinho, diante de uma tela, pode sentir que o
resultado já está decidido e que sua participação pouco importa. Ao encontrar
outras pessoas dispostas a agir, percebe que possui voz e capacidade de
intervenção. A presença compartilhada pode converter ansiedade em coragem e
desalento em responsabilidade.
Essa mudança tem
especial importância para Lula. Uma liderança com longa trajetória precisa
continuar oferecendo um horizonte de futuro. Sua experiência ganha força quando
encontra demandas que ainda não foram atendidas, expectativas que permanecem
abertas e gerações que desejam participar das decisões. Os estudantes podem
renovar esse encontro.
O rejuvenescimento
de uma campanha acontece quando novas vozes passam a participar de seu sentido.
Uma jovem que reivindica condições para permanecer na universidade, um
estudante que trabalha e questiona a escala 6×1, um pesquisador preocupado com
a continuidade de sua formação trazem problemas concretos para o debate. Com
eles, o apoio eleitoral ganha conteúdo e a candidatura pode recuperar
capacidade de inspirar.
Há também uma
potência sociológica nessa circulação. O estudante pertence simultaneamente a
diferentes espaços: instituição de ensino, família, trabalho, bairro, amizades
e redes digitais. As questões discutidas numa assembleia podem chegar à mesa de
uma casa e à conversa entre colegas. A defesa da universidade pública passa,
assim, a dialogar com o esforço de pais e mães que desejam melhores
oportunidades para seus filhos.
Esse movimento
expressa uma ideia de país. Educação, ciência, trabalho digno e democracia
integram a possibilidade de ascensão social e de autonomia nacional. Ao
colocá-los nas ruas, os estudantes afirmam que o futuro brasileiro deve ser uma
construção pública, acessível também a quem depende de políticas sociais para
estudar e viver com dignidade.
A força dessa
juventude inclui sua capacidade de cobrar. Apoiar Lula pode coexistir com
exigir mais recursos para a educação, melhores condições de permanência e
respostas às dificuldades cotidianas. Uma consciência política viva interroga,
propõe e participa. A campanha se renova quando reconhece essa autonomia e
permite que ela tenha consequências em seus compromissos.
Naturalmente,
manifestações não permitem antecipar o resultado das urnas. A dimensão dos
atos, por si só, não mede a opinião de todo o eleitorado. Seu valor está em
abrir uma possibilidade: ampliar a participação, recolocar questões
substantivas no debate e recuperar a confiança de que a ação democrática pode
produzir mudanças.
É esse o viço de
consciência que a juventude pode oferecer a Lula. A experiência histórica de
uma liderança encontra a urgência de quem tem a maior parte da vida pela
frente. Nesse encontro, a campanha pode voltar a falar com convicção sobre o
país que ainda precisa ser construído.
Os estudantes estão tornando visível sua disposição
de participar dessa construção. Sua presença pode dar à candidatura de Lula uma
energia renovada, capaz de sustentar a caminhada até a vitória. Ao reivindicar
o próprio futuro, essa juventude oferece ao Brasil uma razão concreta para
voltar a ter esperança.






