"Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação Condor"
Por Alex Solnik (Jornalista)
12 de maio de 2026
Juscelino Kubitschek
De acordo com a investigação realizada pela
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério de
Direitos Humanos, a morte do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek de
Oliveira não foi acidental, como se supunha até então. Uma nova perícia
constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação
Condor, que foi criada nos Estados Unidos, pela CIA, para eliminar os
principais opositores dos regimes ditatoriais no Brasil, no Chile, na Argentina
e no Uruguai. O jornalista Ivo Patarra descobriu algo mais: os possíveis
mandantes do atentado.
EU: O que aconteceu naquele dia com o ex-presidente
Juscelino Kubitschek de Oliveira?
IVO: Dia 22 de agosto de 1976. Era um domingo. O
acidente, entre aspas...
EU: Não, peraí, peraí, era um domingo, era um
domingo. Onde estava o Juscelino e para onde ele foi?
IVO: Ele estava hospedado na Casa da Manchete, em
São Paulo. E, por volta das 14:00, viajou ao Rio de Janeiro, de carro.
EU: Qual era o carro? Quem era o motorista?
IVO: Era o Opala dele, quer dizer, o Opala que ele
deu para o Geraldo Ribeiro, que era o motorista dele há 36 anos, motorista
executivo da mais alta confiança, e eles pegaram esse carro para ir ao Rio de
Janeiro. No caminho, pararam em Resende, onde Juscelino tinha uma reunião.
EU: Quem o chamou para essa reunião?
IVO: Ele foi chamado para essa reunião por pessoas
que se apresentaram como emissários do governo do general-presidente Ernesto
Geisel. Juscelino, supondo que poderia ser candidato, digamos assim, nas
eleições de 78, mesmo que fosse no Colégio Eleitoral, achava que tinha que
fazer uma ponte com os setores militares, a gente estava num regime militar,
ele não poderia encarar uma eleição sem o mínimo apoio militar. Então, ele foi
para essa reunião, que se deu no Hotel Fazenda Villa-Forte, em Resende, logo
após a divisa São Paulo-Rio. Era um hotel que ficava a 500 metros da pista São
Paulo-Rio e lá ele ficou por 90 minutos, das 16h30 às 18h00.
EU: Quem era o dono do hotel?
IVO: O proprietário era o Brigadeiro Newton
Junqueira Villa-Forte (*), e o hotel ficou conhecido como “o Hotel do SNI”. O
Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte foi um dos organizadores, um dos
criadores do temível SNI, o Serviço Nacional de Informações, a Polícia Secreta do
Regime Militar, que foi criado em 1964. O primeiro chefe do SNI foi o general
Golbery do Couto e Silva. É importante dizer isso porque, em 1976, esse mesmo
Golbery era o braço direito do general presidente Ernesto Geisel como
ministro-chefe da Casa Civil. E lembrando que, em 1955, o mesmo Golbery foi
preso numa rebelião militar que tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek.
Então, já tinha um problema entre os dois.
EU: Quem estava nessa reunião no Hotel Fazenda
Villa-Forte?
IVO: Não se sabe. Não se sabe quem estava nessa
reunião.
EU: Enquanto Juscelino ficou lá dentro... onde
ficaram o carro e o motorista?
IVO: Havia um estacionamento no local. E o
motorista, como todo motorista executivo, não só de presidente da República, de
governador, prefeito, deputado, senador, vereador, o motorista executivo fica
sempre do lado do carro porque a autoridade chega e vai embora e está sempre
com pressa e, além de tudo, ele guarda o carro estando ao lado do veículo sem
que ninguém chegue perto. E aí você tem já uma contradição enorme na saída do
JK desse hotel, onde ele ficou noventa minutos, não se sabe o que aconteceu lá
dentro, eu entendo que ele pode ter sido humilhado ali, e quando o Geraldo
Ribeiro, o motorista dele, engata a marcha ré, para tirar o carro do estacionamento
- e quem contou à Comissão da Verdade foi o jornalista Carlos Heitor Cony -
perguntou ao encarregado do estacionamento se alguém havia mexido no carro.
EU: Mas espera aí, o Geraldo não ficou o tempo todo
ao lado do carro?
IVO: O Geraldo foi provavelmente atraído para
dentro do hotel. para tomar um café, será que ele foi drogado?, será que ele
foi envenenado?... o fato é que ao perguntar isso para o guardador, e pela
resposta que o guardador dá, ele também não estava lá, porque ele não é um cara
assertivo e categórico, claro que não mexeram no carro, estava aqui tomando
conta, não, ele simplesmente disse, “não, eu não vi nada”.
EU: O Cony contou se o Geraldo em algum momento
saiu de perto do carro?
IVO: Não. O Cony só contou que esteve lá e, conversando
com o guardador de carros, o guardador relatou isso para ele, que quando o
Geraldo Ribeiro engatou a ré no Opala, perguntou se alguém tinha mexido no
carro.
EU: Cony conversou com mais alguém no hotel?
IVO: Até onde se sabe, só com o encarregado do
estacionamento.
EU: Bom, se o estacionamento tinha um guardador e o
motorista perguntou se alguém tinha mexido no carro, é óbvio que ele não ficou
o tempo todo ao lado do carro, não é?
IVO: Sim, isso é o mais provável.
EU: Então pronto, agora... o Juscelino entra no
carro, o Geraldo já estranhou alguma coisa no carro, e eles pegam a Via Dutra
em direção ao Rio de Janeiro. E o que acontece, então?
IVO: Eles vão andar só três quilômetros. E aí você
tem o acidente. O que acontece? Na hora que o Opala entra na Dutra, pelo trevo,
ali em Resende, onde está o hotel, está vindo pela esquerda de São Paulo um
ônibus da Viação Cometa, e ele vem em alta velocidade, porque saiu com atraso
de São Paulo, ele estava descontando o atraso. O motorista da Cometa, Josias
Nunes de Oliveira, viu o Opala entrando na Dutra, mas ele vinha pela esquerda e
passou e foi embora. Três quilômetros adiante, numa manobra arriscada, que um
motorista com a competência do Geraldo Ribeiro, com a responsabilidade de estar
levando o Juscelino Kubitschek dentro do carro, não faria em circunstâncias
normais, ele ultrapassa o ônibus do Josias Nunes de Oliveira pela direita.
Lembrando que o ônibus vinha razoavelmente rápido, porque ele estava atrasado.
Numa situação normal, o carro do Juscelino esperaria atrás do ônibus, que iria
passar dois caminhões que estavam logo à frente à direita, e normalmente o
ônibus iria para a direita e o carro do Juscelino passaria o ônibus pela
esquerda. Não. O carro do Juscelino faz uma manobra arriscada, temerária, de passar
em alta velocidade o ônibus pela direita, lembrando que a Dutra ainda é assim,
são duas pistas só, pista da esquerda e pista da direita. Então, ele comete
esse ato grave, temerário, e logo…
EU: Sabe-se a quantos quilômetros por hora ele
estava?
IVO: Eu imagino que o carro estivesse talvez a 120
por hora, o ônibus a 90, que é uma velocidade razoável, e passageiros que
estavam dentro do ônibus repararam que o carro estava instável, meio
descontrolado, não a ponto de estar desgovernado ainda. Mas, assim que ele
ultrapassa o ônibus pela direita, faz uma inflexão radical para a esquerda e já
passa quase que imediatamente para a outra pista da Dutra. Ele pula um canteiro
central que tinha dez ou doze centímetros e cai na pista da contramão da Dutra.
De repente.
EU: Quem contou isso? O motorista do ônibus?
IVO: Sim, isso está, inclusive, nas perícias feitas
na época.
EU: O motorista depôs na Comissão da Verdade?
IVO: Sim, localizamos o Josias em Campinas. Mas
deixa eu te explicar. O carro vai para a outra pista da Dutra, a pista Rio -
São Paulo. Agora, vamos tentar congelar essa cena. Você tem um Opala, uma
situação gravíssima, quer dizer, ele atravessa o canteiro central e entra na
contramão na Dutra. Vamos congelar ali, para a gente tentar entender. Se fosse
uma situação normal, pela velocidade que ele estava, em meio segundo ele
atravessaria a faixa da esquerda, a faixa da direita e o acostamento da Dutra,
e estaria do outro lado da pista, onde até hoje é assim, e você tem um campo de
gramíneas no mesmo nível, ou seja, não teria acontecido nada se ele depois de
atravessar o canteiro central tivesse atravessado a Dutra, mas ele não faz
isso, o carro desgovernado começa a andar para a direita na contramão e ele
começa a andar exatamente contra os carros ou veículos que viriam na pista Rio
- São Paulo! Uma loucura! Não há nas perícias sinal de marca de pneu brecando.
Então, o carro simplesmente começa a andar na contramão e vai andar nessa
contramão por quatro, talvez cinco segundos, até se chocar contra uma carreta
carregada com 30 toneladas de gesso. Um detalhe. Depois da Comissão da Verdade,
o motorista que estava numa outra carreta, exatamente atrás da carreta contra a
qual o carro do Juscelino bateu, relata ter visto Geraldo Ribeiro, o motorista
do Juscelino Kubitschek, com a cabeça tombada entre o volante e a porta. Ou
seja, se isso realmente aconteceu, ele já não estava consciente, talvez ele já
não estivesse nem vivo, se isso for verdade.
EU: Então, com esse choque, com essa colisão, os
dois morreram na hora, o motorista e o Juscelino?
IVO: Morreram, tiveram mortes ali praticamente na
hora.
EU: O Juscelino estava no banco da frente?







