sábado, 3 de outubro de 2026

Os EUA fecham suas representações antes da eleição. O que está sendo preparado para o dia seguinte

A dois dias da votação, Washington suspende seus serviços consulares em todo o Brasil e introduz um sinal de excepcionalidade numa eleição já marcada por pressão externa e disputa sobre a legitimidade das instituições

Por Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)



 

Bandeiras do Brasil e dos EUA. Crédito: Embaixada dos EUA/Divulgação

O fechamento não pode ser lido isoladamente. Ele ocorre depois de sanções, pressões sobre o STF, ações voltadas ao sistema eleitoral e uma disputa aberta pela influência dos Estados Unidos no hemisfério. A questão agora é entender que função esse gesto cumpre antes do voto e, sobretudo, depois dele.

O sinal antes do voto

Faltam quarenta e oito horas para a abertura das urnas e os Estados Unidos suspendem os serviços consulares de sua embaixada e de seus consulados no Brasil. Funcionários são orientados a permanecer em casa. Cidadãos americanos recebem a recomendação de não se aproximar das instalações diplomáticas. Washington fala em preocupações de segurança e para aí. Não informa quem ameaça, o que foi ameaçado, qual a capacidade de quem estaria por trás disso nem por que um episódio inicialmente associado à embaixada em Brasília exige uma medida que alcança todo o país. A Austrália fecha sua embaixada por um dia e reproduz o alerta americano. 

A dimensão da medida contrasta com a informação disponível. O próprio Departamento de Estado mantém o Brasil no nível 2 de seu alerta de viagem, por criminalidade e sequestro. Não há elevação nacional por terrorismo, crise política ou violência eleitoral. A excepcionalidade aparece nas representações americanas, não na classificação geral do país. É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas consular.

Uma operação psicológica não precisa começar com uma mentira. O elemento decisivo pode ser um acontecimento real, uma ação de Estado, uma imagem ou um sinal capaz de reorganizar a percepção de determinado público. Não há documento público que permita afirmar que o fechamento tenha sido formalmente planejado como uma operação psicológica, mas seria igualmente grave analisar uma ação dessa natureza sem observar seu efeito informacional. Uma potência estrangeira interrompe seus serviços diplomáticos a dois dias de uma eleição presidencial e não explica de maneira suficiente a dimensão da resposta. O resultado imediato é previsível. Instala-se a percepção de que existe alguma coisa grave que o público ainda não sabe. O prédio fechado passa a falar no lugar da nota oficial. A pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu e passa a ser o que pode acontecer.

Esse movimento encontra um terreno que já vinha sendo preparado. Em julho de 2025, Donald Trump declarou uma emergência nacional em relação ao Brasil. A ordem executiva afirmou que atos do governo brasileiro representavam uma ameaça à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos. O documento atacou diretamente Alexandre de Moraes, defendeu Jair Bolsonaro, questionou decisões do Supremo e incluiu a eleição presidencial brasileira de 2026 entre as preocupações de Washington. Também abriu caminho para tarifas adicionais e determinou acompanhamento permanente da situação brasileira pelo secretário de Estado. O governo americano, portanto, não chega a esta eleição como espectador. Antes mesmo da campanha entrar em sua reta final, questões internas do Brasil já haviam sido incorporadas à agenda de segurança nacional dos Estados Unidos.

A pressão atravessou a economia, o Judiciário e o processo eleitoral. Em julho deste ano, o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao país antes da eleição. Autoridades brasileiras disseram à Reuters que a visita buscaria lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral. Washington negou essa intenção e afirmou que a agenda seria rotineira. A divergência não elimina o dado central. O sistema eleitoral brasileiro já estava diretamente no campo de atuação diplomática americana. 

Em 29 de setembro, três senadores da Comissão de Relações Exteriores dos Estados Unidos escreveram ao secretário Marco Rubio acusando o governo Trump de promover uma campanha de pressão sobre o Brasil e perguntaram formalmente se Washington reconheceria o resultado certificado da eleição independentemente do vencedor. No documento, citam tarifas, sanções, a aproximação com Flávio Bolsonaro e ações que, segundo eles, podem enfraquecer a confiança nas instituições brasileiras. É uma acusação formulada por adversários políticos de Trump, mas dentro do próprio Congresso americano e sustentada por uma sequência concreta de decisões da administração.

No dia seguinte, a Reuters revelou que a Abin havia apresentado a representantes franceses e alemães alegações de interferência estrangeira na eleição brasileira. O material discutido nas reuniões descrevia ações americanas que iam de lawfare a formas abertas de interferência. São avaliações da inteligência brasileira e precisam ser tratadas como tal, mas já não é possível reduzir a discussão sobre ingerência externa a paranoia partidária ou especulação de rede social. O tema chegou aos serviços de inteligência, à diplomacia europeia e ao Congresso dos próprios Estados Unidos. Em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República para investigar informações sobre recursos americanos destinados a projetos voltados contra a atuação do Supremo. 

A AGU afirmou que, se comprovado, financiamento estrangeiro usado para ataques sistemáticos às instituições brasileiras poderia configurar uma estrutura de ingerência externa. A investigação ainda precisa estabelecer o que efetivamente ocorreu, mas o fato político já existe. O Estado brasileiro considerou suficientemente grave a possibilidade de interferência financiada do exterior para mobilizar seus órgãos de investigação às vésperas da eleição. No dia seguinte, as representações americanas fecharam.

É essa cronologia que dá ao episódio seu verdadeiro peso. A votação de domingo ainda não produziu resultado, violência ou crise institucional, mas o ambiente já recebeu um sinal oficial de anormalidade emitido pelos Estados Unidos. O efeito estratégico do fechamento está justamente aí. Ele introduz um marcador de risco antes de a eleição acontecer. Se o processo transcorrer normalmente, o episódio pode desaparecer tão rápido quanto surgiu. Se houver manifestação, confronto, contestação das urnas ou questionamento do resultado, o fechamento poderá adquirir outro significado e ser recuperado como indício de que o risco já era conhecido, de que havia instabilidade antes da votação ou de que as autoridades brasileiras não controlavam plenamente a situação. Não é necessário formular uma acusação explícita quando um sinal já está disponível para ser reutilizado depois.

Isso ganha peso num processo eleitoral em que a legitimidade das urnas já está sob disputa. O problema não começa na noite da apuração. Começa antes, quando diferentes forças procuram estabelecer quais interpretações estarão disponíveis caso o resultado contrarie seus interesses. Uma eleição não termina politicamente quando acaba a contagem dos votos, mas quando o resultado é reconhecido como legítimo por atores capazes de produzir consequências. No Brasil de 2026, essa disputa já ultrapassou as fronteiras nacionais. O fato de senadores americanos terem considerado necessário perguntar a Marco Rubio se o governo Trump reconhecerá formalmente o resultado certificado mostra que a questão não é abstrata.

Há também uma base material que a linguagem diplomática não consegue esconder. A atual Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos declara que Washington pretende reafirmar sua predominância no Hemisfério Ocidental, garantir acesso a locais estratégicos, proteger cadeias de suprimento e reduzir a presença de competidores externos sobre ativos considerados vitais. O documento prevê ainda o uso combinado de comércio, segurança, inteligência e presença militar e trata como objetivo americano desencorajar países da região de aprofundar determinadas relações com outras potências. A América Latina volta a ser encarada abertamente como espaço estratégico de disputa. Recursos naturais, infraestrutura, cadeias produtivas, tecnologia, rotas marítimas e alinhamento político fazem parte da mesma equação. O Brasil, pela dimensão territorial, econômica e política que possui, ocupa posição central nesse tabuleiro.

Estados defendem interesses concretos. Potências preservam áreas de influência, protegem mercados, recursos, rotas e posições estratégicas. Quando um país com o peso do Brasil tenta ampliar sua margem de decisão externa, entra em choque com projetos de poder que procuram limitar essa autonomia. Washington não precisa gostar ou desgostar de um governo brasileiro. Precisa avaliar se esse governo facilita ou dificulta seus objetivos. É nesse sentido que Lula importa para essa disputa. Seu governo representa uma orientação de política externa que reivindica autonomia, mantém relações profundas com a China, participa dos BRICS e procura aumentar a margem de decisão brasileira num sistema internacional em transição. A eleição define quem administrará essa relação de forças.

Nada disso autoriza preencher as zonas ainda obscuras com fantasia. Não sabemos quem fez a ameaça que Washington diz ter recebido, qual sua gravidade, quais informações permanecem sob sigilo ou se o fechamento foi concebido desde o início para produzir efeito eleitoral. O que sabemos é que ele ocorre dentro de uma sequência em que o governo americano já usou instrumentos econômicos contra o Brasil, atacou decisões do Supremo, colocou formalmente a eleição de 2026 dentro de sua agenda de segurança nacional, tentou enviar funcionários para discutir integridade eleitoral, aproximou-se da candidatura de Flávio Bolsonaro e passou a ser acusado de interferência tanto por autoridades brasileiras quanto por integrantes do Senado dos próprios Estados Unidos. Retirar o fechamento dessa sequência seria produzir uma leitura artificial do fato.

A questão brasileira, portanto, é muito mais séria do que saber se a porta de uma embaixada estará aberta na segunda-feira. O que está em disputa é a capacidade do país de conduzir sua eleição sem que uma potência estrangeira ajude a definir antecipadamente o ambiente psicológico no qual seu resultado será recebido. Se existe uma ameaça concreta contra instalações diplomáticas, sua dimensão interessa diretamente às autoridades brasileiras porque o território é brasileiro. Se uma medida de alcance nacional foi tomada com base nessa ameaça, a proporcionalidade entre risco e resposta também interessa ao Brasil. Washington conhece a informação que motivou sua decisão. A sociedade brasileira conhece apenas a decisão. É nessa distância entre o fato conhecido e aquilo que ainda precisa ser imaginado que operações de influência encontram espaço para produzir efeitos.

Dois dias antes da eleição, os Estados Unidos introduziram um novo elemento nesse ambiente. O que acontecer depois das urnas mostrará que uso político poderá ser feito dele.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>  


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Abin, França e Alemanha: o que está acontecendo com a eleição brasileira

A resposta está muito além das fake news. A articulação da Abin com estruturas europeias expõe uma disputa por soberania que já atravessa as eleições de 2026

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)

Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

A quatro dias do primeiro turno, a denúncia de interferência estrangeira mostra que a eleição brasileira já é observada como questão de inteligência, poder tecnológico e soberania nacional.

Quatro dias antes do voto

Em 30 de setembro de 2026, uma informação mudou o enquadramento da eleição brasileira. A Reuters revelou que representantes da inteligência do país receberam, entre 9 e 11 de setembro, uma delegação francesa e alemã em Brasília. Na mesa estavam interferência estrangeira, plataformas digitais e formas de resposta antes da votação. Pela França vieram integrantes da Viginum, especializada em interferência digital estrangeira, e da Arcom, reguladora de mídia e comunicação. A Alemanha enviou representantes de sua Agência Federal de Redes. Os documentos examinados pela Reuters registram entre os objetivos da missão a preparação de respostas coordenadas para o processo eleitoral de 2026.

Foi nesse encontro que representantes brasileiros falaram em interferência proveniente dos Estados Unidos e da Rússia. As duas atribuições, porém, não aparecem sustentadas da mesma forma. Segundo o relato conhecido, a atuação norte-americana teria ido do lawfare a formas de interferência reconhecidas publicamente. Sobre a Rússia, o documento acessado pela reportagem não apresenta evidência específica. Colocar as duas acusações no mesmo plano apagaria justamente o que a informação disponível permite distinguir.

A composição da reunião ajuda a entender por que ela importa. Viginum, Arcom e a agência alemã não foram a Brasília para discutir apenas uma postagem falsa ou um vídeo adulterado. São estruturas que lidam com regulação, redes, segurança e interferência. A presença delas indica que o problema eleitoral brasileiro já está sendo observado como algo que combina tecnologia, poder estatal e capacidade de influência transnacional.

A Abin vinha preparando esse terreno conceitual. Em seu documento de desafios para 2026, descreveu o domínio digital como arena de competição geopolítica, apontou a dependência brasileira de infraestrutura tecnológica estrangeira como vulnerabilidade e admitiu que grandes plataformas podem funcionar como vetores de influência dos Estados onde estão sediadas. O mesmo documento reúne guerra cognitiva, espionagem, coerção e infraestrutura crítica dentro de um espectro híbrido. A Política Nacional de Inteligência, por sua vez, trata interferência externa como atuação deliberada voltada a influenciar os rumos políticos do país em benefício de interesses estrangeiros.

O risco, portanto, não começa apenas quando alguém tenta tocar na urna. Pode aparecer muito antes, na capacidade de uma potência, empresa ou rede política alterar o ambiente em que o país decide. Às vésperas da votação, a questão é simples e incômoda. Quem possui meios para condicionar a decisão brasileira, por quais caminhos e a serviço de quais interesses?

A guerra está atrás da notícia

Durante muito tempo, o debate público sobre guerra informacional ficou preso à mentira visível. Procurava-se a postagem falsa, a fotografia adulterada, o vídeo manipulado, a frase inventada. Era necessário fazer isso, mas nunca bastou. Uma operação pode usar conteúdo verdadeiro, falso ou apenas deslocado de contexto. O que lhe dá força está na organização, no financiamento, na infraestrutura, na escolha do alvo e na capacidade de repetir um estímulo até transformá-lo em ambiente.

Minha pesquisa foi caminhando nessa direção ao longo dos últimos anos. Não por antecipação profética, muito menos por desejo de reivindicar primazia. Os próprios objetos impunham a mudança. Ao estudar metaintermediação algorítmica, autonomia cognitiva, gerrymandering digital e operações psicológicas, o problema reaparecia sob formas diferentes. Plataformas não transportam apenas informação. Classificam públicos, distribuem visibilidade, antecipam preferências e alteram o campo em que decisões são tomadas.

Em julho de 2025, eu já discutia o risco de uma infraestrutura capaz de antecipar escolhas interferir na própria formação da autonomia. Meses depois, ao tratar da guerra informacional em direção a 2026, a questão aparecia em termos de detecção, antecipação e capacidade estatal de resposta. A unidade de análise deixava de ser a peça isolada. O que precisava ser seguido era a operação.

A Viginum chegou institucionalmente a uma formulação muito próxima. O órgão francês deixa claro que não é uma agência de checagem de fatos. Seu objeto é o modo operatório informacional, observado por indicadores técnicos, comportamento dos operadores, coordenação, ferramentas, procedimentos e infraestrutura. Em junho de 2026, esse conceito foi incorporado a um marco comum do mecanismo de resposta rápida do G7, numa tentativa de deslocar a atenção das narrativas para os meios que tornam uma campanha possível.

Saber que uma mensagem é falsa ajuda a conter sua circulação. Descobrir quem a produziu, como foi distribuída, quais contas atuaram em conjunto, de onde vieram os recursos e que sistemas ampliaram seu alcance aproxima a investigação da estrutura responsável pelo efeito político. É nesse terreno que inteligência e jornalismo investigativo começam a se encontrar.

Recuo humilhante da Globo dá impulso à vitória de Lula em primeiro turno

Cancelamento do debate põe a emissora dos três patetas a nu; favorecimento ao candidato Flávio Bolsonaro dá chabu diante da covardia do próprio; presidente lidera Datafolha em todos os cenários; vai rolar!

Por Marco Damiani

Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro



Da esquerda para a direita, José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho Crédito: Tomás Arthuzzi / Grupo Globo

Mesmo para uma máquina de comunicação que tem em sua ficha corrida episódios aéticos e vexatórios, como a não cobertura jornalística das campanhas das Diretas, em 1984; o escândalo Proconsult, de contagem fajuta de votos para prejudicar a vitória de Leonel Brizola, em 1982, na disputa pelo governo do Rio de Janeiro; a edição canhestra do debate Lula-Collor, em 1989, em que até uma pasta vazia para o corrupto alagoano foi providenciada pelo chefão Boni; e muitos outros, lembrem aí, até mesmo para a Rede Globo o cancelamento do debate de candidatos a presidente marcado para a noite desta quinta-feira, 1, é um marco histórico de cabeça para baixo.

O recuo humilhante em horário nobre deixou claro para o Brasil toda a má intenção da emissora dos três patetas, digo, irmãos Marinho, embutida na formatação do programa. O modelo sempre foi o de prejudicar o candidato do campo popular e democrático, que seria jogado em uma arena de extremistas para ser chacinado entre provocações e distorções de informações. Estava, sim, tudo armado para que a cadeira do candidato à reeleição ficasse vazia, que a ela se dirigissem perguntas, com tréplicas, apesar do mutismo da réplica, em que Lula seria atingido por adjetivos pejorativos.

O probleminha, porém, foi que até o TSE presidido por Nunes Marques, o KN das relações com Daniel Vorcaro, com André ‘terrivelmente vocês sabem o que’ Mendonça, no pleno de 9 ministros, escandalizou-se com o ardil, proibindo-o. Justiça feita. Mais ainda, atrapalhou o plano a covardia de Flávio Bolsonaro, que, diante da presença de última hora do juvenil postulante Renan Filho, correu da raia. Haveria muito escândalo a explicar. Entraria leão e sairia gatinho.

Igualmente, se tudo desse certo para os interesses dos Marinho, o estúdio global poderia virar palco de uma aliança a favor da extrema-direita, com Zema carregando seu impressionante 1% nas pesquisas e Caiado, com seus dentes trancados, afirmando que tudo pode, menos Lula. Mais claramente, tudo redondo para o filho do Bozo sair fortalecido. De chabú!

A noite global já começou com os burros n’água quando, no Jornal Nacional, precisou exibir os resultados da pesquisa Datafolha divulgada hoje, em que Lula vence seus adversários, um a um, em primeiro e segundo turnos. Duro de apresentar, mas não havia, afinal, outro jeito. O troco viria no debate armado para promover o Bonzinho, só que não.

Ao se desmascarar diante de sua audiência, abortando o debate minutos antes de seu início, simplesmente porque não haveria mais como seguir o roteiro de ataque a Lula, a Globo deixou todo o paramento ir-se, ficou nua, revelou-se, mostrou o que realmente é: uma grande, pesada e antiga engrenagem de manipulação política.

Parabéns ao presidente Lula, que acertou em cheio ao recusar o Cavalo de Troia que lhe foi oferecido. Está agora sendo entrevistado por uma grande plataforma de internet, pavimentando o caminho para a vitória. Perdem todos os envolvidos na farsa grotesca. Vencem os democratas, com destaque para a militância do PT, que tem saudado, em multidões, o brio, a garra e a disposição do presidente para salvar o Brasil do golpismo bolsonarista. A vitória em primeiro turno, graças à rajada de Uzi disparada pela Globo, nunca foi uma possibilidade tão real e próxima quanto agora.

Viva Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil!

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A volta da Petrobras à distribuição de combustíveis: entenda por que esta notícia anunciada por Lula é tão importante

Presidente anuncia intenção de comprar uma distribuidora e recoloca em debate uma decisão criminosa do governo Bolsonaro: a privatização da BR Distribuidora

Conteúdo postado por:  Redação Brasil 247.

Publicado em 30 de setembro de 2026



 

Lula em entrevista a influenciadores. Crédito: Ricardo Stuckert

247 – O presidente Lula anunciou a intenção de fazer a Petrobras voltar ao mercado de distribuição de combustíveis por meio da aquisição de uma distribuidora. A declaração, feita a quatro dias do primeiro turno da eleição presidencial, tem uma dimensão que vai muito além de uma eventual operação empresarial: significa reconstruir um instrumento estratégico perdido pela estatal com a privatização da BR Distribuidora durante o governo de Jair Bolsonaro.

A iniciativa surge também em um momento de volatilidade internacional dos preços do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio. O governo vem utilizando diferentes instrumentos para impedir que a escalada das cotações internacionais seja integralmente transferida para a população brasileira, incluindo a manutenção de um auxílio de R$ 2,12 por litro de diesel.

Lula defende que a Petrobras tenha novamente presença direta na distribuição, um dos segmentos fundamentais da cadeia de combustíveis. Hoje, a estatal é extremamente relevante na produção e no refino, mas não possui mais a antiga estrutura que levava sua atuação diretamente até a distribuição e os postos.

É justamente nesse ponto que se encontra a importância estratégica do anúncio.

O desmonte da BR Distribuidora

A BR Distribuidora foi durante décadas um dos principais braços da Petrobras. Criada em 1971, permitia que a companhia atuasse de maneira integrada, do petróleo extraído no campo até a distribuição dos derivados no mercado nacional.

O processo de privatização começou antes do governo Bolsonaro, com a abertura de capital de 2017, quando 28,75% das ações foram vendidas. Mas foi em julho de 2019 que a Petrobras, já sob Bolsonaro, perdeu o controle da companhia ao vender mais 30% do capital. A operação movimentou R$ 8,56 bilhões, segundo documentos analisados pelo Tribunal de Contas da União. A participação da Petrobras caiu para menos de 50%, transferindo efetivamente o controle da distribuidora ao mercado privado.

A própria Petrobras registrou posteriormente a operação como a primeira privatização de uma empresa estatal brasileira realizada por meio do mercado de capitais.

O processo seria concluído em 2021, quando a Petrobras vendeu sua participação remanescente. A antiga BR passou a se chamar Vibra Energia e a Petrobras deixou completamente o capital da empresa.

Vista do ponto de vista estratégico, a privatização da BR foi um crime contra os interesses nacionais. O Brasil abriu mão de uma companhia construída durante décadas, com enorme capilaridade, conhecimento do mercado e presença em praticamente todo o território brasileiro. Quando ocorreu a perda de controle, a BR era a maior distribuidora do país, tinha cerca de 30% do mercado, quase 8 mil postos e atuação em 99 aeroportos, segundo informações registradas pelo próprio TCU.

Não se tratava, portanto, simplesmente de vender ações. O Estado brasileiro abriu mão de um instrumento capaz de conectar a produção e o refino da Petrobras ao mercado consumidor.

“Por que vender a BR? O que ganhamos com a privatização?”, questionou Lula ao anunciar sua intenção de reconstruir a presença da Petrobras nesse segmento.

Por que uma distribuidora faz diferença

O preço que chega ao posto não depende exclusivamente da Petrobras. Entre a refinaria e o consumidor existem distribuição, mistura obrigatória de biocombustíveis, tributos e margens de revenda.

Isso significa que reduzir o preço na refinaria não garante automaticamente que toda a redução chegue à bomba.

Uma Petrobras novamente presente na distribuição ampliaria sua capacidade de acompanhar a formação dos preços ao longo da cadeia e de competir diretamente em um mercado estratégico. Não significaria que o governo passaria a determinar administrativamente o preço cobrado por todos os postos, mas devolveria à estatal presença empresarial em um elo do qual ela se retirou.

A questão ganhou ainda mais relevância diante das transformações recentes do mercado brasileiro de combustíveis. Levantamento publicado em setembro mostrou que derivados vendidos por algumas refinarias privatizadas chegaram a apresentar preços muito superiores aos praticados pela Petrobras. Especialistas ouvidos na reportagem apontaram que a venda de ativos isolados produziu, em determinados mercados regionais, elevada concentração em vez da concorrência esperada.

É justamente esse tipo de experiência que reforça a discussão sobre o papel estratégico de uma companhia integrada.

Petrobras do poço ao consumidor

A lógica defendida por Lula é recuperar parte da integração histórica da Petrobras.

Uma empresa de petróleo não precisa necessariamente se limitar à extração do óleo ou ao refino. As grandes companhias internacionais do setor atuam em diferentes etapas da cadeia porque essa integração proporciona escala, informações sobre o mercado, capacidade logística e maior resiliência diante das oscilações internacionais.

A BR cumpria exatamente esse papel para a Petrobras.

Ao privatizá-la, o Brasil separou dois negócios que durante décadas haviam operado de forma integrada. Agora, para voltar ao segmento, a Petrobras terá de desembolsar recursos para comprar uma distribuidora — justamente o tipo de ativo do qual abriu mão poucos anos atrás.

Esse paradoxo ajuda a dimensionar o custo estratégico da privatização.

Governo tenta impedir abusos

O anúncio de Lula ocorre no momento em que o governo também endurece a fiscalização sobre os preços dos combustíveis.

O Executivo elevou de R$ 14 milhões para até R$ 500 milhões a multa máxima aplicável a práticas abusivas no setor. A medida alcança produtores, importadores, distribuidoras, transportadoras e postos que aumentem injustificadamente suas margens ou se recusem a abastecer o mercado mesmo dispondo de estoques.

Segundo dados divulgados pelo governo, centenas de estabelecimentos estão sendo fiscalizados diante da preocupação de que recursos públicos destinados a amortecer a alta internacional acabem apropriados ao longo da cadeia sem chegar ao consumidor.

O problema é particularmente importante quando o Estado utiliza subsídios ou reduz impostos. Se não houver concorrência suficiente e fiscalização, parte do benefício pode ficar retida nas margens empresariais.

A presença direta da Petrobras na distribuição adicionaria mais um instrumento a essa estratégia.

Dois projetos para a Petrobras

A discussão também explicita diferenças entre os projetos econômicos presentes na eleição presidencial.

Flávio Bolsonaro defende redução do tamanho do Estado, contenção dos gastos públicos e novas privatizações. Lula, por sua vez, sustenta uma estratégia desenvolvimentista em que empresas públicas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e BNDES funcionem como instrumentos de investimento e soberania econômica.

A divergência não é apenas ideológica. Ela envolve uma pergunta concreta: setores como petróleo, energia e combustíveis devem ser tratados apenas segundo a lógica privada de rentabilidade ou também como elementos da segurança econômica nacional?

Para Lula, a resposta passa pelo fortalecimento da Petrobras.

“Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente ao defender uma política econômica independente e rejeitar subordinação aos interesses de outras potências, inclusive dos Estados Unidos.

Uma decisão que vai além dos combustíveis

O retorno à distribuição também pode ganhar importância com a própria transformação da Petrobras em uma empresa de energia. Uma rede nacional de distribuição pode servir, no futuro, não apenas para gasolina, diesel e etanol, mas para biocombustíveis avançados, recarga elétrica e outros produtos ligados à transição energética.

Por isso, a decisão anunciada por Lula deve ser compreendida em perspectiva histórica.

O Brasil construiu durante décadas uma Petrobras integrada. Depois, desmontou partes dessa estrutura e privatizou ativos estratégicos sob a promessa de que a iniciativa privada produziria mais competição e eficiência.

Agora, diante de um novo choque internacional do petróleo, o país redescobre a importância de possuir instrumentos próprios para defender seu mercado interno.

A eventual compra de uma distribuidora não desfará automaticamente os efeitos da privatização da BR. Mas representará uma mudança profunda de direção: depois de anos de retirada, a Petrobras poderá voltar a ocupar o espaço que nunca deveria ter abandonado — a ligação direta entre sua enorme capacidade de produção e refino e o mercado brasileiro de combustíveis.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Debate na Globo é arapuca para a produção de mentiras e cortes

“Para Lula, ir a um confronto na Globo, numa hora dessas, é como se o Flamengo fosse jogar com milicianos presidiários dentro de Bangu 1”, escreve Moisés Mendes

Por Moisés Mendes (Jornalista)

Publicado em 28 de setembro de 2026

Lula  Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O que chamam de corte, e vale hoje para qualquer coisa no TikTok ou no jornalismo profissional, é o que já foi chamado de edição de conteúdo. O corte não é uma invenção da internet ou da extrema direita lacradora. É mais antigo do que os chinelos de dedo.

O estagiário do Brasil 247 sabe que o corte é a escolha de uma imagem, uma fala, um texto, alguma coisa que expresse síntese. Os versículos da Bíblia são cortes. Este, por exemplo, é o versículo 44 do capítulo 8 do Evangelho de João, quando Jesus informa aos fariseus que sabe muito bem do plano para matá-lo:

“Vocês têm por pai o diabo e querem satisfazer os desejos do pai de vocês. Ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentiras, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”.

Jesus disse muito mais, num dos momentos mais tensos antes de ser assassinado, mas esse é o corte que está no Evangelho de João sobre o pai da mentira. O que Flávio Bolsonaro quer, no debate de quinta-feira na Globo, é lacrar e produzir mentiras. Ele é o filho ungido do pai da mentira no Brasil.

Flávio quer cortes para a propaganda de TV e rádio e para as redes sociais. É como funciona quase tudo hoje. O que a TV começou e a internet radicalizou foi o vício em cortes, muitas vezes fora de contexto, para favorecer alguém na sua pregação política.

O bolsonarismo é especialista em cortes e sabe fazer edições muito melhor do que as esquerdas. Por isso, o debate na Globo, que divide quem defende e quem é contra a presença de Lula, seria um momento para a produção de falas recortadas.

Ninguém mais vê um debate político do início ao fim. Poucos querem saber do encadeamento de argumentos, coerência e consistência. Querem cortes. Flávio não iria ao debate para enfrentar Lula com algum fundamento.

Levaria perguntas e frases prontas para editá-las em 10 ou 20 segundos. Dezenas de cortes descontextualizados. É previsível que seria assim. Sem condições de sustentar uma conversa sobre programas sociais, educação, saúde e economia, tentaria produzir intervenções lacradoras. É só isso. Lula só deveria ir se tivesse a certeza de que poderia vencer o duelo de cortes.

É arriscado, é quase impossível, sabendo-se que o caso de Nossa Senhora Aparecida e a proibição das bets não tiveram maior impacto nas pesquisas. O que poderá impactar tão perto da eleição, num debate com três figuras da direita?

Não ir pode significar a chance de Flávio levar frases bem escolhidas para cortes sobre a ausência de Lula. Mas também o extremista terá de calibrar o tom da afronta, para não saturar a audiência com excesso de escracho. E ficará falando sozinho, sem poder encarar Lula.

Parece ter prevalecido o alerta sintetizado por Leonardo Attuch, aqui no 247: que Lula não vá e que Flávio e os outros candidatos da direita se devorem no estúdio, porque não há outra estratégia para Ronaldo Caiado e Augusto Cury que não seja a de bater em Flávio.

Alguém imagina que eles possam ficar durante três horas batendo em Lula? Os outros dois, Romeu Zema e Renan Santos, não foram convidados porque seus partidos não têm representação suficiente no Congresso, como estabelece a legislação eleitoral. 

Muitos dirão que a Globo e os jornalões ficarão toda a sexta-feira atacando a ausência de Lula. Não haverá novidade. Não há o que ganhar indo a essa arapuca. Ninguém imagina que o Flamengo, às vésperas de vencer por antecipação a Série A, possa enfrentar um time de milicianos presidiários de Bangu 1, dentro da penitenciária.

E consideremos que, se Lula não for, como avisou à coordenação da campanha nessa segunda-feira, é provável que Flávio também avalie se vale a pena ir para levar bordoadas de Caiado. João, o evangelista, deve ter sido ouvido no Planalto: saia fora dessa, Lula, e fuja dos cortes e das mentiras de Flávio Bolsonaro.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO FIM DAS BETS

Texto extraído do Blog do jornalista Roberto Almeida. 

Originalmente publicado no dia 27.09.2026. 

A proibição das apostas esportivas e jogos online (bets),  por meio de Medida Provisória, beneficia a sociedade como um todo, as famílias brasileiras e a saúde pública.

O fim das plataformas freia o endividamento acelerado de milhares de lares, evita que recursos essenciais para alimentação, contas básicas e o sustento familiar sejam perdidos em apostas ou cassinos virtuais (como o "jogo do tigrinho").

Especialistas em dependência química apontam que a remoção dos sites do ar reduz os gatilhos para o transtorno do jogo compulsivo (ludopatia), que vinha crescendo de forma alarmante no país.

O fim das bets vai prejudicar setores poderosos da mídia, veículos de comunicação que não se preocupam com a saúde pública e a derrocada financeira de famílias inteiras, porque visam apenas o lucro.

Estrelas como o jogador Neymar e Virgínia Fonseca, que ganhavam muito dinheiro dessas empresas virtuais, também vão perder uma boa fonte de renda.

Mas esses já estão muito ricos, o prejuízo deles não é nada demais, porque será em benefício de milhares ou mesmo milhões de pessoas.

A choradeira dos clubes de futebol é ridícula.

Times tradicionais do Brasil, como Santos, Botafogo, Flamengo e Palmeiras se tornaram grandes muito antes de inventarem as bets.

Conquistaram os mais importantes títulos, assim como a própria seleção brasileira sem depender de casas da apostas.

Agora vir dizer que a proibição vai acabar com o futebol é uma afirmação cínica e ridícula.

Alguns acham que o presidente Lula tomou a medida de olho na eleição. Pode ser. De todo jeito, foi uma medida corajosa e necessária e se vai render voto por um lado, pode acarretar perdas por outro.

É que os setores prejudicados são muito poderosos e vão alimentar mais ainda o ódio contra o PT e sua política de favorecimento dos setores vulneráveis da sociedade.

Quem tem bom senso e se posiciona contra práticas que causam sofrimento e dor só pode aplaudir o fim dessas empresas que vendem ilusões, viciam e levam família inteiras ao desespero.



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Bets vão da legalização em 2018 à proibição em 2026. Veja o histórico

Setor ganhou aval legal em 2018, ficou sem regulamentação no governo Bolsonaro, recebeu regras em 2023 e agora enfrenta veto nacional

Conteúdo postado por: Leonardo Lucena

Publicado em 25 de setembro de 2026



 

Jogo de aposta.  Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

247 – A trajetória das bets no Brasil, da legalização no governo Michel Temer à proibição determinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atravessou três governos e diferentes etapas de legislação, regulamentação e fiscalização. A cronologia sobre a operação do setor no Brasil foi publicada nesta sexta-feira (25) pelo G1.

O Congresso abriu caminho para as apostas esportivas de quota fixa em 2018, o governo Jair Bolsonaro não concluiu as regras no prazo previsto e a gestão Lula regulamentou o mercado a partir de 2023. 

Nesta sexta-feira (25), Lula editou a Medida Provisória 1.394, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no território nacional.

A sequência ajuda a explicar como um setor que passou a integrar formalmente a legislação brasileira há oito anos chegou à proibição em 2026. A Lei 13.756, de dezembro de 2018, criou a modalidade de aposta de quota fixa vinculada inicialmente a eventos esportivos. 

A legislação concedeu ao Executivo até dois anos, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período, para regulamentar a atividade. O Ministério da Fazenda confirma que o prazo poderia chegar a quatro anos.

Congresso incluiu bets em medida do governo Temer

A origem do marco legal remonta ao último ano do governo Michel Temer. Em 2018, o Executivo encaminhou ao Congresso medidas relacionadas ao Fundo Nacional de Segurança Pública e à distribuição dos recursos provenientes das loterias.

O texto que saiu inicialmente do governo tratava do financiamento da segurança pública e da destinação da arrecadação das loterias. Durante a tramitação legislativa, o Congresso acrescentou a modalidade de apostas de quota fixa, e Temer sancionou a Lei 13.756 em 12 de dezembro daquele ano. A legislação original restringia essa modalidade a “eventos reais de temática esportiva”.

A lei autorizou a exploração comercial das apostas de quota fixa em território brasileiro e entregou ao governo federal a tarefa de estabelecer as normas de funcionamento. O próprio Ministério da Fazenda registra atualmente que a Lei 13.756/2018 legalizou as apostas esportivas de quota fixa, enquanto a legislação de 2023 incorporou os jogos on-line ao modelo.

Em setembro de 2025, Michel Temer falou sobre aquela decisão durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. O ex-presidente afirmou que enfrentava, na época, pressão pela liberação de outras modalidades de jogos.

“Mas daí houve essa ideia intermediária, que era aposta das bets. Foi no final do governo que eu autorizei. Eu não sei se faria diferente. Hoje eu vejo muitas notícias de gente mais pobre que destina boa parte do que ganha para essas apostas. Eu não sei se, diante dessa realidade, eu recuaria. Porque no Brasil, toda vez que você recua, é criticado”, declarou Temer.

Governo Bolsonaro deixou prazo de regulamentação vencer

A Lei 13.756 deu ao Poder Executivo dois anos para regulamentar o setor e permitiu uma prorrogação de mais dois. Dessa forma, o prazo máximo chegou ao fim de 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro.

A gestão Bolsonaro não concluiu a regulamentação. Durante esse período, o Ministério da Economia realizou consultas públicas em agosto e setembro de 2019 e em fevereiro de 2020 para reunir contribuições destinadas à construção das regras.

A pasta informou que recebeu milhares de manifestações. O governo também promoveu seminários por meio da então Secretaria de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria, a Secap.

“Adicionalmente, ainda em 2021, a Secap [Secretaria de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria] realizou uma série de seminários para estimular o debate e a difusão de conhecimento nos assuntos correlatos à sua área de atuação, esclarecendo que a opinião dos palestrantes não necessariamente representa um posicionamento da Secretaria, mas tem o intuito de contribuir com informações, discussão pública, estudos e opiniões que auxiliam nas políticas formuladas ou avaliadas e na transparência perante à sociedade”, diz documento do Ministério da Economia.

A falta de regulamentação manteve o mercado sem o sistema de autorização federal que entraria em funcionamento nos anos seguintes. O Ministério da Fazenda confirma que a lei de 2018 previa até quatro anos para que o governo concluísse essa etapa.

Em outubro de 2022, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro afirmou que o governo avançava na elaboração de um decreto para disciplinar o mercado.

“O cara continua jogando e o dinheiro vai para fora, então está maduro isso com toda a sociedade”, disse Bolsonaro, em declaração reproduzida pelo Valor Econômico.

O governo encerrou 2022 sem publicar o regulamento previsto na legislação. Levantamentos posteriores também registraram que o prazo legal terminou em dezembro daquele ano sem que a gestão Bolsonaro implementasse integralmente o modelo regulatório.

Lula regulamentou mercado em 2023

Ao assumir o terceiro mandato, em janeiro de 2023, Lula recebeu um mercado de apostas esportivas que já contava com autorização legal, mas ainda não tinha o sistema de regras, licenças e fiscalização que passou a vigorar posteriormente.

Em julho daquele ano, o governo editou a Medida Provisória 1.182 para disciplinar a exploração das apostas de quota fixa. O Congresso discutiu o tema durante os meses seguintes e também tratou dos jogos realizados pela internet.

Em 29 de dezembro de 2023, Lula sancionou a Lei 14.790. A norma detalhou a exploração das apostas de quota fixa, estabeleceu regras para operadores e apostadores, criou parâmetros tributários e disciplinou a destinação de parte da arrecadação. O Congresso também incluiu na legislação os eventos virtuais de jogos on-line.

A mudança ampliou o alcance da legislação de 2018. Na redação original, a lei mencionava eventos esportivos reais. A partir de 2023, o conceito passou a abranger eventos reais ou virtuais. O Ministério da Fazenda registra essa diferença ao explicar que a legislação de 2018 legalizou as apostas esportivas de quota fixa e a de 2023 passou a abranger jogos on-line.

O projeto também integrou o conjunto de medidas econômicas que o governo defendia para aumentar a arrecadação. À época, estimativas iniciais do Executivo apontavam potencial de pelo menos R$ 10 bilhões em receitas públicas provenientes da tributação dos jogos e apostas virtuais.

Fazenda criou regras e domínio bet.br

Em 2024, o Ministério da Fazenda avançou na implementação do novo marco. A pasta publicou uma série de atos para regulamentar autorização, fiscalização, publicidade, segurança, proteção ao apostador e funcionamento das empresas.

A Secretaria de Prêmios e Apostas, criada na estrutura do Ministério da Fazenda naquele ano, assumiu a responsabilidade pelo acompanhamento do mercado. O governo também definiu critérios para conceder autorizações às empresas.

As regras estabeleceram o domínio “.bet.br” para as empresas autorizadas a atuar nacionalmente. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas companhias que obtiveram autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar no mercado federal. Cada autorização permite até três marcas.

O sistema também passou a exigir o compartilhamento de informações com o governo e o cumprimento de normas relacionadas à segurança e à proteção de apostadores. Paralelamente, as autoridades começaram a bloquear endereços eletrônicos que ofereciam apostas sem autorização.

Banco Central estimou R$ 20,8 bilhões por mês em transferências

O crescimento do mercado ampliou o debate sobre os efeitos das apostas na renda das famílias.

Em setembro de 2024, um estudo técnico do Banco Central estimou que as empresas do setor receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês em transferências entre janeiro e agosto daquele ano. O BC calculou que aproximadamente 24 milhões de pessoas físicas fizeram pelo menos uma transferência via Pix para empresas de jogos e apostas no período.

O levantamento também identificou diferenças por faixa etária. Entre os mais jovens, as transferências mensais ficavam em torno de R$ 100. Entre pessoas de idade mais elevada, o valor médio superava R$ 3 mil por mês.

O Banco Central estimou ainda que as empresas retinham aproximadamente 15% dos valores transferidos, enquanto os demais recursos retornavam aos jogadores na forma de prêmios. O próprio estudo ressaltou que os números representavam movimentações brutas, e não necessariamente perdas líquidas dos apostadores.

STF determinou medidas para beneficiários de programas sociais

A participação de beneficiários de programas sociais nas plataformas levou o tema ao Supremo Tribunal Federal.

Em novembro de 2024, o ministro Luiz Fux determinou medidas para restringir o uso de recursos provenientes de programas assistenciais, entre eles Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada, em apostas on-line. O Plenário do STF confirmou a decisão por unanimidade.

O Ministério da Fazenda regulamentou os mecanismos de bloqueio em 2025. A Secretaria de Prêmios e Apostas criou, em parceria com o Serpro, uma base que permite às plataformas consultar se determinado CPF integra grupos impedidos de apostar.

As normas publicadas em outubro de 2025 passaram a atingir beneficiários do Bolsa Família e do BPC. O sistema recebeu novas categorias posteriormente, entre elas pessoas ligadas a programas de renegociação de dívidas e ao Fies. Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que o módulo já havia barrado o acesso de mais de 3 milhões de pessoas desde o início da implantação.

MP de 2026 proíbe apostas de quota fixa

A mudança de política se concretizou com a Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro de 2026. O texto proíbe em território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa. A regra alcança tanto as apostas relacionadas a eventos esportivos reais quanto os jogos on-line.

A MP também alcança empresas sediadas no exterior quando elas oferecem apostas a pessoas localizadas no Brasil. O texto preserva outras modalidades lotéricas que a legislação autoriza e também estabelece regras para encerrar as autorizações relacionadas às apostas de quota fixa.

Com a decisão, o governo Lula encerra o modelo federal de bets que o país construiu ao longo de oito anos: o Congresso criou a modalidade de apostas esportivas de quota fixa em 2018, durante o governo Temer; o governo Bolsonaro deixou vencer o prazo para concluir a regulamentação; o Congresso e o governo Lula definiram novas regras e incorporaram jogos on-line em 2023; e a MP de 2026 agora proíbe a atividade no território nacional.

EM TEMPO:  Certamente  alguns políticos simpatizantes das BET's e empresários do setor de apostas, a exemplo de João Campos (candidato a Governador de PE) e Felipe Carreras (candidato a Dep. Federal pelo Estado de PE), não irão gostar dessa decisão do governo Lula. Ok, Moçada!