"A derrota mais relevante não é americana. É israelense"
Por João Lister (Advogado)
Benjamin Netanyahu (Foto: ILIA YEFIMOVICH/Pool via
REUTERS)
O acordo anunciado por Donald Trump com o Irã não
deve ser lido apenas como mais um capítulo da diplomacia instável do Oriente
Médio. Ele revela algo mais profundo: a erosão da ideia de que Israel, sob
Benjamin Netanyahu, pode conduzir sua política regional como se os Estados
Unidos fossem uma extensão automática de sua estratégia militar.
À primeira vista, pode parecer que quem saiu
derrotado foi Washington. Afinal, os Estados Unidos entraram na guerra com a
pretensão de impor ao Irã uma rendição estratégica, limitar definitivamente seu
programa nuclear, reorganizar o tabuleiro regional e reafirmar sua supremacia
militar no Oriente Médio. Ao final, o que surge é um acordo negociado, mediado
por terceiros, com concessões práticas ao Irã, reabertura do Estreito de
Hormuz, alívio econômico e postergação das questões nucleares mais sensíveis
para uma etapa futura. Isso não é vitória imperial. É administração de danos.
Mas a derrota mais relevante não é americana. É
israelense.
Os Estados Unidos, mesmo quando recuam, continuam
sendo uma potência global capaz de converter impasses militares em narrativas
diplomáticas. Trump venderá o acordo como gesto de força, como contenção do
Irã, como vitória pessoal e como prova de sua capacidade de negociar onde
outros apenas guerrearam. O império sabe transformar retirada em coreografia.
Israel, porém, sai exposto em sua dependência.
O ponto central é este: Netanyahu parece ter
apostado que a aliança com os Estados Unidos seria incondicional, inclusive
para sustentar suas idiossincrasias políticas, seus cálculos internos de
sobrevivência e sua estratégia de guerra permanente. Essa aposta encontrou um
limite. Trump, ainda que por pragmatismo, e não por princípio humanitário,
sinalizou que não aceitará ser arrastado indefinidamente para aventuras
militares que possam desorganizar os mercados, elevar o preço do petróleo,
comprometer rotas globais de comércio e produzir desgaste político interno.
Esse é o dado novo. A relação EUA-Israel permanece estrutural,
estratégica e profunda. Não se rompeu. Mas deixou de parecer ilimitada. O
acordo com o Irã mostra que Washington pode, quando seus próprios interesses
assim exigem, separar a segurança de Israel da agenda pessoal de Netanyahu. E
essa distinção é devastadora para o primeiro-ministro israelense.
Netanyahu construiu parte substancial de sua força
política sobre a ideia de que só ele seria capaz de garantir a segurança de
Israel, porque só ele manteria controle privilegiado sobre Washington. Sua autoridade
interna depende da imagem de estadista indispensável, de comandante cercado por
inimigos, de líder que fala diretamente ao centro do poder americano. Quando
Trump negocia com Teerã, apesar das objeções israelenses, e quando deixa
transparecer irritação com ações militares capazes de sabotar o acordo, essa
imagem sofre uma fratura.
Israel não perdeu porque tenha se tornado
irrelevante. Perdeu porque descobriu que sua relevância tem limites. Perdeu
porque a doutrina da pressão máxima contra o Irã não produziu a submissão
esperada. Perdeu porque a guerra não resultou em uma arquitetura regional
desenhada exclusivamente a partir de Tel Aviv. Perdeu porque o Irã, mesmo
pressionado, bombardeado, sancionado e bloqueado, chegou à mesa de negociação
não como ator destruído, mas como parte necessária para estabilizar a região.
Essa é a dimensão simbólica da derrota israelense:
o inimigo que deveria ser isolado tornou-se interlocutor obrigatório.
O acordo também revela o fracasso de uma premissa
cara à direita israelense: a de que força militar contínua pode substituir
política. Durante anos, Netanyahu apostou na fragmentação regional, na
demonização absoluta do Irã, na associação entre segurança nacional e expansão
militar, e na transformação de toda crítica externa em ameaça existencial. Esse
modelo funcionou enquanto encontrou guarida automática em Washington. Mas,
quando a guerra passou a ameaçar interesses globais mais amplos, a Casa Branca
voltou a agir como potência imperial, não como gabinete auxiliar do governo
israelense.
É nesse ponto que a derrota de Israel se torna mais
profunda do que uma derrota militar. Trata-se de uma derrota de método. O
método Netanyahu pressupõe escalada permanente, captura emocional da opinião
pública ocidental e fusão entre interesses de Estado e sobrevivência pessoal no
poder. O acordo Trump-Irã, se consolidado, impõe outra lógica: contenção, custo
econômico, negociação e limite.
Não há ingenuidade aqui. Trump não se converteu em
pacifista. Os Estados Unidos não abandonaram sua política de poder. O Irã não
se transformou em parceiro confiável aos olhos do Ocidente. E Israel continuará
recebendo apoio militar, diplomático e financeiro americano. Mas o episódio
indica uma fissura importante: a política externa dos Estados Unidos pode até
proteger Israel, mas não necessariamente protegerá Netanyahu de Netanyahu.
Essa distinção muda o tabuleiro.
Para Israel, o dano maior é político e estratégico.
O país passa a conviver com a percepção de que sua margem de ação regional será
menor quando colidir frontalmente com interesses econômicos e eleitorais
americanos. Netanyahu, por sua vez, perde a aura de intocabilidade
internacional. Seu governo poderá continuar agressivo, mas agora sob o risco de
isolamento relativo, inclusive diante de aliados tradicionais.
No fundo, o acordo anunciado por Trump expõe uma
verdade incômoda: os Estados Unidos podem perder guerras sem deixar de ser
potência; Israel, porém, não pode perder a ilusão de que Washington estará
sempre disponível para legitimar todos os excessos de seu governo. Essa ilusão
foi atingida.
E quando uma potência regional descobre que seu
principal aliado não é incondicional, não se trata apenas de revés diplomático.
Trata-se de mudança histórica de posição.
Netanyahu queria demonstrar que Israel podia
arrastar os Estados Unidos até onde fosse necessário. O acordo com o Irã sugere
o inverso: há um ponto em que Washington para, calcula, negocia e deixa Israel
sozinho com as consequências políticas de sua própria escalada.
Essa é a verdadeira derrota.
EM TEMPO: Atualmente a humanidade se encontra muito indefesa diante dos desmandos ditatoriais ora cometidos pelos seus governantes. A ONU não consegue ser obedecida pelos ditadores, mesmo que hajam eleições em seus países.






