sexta-feira, 17 de abril de 2026

As ondas de protesto contra Trump


CréditosDerek French / EPA

Vijay Prashad

ABRIL ABRIL

Trump prometeu o fim das guerras e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa.

É fácil não gostar de Trump. Ele tem um estilo grosseiro, uma atitude perante o mundo que, num piscar de olhos, despreza as sutilezas da diplomacia e do direito internacional. «De um jeito ou de outro, vamos tomar a Groenlândia», afirmou em meados de janeiro de 2026; «Acredito que terei a honra de tomar Cuba», declarou em março. Vulgaridades como essas não eram vistas em público há muito tempo, talvez desde antes de 1945, pois, desde então, tais anseios imperiais têm sido mascarados por palavras como «democracia» e «direitos humanos». Simplesmente desejar um território pela riqueza de seus recursos não é aceitável, remete demais à era do domínio colonial — um retorno à linguagem do belga Leopoldo II (que disse que o Congo era um «magnífico bolo africano») e do britânico Cecil Rhodes (que disse: «Afirmo que somos a melhor raça do mundo e que, quanto mais do mundo habitarmos, melhor será para a raça humana»). Trump é uma versão menos elegante de Leopoldo e Rhodes, certamente com menos domínio da linguagem e dos termos de referência. Como é fácil zombar de Trump!

Nos Estados Unidos, a antipatia por Trump está em alta (com apenas um terço da população aprovando seu segundo mandato, uma queda de 11 pontos desde abril de 2025). Uma pesquisa, realizada pela Universidade de Massachusetts, constatou que as razões para a antipatia são várias: inflação, quedas no mercado de ações, paralisações do governo e, é claro, a guerra contra o Irã. Mas não basta apenas olhar para as pesquisas para compreender a realidade da antipatia por Trump. Ela é visível nas ruas. No dia 29 de março, nove milhões de pessoas participaram de mais de três mil e quinhentos protestos distintos em todos os estados dos Estados Unidos como parte da manifestação «No Kings». Esta é a terceira manifestação desse tipo; a primeira ocorreu em 14 de junho de 2025, atraindo cinco milhões de pessoas, e a segunda em 18 de outubro de 2025, reunindo entre seis e sete milhões de pessoas. Os números nesses protestos frequentes estão crescendo, e o perfil demográfico atraído por eles também está se expandindo para incluir ex-apoiadores de Trump.

Esses protestos, coloridos e animados, não foram explosões isoladas de indignação, mas a crista da onda visível de uma corrente mais profunda de dissidência contra uma longa trajetória do militarismo dos EUA, agora intensificada pela retórica e pelas ações de Trump.

Trump prometeu o fim das guerras no exterior e disse que o dinheiro desperdiçado nelas seria reservado para ajudar a resolver os problemas concretos que a classe trabalhadora dos Estados Unidos enfrenta. Assim como todos os outros presidentes dos EUA, Trump traiu essa promessa e envolveu os EUA em diferentes formas de guerra em todos os continentes. A inflação, consequência natural da guerra — particularmente de uma guerra que previsivelmente resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz — afeta os Estados Unidos, talvez não tanto quanto outros países, mas o aperto intensifica-se, mesmo assim. Uma população que vê os preços subirem e o perigo de que tropas americanas sejam necessárias para uma guerra desgastante em solo iraniano é um povo que perde o interesse nas fanfarronices dos seus líderes. A precisão torna-se mais importante do que a ostentação.

Dê-me liberdade

A ideia de “No Kings” representa a rejeição à monarquia que forneceu o discurso para a Revolução Americana de 1776. É essa a referência dos protestos, procurando inspiração nos revolucionários contra o rei George III para o seu próprio ciclo de protestos. Não há mosquetes na multidão, apenas cartazes que refletem a diversidade de opiniões. Alguns dos cartazes remetem à possibilidade frustrada de uma presidente Kamala Harris (se ela fosse presidente, dizem, não teríamos que protestar, mas estaríamos no brunch — um indicador do caráter burguês de parte do desdém por Trump). Outros são mais duros, com uma postura mais antiguerra, se não anti-imperialista. 

Dez anos depois, Dilma está firme e de pé – e os golpistas desmoralizados

Golpeada pelos políticos mais inescrupulosos do País, ela hoje escreve um capítulo importante da construção do mundo multipolar

17 de abril de 2026



 

A presidenta do NDB, Dilma Rousseff, durante a plenária da COP (Foto: Paulo Mumia/COP30)

Dez anos depois da sessão que marcou o golpe de Estado contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, a história começa já foi reescrita não apenas pelos fatos, mas pela força incontornável da realidade. O tempo, juiz implacável, tratou de reposicionar personagens, desmontar farsas e expor as motivações que estavam por trás de um dos episódios mais sombrios da democracia brasileira.

Dilma Rousseff, a vítima central daquele processo, não apenas resistiu ao julgamento distorcido da história imediata, como se reergueu em uma dimensão ainda maior. Hoje, à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, em Xangai, ela ocupa uma posição estratégica no momento mais decisivo da geopolítica contemporânea: a transição para um mundo multipolar.

Em um cenário de declínio relativo do poder unipolar dos Estados Unidos e de fortalecimento de novos polos econômicos e políticos, o NDB surge como instrumento concreto de financiamento ao desenvolvimento fora das amarras tradicionais impostas por instituições como o FMI e o Banco Mundial. Dilma, nesse contexto, tornou-se uma das vozes mais relevantes na defesa de um novo paradigma global, baseado em soberania, cooperação e desenvolvimento compartilhado.

Enquanto isso, os arquitetos do golpe seguem uma trajetória inversa — a da desmoralização pública e histórica.

O PSDB, que durante décadas se apresentou como uma alternativa de poder no Brasil, foi praticamente destruído a partir da aventura política liderada por Aécio Neves. Incapaz de aceitar o resultado das urnas em 2014, Aécio abriu as portas para uma escalada de radicalização que culminaria no impeachment sem crime de responsabilidade. O partido que no passado foi protagonista da política nacional transformou-se em uma legenda residual, sem identidade e sem relevância.

Eduardo Cunha foi o símbolo mais acabado do submundo da política que tomou o centro do palco naquele período. Foi ele quem conduziu a sessão infame de 17 de abril de 2016, operando o processo com motivações pessoais e interesses nada republicanos. Sua posterior prisão e condenação por corrupção apenas confirmaram o que já era evidente: o golpe foi articulado sob a liderança de personagens comprometidos com o crime.

Michel Temer, que assumiu a presidência após a queda de Dilma, também não escapou do desgaste histórico. Seu governo, marcado por medidas impopulares e pela implementação de uma agenda regressiva, o transformou num dos políticos mais impopulares da história do País, ainda que apreciado pela Faria Lima. Sua trajetória agora pode ganhar novos contornos à luz de investigações recentes envolvendo o banco Master, que começa a revelar conexões perigosas entre o sistema financeiro e figuras do poder político.

O contraste não poderia ser mais eloquente. De um lado, uma líder política que foi afastada sem crime comprovado, mas que retorna ao centro do cenário global como protagonista de uma nova ordem internacional. De outro, os responsáveis por sua queda, cada vez mais associados a práticas condenáveis, derrotas políticas e irrelevância histórica.

A história, afinal, não absolve arbitrariedades. Ela as expõe.

Dilma Rousseff está de pé. E mais do que isso: está no lugar certo, na hora certa, contribuindo para a construção de um mundo mais equilibrado, onde países em desenvolvimento possam trilhar seus próprios caminhos sem tutelas externas.

Já os golpistas, dez anos depois, enfrentam o destino que costuma ser reservado àqueles que conspiram contra a democracia: o da desmoralização e da lata de lixo da História.

Reveja a entrevista concedida por Dilma a mim como presidenta do NDB:

https://www.youtube.com/watch?v=S0SdQzhiT7M&t=8s

EM TEMPO: A ex-presidente Dilna foi reeleita para presidir o Banco do BRICS com apoio da Rússia e da China. Convém lembrar quê o que mais irritava os políticos era o fato de ninguém  mandar na Ex-Presidente, assim como ninguém manda na governadora de PE, Raquel Lyra. Quem quiser chorar pode chorar, pois o choro faz bem a saúde. Por fim, quero lhes dizer que o PSB de João Campos, o "Nevado Dançarino", votou pela cassação da nossa ex-presidente Dilma, e agora o direitista João Campos diz que é "aliado de primeira hora" do presidente Lula e o PT. Idem para Marília. É uma resenha, não acha? Ok, Moçada!. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

'Não tenho medo': como o papa Leão abandonou as indiretas e endureceu o discurso contra Trump

Líder da Igreja Católica e presidente dos EUA trocaram farpas nos últimos dias. Trump chegou a chamar o pontífice de 'fraco' e publicou foto em que aparecia como Jesus.

Por Redação g1

14/04/2026

·         O papa Leão XIV e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocaram farpas nos últimos dias.

·         O embate ressaltou a mudança de tom do pontífice nas últimas semanas, que antes recorria a indiretas ou críticas mais discretas às políticas de Trump.

·         Leão é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Logo após ser eleito, em maio de 2025, ele se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário Marco Rubio no Vaticano.

·         A viagem para Washington nunca aconteceu, e Leão passou a criticar políticas do governo Trump, principalmente contra imigrantes.




'Não tenho medo do governo Trump', diz papa Leão XIV após críticas do presidente dos EUA

papa Leão XIV e o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, trocaram farpas entre domingo (12) e esta segunda-feira (13). O embate ressaltou a mudança de tom do pontífice nas últimas semanas, que antes apostava em indiretas ou críticas mais discretas às políticas de Trump.

Leão é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Logo após ser eleito, em maio de 2025, ele se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário Marco Rubio no Vaticano. Na ocasião, o papa foi convidado a visitar a Casa Branca.

A viagem para Washington nunca aconteceu, e Leão passou a criticar políticas do governo Trump, principalmente contra imigrantes. A fala mais contundente veio em novembro, sem citar o nome do presidente norte-americano.

“Se alguém está nos Estados Unidos ilegalmente, há maneiras de lidar com isso. Existem tribunais. Há um sistema judicial. Acho que há muitos problemas nesse sistema. Ninguém disse que os Estados Unidos devem ter fronteiras abertas”, afirmou.

“Quando pessoas levaram vidas corretas, muitas delas por 10, 15, 20 anos, tratá-las de uma forma que é, para dizer o mínimo, extremamente desrespeitosa e com episódios de violência é preocupante.”

Desde o fim de 2025, no entanto, o papa passou a atenuar o tom:

·                   demonstrou preocupação com a situação no Caribe e na Venezuela, mas chegou a sugerir maior pressão econômica contra o regime de Nicolás Maduro, em vez do uso da força;

·                   evitou comentar ameaças de Trump contra a Groenlândia e não mencionou a morte de cidadãos americanos em operações antimigratórias em janeiro;

·                   em fevereiro, limitou-se a dizer que via com “grande preocupação” as tensões entre Cuba e Estados Unidos e pediu que a violência fosse evitada.

Ainda em fevereiro, a agência AFP afirmou que o papa Leão adotava uma abordagem discreta diante do governo Trump. Uma das estratégias seria confiar em críticas feitas diretamente por bispos americanos, enquanto o Vaticano recorria a canais diplomáticos para dialogar com Washington.

“Leão é muito cauteloso. Sabe que a voz do papa é universal. Como americano, é um pouco um opositor natural do trumpismo”, disse à AFP uma fonte do Vaticano, sob condição de anonimato, à época.

O tom mudou de vez com a guerra no Irã.

'Deus não escuta'

Um dia após o início da guerra no Irã, o papa Leão disse estar “profundamente preocupado” e afirmou que uma grande tragédia poderia ocorrer caso a violência escalasse.

“Faço às partes envolvidas um apelo sincero para que assumam a responsabilidade moral de interromper a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”, disse.

No fim de março, o pontífice elevou o tom. Ao celebrar a missa de Domingo de Ramos, afirmou que Jesus não pode ser usado para justificar guerras e criticou lideranças mundiais, sem citar nomes.

“[Jesus] não escuta as orações daqueles que fazem guerras, mas as rejeita, dizendo: ‘Ainda que façais muitas orações, não ouvirei: as vossas mãos estão cheias de sangue’”, disse, citando uma passagem bíblica.

No dia 7 de abril, Leão classificou como “inaceitáveis” as ameaças contra o povo do Irã. As declarações foram feitas no mesmo dia em que Trump afirmou que uma “civilização inteira” poderia morrer em um ataque dos EUA caso um acordo não fosse fechado.

“A ameaça contra o povo do Irã é inaceitável. Há questões de direito internacional, mas, mais do que isso, é uma questão moral”, afirmou.

O papa manteve as críticas após o início da trégua entre Irã e Estados Unidos:

·                   na sexta-feira (10), o papa disse que Deus “não abençoa nenhum conflito” e afirmou que quem é discípulo de Cristo “nunca se coloca ao lado daqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas”;

·                   no sábado (11), Leão fez um apelo para que os líderes mundiais acabem com a “loucura da guerra”;

·                   no domingo (12), ele disse estar próximo do “amado povo libanês” e pediu cessar-fogo definitivo em todo o Oriente Médio.

Resposta de Trump

Trump publicou uma forte crítica ao papa Leão na noite de domingo (12). Na Truth Social, ele chamou o pontífice de “fraco” e disse que o líder da Igreja Católica tenta agradar a “esquerda radical”.

“Eu não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela. E não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos”, escreveu.

·                   Apesar das falas do presidente dos EUA, não há registros de que o papa Leão XIV tenha defendido que o Irã tenha uma arma nuclear.

·                   Em 2025, Leão fez um apelo para um mundo livre da ameaça nuclear. Já no mês passado, ele disse que as nações deveriam renunciar às armas.

Trump disse ainda que Leão só foi eleito para o cargo porque ele é o atual presidente dos EUA. Para ele, o pontífice deveria ser grato por isso.

“Leão deveria se recompor como papa, usar o bom senso, parar de agradar a esquerda radical e focar em ser um grande papa — não um político. Isso está prejudicando muito ele e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica.”

Trump também postou uma imagem feita por inteligência artificial em que aparecia usando uma túnica e com poderes de cura, em uma estética semelhante à de Jesus. A imagem foi excluída no dia seguinte após várias críticas, inclusive de apoiadores.

Nesta segunda-feira (13), Leão afirmou que não tem medo do governo Trump. Ele disse ainda que não fez nenhum ataque direto ao presidente dos Estados Unidos ao apelar pela paz ou criticar pessoas que promovem guerras.

“Colocar minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer aqui, creio eu, é não compreender qual é a mensagem do Evangelho. Lamento ouvir isso, mas continuarei com o que acredito ser a missão da Igreja no mundo hoje”, disse.

“Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível.”

sábado, 11 de abril de 2026

A Barbária se rende estrategicamente. A Civilização vence. Por enquanto.

Cessar-fogo expõe fragilidade dos EUA e avanço da China no tabuleiro global


Bandeiras nacionais iranianas são vistas em praça de Teerã (Foto: Leonardo Attuch)

 

Foi sempre uma questão de civilização.

“Toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais voltar”. A História registrará essa frase com um olhar tão impiedoso quanto o Sol. Um estarrecedor imprimatur bárbaro, cortesia do Presidente dos Estados Unidos, por meio de uma postagem na mídia social.  

Em poucas palavras, a “civilização” mequetrefe que nos deu o  Big Mac ameaçando aniquilar a antiga civilização que nos deu a álgebra; que influenciou a arte, a ciência e a arte de governar de formas inigualáveis; que produziu figuras eminentes, de Ciro, o Grande a Avicena, de Omar Khayyan ao supremo poeta Jalaladdin Rumi; que criou incontáveis jardins e tapetes sublimes, maravilhas arquitetônicas e estruturas filosóficas e éticas.

É de importância crucial que não tenha se ouvido um pio sequer sobre esse ataque de nervos da Barbária por parte das lideranças políticas de todo o Ocidente Coletivo “civilizado”, que nem mesmo fingiu indignação, provando mais uma vez sua absoluta e irreversível falência moral e política.   

Os iranianos responderam na mesma moeda. Mais de quatorze milhões de pessoas se registraram para formar muralhas humanas em torno de suas usinas elétricas por toda a nação, ao mesmo tempo protegendo seu sustento e enfrentando cara a cara o poder de fogo do Sindicato Epstein.   

Quando o momento fatal se aproximava, o Babuíno da Barbária se metamorfoseou – no que mais seria? – em um TACO, imortalizado pelos caras do LEGO.

É absolutamente impossível que o Paquistão tenha oferecido “garantias” ao Irã de que um cessar-fogo era a maneira pôr fim à guerra. Tal como confirmado por fontes diplomáticas, o que realmente aconteceu foi que Pequim, na undécima hora, se colocou como garantidora, assegurando a Teerã que os Estados Unidos aceitariam pelo menos algumas das exigências iranianas colocadas em seu plano de 10 pontos.  

Esse fato foi confirmado pelo embaixador iraniano na China, Abdolreza Rhamani Fazili. As negociações começarão nesta sexta-feira em Islamabad.

O Presidente dos Estados Unidos, o Babuíno Babão da Barbária, confrontado com as terríveis e inevitáveis consequências de seus próprios erros estratégicos, usou o Paquistão como rampa de saída. O que foi confirmado por um outro erro épico do próprio primeiro-ministro paquistanês: ele se esqueceu de remover o cabeçalho da postagem do Twitter/X redigida pela Casa Branca para ser publicada por ele.    

O atual regime paquistanês  – comandado de fato pelo Marechal Asim Munir, que tem Trump na lista de discagem rápida de seu telefone – pode ter se beneficiado, e continuará a se beneficiar geopoliticamente de seu singular status: uma nação muçulmana nuclear com uma significativa minoria xiita, boas relações com o Conselho do Golfo (GCC); vizinho e amigável ao Irã; tendo assinado um pacto de defesa com a Arábia Saudita, parceiro estratégico da China e sem bases militares dos Estados Unidos em seu solo.   

Mas Islamabad foi sempre um mero intermediário, jamais o arquiteto de qualquer tipo de “mediação”. Por mais que a Casa Branca tenha tentado criar um ofuscamento, foi a China que teve que traçar os contornos de uma possível détente.

O Sindicato Epstein (leia-se Trump - grifo nosso) pede uma trégua  

Havíamos chegado a um ponto em que o culto à morte do Oeste Asiático vinha sendo esmagado simultaneamente pelo Irã e pelo Hezbolá, no sul do Líbano. Apesar de toda a avalanche de versões fantasiosas, seus gritos de socorro desempenharam um papel significativo na decisão de Trump de pedir um cessar-fogo.   

O Sindicato Epstein como um todo pediu esse cessar-fogo. Nada a ver com geopolítica, mas com um inferno operacional: o Império do Caos havia esgotado seus recursos militares.  

A pista reveladora foi quando o USS Tripoli bateu em retirada – sob fogo – para as profundezas do Oceano Índico, com 2.500 fuzileiros navais a bordo. Isso significava que a Marinha dos Estados Unidos estava de fora do teatro da guerra – exceto pelos submarinos com Tomahawks, dos quais cerca de metade  erram o alvo com surpreendente (im)precisão.  

E os problemas estão longe de terminar. O inferno financeiro assoma no horizonte, o que quer que seja decidido em Islamabad e mais além, com dez trilhões em títulos do Tesouro para serem rolados em 2026. E o petrodólar está rapidamente a caminho do lixo da História.  

Entra em cena, mais uma vez, o insano culto à morte (Governo de Israel - grifo nosso).  

Não esquecer jamais. O Sindicato Epstein é incapaz de cumprir acordos. E o culto à morte (Governo de Israel - grifo nosso) não pratica cessar-fogo: na melhor das hipóteses, ele encontra brechas que lhe permitam continuar a matar todos os que vê pela frente.  

Os sinais do desastre já são evidentes. Se o culto à morte quebrar o cessar-fogo  – o que já aconteceu – o Iran e o Hezbolá revidarão, de forma massiva, sem atacar ativos dos Estados Unidos.  

Mas ainda é cedo para afirmar que o Babuíno da Barbária tenha perdido a guerra com base em todas as métricas possíveis: morais; legais, políticas, econômicas e estratégicas.   

Afinal, o Império do Caos (Governo Trump - grifo nosso) sempre será, intrinsecamente, incapaz de respeitar acordos firmados, em especial quando a ficha corrida fala de dois ataques consecutivos no decorrer das negociações diplomáticas, matando a todos, desde o Aiatolá  Khamenei a dezenas de possíveis negociadores.  

O Grande Quadro permanece o mesmo (cantando!): esta é uma guerra de morte contra os três principais proponentes do mundo multipolar: Irã, China e Rússia.  

O jogo de poder da China, mais alguns fatos estabelecidos  

Antes do cessar-fogo, a China vinha recebendo 1,2 milhões de barris de petróleo iraniano por dia, trazidos, principalmente por 26 navios-tanque fantasmas, com seus  transponders no escuro, com pagamentos feitos em yuan no pedágio do Estreito de Hormuz, usando o CIPS.  Tudo isso deixando de lado o SWIFT, as sanções, o petrodólar e os seguros ocidentais.  

É isso que se chama de um sistema de pagamentos novo e alternativo implementado de fato,  no gargalo mais crucial de todo o planeta.  

Essa complexa arquitetura de energia-sombra permanece inalterada durante o cessar-fogo – supondo-se que ele se sustente. Mas o ponto principal é que a  China consegue mais uma pausa para tomar fôlego: a sombria ameaça de pôr fim a toda a exportação de petróleo iraniano criada pelo suspense do Dia da Usina de Energia declarado pela Barbária parece ter desaparecido. Isso explica a base lógica por trás da garantia de último minuto oferecida pela China ao Irã.   

Compare-se isso aos “objetivos” declarados do Império do Caos: provocar mudança de regime, se apoderar do urânio enriquecido, destruir o programa de mísseis e a capacidade do Irã de projetar poder. Tudo isso se transformou em um épico erro estratégico, culminando com o novo status do Estreito de Ormuz.   

Irã e Oman irão coordenar a cabine de pedágio para cada navio que cruzar o Estreito durante o cessar-fogo – e certamente depois que ele terminar, com base em uma minuciosa estrutura jurídica. Navios estadunidenses cruzando o Estreito de Ormuz após pagar sua taxa em yuan  – é difícil pensar em algo mais poeticamente intoxicante, no sentido da Ironia da História.  

Mesmo assim, está claro que o Império do Caos está tentando ganhar tempo – mesmo que o Irã mantenha a iniciativa. Aqui segue o principal  ponto colocado pelo Supremo Conselho de Segurança Nacional iraniano:  

“Ficou decidido no mais alto escalão que o Irã irá conduzir duas semanas de negociações em Islamabad com base unicamente nos seguintes princípios [os dez pontos iranianos]. Isso não significa que a guerra tenha terminado. O Irã só aceitará o fim da guerra quando esses princípios tiverem sido confirmados em detalhe”.  

Recapitulemos brevemente os 10 pontos que, em tese, foram aceitos por Trump:

1.      Compromisso de não-agressão;

2.      Manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz;  

3.      Acordo sobre enriquecimento de urânio;  

4.      Cancelamento de todas as sanções primárias;  

5.      Cancelamento de todas as sanções secundárias;  

6.      Revogação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU;   

7.      Revogação das resoluções do Conselho de Dirigentes da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA);

8.      Pagamento de indenização ao Irã;

9.      Retirada das forças militares dos Estados Unidos da região;

10.   Cessação da guerra em todas as frentes, incluindo a guerra contra o Hezbolá no Líbano.   

Não há hipótese de o Irã vir a aceitar uma solução de compromisso com relação à maioria desses pontos. O pagamento de indenização pode ser transformado em renda proveniente do pedágio do Estreito de Ormuz. Mas o alívio das sanções não irá acontecer, o Congresso dos Estados Unidos jamais o permitiria. A garantia de que os Estados Unidos não atacarão o Irã novamente não se qualifica  nem como piada. Além do mais, o Império do Caos, simplesmente, não conseguiria garantir coisa alguma com relação a Gaza ou ao Líbano.  

Esse, contudo, é um plano extremamente arriscado para o Irã e um enorme teste para a China, na qualidade de maior garantidora. O Irã sofreu danos horrendos – principalmente na indústria petroquímica. Mesmo com muito investimento chinês, levará anos para o Irã se recuperar.  

Os Três Patetas podem ir a Islamabad nesta sexta-feira. Curly é Vance, Shifty é  Witkoff e Mo é Kushner. Mas o Irã – representado por seu chanceler Araghchi – só falará a sério com um deles: Curly.  

Assim, a Civilização sobrevive – por enquanto. Acrescentando alguns fatos. Fato 1: os Estados Unidos não são mais uma superpotência, Fato 2: o Irã volta como uma das grandes potências mundiais. Fato 3: a maioria das covardes petromonarquias do Golfo acabará por expulsar definitivamente as bases militares estadunidenses. Fato 4: Qatar e Omã montarão um acerto de segurança com o Irã.   

O principal imperativo continua o mesmo – e interessa a todo o planeta: como encontrar uma cura para aquele câncer do Oeste Asiático.   

Tradução de Patricia Zimbres 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Em desespero após derrota, Netanyahu ataca ferrovia Irã-China

Ataque à ferrovia Irã-China ocorre após críticas internas e expõe crise diplomática do governo Netanyahu



Benjamin Netanyahu em Jerusalém 5/1/2026 REUTERS/Ronen Zvulun (Foto: Ronen Zvulun)

Redação Brasil 247

247 - Israel realizou na terça-feira (7) um ataque aéreo contra a ferrovia Irã-China, em um movimento que ocorre em meio ao agravamento da crise diplomática do governo de Benjamin Netanyahu e às crescentes críticas internas sobre sua condução da política externa. A ofensiva atinge um projeto estratégico ligado à Nova Rota da Seda e reforça o cenário de tensão regional.

Os bombardeios tiveram como alvo a chamada “China-Iran Railway”, inaugurada em 3 de junho de 2025 com financiamento de 40 bilhões de yuans por parte da China. A infraestrutura foi projetada para permitir o transporte de petróleo iraniano diretamente ao território chinês, contornando rotas marítimas tradicionais e reduzindo em cerca de 20 dias o tempo de transporte.

A ferrovia representa um dos principais eixos logísticos da estratégia chinesa de integração econômica e também foi concebida como alternativa para mitigar os efeitos de 13 anos de sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irã. O ataque marca a primeira ação direta de Israel contra um ativo central vinculado à iniciativa global de Pequim.

A ofensiva ocorre em um momento de forte desgaste político para Netanyahu. O líder da oposição em Israel e ex-primeiro-ministro Yair Lapid fez críticas contundentes à atuação do governo, classificando a política externa atual como um fracasso histórico. Em publicação recente, Lapid afirmou que Israel enfrenta um colapso sem precedentes em sua articulação diplomática. 

As críticas surgem em meio à trégua negociada entre Estados Unidos e Irã, articulada sem protagonismo direto de Israel. O governo israelense apoiou a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de suspender por duas semanas os ataques contra o Irã, como parte de uma tentativa de abrir espaço para negociações.

Apesar disso, Israel manteve operações militares no Líbano, deixando essa frente fora do cessar-fogo. A decisão gerou controvérsia, especialmente porque o acordo contou com mediação do Paquistão e foi apresentado como um avanço para a redução das tensões no Oriente Médio.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Israel “é uma maldição para a humanidade”, dispara ministro da Defesa do Paquistão

 

Khawaja Asif criticou o “genocídio” cometido por forças israelenses no Líbano, além de criticar a continuidade das operações militares na região

09 de abril de 2026



 

Khawaja Muhammad Asif (Foto: Salahuddin/Reuters)

Por Leonardo Lucena

247 - O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, afirmou que Israel “é uma maldição para a humanidade” ao comentar os conflitos no Oriente Médio, em meio a negociações entre Estados Unidos e Irã. A declaração ocorre em um cenário de escalada militar e tentativas de cessar-fogo, conforme informações divulgadas nesta quinta-feira (9) pela Al Jazeera. Forças israelenses lançaram 160 mísseis contra o território libanês em um intervalo de 10 minutos, nessa quarta (8). O ataque deixou mais de 300 mortos.

Khawaja Asif utilizou as redes sociais para acusar Israel de cometer “genocídio” no Líbano, além de criticar a continuidade das operações militares na região. As falas acontecem enquanto líderes internacionais discutem caminhos para reduzir a tensão.

O ministro paquistanês fez duras acusações contra o governo israelense. “Civis inocentes estão sendo mortos por Israel, primeiro Gaza, depois Irã e agora Líbano, o derramamento de sangue continua sem cessar”, afirmou.

As declarações ocorrem após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã. Um novo encontro entre representantes dos dois países está previsto para esta sexta-feira (10), quando devem discutir os próximos passos das negociações.

Em conjunto com Israel, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou ataques ao Irã a partir de 28 de fevereiro, sob a alegação de que Teerã buscava desenvolver armas nucleares. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, afirmou que inspetores da ONU não encontraram evidências desse tipo de programa nuclear no país.

Em resposta às ofensivas, forças ligadas ao Irã atingiram alvos militares dos Estados Unidos e de Israel em diversos países do Oriente Médio, incluindo Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o Irã não está em confronto com países do Golfo Pérsico, mas sim em embate direto com os Estados Unidos. Segundo ele, Washington conta com ao menos oito parceiros formais na região, entre eles Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Egito e Síria.

Do outro lado, o Irã mantém relações com aliados como o Paquistão, o Hezbollah, grupo sediado no Líbano, e o Iêmen. O cenário reforça a complexidade das alianças e amplia os riscos de escalada regional, mesmo diante das tentativas de negociação em curso.

EM TEMPO: A rigor é o governo de Israel que se veste de maldito para a humanidade.