Como atentados (ou supostos atentados) são usados pela extrema direita
para acabar com as democracias
Episódio envolvendo
Trump em Washington é um entre tantos que ajudaram no projeto de poder
autoritário, desde Hitler e passando por Bolsonaro.
Por Joaquim de
Carvalho (Jornalista)
Trump fala após
evacuação no jantar com correspondentes (Foto: Reprodução Youtube)
O episódio envolvendo Donald Trump,
durante um jantar com jornalistas em Washington, ocorre em um momento de baixa
popularidade do ex-presidente e de cenário adverso para o Partido Republicano,
que enfrenta risco concreto de perder maioria na Câmara e no Senado nas
eleições de novembro. O caso reabre o debate sobre atentados — ou supostos
atentados — que marcaram a atuação da extrema direita ao longo da história
recente. Não há casos notórios equivalentes que tenham beneficiado a esquerda
de forma comparável. Não se trata aqui de endossar teorias conspiratórias, mas
de observar que, em diversos contextos, esses episódios foram usados
politicamente para empoderar lideranças e justificar medidas que tensionam ou
violam garantias democráticas.
Um dos casos mais emblemáticos
ocorreu na Alemanha, em 1933, com o incêndio do Reichstag. O episódio aconteceu
poucas semanas após Adolf Hitler assumir o cargo de chanceler, em janeiro
daquele ano. Embora o Partido Nazista já estivesse formalmente no poder, foi após
o incêndio que se iniciou, de forma decisiva, a consolidação de um regime
autoritário.
O evento foi imediatamente atribuído
a uma suposta conspiração comunista. Em resposta, o governo aprovou o Decreto
do Incêndio do Reichstag, que suspendeu direitos fundamentais, permitiu prisões
em massa de opositores e instituiu mecanismos de censura. Foi nesse contexto
que o poder nazista se expandiu de maneira efetiva, transformando uma vitória
eleitoral em um regime de exceção baseado na repressão sistemática.
Décadas depois, nos Estados Unidos,
episódios envolvendo ameaças contra o então candidato Donald Trump também
ganharam destaque durante a campanha presidencial de 2016. O início da campanha
foi marcado pelo caso de Michael Sandford, um jovem britânico de 19 anos que
foi preso após tentar tomar a arma de um policial durante um comício em Las
Vegas. Ele havia feito treinamento de tiro poucos dias antes e declarou às
autoridades que pretendia matar o candidato.
Assim como ocorreria no Brasil, dois
anos depois, no episódio envolvendo Adélio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora, o
jovem Sandford foi diagnosticado com problemas mentais, incluindo depressão.
Sandford também relatou ser autista, o que não é um problema mental. O episódio
em Las Vegas teve ampla repercussão internacional e favoreceu eleitoralmente
Trump, com a narrativa de que ele era perseguido.
Já na fase final da disputa, outro
episódio ganhou visibilidade, embora com contornos distintos. Durante um
comício, um homem identificado como Austyn Crites foi retirado do público após
gritos de que estaria armado. A segurança interveio rapidamente, Trump foi
retirado do palco e o evento chegou a ser interrompido.
Posteriormente, verificou-se que
Crites não portava arma e não havia tentativa concreta de atentado. O próprio
envolvido afirmou ser apoiador de Trump e protestar contra a mídia. Ainda
assim, o episódio contribuiu para manter o tema da ameaça à segurança no centro
da cobertura da campanha, que terminaria com a vitória do candidato.
No Brasil, a campanha de Jair
Bolsonaro em 2018 foi profundamente impactada pelo atentado em Juiz de Fora, em
6 de setembro. Após o episódio, Bolsonaro apresentou crescimento significativo
nas pesquisas de intenção de voto. Dois dias antes, integrantes de sua campanha
haviam informado que ele passara a usar colete à prova de balas, diante de
supostos riscos de segurança.
No episódio de Juiz de Fora, porém,
Bolsonaro usava uma camiseta de campanha com a inscrição “Meu partido é o
Brasil”, contrastando com situações anteriores, como em Rio Branco (AC), onde
apareceu com jaqueta — apesar do calor — e fez declarações agressivas enquanto
segurava um tripé, em cena que foi amplamente divulgada. “Vamos fuzilar a
petralhada”, gritou.
No plano internacional, chama atenção
o encontro, semanas antes do atentado, entre Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro,
em Nova York. Eduardo Bolsonaro afirmou publicamente que Bannon teria alertado
sobre a possibilidade de um atentado contra seu pai, que, na época, estava em
segundo lugar na pesquisa Datafolha, com 19%. Já Lula tinha 39%. Sem o nome de
Lula na pesquisa, que estava preso pela Lava Jato, Bolsonaro subia um pouco –
22% -, nada que o fizesse favorito.
O tema do atentado voltou à cena nos
Estados Unidos em 2024, quando Trump foi novamente associado a um episódio
envolvendo disparo de arma de fogo. O caso teve enorme repercussão.
Especialistas observam que armas como o rifle AR-15 costumam provocar danos
severos, mas, no caso de Trump, houve apenas um arranhão.
No Brasil, um episódio histórico
frequentemente lembrado é o Atentado do Riocentro, em 1980. Durante a ditadura
militar, uma explosão ocorrida em um veículo revelou um plano de setores da
extrema direita: realizar um atentado e atribuí-lo à esquerda para justificar o
endurecimento do regime, que naquele momento passava por um processo de
abertura.
Outro caso de grande impacto foi o
Ataques de 11 de setembro de 2001. Após os atentados, os Estados Unidos
adotaram medidas como o Patriot Act, ampliando poderes de vigilância do Estado,
além da criação de estruturas como o centro de detenção em Guantánamo, alvo de
críticas por violações de direitos humanos..
O episódio deste sábado, nos Estados
Unidos, já está sendo utilizado politicamente por Flávio Bolsonaro, que
estabeleceu paralelos com o atentado de Juiz de Fora, reintroduzindo o tema no
debate público, enquanto Adélio, trancado em cela isolada no presídio de
segurança máxima, não pode sequer dar entrevista.
“Coloco nas minhas orações o
Presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e todos que estiveram no
jantar em Washington. Tentar tirar a vida de quem pensa diferente usando balas ou
facas não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá
ou aqui no Brasil”, escreveu. Historicamente, é a extrema direita que costuma
tirar a vida de quem pensa diferente.
A recorrência desses casos sugere que atentados —
reais ou não, e sempre apresentados como ameaças — desempenham papel relevante
em contextos políticos que favorecem o projeto da extrema direita. Este artigo
não endossa teorias conspiratórias, mas elenca episódios históricos em que tais
eventos foram mobilizados politicamente, contribuindo para o fortalecimento de
projetos de poder e, em muitos casos, para a restrição de direitos e garantias
democráticas.






