É preciso 'aumentar o custo de uma aventura intervencionista', diz ex-chanceler em Moscou
30 de maio de 2026
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| Celso Amorim (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil) |
Por Marco Fernandes e Serguei Monin (Brasil de Fato) - O assessor especial da
presidência brasileira, Celso Amorim, participou do Fórum Internacional de
Segurança de 2026 em Moscou nesta semana. Além de ter se reunido com algumas
das principais autoridades do governo russo, Amorim concedeu uma entrevista
exclusiva ao Brasil de Fato na qual comentou os conflitos atuais e questões de
soberania brasileira.
O tema inclusive ficou em alta nos
últimos dias após o governo dos Estados Unidos ter classificado o Primeiro
Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações
terroristas. Amorim foi um dos primeiros a reagir à divulgação em nome do
governo brasileiro. H
Em discurso, o assessor afirmou que
“outra grave ameaça à segurança [brasileira] é o crescimento do crime
organizado. O governo brasileiro está agindo decisivamente para desmantelar
redes criminosas, inclusive aumentando as penalidades legais e trabalhando em
estreita colaboração com as autoridades locais para reforçar suas capacidades.
O crime organizado deve ser combatido com o máximo de energia e determinação.
Equiparar o crime organizado ao terrorismo, no entanto, não é útil. Compreender
as motivações é essencial para a eficácia do combate a todos os tipos de
crime.”
Na entrevista ao Brasil de Fato,
sobre o atual estado da relação com o país, ele crê que haja um estreitamento,
mas “também falei francamente com os russos. O maior déficit comercial que o
Brasil tem é com a Rússia. Então, isso tem que mudar”. Por outro lado,
politicamente, “há uma grande reaproximação. Há 11 anos […] não havia reunião
de alto nível [da Comissão de Alto Nível Brasil-Rússia].”
Em relação aos diversos ataques de
Washington pelo mundo, Amorim expôs a condenação do governo brasileiro à
invasão da Venezuela, à guerra contra o Irã e se mostrou muito preocupado com a
situação em Cuba: “Eu acho que uma solução de força não vai dar certo e vai
implicar em muita morte, muito sofrimento”.
Amorim relembrou, com detalhes, a
tentativa brasileira e turca de mediar um acordo nuclear com o Irã em 2010, a
pedido do então presidente estadunidense Barack Obama, e lamentou que não se
tenha chegado a um acordo na época: “Podiam ter criado uma comissão para
acompanhar o cumprimento do acordo, se surgissem algumas dúvidas, mas tudo o
que nos foi pedido em relação ao Irã foi obtido“.
Por fim, o chanceler dos dois primeiros
mandatos do presidente Lula e ministro da Defesa da presidente Dilma Rousseff
levantou um debate fundamental para o Brasil — em meio à ofensiva imperialista
de Washington e à remilitarização de países como Alemanha e Japão — sobre o que
é preciso para defender nossa soberania: “Você tem que ter capacidade
dissuasória. Eu acho que isso é o mínimo para você atuar nas relações
internacionais. É muito bom ser pacifista, é muito bom procurar o diálogo, mas
ter um apoiozinho na hora do vamos ver”.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Em junho do ano passado, logo após os primeiros
bombardeios dos EUA contra o Irã, na Guerra dos Doze Dias, o senhor deu uma
entrevista ao vivo na TV e disse: “A ordem internacional acabou”. Depois
daquilo, já tivemos os assassinatos extrajudiciais de pessoas em barcos
pesqueiros no Caribe, a invasão da Venezuela, mais uma guerra contra o Irã, e
Cuba pode ser a próxima. Como o Brasil está reagindo a isso?
Celso Amorim: O presidente Lula tem
como base a ideia do diálogo. Você acabou de ver que, apesar de tudo que
aconteceu antes, recebeu um convite para os Estados Unidos. Foi lá, conversou,
estamos conversando sobre comércio, podemos conversar sobre outros aspectos.
Eu acho que o presidente Trump foi
muito respeitoso no diálogo conosco. Isso é uma coisa positiva. Agora,
indiscutivelmente, nós condenamos o que ocorreu na Venezuela e estamos muito
preocupados com Cuba, muito mesmo. Eu comentei algo, acho que com o Lavrov:
“Nós estamos aqui em Moscou. A Cuba comunista já tem quase o mesmo tempo que
existiu a União Soviética. E a União Soviética é a marca do século 20”. Então,
é uma coisa muito dramática.
Já tentaram de tudo, fizeram boicote,
embargo. Eu não sei o que mais podem tentar. Eu acho que será muito difícil
tentar conseguir uma coisa [como na Venezuela]. Eu também não esperava que
acontecesse o que ocorreu na Venezuela, mas acho que em Cuba ainda é mais
difícil.
Eu acho que, embora possa haver
insatisfação com a situação econômica, com outros aspectos também — eu não estou
defendendo o sistema —, Cuba poderia evoluir, mas eu acho que uma solução de
força não vai dar certo e vai implicar em muita morte, muito sofrimento. E eu
acho que Cuba tem um lado simbólico na América Latina, mesmo para os países que
não concordam com o regime.
Também não há uma percepção de que
eles estão over-extending, não a capacidade militar, que todo mundo
sabe que é enorme, mas até a capacidade política de mobilização. Tem um filme
que eu vi quando era criança, era um filme estadunidense, chamava “Um Fio de
Esperança”. Era um avião que estava ameaçado. Então, quando houver um fio de
esperança, a gente tem que trabalhar e ir nele. Antigamente, eu falava em
“brecha”, mas hoje as brechas já estão muito curtas, então tem que ir em um fio
de esperança.
E o presidente Lula falou sobre Cuba com o Trump nessa última visita?








