A herança maldita deixada pelos governos de Temer e Bolsonaro produziu uma avalanche de parlamentares inescrupulosos
23 de maio de 2026
Por Elisabeth Lopes (Advogada e Professora)
Câmara dos Deputados, Congresso Nacional (Foto:
agência Brasil)
A degradação de alguns segmentos da política
brasileira não ocorreu por acaso. Ela foi sendo construída ao longo dos últimos
anos por meio da corrosão deliberada da representação legislativa, do
fisiologismo pernicioso e da transformação do mandato parlamentar em
instrumento de negócios privados e guerra ideológica. O que deveria ser espaço
de representação popular converteu-se, em larga medida, num feudo de interesses
capturado por setores do Centrão oportunista e da extrema direita bolsonarista,
cuja lógica política gira menos em torno do interesse nacional e mais da
autopreservação do poder e do dinheiro.
A herança maldita deixada pelos governos de Michel
Temer e Jair Bolsonaro, ao empoderar o Congresso por meio do sequestro
progressivo do orçamento público, alimentou uma avalanche de parlamentares
inescrupulosos do Centrão fisiológico e da extrema direita. Consolidou-se um
modelo político baseado na chantagem institucional, no rateio de verbas
públicas e no fortalecimento de currais eleitorais sustentados por envios de
emendas sem a devida transparência.
O Congresso Nacional, atualmente dominado por esses
mesmos setores políticos eleitos em massa no auge da onda bolsonarista,
transformou-se num ambiente permanente de embates marcados pela desinformação,
pela defesa absoluta das poderosas bancadas aglutinadas no parlamento, pela
defesa de pautas ultraliberais em detrimento das necessidades da maioria da
população brasileira, pela agressividade verbal, pela autopromoção digital,
pelo oportunismo. Nesse cenário, parlamentares progressistas muitos deles
preparados, conhecedores dos problemas estruturais do país e defensores de
pautas sociais relevantes enfrentam enormes dificuldades para estabelecer um
debate qualificado diante de discursos radicalizados, rasos e frequentemente
sustentados por ataques, fake news e encenações midiáticas voltadas às redes
sociais.
A deterioração do nível político e institucional do
Legislativo fica evidente quando a lógica do espetáculo e dos interesses
eleitorais passa a prevalecer sobre o compromisso com o interesse público. A
recente derrubada de trechos cruciais dos vetos do presidente Lula à Lei de
Diretrizes Orçamentárias de 2026 evidencia de modo inequívoco esse processo de
degradação. A articulação conduzida pelo presidente do Congresso, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP) para flexibilizar restrições à transferência de
recursos públicos em período pré-eleitoral foi interpretada por amplos setores
como uma manobra de natureza essencialmente eleitoreira. Na prática, abre-se
espaço para que prefeitos e governadores aliados sejam irrigados com verbas e
benefícios públicos às vésperas das eleições, enfraquecendo mecanismos mínimos
de responsabilidade fiscal e comprometendo a isonomia do processo eleitoral. O
objetivo está centrado na ampliação do poder político e eleitoral utilizando o
Estado como instrumento de barganha.
Centrão e extrema direita transformaram o voto em
commodity política. O caso envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que
terceirizou seu mandato em favor dos atuais investigados por ilicitudes
financeiras, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o dono da Refit, empresário
Ricardo Magro, alvo da Operação Sem Refino por fraudes bilionárias, tornou-se
símbolo desse modelo promíscuo de poder. As investigações e revelações sobre
transferências milionárias da Refit para empresas ligadas à família do senador
evidenciam como parte significativa dessa elite parlamentar opera em estreita
sintonia com interesses empresariais e financeiros. O mandato deixa de
representar o eleitor para servir como extensão de grupos econômicos,
instituições financeiras e operadores de influência. Para os mais sagazes desse
sistema, a política converteu-se em grande centro de negociatas e quanto mais
vantagens oferecem ao poder econômico, maior o retorno financeiro, maior a
proteção política e maior o valor de mercado de sua influência dentro do
Congresso.
Em geral, a atuação do bloco bolsonarista é frequentemente marcada pela truculência verbal, pela ausência de preparo ético-político e pela incapacidade de construir consensos mínimos em favor do país. Muitos desses parlamentares parecem atuar menos como representantes da população e mais como influenciadores digitais especializados em produzir cortes virais, ataques pessoais e campanhas de desinformação. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) tornou-se um dos símbolos dessa atuação baseada em lacração permanente, vantajosa inclusive para negócios pessoais, estratégia replicada por diversos parlamentares do Partido Liberal, entre outros de mesmo viés ideológico. Sua atuação é tão deletéria e contrária à proteção das mulheres e crianças, que na quinta feira desta semana apresentou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) para tentar suspender os importantes decretos assinados pelo presidente Lula, com a velha justificativa de que esses contrariam a liberdade de expressão.
Vale assinalar que os decretos governamentais estabelecem diretrizes que estipulam um limite de duas horas para que as plataformas digitais removam postagens com apologia a crimes e conteúdos de nudez, inclusive os gerados sinteticamente por IA, a partir do recebimento da notificação. As redes também deverão conter o engajamento de linchamentos virtuais focados em mulheres. Todo esse processo será supervisionado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Já no Senado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
acumula episódios envolvendo disseminação de desinformação e sucessivas
controvérsias públicas. Sua trajetória política sempre esteve acompanhada por
acusações, contradições e narrativas desmentidas posteriormente pelos fatos. O
problema não reside apenas na mentira ocasional da política tradicional, mas na
institucionalização da mentira como método permanente de mobilização política.







