André Mendonça transforma a crise do STF em matéria-prima para um novo enquadramento de Washington: de Moraes como “censor” à suspeita de um Estado de vigilância
Por Reynaldo José
Aragon Gonçalves (Jornalista)
André Mendonça Crédito: Victor Piemonte/STF | Brasil 247/DALL-E
André Mendonça
atravessou uma fronteira que muda a natureza da crise no Supremo. Ao acusar a
inteligência da Polícia Federal de monitorá-lo sistematicamente, falar em
“arapongagem institucional”, associar Alexandre de Moraes ao conhecimento
dessas informações e recorrer à imagem totalitária de 1984, o ministro deixou
de disputar apenas a condução de uma investigação. Produziu uma representação
muito mais corrosiva do Estado brasileiro: a de um aparelho público que teria
passado a vigiar clandestinamente autoridades do próprio país. Ao afastar a
direção da Polícia Federal, colocou Supremo, PF e Executivo numa mesma zona de
ruptura. A crise deixou de ser apenas um choque entre ministros e passou a
atingir a legitimidade recíproca das instituições.
É justamente aí que
está o fato político novo. Durante mais de um ano, Alexandre de Moraes foi
construído nos Estados Unidos como o rosto de um suposto regime de censura.
Decisões contra plataformas digitais, investigados e operadores da extrema
direita foram arrancadas do conflito político brasileiro e traduzidas como
ameaça à liberdade de expressão, às empresas norte-americanas e, depois, aos
próprios interesses dos Estados Unidos. A narrativa produziu consequências
materiais: atravessou o Congresso e o Executivo norte-americanos, alimentou
sanções, medidas comerciais e pressão diplomática. Washington já demonstrou que
consegue converter uma interpretação política sobre o Judiciário brasileiro em
instrumento de coerção.
Mendonça acrescenta
agora algo que essa narrativa ainda não possuía. Censura é controle da palavra.
Vigilância é poder sobre o indivíduo. A acusação de que um ministro do Supremo
teria sido monitorado por estruturas de inteligência exige uma arquitetura
muito maior do que a figura isolada de um juiz autoritário. Ela convoca
polícia, coleta de informações, circulação de dados, cadeia de comando e
conhecimento institucional. Moraes pode deixar de ser apresentado apenas como o
magistrado que silencia adversários e passar a ser associado à imagem de um
sistema que observa, investiga e neutraliza. Mendonça não falou em “deep state
brasileiro”, mas colocou em circulação uma linguagem que pode ser traduzida
nessa direção com facilidade.
Isso não significa
que suas acusações estejam definitivamente provadas. Elas precisam ser
investigadas, confrontadas e submetidas ao devido processo. Essa distinção é
indispensável porque a força política do episódio nasce justamente da diferença
entre o tempo da prova e o tempo do poder. Uma investigação precisa estabelecer
fatos e responsabilidades. Uma operação política precisa apenas produzir uma
interpretação suficientemente plausível para circular antes que o processo seja
concluído. Washington já possui a infraestrutura política, jurídica e econômica
capaz de receber essa matéria e dar consequência a ela. A arma não nasceu com a
crise. O que surgiu agora foi uma munição nova.
Para compreender
por que Mendonça ocupa posição tão sensível nesse processo, é preciso olhar
menos para sua biografia formal e mais para os circuitos pelos quais circulou.
A ANAJURE apoiou publicamente sua indicação ao Supremo e mantém relação
institucional com a Alliance Defending Freedom, organização jurídica
conservadora norte-americana ligada ao Blackstone Legal Fellowship. A Academia
ANAJURE reuniu Mendonça e dirigentes desse circuito. Em outra frente, ele
participou de programas oficiais de formação anticorrupção em Washington,
esteve em ambientes de cooperação com Departamento de Justiça, FBI e SEC e,
quando ministro da Justiça, manteve interlocução com a embaixada dos Estados
Unidos em temas de segurança pública e crimes cibernéticos. Durante a Lava
Jato, também esteve no centro da controvérsia sobre o acesso da defesa de Lula
a registros de cooperação entre autoridades brasileiras e o FBI.
Há ainda sua
circulação por redes internacionais pró-Israel. Em 2024, Mendonça integrou
viagem a Israel organizada e financiada por entidades privadas ligadas à defesa
pública do Estado israelense, criticou depois a posição diplomática brasileira
sobre Gaza e participou de ambientes institucionais que aproximam
conservadorismo religioso, política e defesa de Israel. Nenhum desses vínculos
prova subordinação, comando estrangeiro ou direção de suas decisões. Prova,
porém, circulação, afinidade e inserção em redes transnacionais que conectam
direito, religião, segurança e política. É nesse nível, e somente nele, que
essas relações importam para compreender sua posição atual.
Operador, aqui, não
é sinônimo de agente. Um agente pressupõe vínculo, comando ou orientação
demonstrável. Um operador histórico pode agir por convicção própria e ainda
desempenhar uma função objetiva numa correlação de forças maior. O que define
essa função não é uma suposta ordem secreta recebida de Washington, mas o
efeito material do ato. Mendonça está no centro de uma das instituições mais
poderosas do Estado brasileiro e produz decisões capazes de atravessar
imediatamente fronteiras jurídicas, informacionais e diplomáticas. Ele não
precisa pedir sanções nem formular a narrativa norte-americana. Basta produzir,
no exercício do cargo, elementos que outros atores sabem transportar e
converter.
Esse circuito já
está aberto. A extrema direita brasileira aprendeu a internacionalizar
conflitos domésticos traduzindo decisões judiciais, investigações e disputas
eleitorais para o vocabulário político dos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro
tornou-se um dos principais intermediários dessa ponte ao atuar em Washington,
defender sanções contra Moraes e apresentar a crise brasileira como evidência
de autoritarismo. O episódio atual oferece algo qualitativamente distinto: não
apenas a denúncia de adversários do Supremo, mas documentos, decisões e
acusações produzidos por um ministro da própria Corte. A contestação ganha,
assim, autoridade institucional antes de atravessar a fronteira.
A divisão de
trabalho é objetiva. Mendonça produz o fato institucional. A extrema direita
formula o enquadramento. Intermediários transportam a narrativa. O ecossistema
trumpista amplifica. O Estado norte-americano possui instrumentos para
transformar percepção em custo econômico, diplomático ou financeiro. Nenhuma
dessas etapas exige uma sala de comando comum. Convergência não é conspiração.
Na política de poder, atores diferentes podem agir por interesses próprios e
produzir resultados complementares. É precisamente aí que Mendonça se torna
operador interno da ruptura: sua atuação aumenta o valor estratégico de uma
crise que Washington já vinha explorando.
O mecanismo ganha
profundidade quando a possibilidade de punição externa começa a entrar no
cálculo doméstico. Se ministros, autoridades e instituições sabem que uma
decisão tomada em Brasília pode produzir sanção em Washington, o poder externo
já interfere no ambiente interno antes de qualquer nova medida ser anunciada.
Soberania deixa então de ser apenas uma questão jurídica. O Estado permanece
formalmente livre para decidir, mas suas escolhas passam a carregar o risco de
uma retaliação definida por outra potência. O condicionamento antecede a
coerção.
Para um país do Sul
Global, essa assimetria é decisiva. Potências centrais não precisam fabricar
todas as crises da periferia. Basta reconhecer quais contradições internas
podem ser convertidas em vantagem externa. Quanto mais fragmentado o centro
decisório brasileiro, menor o custo de pressioná-lo. Um ministro confronta a
Polícia Federal, a PF contesta a interpretação do ministro, o Executivo reage
para preservar sua autoridade e o Supremo precisa arbitrar um conflito que já
corrói sua própria legitimidade. O Estado começa a ser colocado contra si mesmo
exatamente quando uma potência externa dispõe de meios para selecionar
interlocutores, punir adversários e transferir o conflito para arenas em que a
assimetria de poder lhe é favorável.
É aí que o golpe do
século XXI se afasta da imagem clássica. Não precisa haver tanques diante do
Congresso nem generais anunciando uma nova ordem. A ruptura pode preservar
formalmente as instituições enquanto esvazia sua capacidade real de decidir. O
tribunal continua aberto, o governo continua eleito, a polícia continua
funcionando e a Constituição permanece em vigor. Mas autoridades passam a
calcular o risco de sanções pessoais, atores domésticos procuram em Washington
a força que não conseguem produzir internamente e decisões soberanas são
submetidas à expectativa permanente de retaliação estrangeira.
Defender a
soberania brasileira, por isso, não significa blindar Alexandre de Moraes, a
Polícia Federal ou qualquer autoridade. Se houve abuso, espionagem ilegal,
favorecimento ou crime, que tudo seja investigado, provado e punido no Brasil.
Uma democracia que protege seus próprios agentes contra a lei oferece munição a
quem pretende deslegitimá-la. O que não pode ser normalizado é outra coisa:
transformar uma fragilidade interna em autorização para que Washington adquira
o poder de definir quem, dentro do Estado brasileiro, merece governar, julgar,
investigar ou permanecer no cargo.
A história dos
golpes na periferia raramente começa no instante em que a ordem constitucional
cai. Antes existe uma batalha pela autoridade de definir o legítimo. Quando
essa autoridade começa a migrar para fora do território nacional, a ruptura já
está em curso, mesmo que nenhuma instituição tenha sido fechada. Mendonça não
precisa ser agente de Washington para funcionar como operador interno de uma
correlação de forças que favorece Washington. Basta que a fissura produzida
dentro do Estado seja convertida, fora dele, em capacidade de coerção sobre o
Brasil.
O problema,
portanto, não é apenas o que André Mendonça pretende fazer com Alexandre de
Moraes.
É o que Washington poderá fazer com o Brasil a
partir da crise que Mendonça acaba de produzir.
Assista o vídeo:







