Analista afirma que resistência iraniana já alterou o equilíbrio global e abriu disputa decisiva pela nova ordem internacional
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| Pepe Escobar (Foto: Flickr / Brasil 247) |
247 – O jornalista
e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que a atual guerra no oeste da Ásia
pode marcar uma virada histórica no sistema internacional e acelerar o fim do
petrodólar, base da hegemonia financeira dos Estados Unidos nas últimas
décadas. A avaliação foi feita em entrevista concedida à TV 247, em conversa
conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch.
Durante a entrevista, Escobar
argumentou que a reação militar do Irã surpreendeu Washington e Tel Aviv e
expôs vulnerabilidades estruturais da presença estratégica americana na região.
Para ele, a resposta iraniana foi planejada ao longo de meses e executada com
rapidez suficiente para alterar o equilíbrio do conflito.
Segundo o analista, a guerra segue
duas “estradas paralelas” que não se encontram: de um lado, a estratégia de
resistência total do Irã; de outro, a tentativa dos Estados Unidos e de Israel
de manter o controle do sistema regional. Na visão de Escobar, a reação
iraniana demonstrou que o país estava preparado para atingir alvos estratégicos
ligados aos interesses americanos.
"Se vocês nos atacarem, nós vamos atacar tudo de volta. Tudo significa todo o nó dos interesses americanos e israelenses no oeste da Ásia inteiro", afirmou Escobar ao explicar a lógica militar anunciada previamente por Teerã.
Estratégia iraniana mira infraestrutura estratégica dos EUA
De acordo com Escobar, o Irã
respondeu rapidamente aos ataques iniciais e passou a atingir bases militares,
radares e centros logísticos ligados à presença dos Estados Unidos na região.
Ele destacou que um dos principais
objetivos foi neutralizar sistemas de radar e vigilância instalados em países
do Golfo. Segundo o analista, a destruição ou desativação desses sistemas
comprometeria a capacidade de coordenação militar americana.
"Se você cega todo o sistema
americano que interconecta lançamento de mísseis, satélites e comunicações, o
império, por definição, está cego", disse.
O analista também afirmou que os ataques não se limitaram a Israel, mas atingiram toda a rede de infraestrutura estratégica que sustenta a presença militar e econômica dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e no oeste da Ásia.
Guerra pode atingir o sistema do petrodólar
Para Escobar, um dos efeitos mais
relevantes do conflito pode ser o enfraquecimento do sistema do petrodólar —
mecanismo que sustenta a predominância do dólar nas transações globais de
energia.
Segundo ele, a estratégia iraniana
envolve não apenas a expulsão militar dos Estados Unidos da região, mas também
a ruptura do vínculo financeiro entre as monarquias do Golfo e o sistema
financeiro americano.
"Essa é uma guerra para acabar
com o petrodólar", afirmou.
Na análise do jornalista, fundos
financeiros globais desempenharam papel central nesse sistema ao intermediar
investimentos provenientes das monarquias petrolíferas em ativos ocidentais.
Escobar citou a gestora BlackRock
como um dos principais canais dessa reciclagem financeira. Ele afirmou que a
decisão da empresa de restringir retiradas de investidores institucionais
indicaria tensões crescentes dentro do sistema financeiro global.
"Quando você tem uma corrida financeira e a instituição diz que ninguém pode retirar o dinheiro, isso significa que o sistema está sob enorme pressão", declarou.
Rússia emerge como ator central no mercado de energia
Outro efeito do conflito, segundo
Escobar, é a ascensão da Rússia como ator ainda mais central no mercado
energético global. O analista afirmou que Moscou passou a exercer papel
decisivo na coordenação da produção de petróleo dentro da OPEP+.
Ele também destacou que a crise
energética global pode ser agravada caso haja interrupção significativa do
fluxo de petróleo no estreito de Ormuz.
"Há projeções de analistas
financeiros de que, se o estreito de Ormuz for bloqueado, o petróleo pode
chegar a US$ 500 por barril", disse.
Na avaliação do analista, esse cenário teria potencial para provocar um colapso em mercados financeiros altamente alavancados por derivativos ligados ao setor energético.
Guerra redefine alianças no sul global
Escobar também afirmou que o conflito
está redefinindo alianças geopolíticas dentro do sul global e dentro do próprio
BRICS. Segundo ele, Rússia, China e Irã tendem a aprofundar sua integração
estratégica.
Ao mesmo tempo, o analista criticou
duramente a postura da Índia no contexto da crise.
"A Índia demonstrou que não é um
parceiro confiável do sul global neste momento", afirmou.
Ele também destacou que a cooperação
militar e tecnológica entre Rússia e Irã teria se intensificado durante o
conflito, incluindo troca de informações e suporte técnico.
Segundo Escobar, a China também desempenha papel relevante ao fornecer dados de satélite e apoio tecnológico indireto.
Conflito pode levar à reorganização da ordem internacional
Para o analista, o resultado da
guerra poderá acelerar uma reorganização profunda das instituições globais
criadas após a Segunda Guerra Mundial.
Escobar afirmou que o sistema
internacional construído em Bretton Woods estaria em crise e poderia ser
substituído por novas estruturas lideradas por potências emergentes.
"Se houver uma reorganização do
sistema internacional, os dois condutores principais serão Rússia e China", disse.
Ele também alertou para o risco de
escalada nuclear caso o conflito se amplie, cenário que classificou como o mais
perigoso para a humanidade.
"Se isso acontecer, Rússia e China entram na história. E aí encerram-se as apostas", afirmou.
Brasil e América do Sul na disputa geopolítica
Ao final da entrevista, Escobar
mencionou que uma eventual retração estratégica dos Estados Unidos no oeste da
Ásia poderia levar Washington a reforçar sua influência no chamado “hemisfério
ocidental”.
Segundo ele, esse cenário pode aumentar
a pressão geopolítica sobre a América Latina.
"Na doutrina de segurança
estratégica deles, o objetivo é recolonizar o hemisfério ocidental. E é aí que
entra o Brasil", disse.
Para o analista, caso o sistema
internacional passe por uma reorganização profunda, potências como Rússia e
China poderão desempenhar papel importante no equilíbrio estratégico global —
inclusive em relação à América do Sul.
Encerrando a entrevista, Escobar
resumiu o momento atual como um dos mais decisivos da história recente.
"Esta é a guerra que define o
século 21", concluiu.







