- Texto extraído do Blog do Magno
Martins
- - Edição de Camila Emerenciano
Por Maurício Rands*
As pesquisas
eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico
se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento
estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado.
Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em
política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e
simples corrupção.
Alguns não se
importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante
é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que
falseadas, afetam a decisão do eleitor que, geralmente, é infenso a votar no
candidato sem chances.
Nesses
descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se
o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha
apresentou dados em descompasso com os de outros institutos que vinham
apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João
Campos.
Especialistas
apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional
estabelecida, cometem lapsos metodológicos, sobretudo quando a eleição ainda
está distante. À medida que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os
ajustes na metodologia e na amostra.
No caso da
Datafolha, em alguns estados, ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E,
no início, concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões
metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores
custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença em relação às
demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes
ao governo.
Outro tópico que
justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os
eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos, assim
como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto.
Como lembrou
Renato Meirelles, em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos
entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam
para Presidente quando, inicialmente, indagados sem o estímulo do disco com as
alternativas.
Isso significa 96
milhões de pessoas que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se
de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O
eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos.
Outro fator que
recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43%
dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões de pessoas que
declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar.
Acrescente-se a
frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na
última pesquisa Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira
de 12%. Mas, na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28% a
26%).
Ainda um outro
dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco.
Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na
pré-campanha perder uma tentativa de reeleição.
No Brasil, o
índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro”, embora
erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores
de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos.
Foi o caso de Jair
Bolsonaro, que, em 2022, tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição.
Embora seus índices de “ótimo/bom” oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para
Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado
na cadeira continua relevante.
Especialistas em
marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a
reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único
nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal
intransponível; ou ainda quando a rejeição individual (o “não voto de jeito
nenhum”) for maior que 30%, mesmo com o governo bem avaliado.
Nenhuma dessas
exceções se aplica à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm
convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso
pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as
ações do seu governo forem ainda mais conhecidas.
No caso do
presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio
Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante.
Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição,
o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que
segue sendo um clássico imprevisível.
*Advogado, professor de Direito
Constitucional e PhD pela Universidade de Oxford
EM TEMPO: O TSE deve baixar uma Resolução exigindo que os institutos de pesquisa realizem a devida Prestação de Contas, mensalmente, assim como é exigido dos candidatos. Afinal, que "bondade" é essa de tanto financiamento das pesquisas, as quais não são baratas. Ok, Moçada!






