segunda-feira, 4 de maio de 2020

'Bolsonaro não tem opção: se socorre no Centrão, ou cai', diz analista

© Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados


Veja.com - Marcela Mattos

A inesperada aliança entre o presidente Jair Bolsonaro e os partidos de centro alimenta um duplo jogo de sobrevivência. A avaliação é feita por Antônio Augusto Queiroz, analista político e fundador do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entidade que acompanha o Congresso Nacional há 35 anos. 

Para Toninho, como é conhecido, a aliança com os quadros da “velha política” – como o próprio Bolsonaro os chamava – é um movimento do presidente para evitar ver aprovado um processo de impeachment contra ele ou a cassação de dois de seus filhos – Eduardo, o Zero Três, é deputado federal, e Flavio, o Zero Um, é senador. Por outro lado, os partidos do Centrão, conhecidos nos noticiários do mensalão e do petrolão, garantem cargos estratégicos no governo, a execução de suas emendas parlamentares e os recursos públicos para as eleições mesmo em tempos de pandemia e de crise econômica. Todos saem ganhando.

“Quando o presidente aceita ter o Roberto Jefferson [delator e beneficiário do mensalão] como interlocutor, é porque o negócio está feio. Ou o Bolsonaro se socorre no Centrão para reunir os 172 votos para impedir pedidos de impeachment ou de afastamento, ou ele cai. Só com os aliados dele não é suficiente”, afirma Toninho.

Confira a íntegra da entrevista.

Como se define o chamado Centrão? 

O Centrão sempre foi associado ao núcleo fisiológico do Congresso, aquele que viveu de patronagem e de favores governamentais. Podemos dizer que o grupo hoje é composto principalmente por esses partidos: Progressistas, PL, PSD, MDB, PSC, DEM, PTB, PRB, SD e uma parte do PROS.

Como o senhor avalia a atuação desse grupo no governo Bolsonaro? 

Para se blindar da acusação de ser a velha política, eles tentaram se blindar perante a opinião pública dizendo: ‘Não somos fisiológicos. O que interessa é o Brasil e voto de acordo com a consciência’. Isso pôde ser percebido na votação da Reforma da Previdência, que acabou aprovada. Mas esse foi o único momento de o Centrão agir nessa perspectiva. Na maioria das vezes, ele está ali para fazer algum tipo de composição. 

E agora o Bolsonaro finalmente se rendeu?

O problema do Centrão é o seguinte: ele vai para onde? Se não tem candidaturas viáveis no centro, e só tem na extrema direita e na esquerda, não tem alternativa a não ser ir para a direita. Por mais que os partidos sejam hostilizados por essa extrema direita, eles recebem os recursos no final e têm uma identidade programática e de afinidades. Fica mais confortável se aliar a um governo com as características do Bolsonaro do que ir para a oposição e favorecer os partidos de esquerda.

É um jogo de ganha-ganha, portanto?

Exatamente. Estão indo para a base do governo Bolsonaro com vantagem dupla agora. O governo está com o Orçamento liberado, pode gastar o que quiser – o que é o melhor mundo para o Centrão. E está às vésperas de uma eleição. Então, eles garantem recursos para as bases eleitorais elegerem os seus prefeitos, enquanto o governo faz as concessões que eles exigirem para evitar um eventual processo de impeachment ou mesmo a cassação de um dos filhos do presidente. Lá na frente, os partidos podem dizer que só socorreram o governo porque era um momento de pandemia e eles foram ajudá-lo republicanamente. Tem álibi para isso.

Novo ato golpista de Bolsonaro torna obrigatória explicação de militares

Foto: AP Photo/Eraldo Peres


IGOR GIELOW

O presidente Jair Bolsonaro fez seu novo ataque ao Legislativo e ao Judiciário exaltando o papel das Forças Armadas, que segundo ele estão "ao lado do povo".
Não seria novidade, exceto por um detalhe: na véspera, o presidente havia se reunido com os três comandantes de Forças, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos.

No cardápio posto, segundo a assessoria de Azevedo, "uma avaliação do emprego das Forças Armadas na Operação de Combate ao Coronavírus, além de avaliação de determinados aspectos da conjuntura atual". O demônio mora nos detalhes, no caso os tais determinados aspectos. Segundo a Folha ouviu de interlocutores de pessoas presentes ao encontro, o Supremo Tribunal Federal foi duramente criticado pelos presentes.
O motivo, a decisão provisória de Alexandre de Moraes que inviabilizou a indicação de um amigo da investigada família Bolsonaro, Alexandre Ramagem, para a direção da Polícia Federal. Isso significa que os generais deram amparo à nova intentona retórica do presidente? Aqui há divergências nos relatos disponíveis.
A versão majoritária apontou a crítica fardada, que de resto já tinha sido feita ao considerar Judiciário e Congresso como forças a cercear o Executivo, mas nega que o presidente tenha sido encorajado a novamente desafiar os Poderes. Uma leitura alternativa diz que o presidente se sentiu autorizado a ultrapassar o sinal novamente. No ato de 19 de abril, Dia do Exército, o simbolismo era óbvio, mas velado.
Neste domingo (3), Bolsonaro encheu a boca para colocar as Forças Armadas no mesmo bloco que pedia a cabeça do presidente a Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ataques ao Supremo e, de quebra, espancava jornalistas no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Isso abraçando na rampa do Planalto as bandeiras de Israel e dos EUA, além da brasileira, numa cacofonia caótica emulada pelas carreatas da morte vistas em algumas cidades do país.
A terceira leitura, aí feita por políticos, é a especulação acerca do entusiasmo dos militares com aventuras totalitárias. Isso hoje é improvável. Não se imagina a atual cúpula militar brasileira apoiando fechamento de Poderes, para ficar na caracterização de golpe.
Além disso, não há apoio maciço ao governo na elite econômica, na imprensa e mesmo entre todos os ramos das Forças: Força Aérea e Marinha não têm o mesmo senso de comprometimento com a figura de Bolsonaro que o Exército, fiador de um capitão reformado e renegado.

A falsa fé nos militares




DW - Astrid Prange

© Getty Images/AFP/S. Lima Provided by Deutsche Welle.

De onde vem a confiança inabalável de que as Forças Armadas podem pôr ordem na casa?
Tropas e tanques podem até abafar crises e garantir certa ordem, mas não são capazes de solucionar problemas estruturais.

Caros brasileiros,
ainda se lembram da Operação Rio? Com essa "operação", o então governador do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, queria combater a violência nas favelas da cidade maravilhosa. Em outubro de 1994, mandou tanques e tropas do Exército brasileiro aos morros. Depois de sete meses, desistiu. A "operação" era cara demais e não foi capaz de diminuir o tráfico e a violência. Desde então, me pergunto: de onde vêm a confiança e a fé inabalável de que as Forças Armadas podem colocar ordem na casa? Será que é um sinal de desespero?

Até hoje, as Forças Armadas se mantêm como a instituição em que a população brasileira mais confia. Segundo uma pesquisa do instituto Datafolha de julho de 2019, 42% dos entrevistados disseram confiar muito nos militares, 38% confiam um pouco, e 19% não confiam. Desde o fim da ditadura militar, as Forças Armadas foram chamadas inúmeras vezes para "socorrer" o país: no combate ao crime organizado, na Copa, nas Olimpíadas, nas UPPs, para expulsar garimpeiros de reservas indígenas. E, agora, na crise do coronavírus: o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pediu "ajuda" dos militares a fim de reduzir a circulação de pessoas nas ruas.

Mas apesar de todos esses gritos de socorro, o crime organizado continua aterrorizando a população nas comunidades das grandes metrópoles. A invasão de garimpeiros em reservas indígenas progride, assim como a grilagem e o desmatamento ilegal na Floresta Amazônica. E, claro, as infecções por coronavírus não vão parar com o Exército nas ruas.

balanço dos militares na história recente do Brasil não é dos melhores. Após 25 anos no poder, eles entregaram o país altamente endividado, com hiperinflação, educação pública falida e alto desemprego.
As "obras faraônicas" do "Brasil Grande", entre eles a rodovia Transamazônica, o projeto de celulose de Jari e as usinas nucleares de Angra, fizeram a dívida externa do país estourar, e custam caro ao Brasil até hoje. A "década perdida" foi uma herança pesada para a transição democrática.

Se não mostrar exames, Bolsonaro fica sujeito a impeachment, diz Barroso




Correio Braziliense - Agência Estado


© Fornecido por Correio Braziliense

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso acredita que caso o
presidente Jair Bolsonaro descumpra qualquer decisão judicial poderia ser considerado culpado pelos "crimes comum de desobediência e de responsabilidade, passível de impeachment".

Em entrevista à Globo News, Barroso disse que, por se tratar de um caso em andamento, que não iria comentar sobre a decisão do presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), desembargador Mairan Maia, que negou nesta sábado (2) um segundo recurso da Advocacia-Geral da União (AGU) contra a divulgação dos exames feitos por Jair Bolsonaro para verificar se foi contaminado ou não pelo novo coronavírus.

"Se fosse um cidadão comum, eu diria que (o respeito à) privacidade deve prevalecer. Sendo um presidente da República, é preciso ponderar um menor grau de privacidade que um funcionário público dessa estatura desfruta", afirmou Barroso.

A Presidência da República se recusou a fornecer os dados ao Estadão/Broadcast via Lei de Acesso à Informação, argumentando que elas "dizem respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, protegidas com restrição de acesso".

Procurada pela reportagem, a AGU informou que o entendimento do presidente do tribunal "não altera a decisão que desobrigou a União de fornecer os laudos ainda neste sábado (02/05) e estabeleceu prazo de 5 dias para que o relator da ação no TRF-3 analise o caso".

Possibilidade de troca no comando do Exército gera apreensão militar

© AFP / Sergio LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - Renato Souza


O presidente Jair Bolsonaro avalia remover o general Edson Leal Pujol do comando do Exército. A intenção, de acordo com fontes no governo, seria dar lugar a um militar mais fiel a ele, como o general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro-chefe da Secretaria de Governo. A informação, que começou a circular neste domingo (3/5), em Brasília, gera apreensão nas Forças Armadas. 

O presidente estaria descontente com algumas ações do militar, como seus pedidos para que os brasileiros mantenham o distanciamento social em razão da pandemia de coronavírus e de seu escasso alinhamento com interesses do Planalto.

A eventual substituição de Pujol deixaria de lado diversas regras comuns do meio, como a alçada ao posto de comandante de militares mais antigos, como uma grande quantidade de títulos e que leva em consideração a hierarquia. Fontes ouvidas pelo Correio, tanto de militares que integram o Executivo, quanto de integrantes das três forças que estão alheios as relações políticas, avaliam que a possibilidade disso ocorrer "é muito difícil", mas se colocada em prática encontraria grande reprovação.

Mesmo não sendo dos militares mais aceitos pelos generais do alto comando do Exército, a saída de Pujol para dar lugar a um nome mais próximo do Planalto seria visto como uma interferência sem precedentes. "As Forças Armadas são instituições de Estado, e que estão alheias a disputas políticas. O presidente tem o poder para trocar o comandante, mas sabe que não deve fazer isso sem um forte motivo durante seu mandato. Esse motivo poderia por doença, falecimento ou à pedido. Mas nunca por jogada política", avalia um militar da cúpula do Exército.

Em vídeos institucionais publicados no site do Exército e canais das Forças Armadas, Pujol defendeu o respeito a quarentena, e disse que a pandemia de coronavírus "é um dos maiores desafios da nossa história". Na semana passada, Bolsonaro visitou o Comando Militar do Sul, e ao estender a mão para cumprimentar Pujol, recebeu de volta uma saudação de cotovelo, como determina as regras sanitárias para evitar a propagação do novo coronavírus.

A mesma saudação se seguiu por parte de todos os demais militares que recepcionaram o presidente, tendo em vista que estão abaixo de Pujol na hierarquia e seguiam recomendações do comandante. O ato, embora correto, não agradou o presidente. Neste domingo, em frente ao Palácio do Planalto, o presidente disse aos manifestantes que tem o apoio das Forças Armadas.

EM TEMPO: Não é só na PF que ele quer mandar. Bolsonaro nunca enganou ninguém. Indisciplinado que foi quando militar da ativa, deveria servir de alerta para os militares das Forças Armadas não o apoiarem. Apesar disso, hoje o Bolsonaro é muito dependente dos militares graduados. Sendo assim, o que os militares deveriam fazer era desembarcarem do governo Bolsonaro. Afinal, foi um grande erro que eles cometeram no início deste século XXI. Além do mais o Bolsonaro, de índole  ditadorial  e fascista,  está se aproveitando da pandemia do COVID 19 para dar um auto-golpe desde que ele seja o "chefe supremo". Bolsonaro como gosta de se amostrar e dizer suas bravatas, quer que todo mundo fique lhe paparicando. Aí é demais. Não acha? Agora durmam com essa bronca. 

domingo, 3 de maio de 2020

A 'face' do Centrão no governo Bolsonaro




ESTADÃO - Felipe Frazão



© Dida Sampaio / Estadão Deputados do Centrão durante votação de MP em 2019; nome atribuído ao grupo de partidos surgiu durante a Constituinte, entre 1987 e 1988

BRASÍLIA - Pragmático e sem ideologia, o Centrão é um fenômeno do vício governista que sobrevive às mudanças na história política do País. O grupo de partidos demonizado em manifestações de rua de 2013 a 2018 e, num período mais recente, por redes sociais bolsonaristas, é agora um convidado ilustre das negociações no Palácio do Planalto.

Visto como fiador da estabilidade em qualquer governo, o bloco informal da Câmara flutua ao sabor das ondas e conveniências da política. O “núcleo duro” do Centrão é formado por ProgressistasRepublicanosPLPSDSolidariedadePTB e DEM, embora Rodrigo Maia (RJ), que comanda a Câmara e é filiado ao partido, esteja em rota de colisão com o presidente Jair Bolsonaro.
O MDB, por sua vez, é um “aliado irmão” do bloco. Bolsonaro mantém, ainda, conversas avulsas com integrantes de legendas menores, que orbitam como satélites do Centrão. Estima-se que o grupo reúna, atualmente, pelo menos 200 dos 513 deputados. Cálculos dos próprios partidos indicam que a taxa de governismo do Centrão, hoje, está em torno de 90%.

O Centrão da vez é o de políticos com histórico de traições e demonstrações de “toma lá dá cá”. Nele estão tanto o presidente do PSD, Gilberto Kassab – que num mesmo dia teve conversas políticas com Bolsonaro e com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de quem é secretário licenciado da Casa Civil –, como o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI). Kassab nega fazer parte do grupo. No dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Ciro tomou café com a presidente e, horas depois, apoiou o afastamento dela.

Única paciência que chegou ao fim é a da sociedade', diz presidente da OAB

© Ed Alves/CB/D.A Press


CORREIO BRAZILIENSE - Renato Souza

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, rebateu, neste domingo (3), as declarações do presidente Jair Bolsonaro. Em frente ao Palácio do Planalto, o chefe do Executivo afirmou que "não vai mais aceitar interferência" e que "acabou a paciência". O jurista disse que "a única paciência que acabou foi a do povo".

Bolsonaro fez as declarações durante ato que ocorreu em frente ao Palácio do Planalto, e que defendia o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso. "Nós queremos o melhor para o nosso país. Queremos a independência verdadeira dos três poderes, e não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência. Vamos levar esse Brasil para frente. Acredito no povo brasileiro e nós todos acreditamos no Brasil", disse o presidente.

Ele chegou a dizer que "espera não ter problemas esta semana" e que tem o apoio das Forças Armadas. "E vocês sabem que o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei e da ordem, e da liberdade, também está do nosso lado", completou o presidente.

O protesto reuniu cerca de 5 mil pessoas, aglomeradas na Esplanada, contrariando recomendações das autoridades de saúde, que defendem o distanciamento social para evitar a disseminação do novo coronavírus. Felipe Santa Cruz afirmou que Bolsonaro "negligencia" suas ações. “Os limites que existem são os da Constituição, e valem para todos, inclusive e sobretudo para o presidente. A única paciência que chegou ao fim, legitimamente e com razão, é a paciência da sociedade com um governante que negligencia suas obrigações, incita o caos e a desordem, em meio a uma crise sanitária e econômica", disse o presidente da OAB.

Militares dizem que Bolsonaro tentou usar prestígio das Forças Armadas




ESTADÃO - Tânia Monteiro


BRASÍLIA - Oficiais-generais influentes avaliaram que o presidente Jair Bolsonaro tentou, neste domingo, 3, fazer uso político do capital das Forças Armadas. Ao afirmar que a caserna estava com o governo, ele partiu para “pressões” e “ameaças dissuasórias” que provocaram novo incômodo no setor. 
Em conversas com o Estado, interlocutores do presidente deixaram claro que a Aeronáutica, o Exército e a Marinha estão “sempre” na defesa da independência dos poderes e da Constituição. “Ninguém apoia aventura nenhuma, pode desmontar essa tese. Estamos no século 21”, resumiu uma das fontes, que ainda destacou a "retórica explosiva" do presidente que permite interpretações.

Na declaração a apoiadores que provocou reações, Bolsonaro disse que “chegamos ao “limite”. Os militares ouvidos pelo jornal disseram que ele se expressa mal e acaba colocando em risco sua postura de defensor da Carta. A frase do presidente, reclamaram, voltou a colocá-los em uma “saia justa”. Eles reafirmaram que não vão se meter em questões políticas. “É uma declaração infeliz de quem não conhece as Forças Armadas”, reagiu de forma mais dura um deles. “O problema é que deixa ilações no ar. Afinal, não há caminho fora da Constituição.”

As novas investidas do presidente contra o Judiciário, o Congresso e a imprensa ocorreram, segundo essas fontes, um dia depois de um encontro dele com ministros e comandante militares. Nessa reunião ocorrida no Palácio da Alvorada, no sábado, 2, Bolsonaro e sua equipe discutiram a situação do País, a saída de Sérgio Moro da pasta de Justiça e Segurança Pública, as consequências de uma crise política arrastada nesta pandemia do novo coronavírus e a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para comandar a Polícia Federal.

A suposta interferência de Moraes num ato do Executivo foi criticada pelos participantes do encontro, que demonstraram preocupação com a influência desse posicionamento em instâncias inferiores do Judiciário para barrar indicações em outros órgãos federais e mesmo estaduais. Os ministros e comandantes militares teriam saído do encontro do Alvorada certos de uma “pacificação” por parte de Bolsonaro. Mas, na avaliação das fontes, ele voltou a ser “envenenado”, na manhã de domingo, por pessoas próximas e grupos de WhatsApp. Por tradição e hierarquia, os militares não devem fazer manifestações públicas sobre a fala do presidente.


sábado, 2 de maio de 2020

O Centrão, o centroavante e o cartão amarelo




Mauro Luís Iasi
Contrapoder
Imaginemos um jogo muito disputado, um jogador entra maldosamente por trás e com intenção de derrubar o adversário. O juiz apita a falta e é cercado pelos colegas do atleta no chão, gritando de dor. O árbitro está com a mão no bolso superior e olhar severo… mas, começa a divagar para si mesmo.
O cara já tem um cartão amarelo, o segundo o expulsará. O jogo já está indo para sua parte final, o clima no estádio não está nada bom. Aquele beque grandão está me olhando feio – pensa o juiz – acho que eu conheço ele, lá da padaria perto de casa. A mão sai do cartão ainda no bolso e gesticula severamente para o agressor, dando a entender que agora chega, acabou. O cara faz uma expressão de arrependido, levando as duas mãos ao peito – não fiz nada – e em seguida formando uma bola – fui na bola.
Pergunta. A aplicação do cartão e suas consequências punitivas devem levar em conta o clima do estádio, o momento do jogo, as possíveis implicações no placar final, ou se foi ou não uma falta violenta, maldosa, por trás, quando o atacante ia em direção ao gol?
Pois bem, caros companheiros, fico impressionado com a cara de pau daqueles que posam de protagonistas das combalidas instituições da República. De repente não interessa se o desqualificado cometeu ou não um crime, mas se é ou não o momento de julgá-lo e aplicar as medidas cabíveis. Será este o procedimento da PM nas periferias e favelas de nosso país, ou dos juízes diante de réus assustados argumentando as circunstâncias e implicações de seus atos?
O Presidente da República foi flagrado cometendo, não um, mas vários crimes. Nas eleições usou fartamente de redes de robôs disparando fake news e a justiça eleitoral nada fez. Ameaçou estuprar, elogiou um conhecido torturador, mentiu descaradamente em rede nacional (sobre as eleições terem sido fraudadas e ter provas, ter assinado decretos sem ler, amenizando uma pandemia, ocultando os resultados de seus exames, etc.). Convocou e participou de atos exigindo o fechamento do Congresso, do STF e pela volta da Ditadura. Interferiu em investigações em curso para proteger seus filhos e a si mesmo, como no caso do cheque de sua esposa, a rachadinha no gabinete de seu filho, o sumiço do Queiroz, o caso do porteiro, seu vizinho assassino e suas possíveis ligações com a milícia e o escritório do crime. Sem contar com as descaradas atitudes de descumprimento das orientações sanitárias colocando em risco a população numa pandemia.
Diante de tudo isso o que faz o Presidente da Câmara dos Deputados que é quem pode acolher e investigar as denúncias? Pensa no momento do país e no clima, na responsabilidade das instituições e no diálogo, na prioridade do enfrentamento da pandemia. Não, não é o que parece. Vamos aos fatos.

Relatores da ONU classificam de irresponsáveis políticas brasileiras de combate à Covid-19



Por Lisandra Paraguassu

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BRASÍLIA (Reuters) - Relatores de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) classificaram de "irresponsáveis" as políticas econômicas e sociais do Brasil durante a pandemia de coronavírus, e afirmaram que a restrição aos investimentos públicos imposta pelo teto de gastos pode colocar a vida de milhões de pessoas em risco.
"A epidemia de Covid-19 ampliou os efeitos adversos da emenda constitucional de 2016 que colocou um teto nos gastos públicos por 20 anos", disseram o especialista independente em direitos humanos e dívida externa Juan Pablo Bohoslavsky e o relator especial sobre pobreza extrema Philip Alston. "Os efeitos são dramaticamente visíveis na atual crise.”
As críticas constam de um comunicado divulgado nesta quarta-feira pelo escritório do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, dirigido especificamente ao Brasil.
Para os especialistas, "as políticas econômicas e sociais irresponsáveis do Brasil colocam milhões de vidas em risco", e os cortes no Orçamento violaram os padrões internacionais de direitos humanos, inclusive na educação, moradia, alimentação, água e saneamento e igualdade de gênero.
"Economia para quem? Não é possível colocar em risco a vida e a saúde das pessoas, inclusive trabalhadores da saúde, pelos interesses econômicos de poucos. Quem será o responsável quando pessoas morrerem por causa de decisões que vão contra a ciência e as indicações medicamente responsáveis?", questionaram.
Segundo os especialistas, o sistema de saúde está sobrecarregado e falhando em proteger os direitos à vida e a saúde de milhões de brasileiros, que estão em sério risco. "Já é hora de revogar a Emenda Constitucional 95 e outras medidas de austeridade contrárias à lei internacional dos direitos humanos”, cobraram.
Ambos elogiaram a ajuda emergencial dada pelo governo e as medidas tomadas pelos governadores para tentar conter a epidemia, mas afirmaram que mais precisa ser feito e a epidemia é um momento para os países repensarem suas prioridades.
Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, respondeu em sua conta no Twitter ao comunicado dos especialistas da ONU.
"Absurdo e errado o posicionamento de relatores da ONU. O Brasil está gastando 4,1% do PIB no combate à Covid-19, valor bem superior à média dos demais países emergentes (1,35%), e mesmo dos países desenvolvidos (3,1%). Respeito!", escreveu.
EM TEMPO: Como não há "Barreiras Sanitárias" e quando há não são eficazes na maioria das situações, o vírus se propaga com rapidez. Além de inexistência de equipamentos de proteção, respiradores, leitos, etc. Some-se a isso tudo o sucateamento do SUS. Para piorar a situação tem o mal exemplo dado pelo presidente Bolsonaro, o qual diz que é uma "gripezinha" e tenta impedir o isolamento social, desobedecendo as recomendações da OMS e participa  de aglomerações públicas.  Além disso a demissão do Ex-Ministro da Saúde, Mandetta, desarticulou o pouco que tinha de estratégia para combater  o COVID-19. Deste modo, estamos entregues a própria sorte.

Moro vive dilema e corre risco de autoincriminação se apresentar provas contra Bolsonaro

(Foto: Giuliano Gomes/Folhapress)

FLÁVIO FERREIRA

CURITIBA, PR - 02.05.2020 - SERGIO-MORO - Manifestação em frente à Polícia Federal, em Curitiba (PR). Ex-ministro Sergio Moro será ouvido na condição de testemunha sobre as acusações de que o presidente Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal, neste sábado (02)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sergio Moro está diante de um dilema jurídico. Se realmente apresentar provas duras contra o presidente Jair Bolsonaro, como tem prometido desde que deixou o governo, o ex-ministro da Justiça corre o risco de autoincriminação em inquérito aberto pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Essa situação ocorre porque um dos delitos sob investigação diz respeito à suposta omissão do ex-juiz da Lava Jato em relação a possíveis ilegalidades praticadas pelo presidente.
Quando pediu demissão do cargo, Moro falou em tentativas de Bolsonaro de interferir na Polícia Federal.
Diante dessas acusações, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu a abertura de um inquérito para apurar o caso, o que foi aceito pelo Supremo.
Moro deve prestar depoimento à PF neste sábado (2), em Curitiba -ele foi marcado após o ministro do STF Celso de Mello dar o prazo de cinco dias para a corporação ouvir o ex-ministro.
Pela manhã, Bolsonaro chamou Moro de "Judas" e afirmou a apoiadores na porta do Palácio do Alvorada, que criticavam o STF, que ninguém dará um golpe em seu governo.
O dilema atual de Moro na investigação é levantado por especialistas ouvidos pela Folha. Segundo parte deles, porém, há aspectos técnicos penais favoráveis ao ex-ministro no inquérito.
No pedido de abertura de inquérito, o procurador-geral da República afirmou que, em tese, oito crimes podem ter sido cometidos. São eles: falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, obstrução de Justiça, corrupção passiva privilegiada, prevaricação, denunciação caluniosa e crimes contra a honra.
Segundo interlocutores da PGR, os três últimos crimes podem ter sido cometidos, em tese, por Moro. Já o chefe do Executivo pode ser enquadrado nos outros cinco delitos e também no de prevaricação.
O delito de prevaricação, por exemplo, ocorre quando um funcionário público deixa de praticar um ato que está nas atribuições de seu cargo para satisfazer interesse ou sentimento pessoal.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Enfermeiros fazem protesto e são hostilizados por apoiadores de Bolsonaro no DF

© Reprodução


ISTO É - Da Redação


Um grupo de enfermeiros fez um protesto na Praça dos Três Poderes, em Brasília, nesta sexta-feira (1º). O grupo carregava cruzes em homenagem a colegas que morreram durante o trabalho de combate ao novo coronavírus e defendia o isolamento social. 

O protesto silencioso terminou após apoiadores do presidente Jair Bolsonaro agredirem verbalmente os profissionais. As informações dão do jornal O Globo.

Os profissionais da saúde estavam mantendo distância entre um e outro e usando máscaras. Enrolada em uma bandeira do Brasil, uma mulher gritou com uma das manifestantes. Ela afirmou que estava “lutando pelo país” e que, se os empresários param de trabalhar, as pessoas ficam “sem o seu salariozinho”.

Em nota, o Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal repudiou as agressões. “O ato tinha como objetivo chamar a atenção para a enfermagem nacional. O protesto tinha três objetivos centrais: defender o isolamento social com base científica, homenagear os trabalhadores da enfermagem de todo o Brasil que morreram lutando contra a Covid-19 e mostrar a importância da categoria”, disse o sindicato, acrescentando que o ato foi uma iniciativa da categoria.

O sindicato informou ainda que esses profissionais estão na “linha de frente contra o novo coronavírus”. Segundo a organização, há mais de 2,3 milhões de enfermeiros trabalhando no enfrentamento à doença.

“As atitudes tomadas pelos apoiadores do governo vão ao encontro de ideologias fascistas e antidemocráticas. Infelizmente, são embasadas pelas atitudes do Presidente da República que diversas vezes debocha das consequências da pandemia, desconsidera todas as recomendações e diretrizes sobre a importância do isolamento social ao combate do novo coronavírus”, diz a nota.