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BBC NEWS
O infectologista Esper Kallas fez
um alerta durante a divulgação dos resultados dos testes de eficácia da
CoronaVac, nesta quinta-feira (07/01). "O fato de a gente trazer uma
notícia tão boa como essa não dá salvo-conduto para a população achar que o
problema está resolvido, porque não está", disse.
Os resultados dos testes feitos
no país apontaram que a vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, que está sendo
desenvolvida no Brasil em parceria com o Instituto Butantan, protege 78% das
pessoas contra a covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Já em relação àqueles que
desenvolverem a doença, o governo de São Paulo divulgou que os testes nos
voluntários imunizados e que ainda assim foram infectados pelo coronavírus
apontaram que a vacina garantiu a proteção total (100%) contra mortes, casos
graves e internações.
O resultado dos testes foi
comemorado pelo governador de São Paulo, João Doria, que considerou que os
números são extremamente positivos. Ele planeja que a vacinação no Estado
comece em 25 de janeiro. Durante a coletiva de imprensa
convocada pelo governo de São Paulo, o infectologista Esper Kallas afirmou que
a CoronaVac é uma vacina extremamente segura. No entanto, destacou o caminho
que existe até que a imunização tenha efeito na redução de casos de covid-19 no
Estado e no país — nos últimos meses, todas as regiões brasileiras enfrentaram
aumento de infecções e mortes causadas pelo vírus.
"Não queria ser um
estraga-prazer, mas queria deixar uma mensagem de que a gente tem sempre que
levar em consideração que a implementação de um programa de vacina leva tempo.
O estabelecimento de uma resposta imune e protetora leva tempo. Infelizmente, a
gente ainda tem um tempo pela frente… até tudo isso acontecer, vamos ter dois
meses duros pela frente", declarou o médico, que integra o Centro de Contingência
do Coronavírus de São Paulo.
"Ainda temos que nos cuidar.
Temos que usar as medidas não farmacológicas de redução da transmissão da covid",
acrescentou o médico, referindo-se a ações como o uso de máscara,
distanciamento social e a higienização das mãos. O alerta do médico ilustra que o
início da vacinação representa um passo fundamental, mas ainda há um percurso a
ser seguido para que a situação sanitária melhore.
Como
funciona a CoronaVac
Para entender o caminho após o
início da vacinação, é fundamental compreender o funcionamento do imunizante. No caso da CoronaVac, são
aplicadas duas doses, com uma diferença de 21 dias entre elas. A previsão é de
que a resposta imune seja atingida 15 dias após a vacinação. A vacina da Sinovac usa uma
tecnologia bastante tradicional de imunização, desenvolvida há cerca de 70
anos, diz o imunologista Aguinaldo Pinto, professor da Universidade Federal de
Santa Catarina.
"Não há nada de novo na
tecnologia por trás dessa vacina. Temos muitas vacinas de vírus inativados
sendo comercializadas hoje", afirma Pinto, em reportagem
publicada pela BBC News Brasil nesta
quinta-feira. Entre as que tomamos de rotina que
utilizam essa tecnologia, estão as de gripe, hepatite A e poliomielite (na
versão injetável).
A seu favor, conta a experiência
de décadas no seu uso em saúde pública. E também sua segurança, porque é
um imunizante baseado em vírus inativados, ou seja, que não são capazes de se
reproduzir. Por isso, eles não conseguem deixar uma pessoa doente. Mesmo assim,
a vacina consegue gerar a reação imunológica desejada e criar no nosso
organismo uma memória de como nos defender contra essa ameaça.
Depois da
vacinação
Em recente entrevista à BBC
News Brasil, a bióloga Natália Pasternak, presidente
do Instituto Questão de Ciência relatou como as pessoas devem agir após tomar
uma vacina contra a covid-19. "Depois de tomar a vacina, é
preciso voltar para casa, manter o isolamento social, aguardar a segunda dose e
depois esperar pelo menos 15 dias para que a vacina atinja o nível de eficácia
esperado", explicou.
A primeira dose, explica
Pasternak, é o que os cientistas chamam de prime boost ("impulso
principal"). "É como se ela acordasse o corpo para o vírus, dá um
'empurrão inicial' no sistema imunológico. A segunda dose gera uma resposta
imunológica melhor", explicou Pasternak.
Após uma vacina, a pessoa só é
considerada realmente protegida após algumas semanas porque o corpo precisa de
um tempo para "processar" aquelas informações e agir de forma
adequada. "E mesmo depois, é preciso esperar que boa parte da população já
tenha sido imunizada para a vida voltar ao normal", disse Pasternak. Desta forma, as pessoas deverão
continuar usando máscaras e evitar aglomerações após tomar as vacinas.
A
imunização em SP
O governo de São Paulo anunciou
em 7 de dezembro que a vacinação com a CoronaVac terá início em 25 de janeiro.
Porém, ainda é fundamental que:
- Com base na série de resultados,
o governo paulista e o Butantan devem enviar à Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), ainda nesta quinta, o pedido de autorização para o uso
emergencial e o registro definitivo da vacina no país. A previsão é de que os
dados sejam analisados em dez dias.
Por enquanto, foram anunciados os
detalhes apenas da primeira fase do plano de imunização, que tem como
público-alvo profissionais de saúde, pessoas com mais de 60 anos, indígenas e
quilombolas. De acordo com o governo paulista,
estes grupos respondem por 77% das mortes causadas pelo novo coronavírus no
Estado. Isso implicará na vacinação de 9 milhões de pessoas e no uso de 18
milhões de doses.
A vacinação será gratuita e
realizada por meio de 10 mil postos de vacinação, dos quais 4,8 mil serão novos
locais, criados especialmente para a campanha, com o uso provisório de escolas,
quartéis e farmácias, por exemplo. Na quarta-feira (06/01), o
governo de São Paulo divulgou que a vacinação ocorrerá de segunda a sexta, das
7h às 22h, e de 7h às 17h aos sábados, domingos e feriados.
A previsão é que a primeira fase
do plano esteja concluída até 28 de março, quando o governo paulista estima que
20% dos 46 milhões de habitantes do Estado estarão imunizados.
A primeira fase do plano seguirá
o seguinte calendário, para evitar aglomerações nos postos de saúde:
* profissionais da Saúde, indígenas e quilombolas: 25/01 (1ª
dose) e 15/02 (2ª dose);
* pessoas com 75 anos ou mais: 08/02 (1ª dose) e 01/03 (2ª dose);
* pessoas com 70 a 74 anos: 15/02 (1ª dose) e 03/03 (2ª dose);
* pessoas com 65 a 69 anos: 22/02 (1ª dose) e 15/03 (2ª dose)
* pessoas com 60 a 64 anos: 01/03 (1ª dose) e 22/03 (2ª dose)
Cada grupo deverá procurar os
postos de vacinação ao longo da semana seguinte após a data de início. O
atendimento será das 7h às 22h de segunda a sexta e das 7h às 17h aos sábados,
domingos e feriados. Tudo será feito apenas pelo
sistema público de saúde, e não há previsão por enquanto de aplicação na rede
privada.
O governador João Doria disse que
não será preciso comprovar a residência no Estado para ser vacinado. "Todo
e qualquer brasileiro que estiver em solo do Estado e pedir a vacina será
vacinado", afirmou. Ainda não foram divulgados
detalhes sobre as próximas etapas do plano de imunização de São Paulo.