Presidente anuncia intenção de comprar uma distribuidora e recoloca em debate uma decisão criminosa do governo Bolsonaro: a privatização da BR Distribuidora
Conteúdo postado por: Redação Brasil 247.
Publicado em 30 de setembro de 2026
Lula em entrevista a influenciadores.
Crédito: Ricardo Stuckert
247 – O presidente Lula
anunciou a intenção de fazer a Petrobras voltar ao mercado de distribuição de
combustíveis por meio da aquisição de uma distribuidora. A declaração, feita a
quatro dias do primeiro turno da eleição presidencial, tem uma dimensão que vai
muito além de uma eventual operação empresarial: significa reconstruir um
instrumento estratégico perdido pela estatal com a privatização da BR
Distribuidora durante o governo de Jair Bolsonaro.
A iniciativa surge
também em um momento de volatilidade internacional dos preços do petróleo,
decorrente da guerra no Oriente Médio. O governo vem utilizando diferentes
instrumentos para impedir que a escalada das cotações internacionais seja
integralmente transferida para a população brasileira, incluindo a manutenção
de um auxílio de R$ 2,12 por litro de diesel.
Lula defende que a
Petrobras tenha novamente presença direta na distribuição, um dos segmentos
fundamentais da cadeia de combustíveis. Hoje, a estatal é extremamente
relevante na produção e no refino, mas não possui mais a antiga estrutura que
levava sua atuação diretamente até a distribuição e os postos.
É justamente nesse
ponto que se encontra a importância estratégica do anúncio.
O desmonte da BR Distribuidora
A BR Distribuidora
foi durante décadas um dos principais braços da Petrobras. Criada em 1971,
permitia que a companhia atuasse de maneira integrada, do petróleo extraído no
campo até a distribuição dos derivados no mercado nacional.
O processo de
privatização começou antes do governo Bolsonaro, com a abertura de capital de
2017, quando 28,75% das ações foram vendidas. Mas foi em julho de 2019 que a
Petrobras, já sob Bolsonaro, perdeu o controle da companhia ao vender mais 30%
do capital. A operação movimentou R$ 8,56 bilhões, segundo documentos analisados
pelo Tribunal de Contas da União. A participação da Petrobras caiu para menos
de 50%, transferindo efetivamente o controle da distribuidora ao mercado
privado.
A própria Petrobras
registrou posteriormente a operação como a primeira privatização de uma empresa
estatal brasileira realizada por meio do mercado de capitais.
O processo seria
concluído em 2021, quando a Petrobras vendeu sua participação remanescente. A
antiga BR passou a se chamar Vibra Energia e a Petrobras deixou completamente o
capital da empresa.
Vista do ponto de
vista estratégico, a privatização da BR foi um crime contra os interesses
nacionais. O Brasil abriu mão de uma companhia construída durante décadas, com
enorme capilaridade, conhecimento do mercado e presença em praticamente todo o
território brasileiro. Quando ocorreu a perda de controle, a BR era a maior
distribuidora do país, tinha cerca de 30% do mercado, quase 8 mil postos e
atuação em 99 aeroportos, segundo informações registradas pelo próprio TCU.
Não se tratava,
portanto, simplesmente de vender ações. O Estado brasileiro abriu mão de um
instrumento capaz de conectar a produção e o refino da Petrobras ao mercado
consumidor.
“Por que vender a
BR? O que ganhamos com a privatização?”, questionou Lula ao anunciar sua
intenção de reconstruir a presença da Petrobras nesse segmento.
Por que uma distribuidora faz
diferença
O preço que chega
ao posto não depende exclusivamente da Petrobras. Entre a refinaria e o
consumidor existem distribuição, mistura obrigatória de biocombustíveis, tributos
e margens de revenda.
Isso significa que
reduzir o preço na refinaria não garante automaticamente que toda a redução
chegue à bomba.
Uma Petrobras
novamente presente na distribuição ampliaria sua capacidade de acompanhar a
formação dos preços ao longo da cadeia e de competir diretamente em um mercado
estratégico. Não significaria que o governo passaria a determinar
administrativamente o preço cobrado por todos os postos, mas devolveria à
estatal presença empresarial em um elo do qual ela se retirou.
A questão ganhou
ainda mais relevância diante das transformações recentes do mercado brasileiro
de combustíveis. Levantamento publicado em setembro mostrou que derivados
vendidos por algumas refinarias privatizadas chegaram a apresentar preços muito
superiores aos praticados pela Petrobras. Especialistas ouvidos na reportagem
apontaram que a venda de ativos isolados produziu, em determinados mercados
regionais, elevada concentração em vez da concorrência esperada.
É justamente esse
tipo de experiência que reforça a discussão sobre o papel estratégico de uma
companhia integrada.
Petrobras do poço ao consumidor
A lógica defendida
por Lula é recuperar parte da integração histórica da Petrobras.
Uma empresa de
petróleo não precisa necessariamente se limitar à extração do óleo ou ao
refino. As grandes companhias internacionais do setor atuam em diferentes
etapas da cadeia porque essa integração proporciona escala, informações sobre o
mercado, capacidade logística e maior resiliência diante das oscilações
internacionais.
A BR cumpria
exatamente esse papel para a Petrobras.
Ao privatizá-la, o
Brasil separou dois negócios que durante décadas haviam operado de forma
integrada. Agora, para voltar ao segmento, a Petrobras terá de desembolsar
recursos para comprar uma distribuidora — justamente o tipo de ativo do qual
abriu mão poucos anos atrás.
Esse paradoxo ajuda
a dimensionar o custo estratégico da privatização.
Governo tenta impedir abusos
O anúncio de Lula
ocorre no momento em que o governo também endurece a fiscalização sobre os
preços dos combustíveis.
O Executivo elevou
de R$ 14 milhões para até R$ 500 milhões a multa máxima aplicável a práticas
abusivas no setor. A medida alcança produtores, importadores, distribuidoras,
transportadoras e postos que aumentem injustificadamente suas margens ou se
recusem a abastecer o mercado mesmo dispondo de estoques.
Segundo dados
divulgados pelo governo, centenas de estabelecimentos estão sendo fiscalizados
diante da preocupação de que recursos públicos destinados a amortecer a alta
internacional acabem apropriados ao longo da cadeia sem chegar ao consumidor.
O problema é
particularmente importante quando o Estado utiliza subsídios ou reduz impostos.
Se não houver concorrência suficiente e fiscalização, parte do benefício pode
ficar retida nas margens empresariais.
A presença direta
da Petrobras na distribuição adicionaria mais um instrumento a essa estratégia.
Dois projetos para a Petrobras
A discussão também
explicita diferenças entre os projetos econômicos presentes na eleição
presidencial.
Flávio Bolsonaro
defende redução do tamanho do Estado, contenção dos gastos públicos e novas
privatizações. Lula, por sua vez, sustenta uma estratégia desenvolvimentista em
que empresas públicas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e BNDES funcionem
como instrumentos de investimento e soberania econômica.
A divergência não é
apenas ideológica. Ela envolve uma pergunta concreta: setores como petróleo,
energia e combustíveis devem ser tratados apenas segundo a lógica privada de
rentabilidade ou também como elementos da segurança econômica nacional?
Para Lula, a
resposta passa pelo fortalecimento da Petrobras.
“Brasil não cabe no
quintal de ninguém”, afirmou o presidente ao defender uma política econômica
independente e rejeitar subordinação aos interesses de outras potências,
inclusive dos Estados Unidos.
Uma decisão que vai além dos
combustíveis
O retorno à
distribuição também pode ganhar importância com a própria transformação da
Petrobras em uma empresa de energia. Uma rede nacional de distribuição pode
servir, no futuro, não apenas para gasolina, diesel e etanol, mas para
biocombustíveis avançados, recarga elétrica e outros produtos ligados à
transição energética.
Por isso, a decisão
anunciada por Lula deve ser compreendida em perspectiva histórica.
O Brasil construiu
durante décadas uma Petrobras integrada. Depois, desmontou partes dessa
estrutura e privatizou ativos estratégicos sob a promessa de que a iniciativa
privada produziria mais competição e eficiência.
Agora, diante de um
novo choque internacional do petróleo, o país redescobre a importância de
possuir instrumentos próprios para defender seu mercado interno.
A eventual compra de uma distribuidora não desfará
automaticamente os efeitos da privatização da BR. Mas representará uma mudança
profunda de direção: depois de anos de retirada, a Petrobras poderá voltar a
ocupar o espaço que nunca deveria ter abandonado — a ligação direta entre sua
enorme capacidade de produção e refino e o mercado brasileiro de combustíveis.






