terça-feira, 1 de setembro de 2026

O golpe por dentro do Supremo

André Mendonça abre o maior golpe desferido no STF às vésperas da eleição e transforma a própria instituição em campo de batalha da guerra híbrida contra o Brasil

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista) e Luciana Bauer (Jornalista)

Publicado em 1 de setembro de 2026



 

André Mendonça.  Crédito: Victor Piemonte/STF

Às vésperas da eleição presidencial, André Mendonça transforma elementos de uma investigação ainda sem conclusão judicial em combustível para uma guerra interna no STF, rompendo – de forma brutal e sem arcabouço constitucional que o embase – o equilíbrio institucional da Corte. Uma frente de desestabilização que converge com os interesses da extrema direita brasileira e com a ofensiva dos Estados Unidos contra a soberania política e digital do Brasil.

Quando o Estado é colocado contra o próprio Estado

A pouco mais de um mês da eleição presidencial, o golpe mudou de lugar. Em 8 de janeiro de 2023, foi preciso quebrar vidraças, arrombar portas e invadir o Supremo Tribunal Federal. Agora, a desestabilização avança por dentro da própria institucionalidade. André Mendonça, ministro do STF, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e um dos magistrados responsáveis pela condução do processo eleitoral, retirou o sigilo de material ainda submetido à apuração, expôs uma investigação que alcança integrantes das mais altas estruturas do Estado e lançou o Supremo numa guerra interna cujas consequências ultrapassam qualquer disputa pessoal com Alexandre de Moraes.

É preciso dizer desde o início o que está e o que não está em discussão. Não existe, até aqui, conclusão judicial que permita condenar Moraes pelas informações que emergiram do caso Banco Master. Se houver crime, que seja investigado, provado e punido. O problema é precisamente outro. Antes que a Justiça produzisse uma verdade processual, a suspeita foi lançada ao espaço público como fato político. Em poucas horas, Moraes, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Gabriel Galípolo passaram a habitar a mesma atmosfera de suspeição de forma centripetra e possivelmente coordenada com a imprensa e vazadores que desde a Lava Jato operam impunes. A extrema direita imediatamente transformou essa matéria bruta em arma eleitoral. O STF deixou de aparecer como instituição capaz de processar uma crise e passou a aparecer como parte da própria crise.

É aqui que o acontecimento revela sua verdadeira dimensão. Um golpe no século XXI não precisa começar com tanques diante do Congresso. Pode começar quando os mecanismos do Estado são utilizados de maneira a destruir a confiança no próprio Estado, quando o procedimento antecede a prova, quando o vazamento produz sentença social antes do contraditório e quando uma instituição é empurrada para a guerra contra si mesma. O que André Mendonça abriu não é apenas uma crise no Supremo. É uma fissura no centro do sistema de contenção democrática brasileiro no momento exato em que esse sistema será colocado à prova pelas eleições de 2026. Mendonça hoje foi mais eficaz que as turbas ensandecidas a depredar o Supremo no dia do Golpe. 

Se Cunha iniciou o golpe de 2016. Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de 2027 dando tons de messianismo constitucional ao que podemos taxar de conduta totalmente inconstitucional para com seus pares. 

O Supremo é julgado por um plenário e não pela imprensa. Mendonça não opera mais dentro das quatro linhas do estado de direito.

O ministro terrivelmente lavajatista Mendonça não apenas recebeu informações produzidas pela Polícia Federal. Ele movimentou a máquina. Determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico sobre referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, separou esse material em uma nova frente processual, abriu vista à Procuradoria-Geral da República e, antes mesmo de uma manifestação conclusiva do Ministério Público, retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública. Depois, pediu que o assunto fosse levado a uma sessão presencial do Plenário. A sucessão dos atos importa porque revela algo maior do que uma divergência jurídica: uma investigação ainda em formação foi convertida, por decisão institucional, em acontecimento político nacional.

É nesse ponto que o método se torna tão grave quanto o conteúdo. A direção da Polícia Federal reagiu duramente e passou a questionar se o relator havia ultrapassado a função de supervisionar a investigação para assumir um papel ativo na produção de uma linha investigativa própria. Ministros do Supremo falaram em ruptura das regras internas e em um ambiente de vale-tudo. A PGR foi colocada numa posição ainda mais delicada, porque aparece ao mesmo tempo como instituição responsável por controlar juridicamente a investigação e como uma das estruturas atingidas pelas referências reveladas. O resultado é um curto-circuito institucional: quem investiga passa a ser questionado, quem fiscaliza passa a integrar a crise e quem deveria arbitrar o conflito passa a lutar pela própria legitimidade.

A guerra híbrida opera exatamente nessa zona cinzenta. Ela não precisa fabricar documentos falsos quando pode explorar documentos verdadeiros fora de seu tempo processual. Fora da logica constitucional e dos direitos e garantias fundamentais. Não precisa inventar uma acusação quando pode retirar um fragmento de contexto, lançá-lo na circulação pública e deixar que o ecossistema político produza a condenação. O tempo jurídico exige prova. O tempo informacional exige impacto. Quando esses dois tempos entram em choque, vence primeiro quem controla a percepção. 

Por isso, o ato mais poderoso não foi a descoberta de uma mensagem, mas a transformação da investigação em espetáculo antes que a própria investigação pudesse dizer o que aquelas mensagens significavam. A partir desse instante, a Justiça deixou de conduzir sozinha o processo. A opinião pública, as redes, as campanhas eleitorais e os interesses políticos passaram a disputar o sentido do material em tempo real. E quando o sentido é capturado antes da prova, o processo continua aberto nos autos, mas a sentença política já começou a ser executada nas ruas. 

As portas de um novo golpe com STF com tudo estão abertas: um novo golpe com o supremo fragilizado e vilipendiado como estamos vendo por um dos seus próprios ministros sera matéria fácil para ser tragado pelo próximo golpista de plantão em eleições.

É aqui que a crise deixa de ser apenas jurídica e revela sua natureza histórica. A guerra híbrida não precisa destruir o Estado de uma vez. Sua forma mais eficiente é fazê-lo perder progressivamente a capacidade de reconhecer quem o ataca, enquanto suas próprias instituições são empurradas umas contra as outras. O conflito passa a utilizar a legalidade, a informação, a economia, a tecnologia e a disputa eleitoral como partes de uma mesma correlação de forças. Tudo continua aparentemente funcionando. Os tribunais julgam, a polícia investiga, a imprensa publica, as plataformas distribuem, os candidatos discursam. Mas, por baixo dessa normalidade, a autoridade que sustenta o conjunto começa a ser corroída.

A contradição é brutal. O STF, que depois de 8 de janeiro se tornou uma das principais barreiras institucionais contra a extrema direita golpista, passa agora a produzir diante do país a imagem de uma Corte dividida, desconfiada de si mesma e incapaz de estabelecer sequer um terreno comum para processar a própria crise. A Polícia Federal contesta o procedimento de um ministro do Supremo. A Procuradoria-Geral da República é chamada a fiscalizar uma investigação na qual seu próprio chefe aparece mencionado. O Banco Central entra no circuito da suspeição. Em vez de uma instituição proteger a estabilidade da outra, forma-se uma cadeia de atritos capaz de consumir a legitimidade de todas.

‘Há uma aposta muito perversa na desestabilização institucional do Brasil’, alerta Carol Proner

 

Análise da jurista ocorre após divulgação de material sobre mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro

Conteúdo postado por: Leonardo Lucena

Publicado em 1 de setembro de 2026


Carol Proner Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

247 – A jurista Carol Proner denunciou nesta terça-feira (1) que existe no Brasil uma tentativa de levar o País ao “caos institucional, desqualificando advogados, rivalizando juízes, procuradores e a própria Polícia Federal, ao tempo em que favorece estratégias eleitorais sorrateiras”. A integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) sinalizou que investigações técnicas precisam ser preservadas dentro do Supremo Tribunal Federal, mas também alertou contra “uma aposta muito perversa de desestabilização institucional do Brasil” que estaria sendo orquestrada por opositores do governo.

A estudiosa comentou a repercussão do material tornado público pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça sobre trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A PF enviou ao relator o documento com os diálogos. 

“Para quem estuda processo constitucional, o Brasil é o ‘hit’ do momento. A situação de hoje beira o inacreditável e expõe o modelo democrático diante dos grandes arranjos de concentração de poder econômico e político”, continuou a jurista. 

“Manchete de todos os jornais é a escandalosa notícia de que um ministro da Suprema Corte, com base em vazamentos de informações policiais para setores da imprensa, acusa outro ministro de cometer advocacia administrativa, abuso de poder e outros ilícitos”. 

Pedro Serrano

A jurista Carol Proner também destacou a importância da análise feita pelo jurista Pedro Serrano, que deu entrevista à TV 247 nesta terça (1). Em participação no programa Boa Noite 247, o estudioso demonstrou confiança nas investigações do STF e disse que “o plenário do Supremo é soberano na democracia”.

Conforme destacou a jurista Carol Proner, Serrano expôs “a complexidade do problema” em um contexto de “avalanche de fatos e direcionamento para linchamentos midiáticos”. “Serrano identifica a incidência de lógicas cruzadas entre sistema de justiça e sistema midiático, este pretendendo prevalecer sobre o outro”, pontuou ela.

“Naturalmente são sistemas que se relacionam entre si, mas um não pode superar a lógica do outro, sob pena de censura ou cerceamento de defesa e garantias: a jurisdição não pode ser exercida para censurar a imprensa. Por sua vez, a imprensa não pode pretender substituir a jurisdição em juízos de justiça. Esse é o ponto de partida para entender”.

Extrema direita

A jurista defendeu a integridade das investigações, porém não foi à tona que ela citou “aposta perversa”, mesmo sem mencionar a família Bolsonaro e a extrema direita brasileira. Nos últimos anos, políticos bolsonaristas e seus apoiadores estimularam ações golpistas contra o STF.

Além das 29 pessoas condenadas pelo Supremo na investigação sobre o plano golpista elaborado ainda no governo Bolsonaro, ministros da Corte também emitiram mais de 1,4 mil condenações nas investigações dos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram as estruturas do STF, do Palácio do Planalto e do Congresso. 

Os ataques da família Bolsonaro ao STF aumentaram após setembro do ano passado. No dia 11 daquele mês, magistrados condenaram Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista. 

Marcelo Uchôa

Outro jurista – Marcelo Uchôa – se manifestou sobre o material tornado público pelo STF e comentou sobre cobertura jornalística acerca dos casos Moraes e o do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que mentiu sobre os recursos enviados por Vorcaro ao filme Dark Horse, retrato biográfico de Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar atualmente após ser condenado por ministros do STF a 27 anos de cadeia na investigação sobre a trama golpista.

O senador da extrema direita havia afirmado que Daniel Vorcaro suspendeu em maio de 2025 os pagamentos destinados a Dark Horse. Mas o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que o ex-banqueiro fez um novo repasse ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, em 16 de setembro do ano passado. O fundo administra os recursos ligados à produção do filme.

A transferência, no valor de US$ 1,6 milhão, ocorreu oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar de Vorcaro parcelas em atraso. Com esse novo pagamento, o montante enviado pelo empresário ao longa passou de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões, valor superior a R$ 65 milhões.

Os investigadores também apuram se Vorcaro fez outro repasse de US$ 1,6 milhão ao filme. Em 22 de outubro do ano passado, Flávio Bolsonaro procurou novamente o ex-banqueiro. Caso essa transferência tenha ocorrido, o total disponibilizado pelo empresário para investir na produção chegaria a US$ 14 milhões, o equivalente a R$ 72 milhões.