Após novos ataques de Milei contra o presidente Lula, o governo argentino disse que o Brasil está se “isolando”. Mas os fatos mostram o contrário.
pOR Marcia Carmo
Jornalista e correspondente do Brasil
247 na Argentina. Mestra em Estudos Latino-Americanos (Unsam, de Buenos Aires),
autora do livro ‘América do Sul’ (editora DBA).
Publicado em 6 de agosto de 2026.
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| Lula e Javier Milei. Crédito: Brasil 247 / Dall-E |
O presidente Lula recebeu, nesta quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores do governo da líder mexicana Claudia Scheinbaum, Roberto Velasco. Na véspera, uma comitiva do governo chileno tinha participado de reuniões bilaterais em Brasília. Os dois encontros confirmam que é difícil “isolar” um país com as dimensões econômicas, populacionais e territoriais como o Brasil, o maior país da América Latina.
Comunicado argentino
Nesta semana, logo
após os novos ataques de Milei contra o presidente Lula, durante uma entrevista
ao canal LN+, no domingo à noite, o chanceler argentino Pablo Quirno disse que
“lamentava” que o governo brasileiro tenha rebaixado a relação diplomática bilateral,
ao deixar a embaixada do Brasil em Buenos Aires sem o embaixador Júlio Bitelli,
que está no Brasil, e comandada por um segundo no posto. “Lamentamos a decisão
(do Brasil) de continuar se isolando da região por questões puramente
ideológicas”, diz o comunicado do Ministério das Relações Exteriores da
Argentina. O chanceler argentino Pablo Quirno disse, por sua vez, em entrevista
ao Infobae, de Buenos Aires, que a decisão do Brasil foi “unilateral e
excessiva”. “Não vamos entrar em briga. Não vamos romper relações”, disse
Quirno.
A importância do Brasil e da China
O Brasil é o
principal sócio comercial da Argentina. Em segundo lugar está a China. As
exportações argentinas para o mercado chinês saltaram quase 60% no primeiro
semestre deste ano, segundo dados compilados pela imprensa local. E a China
acaba de assinar a renovação de um acordo financeiro que fortalece as reservas
do Banco Central da Argentina. Mas Milei não tem planos de visitar o país
asiático. Nos Estados Unidos, porém, já esteve 16 vezes – a maioria para
encontros da extrema-direita.
Brasil, difícil de ficar isolado
Às declarações
feitas pela presidenta do Peru, Keiko Fujimori, para quem “o Brasil e o
presidente Lula são os únicos que podem unir o continente”, como disse num
encontro com embaixadores da América Latina, e à fala pública do presidente
chileno José Antonio Kast, para quem “se o Brasil vai bem, o Chile vai bem”,
somou-se nesta quinta-feira a ratificação da sintonia explícita entre os
governos brasileiro e mexicano.
Lula e Scheinbaum e a democracia na
América Latina
Nesta quinta, no
Palácio do Planalto, Lula e o chanceler do governo de Claudia Sheinbaum
conversaram sobre política e sobre economia. No encontro, eles debateram a
situação da democracia na América Latina. Em suas redes sociais, Lula
postou que tinha pedido a Velasco que ratificasse o convite para que a
presidenta mexicana visite o Brasil. Lula e Scheinbaum têm “sintonia” nas
pautas governamentais e compartilham visões similares em relação à América Latina
e Caribe (incluindo Cuba) e a preocupação sobre a ‘Era Trump’.
Trump
Ela atua como uma
“equilibrista” frente as investidas econômicas (tarifas) e policiais de Trump.
O México destina grande parte de suas exportações ao mercado norte-americano e
tem uma das maiores comunidades de imigrantes no país governado por Trump.
Scheinbaum, ao mesmo tempo, olha cada vez mais para o Brasil governado por
Lula, com quem tem “excelente” relação, como os dois costumam dizer e foi
relembrado pelo chanceler mexicano.
“Soberania”
Nesta quinta-feira,
o ministro do governo Scheinbaum participou ao lado do chanceler brasileiro
Mauro Vieira da VI Reunião da Comissão Binacional Brasil-México. Na agenda
bilateral, estão a cooperação entre a Petrobras e a Pemex, o debate sobre o crime
transnacional e a determinação sobre a “soberania” dos países e seus povos. O
chanceler deixou esta afinidade clara em uma mensagem em suas redes sociais:
“Defendemos princípios comuns como a soberania, o desenvolvimento com justiça
social, a solução pacífica de controvérsias e somos aliados naturais na
construção de uma região mais prospera, justa e solidária para nossas
sociedades.”
Extrema-direita
O encontro ocorreu
pouco depois da visita da comitiva chilena, capitaneada pelo chanceler do país
andino Francisco Pérez Mackenna, que também busca intensificar a relação com o
Brasil. As conversas entre os chanceleres do Brasil e do Chile incluíram o
Corredor Bioceânico, a cooperação na área de minerais críticos, a segurança e o
comércio, segundo o governo chileno.
Fúria de Milei – ‘leão’ e ‘tigre’
As séries de
reuniões da comitiva chilena e mexicana ocorreram após as novas declarações
furiosas de Milei contra Lula e a poucas horas da posse do presidente
colombiano Abelardo de la Espriella nesta sexta-feira. Espriella, que gosta de
ser chamado de “o tigre” tem afinidade com o “leão” Milei – eles se chamam
assim entre eles e têm a mesma visão do Estado mínimo e da aliança intensa com
Trump. Abelardo, como também é chamado, recebeu apoio de Trump para ser eleito.
A diferença de votos entre ele e o candidato da esquerda, o filósofo e senador
Iván Cepeda, aliado de Petro, foi de menos de 1%. Além disso, a esquerda tem
maioria no Congresso.
Brasil e México
O Brasil e o México são os maiores países da
região, em termos econômicos, populacionais e territoriais. E governados por
presidentes que são contrários aos recém-eleitos que formam a extrema-direita –
Milei, na Argentina, que já governa há dois anos e meio, Kast, no Chile, que
tomou posse em março, Noboa, no Equador, que governa desde 2023…Milei os define
como “integrantes da onda azul”, numa clara oposição ao que foi definido como
onda rosa, em relação ao campo progressista no início deste século 21. Nesta
onda azul, ele inclui Abelardo de la Espriella. O presidente argentino quer ser
o líder da direita e extrema-direita regional. Mas Keiko e Kast já deixaram
claro que não pretendem se afastar do Brasil, sabendo da importância do país no
tabuleiro regional e global. Na visão do governo brasileiro, Milei é “o único”
que gera “crise”. “Zero problemas na região. O único que gera problema é
Milei.”







