· Artigo
- Blog do jornalista Magno Martins
- - Edição de Ítala Alves
Por Mauro Souza*
O mercado de
elementos químicos, obtidos de terras raras, se constitui na base de toda a
revolução da Inteligência Artificial (IA). Com forte apelo geopolítico, ele se
encontra no centro de uma disputa visceral entre a China e o Ocidente.
Encabeçados pelo
neodímio, térbio, lantânio, cério e ítrio, dentre outros, estes componentes
possuem propriedades cruciais para a miniaturização de tecnologias adotadas em
motores de carros elétricos, turbinas eólicas, medicina e defesa. A demanda
desses elementos deve crescer 1.500% até o ano de 2050.
Mais da metade das
reservas de terras raras se concentra na China e no Brasil. A China possui 46%
das reservas globais e o Brasil, em segunda posição, dispõe de 23%. No entanto,
os números sofrem um abalo sísmico após a aplicação da cadeia de valor,
necessária para o refino e o decorrente uso pela indústria. A China controla o
mercado dos produtos já refinados, com mais de 85% da fatia mundial. O nosso
país não dispõe de nenhuma expressão estatística neste quesito.
O Brasil possui a
tecnologia de refino e produção, mas apenas em escala de laboratório e
plantas-piloto. Na prática, existe uma diferença gritante entre dominar a
ciência do refino, e ter capacidade de processar milhares de toneladas por ano,
de forma competitiva.
Entidades como o
IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), o CDTN (Centro de Desenvolvimento da
Tecnologia Nuclear) e o IPEN em parceria com a USP já desenvolveram e testaram
métodos químicos para o refino de terras raras. Projetos como o CIT SENAI ITR
em Lagoa Santa (MG) conseguem separar elementos, produzir ligas metálicas (como
NeodímioFerro-Boro) e fabricar pequenos ímãs permanentes, mas em escala
reduzida e experimental.
Por um lado,
devido ao exercício constante do planejamento de longo prazo e após décadas de
subsídios estatais, o custo do refino chinês é imbatível. Por outro lado, o
salto de uma planta-piloto para uma refinaria industrial exige investimentos
bilionários, mas o Brasil que luta contra a especialização regressiva, não
dispõe de um parque industrial pujante, capaz de absorver a produção em larga
escala de baterias de carros elétricos ou componentes de defesa.
Ademais, sempre
que as mineradoras privadas que operam no Brasil precisam recorrer a capital
estrangeiro, os investidores globais exigem o envio do concentrado bruto de
terras raras, para refinarias já estabelecidas em países aliados.
Desta feita,
diante do risco de uma volatilidade programada pela China e do pragmatismo
financeiro do Ocidente, que prefere manter o país na posição confortável de
fornecedor de matéria-prima barata, qualquer projeto de refino nacional é
visto, pelos bancos e fundos de venture capital, como um empreendimento de
altíssimo risco financeiro.
A questão que
precisamos aceitar é que nenhuma potência global atingiu a soberania
tecnológica, contando exclusivamente com as forças espontâneas do mercado (no
Brasil, não será diferente). Nos Estados Unidos (com um Estado comprador e
garantidor do financiamento do risco inicial) e na China (com um Estado focado
em planejamento central, proprietário de empresas e controlador de
ecossistemas), o Estado sempre atuou para absorver o ativo inicial, considerado
arriscado demais pelo capital privado.
Sem a intervenção
firme do Estado, as forças de mercado continuarão direcionando o Brasil para a
exportação de minério e a importação de tecnologia cara. O que se descortina no
segmento das terras raras, base da alta tecnologia, da IA e do futuro do
comércio global, é a repetição do nosso velho e conhecido “modelo colonial”.
O foco do
arcabouço regulatório brasileiro para terras raras é o beneficiamento, atrelado
à industrialização interna. O PL 2.780/2024 (Política Nacional de Minerais
Críticos e Estratégicos) compõe o principal marco legal em avanço no Congresso
Nacional. Precisamos de celeridade e atenção por parte dos nossos líderes e da
sociedade. O mesmo eu digo quanto à Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR),
que se constitui em uma iniciativa crucial liderada pelo Governo Federal e
voltada para a fixação de metas, para verticalizar a produção de ímãs e ligas
no país.
No caso das terras
raras, ainda dá tempo de reverter o papel de coadjuvante, e surfar dentro de um
plano consistente e típico de um protagonista. Vamos em frente, pois temos um
compromisso no que tange ao legado que deixaremos para as gerações futuras…
*Engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica
e mestrado em telecomunicações.

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