quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Governadores sob pressão: as conexões políticas no escândalo Banco Master

O episódio desnuda algo que há anos se repete no sistema financeiro brasileiro: a socialização das perdas e a privatização dos ganhos.

Por Florestan Fernandes Jr.

Banco Master (Foto: Divulgação)




 


 

A operação Compliance Zero, que atingiu toda a cúpula do Banco Master, expõe mais do que um caso isolado de descontrole ou má gestão; revela um padrão de relações perigosas entre instituições financeiras privadas e bancos públicos que deveriam servir ao interesse coletivo, não ao resgate de grupos específicos.

As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontam um cenário que, se confirmado, é gravíssimo: emissão de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro, uso de ativos inexistentes para simular liquidez e a participação de dirigentes do Banco de Brasília (BRB) em transações que chegaram a movimentar R$ 12,2 bilhões sem documentação adequada. Tudo isso no exato período em que o BRB tentava comprar o próprio Banco Master, operação que foi barrada pelo Banco Central.

O que emerge desses fatos é a suspeita de que recursos de um banco público teriam sido usados para socorrer uma instituição privada que afundava em sua própria crise de liquidez. Entre 2024 e 2025, o BRB teria injetado R$ 16,7 bilhões no Master, um valor que em qualquer país sério seria motivo para abrir imediatamente CPIs, afastamentos e responsabilizações administrativas.

E o problema não para aí. O caso alcança também o Rioprevidência, fundo responsável pelas aposentadorias de servidores do Rio de Janeiro, que aplicou R$ 2,6 bilhões em fundos ligados ao Master, mesmo diante de alertas do Tribunal de Contas do Estado. O risco era claro, mas foi ignorado. E quando um fundo previdenciário, que administra o futuro de milhares de famílias, toma decisões temerárias, a pergunta que se impõe é: quem estava sendo protegido? Certamente, não o servidor público.

O episódio desnuda algo que há anos se repete no sistema financeiro brasileiro: a socialização das perdas e a privatização dos ganhos. Recursos públicos, diretos ou indiretos, acabam absorvendo prejuízos que deveriam recair exclusivamente sobre quem tomou decisões arriscadas, opacas ou fraudulentas. Com a palavra, os governadores bolsonaristas Claudio Castro e Ibaneis Rocha.

É urgente que o caso seja investigado com a máxima transparência. Que haja responsabilização política, administrativa e criminal.

O escândalo do Banco Master e do BRB não é apenas um problema financeiro. É um alerta sobre governança, sobre o uso do dinheiro público e sobre o limite, já ultrapassado, da tolerância nacional com esquemas que colocam o interesse privado acima do coletivo.

No fim, a intervenção e a liquidação extrajudicial do Banco Master não encerram o problema; certamente a liquidação levará muitos anos. O importante é que cada etapa desse processo seja conduzida com absoluta transparência. Que os culpados sejam identificados, que os arranjos escusos entre dirigentes públicos e interesses privados venham à luz e que o dinheiro dos servidores, dos contribuintes e das instituições públicas seja recuperado.

domingo, 16 de novembro de 2025

Segurança pública, violência e barbárie

 

A barbárie no Estado RJ e as raízes da crise de segurança

 








Edmilson Costa*

A matança ocorrida no Rio de Janeiro, comandada pelo governador bolsonarista Cláudio Castro, não é apenas mais um episódio da barbárie contra as populações dos morros e periferias, mas um projeto político da extrema-direita para recuperar o terreno que vinha perdendo com os escândalos envolvendo os bolsonaristas, as denúncias em relação à tentativa de golpe e as articulações nos Estados Unidos que resultaram nas tarifas contra o Brasil. 

Além disso, as grandes manifestações realizadas em todo o país, que resultaram na derrota da PEC da bandidagem, no enterro da pauta da anistia para Bolsonaro e, mais recentemente, a aprovação pela Câmara da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil deixaram o bolsonarismo numa situação política muito difícil. A chacina realizada no Complexo do Alemão e na Penha foi o caminho encontrado pela extrema-direita para se reposicionar no jogo político, uma vez que a carnificina alterou bruscamente a conjuntura nacional, deslocando o centro do debate político da economia para a questão da segurança pública e proporcionando ao bolsonarismo sair das cordas e colocar o governo na defensiva.

Sob o pretexto de combate ao crime, a matança no Rio foi utilizada como propaganda política, mediante um macabro espetáculo midiático, através do qual o bolsonarismo buscou coesionar sua base social e passar à ofensiva política. Todos devem lembrar que essa não é uma tática nova: ao longo de várias décadas, a política de segurança sempre serviu de mote para as forças conservadoras buscarem prestígio e voto junto à população brasileira. 

A direita percebeu que essa pauta mobiliza o senso comum e os sentimentos mais primários da população (como medo, frustração, raiva e desejo de segurança) e, por isso, sempre apela para o velho discurso da lei e da ordem. Essa estratégia é funcional porque reorganiza o consenso reacionário em torno da ideia de que “bandido bom é bandido morto”, ao mesmo tempo em que proporciona um mecanismo de controle social que legitima a repressão e desvia o foco das causas estruturais da violência: o modelo econômico, o desemprego, a concentração de renda e a exclusão da maioria da população das decisões econômicas e políticas.

Nessa perspectiva, a mobilização oportunista dos governadores de extrema-direita após a chacina demonstra a natureza instrumental da pauta da segurança. Sob o pretexto de coordenar políticas de combate ao crime organizado, a proposta do chamado “Consórcio da Paz” não é nada mais, nada menos do que uma operação política das forças conservadoras visando as eleições de 2026 e, ao mesmo tempo, uma iniciativa que busca dois objetivos: a) nacionalizar o discurso da lei e da ordem, ocupar o vácuo da liderança conservadora e desgastar o governo; b) constranger o Congresso e o Executivo através da narrativa de que são omissos diante da violência e do crime. 

Além disso, procura apresentar esses políticos como homens de ação, capazes de propor medidas contra o crime e resolver problemas que o governo não resolve. Na verdade, esse consórcio deveria ser chamado de “consórcio da morte”, porque nasce do massacre de mais de cem jovens pretos e pobres das comunidades do Rio de Janeiro, enquanto esses governadores se omitem diante das milícias, protegem o capital e reproduzem as desigualdades.

Um aspecto que chama a atenção nessa tragédia é o fato de que a maioria das pessoas nas comunidades apoia a chacina promovida pelo governo do Rio. Esse fato não pode ser ignorado nem tratado com arrogância política. É fundamental buscar as causas mais profundas de tal posicionamento da população. O apoio não nasce da simpatia com a extrema-direita nem da conivência com a violência, mas de uma combinação perversa de medo, ódio, frustração e abandono. Isso porque a população periférica é duplamente oprimida, tanto pelo tráfico quanto pela polícia. 

De um lado, existe o tráfico armado, que impõe de maneira brutal sua lei nos territórios, alicia os jovens e estabelece seu domínio baseado na ameaça e na força. De outro, o terror policial, que invade as casas, mata inocentes e espalha o medo e violência nas comunidades em nome da segurança. O resultado é uma população encurralada, submetida a uma guerra periódica entre o tráfico e a polícia, sem alternativa de vida e sem perspectiva de mudança.

Em outras palavras, o apoio não é fruto de um conservadorismo consciente, mas do desespero social que leva os mais pobres a apoiar aqueles que lhes prometem segurança, porque não veem outra saída. É justamente nessa conjuntura que o discurso da extrema-direita encontra eco, se fortalece e transforma o medo em matéria-prima para atingir seus objetivos políticos. A história nos ensina que o medo e o ódio, quando manipulados ideologicamente, podem se converter em poderosa força política a serviço das forças conservadoras, legitimando as barbaridades cometidas pelo braço armado das classes dominantes. 

Podemos dizer que o apoio da população à barbárie é um gesto de desespero, com sinais trocados, uma busca por proteção diante de um país que abandonou os pobres à própria sorte. Por isso, a questão da segurança pública deve ser encarada como uma disputa de classe, diante da qual as forças progressistas não podem ficar passivas: precisam afirmar corajosamente uma concepção de segurança pública baseada na vida, para romper o véu que aliena a maioria da população.

A esquerda na berlinda

O mais dramático dessa conjuntura, em que as forças conservadoras dominam a narrativa, é o fato de que a esquerda tem revelado um despreparo impressionante para enfrentar esse tema. Historicamente, a esquerda sempre evitou tratar a questão da violência e da segurança pública em profundidade, seja por medo de parecer punitivista, seja por não possuir uma formulação sólida sobre o assunto. Limitou-se, na maioria das vezes, à denúncia moral das chacinas e à crítica à violência policial. Mas a denúncia abstrata não organiza nem oferece horizonte político à população. 

Dessa forma, entregou o monopólio do discurso da segurança à direita, que passou a falar sozinha com as massas, utilizando uma narrativa simplista sobre o medo da morte, a perda dos filhos, a ausência do Estado e a necessidade de repressão. Essa conjuntura é reforçada pelos meios de comunicação e pelas igrejas conservadoras, que diariamente fortalecem a hegemonia reacionária.

A esquerda ainda não conseguiu construir uma linguagem política que traduza as angústias da periferia, nem uma proposta de segurança popular que inclua justiça social, desmilitarização das polícias, combate à lavagem de dinheiro e políticas urbanas e de emprego capazes de atacar as raízes sociais do tráfico e da violência. Continua a reagir espasmodicamente a cada tragédia, sem formular um projeto alternativo que dispute o imaginário popular sobre segurança, território, violência, justiça e perspectiva social. A direita avança no espaço que a esquerda tem sido incapaz de ocupar com propostas concretas e compreensíveis para a maioria da população. 

Romper esse quadro exige trabalho de base, formulação, criatividade e formação política. Somente assim será possível romper o consenso do medo e transformar a luta contra a violência em luta pela vida, na perspectiva das transformações sociais.

A esquerda também não tem sabido explorar uma contradição decisiva nesta questão da segurança pública: a hipocrisia da direita. Seus porta-vozes clamam por repressão e punição quando o crime é cometido por pretos e pobres, mas silenciam em relação aos verdadeiros chefes do crime, os lavadores de dinheiro, banqueiros, empresários e políticos. O exemplo mais cristalino dessa contradição é o fato de que não há operação policial em condomínios de luxo, nem helicópteros atirando em bairros abastados, nem blitzes em mansões milionárias. 

A polícia sabe que as favelas representam o varejo, enquanto o atacado mora na zona sul do Rio de Janeiro ou na Faria Lima em São Paulo. A violência é seletiva e cumpre uma função de classe: controlar a pobreza e proteger o capital. O fuzil tem alvo certo: o corpo negro e periférico.

Essa seletividade não é resultado de nenhum desvio funcional ou brutalidade isolada de agentes policiais. É a essência de uma política de segurança de classe. O aparato repressivo é treinado para reprimir os pobres; a juventude negra e parda é suspeita mesmo sem cometer crime algum. Para a polícia, os territórios periféricos são zonas de exceção, onde qualquer arbitrariedade é permitida e protegida pelo Estado. 

A guerra às drogas, nessas circunstâncias, é um mecanismo de regulação do exército industrial de reserva e o aparato militar cumpre o papel de executor das ordens que mantêm os privilégios dos donos do poder. Parodiando Marx no Manifesto Comunista, podemos reafirmar: o Estado brasileiro é um comitê que administra os negócios das classes dominantes e a polícia é o braço armado encarregado de manter sua lei e sua ordem.

Mesmo diante dessa situação, a esquerda tem sido tímida na denúncia dos criminosos de colarinho branco, do caráter de classe da violência policial e do uso político da morte como forma de gestão das contradições do capitalismo periférico brasileiro. A direita, ao silenciar e encobrir os crimes das classes dominantes, protege seus próprios mecanismos de enriquecimento: corrupção, sonegação fiscal, tráfico de influência, superexploração do trabalho, assalto ao fundo público e rentismo institucionalizado, além das conexões entre milícias, polícia e políticos. 

A chamada guerra ao tráfico não é, portanto, uma guerra contra os chefes do crime organizado, mas uma guerra dos milionários e de seus representantes na institucionalidade contra os pobres para preservar esse modelo econômico perverso, a especulação financeira, os lucros da burguesia e a desigualdade estrutural brasileira.

O servilismo e a vassalagem ao império

Um dos aspectos mais graves dessa crise é o fato de que, sorrateiramente, antes da matança, o governador do Estado do Rio enviou às autoridades dos EUA um dossiê buscando vincular o tráfico local ao narcotráfico internacional, em busca de apoio político e logístico de Trump e da extrema-direita estadunidense, numa manobra de altíssimo conteúdo de subordinação da soberania nacional à tutela imperialista. 

Com esse gesto, o governador cometeu não só um vergonhoso ato de traição nacional, mas uma vassalagem sem cerimônia aos interesses de Washington. Esta é a mesma lógica que levou bolsonaristas a erguerem bandeiras dos Estados Unidos nas manifestações pelas ruas brasileiras. Tanto o dossiê quanto esse gesto simbólico revelam o complexo de vira-lata bolsonarista e desmascaram seu falso patriotismo.

Enviar o dossiê aos Estados Unidos significou também uma tentativa de internacionalizar o tema da segurança pública brasileira buscando conferir legitimidade externa à política de extermínio e apresentando-a como parte da guerra global ao narcotráfico. Visa ainda reforçar os laços entre a direita brasileira e o trumpismo internacional, criando um eixo ideológico entre a extrema-direita brasileira e estadunidense e abrindo espaço para eventual ação do imperialismo no Brasil. 

Essa tentativa de envolver os Estados Unidos é parte de uma estratégia neocolonial, um verdadeiro Cavalo de Troia que justifica espionagem e até intervenção militar. Cláudio Castro e os bolsonaristas agem como capatazes subservientes, dispostos a todo tipo de traição para servir a seus amos e alcançar seus objetivos políticos.

A conexão entre o bolsonarismo e o imperialismo estadunidense se tornou ainda mais clara quando o chefe da Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos, James Sparks, encaminhou carta à Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro não só lamentando as mortes de policiais, mas manifestando disposição de auxiliar o governo fluminense no combate ao tráfico. Essa carta não foi um gesto inocente de solidariedade, mas uma ingerência nos assuntos internos do Brasil, uma tentativa disfarçada de submeter a política de segurança fluminense ao controle norte-americano. É a velha tática imperialista: oferece ajuda, mas o objetivo é penetrar nas instituições para moldá-las de acordo com seus interesses.

O servilismo do governador do Rio lembra também o episódio do filho de Bolsonaro que, financiado pelo pai, viajou aos Estados Unidos para conspirar contra o Brasil e terminou sendo o principal responsável pela imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções contra magistrados do Supremo Tribunal Federal. Esse comportamento é a tradução mais acabada do fascismo tupiniquim: entreguismo, vassalagem e autoritarismo. Não é novidade, faz parte da velha tradição das classes dominantes brasileiras desde o Império, passando pela República Velha, pelas ditaduras e chegando ao bolsonarismo, que não se vê como parte do povo, mas como agente local dos interesses estrangeiros.

O entreguismo bolsonarista não é apenas um ato de covardia: é uma estratégia para tentar voltar ao poder com base na força e no apoio do imperialismo estadunidense. Sabem que, ao demonstrar fidelidade ao império, poderão obter respaldo político, financiamento e apoio nas próximas eleições em 2026. Além disso, a política de extermínio dos pobres está em sintonia com os métodos da extrema-direita internacional e atende também às demandas dos setores médios conservadores internos que se sentem protegidos com a repressão e a morte dos pobres. Não podemos esquecer que o golpe de 1964 teve como pretexto “salvar o país do comunismo” e hoje a “guerra ao tráfico” cumpre o mesmo papel: justificar a interferência imperialista no Brasil.

Pobreza como raiz da violência

Para compreender a crise da segurança pública brasileira, é fundamental avaliar sua natureza. Antes de tudo, é preciso enfatizar que o problema do tráfico e do crime não pode ser resolvido com repressão e extermínio, pois as raízes do problema estão na desigualdade e na miséria que atingem o povo brasileiro. Nossa história recente está cheia de exemplos de operações espetaculares (incursões policiais, matanças, ocupações territoriais) que servem mais a objetivos políticos das forças conservadoras do que à solução real dos problemas, já que logo depois das tragédias o tráfico volta a ocupar os territórios. Na verdade, as classes dominantes brasileiras não pretendem resolver o problema, mas apenas administrar a barbárie que criaram, dosando repressão e abandono conforme suas necessidades políticas.

A cada novo massacre renova-se a ilusão de que a morte pode restaurar a lei e a ordem, mas o tráfico é expressão de um sistema que naturalizou a pobreza, a miséria e a exclusão. Quando o Estado mata, não está combatendo o crime, mas eliminando o excedente humano que não cabe no sistema econômico. Enquanto não forem resolvidas as causas estruturais que produzem o tráfico e o crime (desigualdade, pobreza e falta de perspectiva), o tráfico permanecerá ativo e continuará aliciando novos soldados, que terão vida curta numa guerra que só beneficia a burguesia e o sistema da lei e da ordem. Nessas circunstâncias, apenas a luta por uma nova sociabilidade será capaz de romper esse ciclo perverso de violência e barbárie.

(*) Edmilson Costa é doutor em Economia pela Unicamp, com pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma instituição. É Secretário-Geral do PCB.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Lula precisa chamar Cappelli para frear avanço extremista

Ex-interventor na Segurança do Distrito Federal, Ricardo Cappelli poderia ajudar a deter a extrema direita a partir do laboratório do Rio, analisa Esmael Morais (Jornalista e do Blog do Esmael)

13 de novembro de 2025

 
Lula e Ricardo Cappelli (Foto: Reprodução/PR)


 




Lula precisa chamar o Cappelli para segurar a virada política construída pelo laboratório de violência do Rio de Janeiro, que catapulta a extrema direita nas pesquisas divulgadas pela Paraná Pesquisas, Quaest e Datafolha [que está no forno, prestes a sair]. O alerta foi dado pelo Blog do Esmael há quase um mês, após a megaoperação que deixou 121 mortos. Sem intervenção federal, a extrema direita avançou.

O presidente Lula vinha surfando no tarifaço imposto por Donald Trump e, logo depois, no inédito aperto de mão com o líder americano na Malásia, movimentos que ampliaram seu capital político. Porém, a matança no Rio funcionou como freio de arrumação, recolocando a extrema direita no centro do debate e segurando o impulso governista.

Ricardo Cappelli é o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Jornalista e especialista em administração pública, Cappelli acumula 24 anos de experiência nos três níveis de governo. Em virtude dos ataques do dia 8 de janeiro de 2023, Cappelli foi nomeado interventor federal na Segurança Pública do Distrito Federal pelo presidente Lula. No mesmo ano, foi secretário executivo e ministro interino do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Dito isto, voltemos ao Rio.

O estado fluminense é um laboratório para assuntos de violência e, a partir dali, se consolidou Bolsonaro, pariu Wilson Witzel e Braga Netto. Também elevou o trôpego governador Cláudio Castro (PL) à condição de popstar, com direito à homenagem de sua necropolítica no Congresso Nacional. Um horror.

A necropolítica praticada no Rio funciona como uma metástase, um câncer institucional que, se não contido, se espalha rapidamente pelo país. O método da violência como política pública, legitimado pela disputa eleitoral e pela propaganda oficial, tende a contaminar outras administrações, criar atalhos autoritários e naturalizar a ideia de que matar é governar. É um modelo que, uma vez replicado, corrói a democracia por dentro e transforma o Estado em operador da morte como cálculo político.

A Constituição Federal, esse dispositivo liberal, pede que o presidente da República intervenha quando o governo do estado não dá conta do recado. E, com o saldo de 121, convenhamos, Castro perdeu o controle há muito tempo, apesar do sensacionalismo em cima de sua política da morte.

Se o governo federal nada fizer, além de naturalizar chacinas e genocídios, outros governos estaduais preferirão repetir matanças em seus estados, bandidos ou não, sem o devido processo legal, com execuções extrajudiciais. Se o governador pode, por que o prefeito de uma cidade média, que tem a guarda municipal armada, também não poderia fazer uma limpa nas vésperas da eleição para melhorar o Ibope?

As execuções extrajudiciais parece que ajudam na popularidade da extrema direita, enquanto os governos progressistas experimentam baixa diante do funcionamento do laboratório de matança à céu aberto.

É nesse ponto que a crise do PL Antifacção, relatado pelo deputado Guilherme Derrite, precisa ser lida como parte de um projeto de poder, não como desorganização legislativa. As mudanças propostas esvaziam competências da Polícia Federal, transferem o enfrentamento ao crime organizado para esferas estaduais alinhadas à extrema direita e tumultuam investigações como a Operação Carbono Oculto.

O método é claro: reconfigurar o aparato institucional, enfraquecer a União, blindar aliados e criar a narrativa de que somente eles teriam coragem para enfrentar facções, enquanto na prática ampliam riscos, favorecem redes criminosas e pavimentam uma arquitetura política para 2026.

Como a discussão sobre segurança pública ficou aquartelada na extrema direita, eles estão ensaiando para criar a figura da Polícia Federal Independente, inspirada no Banco Central Independente, cuja autonomia garantiu o surgimento do maior juro real do mundo, que desgraça o desenvolvimento nacional, a geração de emprego bom, aumento do salário, consumo de bens e serviços, enfim, proporcionar felicidade para as famílias brasileiras. Com a PF Independente, não seria diferente. Quem ficaria feliz seria o crime organizado, os oligarcas da Faria Lima e setores da velha mídia corporativa.

É nesse contexto, de virada, que Lula deveria chamar o Cappelli. Ou, se preferir, resignadamente, pagar para ver o avanço da extrema direita a partir do laboratório do Rio.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Texto de Derrite é inconstitucional e enfraquece combate ao crime, diz Sarrubbo

Secretário nacional de segurança pública afirma que proposta limita ação da PF e favorece organizações criminosas

11 de novembro de 2025

 

Mário Sarrubbo (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)


 







Por Otávio Rosso

247 - O secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, classificou como inconstitucional o parecer do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) sobre o projeto antifacção, atualmente em debate no Congresso Nacional. Em entrevista ao Valor Econômico, Sarrubbo afirmou que o texto apresentado pelo parlamentar altera pontos fundamentais da proposta enviada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva e enfraquece o combate às organizações criminosas.

O relatório de Derrite retira dispositivos que visavam sufocar financeiramente as facções e, na prática, equipara esses grupos a organizações terroristas. A Constituição Federal, no entanto, define que é competência da Polícia Federal (PF) atuar em crimes de repercussão interestadual e na repressão ao tráfico de drogas — áreas diretamente ligadas às facções. O texto do deputado, contudo, impõe que a PF só possa agir mediante provocação do governador do estado, restringindo a autonomia do Ministério da Justiça.

A própria PF manifestou “preocupação” com o relatório, destacando que as novas regras trazem “restrições significativas” à sua atuação e dificultam o enfrentamento ao crime organizado. Sarrubbo reforçou essa visão: “Ele não pode dizer que agora só o governador vai autorizar [a ação da PF]”, afirmou o ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo.

Para o secretário, a limitação proposta pelo deputado cria brechas que podem beneficiar facções. O governo e o Partido dos Trabalhadores têm enfatizado nas redes sociais que a medida “blinda” o crime organizado, em uma estratégia de comunicação semelhante à usada na discussão da chamada “PEC da blindagem”, que tentava restringir investigações sobre parlamentares.

Outro ponto criticado por Sarrubbo é a exclusão do dispositivo que previa o perdimento civil de bens, mecanismo que permitiria confiscar o patrimônio das organizações criminosas. “Ele [Derrite] não colocou [em seu parecer] o perdimento civil de bens, que é a extinção do domínio”, explicou. Segundo o secretário, essa omissão compromete o principal objetivo do projeto original, que era “asfixiar financeiramente” as facções.

Ainda que Derrite tenha declarado não equiparar formalmente as facções a grupos terroristas, ele argumenta que as práticas de ambos produzem efeitos “simétricos”. Sarrubbo, porém, alerta que essa equivalência pode ter graves consequências internacionais. “Os Estados Unidos vão ficar perguntando se é terrorismo ou equiparado ao terrorismo para saber se podem intervir [em território brasileiro]? Claro que não”, criticou o secretário, enfatizando que a soberania nacional pode ser colocada em risco.

Em entrevistas concedidas na segunda-feira (10), o deputado Derrite defendeu seu relatório, afirmando estar dialogando com diferentes setores para construir um texto de consenso. Ele garantiu que apresentará uma nova versão do parecer, com ajustes que esclareçam as competências de cada órgão envolvido.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

MILITANTES DO PSOL E CONVIDADO DA REDE, REUNIRAM-SE NESSE SÁBADO 08.11.2025


Paulo Tenório, Joelma Carla, Jerônimo Galvão, Paulo Camelo e Ana do Timbó









Com a participação de Jerônimo Galvão, Presidente da Federação PSOL/REDE, Joelma Carla (Presidente do PSOL de Surubim), Ana do Timbó (Presidente do PSOL de Garanhuns), Alline Oliveira (Direção do PSOL Surubim), Paulo Camelo (Secretário do PSOL de Garanhuns) e o convidado Paulo Tenório (Dirigente da REDE Garanhuns/PE), analisamos a Pauta a seguir: - Conjuntura Política; - Eleições 2026;  - Organização do PSOL Local.

Quanto a Conjuntura Política Internacional, discutiu-se a questão do imperialismo Estadunidense frente a América do Sul, tratando-se das ameaças contra nações Sul-Americanas e do “tarifaço” contra o Brasil. Na conjuntura Nacional foi colocada a importância das mobilizações populares para a queda da PEC da Blindagem, o combate as propostas de anistia para os golpistas e na conquista da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais, sendo apontada a necessidade de continuidade dos movimentos para a defesa de uma alternativa a escala de trabalho 6x1 sem redução salarial e a imperiosa urgência  de barrar o avanço da extrema direita. Lembrando Paulo Camelo que todos nós somos bombardeados diariamente pela ideologia das Classes Dominantes, a qual influência o pensamento e a educação das pessoas.

Por outro lado, o segundo tema considerou  a importância da pré-candidatura a Governador, pelo PSOL, do ex-vereador, da Cidade de Recife, Ivan Moraes, em confronto com as duas candidaturas de Direita, ou seja, de João Campos e Raquel Lyra, bem como o pré-lançamento da vereadora Jô Cavalcanti, para o Senado. Diante da prioridade do PSOL em eleger uma bancada bem representativa de Esquerda no Congresso Nacional, o dirigente e militante partidário Jerônimo Galvão se constituirá numa possível candidatura a Deputado Federal.

Quanto ao terceiro e último ponto de Pauta, a qual diz respeito a “Organização do PSOL Local”, constatamos que o PSOL deve buscar interagir com os movimentos populares, além de aglutinar novos filiados, especialmente a juventude.

sábado, 8 de novembro de 2025

O massacre de Cláudio Castro

Mais de trinta anos após o Carandiru, a espetacularização do extermínio persiste não por ineficiência, mas como projeto de poder.

Por Paulo Sérgio Pinheiro (Professor e Ex-ministro dos Direitos Humanos e autor do livro “Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935 (Companhia das Letras)”



 







Imagem de drone mostra corpos levados a praça no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Décadas de experiência demonstram que o uso estratégico da inteligência é o caminho mais eficaz para enfrentar o tráfico de drogas e as milícias. Operações baseadas em informações precisas reduzem riscos para a população e para os agentes de segurança. Apesar desse consenso, o Brasil insiste em ações espetaculosas e militarizadas, incapazes de desarticular redes criminosas ou atingir os fluxos financeiros que as sustentam.

A recente operação no Rio de Janeiro é exemplo trágico dessa lógica. Com cerca de 2.500 agentes mobilizados, resultou em 117 óbitos —muitos com sinais de execução, tortura e queima de corpos, além da morte de 4 policiais. Essa ação altamente letal, lembrou o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, indica que já é tempo de “fazer cessar um sistema que perpetua racismo, discriminação e injustiça”.

Homem de meia-idade com barba e cabelo curto, vestido com terno escuro, camisa branca e gravata listrada, aparece em foco central com expressão séria, cercado por áreas desfocadas e escuras ao redor.

É intolerável que a governança democrática não consiga garantir que forças de segurança cumpram padrões internacionais de uso da força. Mais de 30 anos depois do Carandiru, onde cheguei com a Comissão Teotônio Vilela na manhã seguinte ao massacre de 111 mortes, também é intolerável que governos estaduais continuem a recorrer a extermínios como luta contra o crime. E mais aterrorizante ainda é constatar que parte da população brasileira vibre com a brutalidade e a desumanização dos moradores das comunidades vulneráveis perpetradas por sucessivos governos.

O governo do Rio agora tenta apagar as evidências de crimes inscritas nos corpos dos mortos. Não há nenhuma expectativa realista de que o governador Cláudio Castro (PL) promova laudos de necropsia independentes. Cabe ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal assumir a investigação de possíveis crimes: execuções sumárias, torturas, fraudes processuais e abuso de autoridade. O Ministério Público Federal já cobrou providências.

O ministro do STF Alexandre de Moraes —relator da ADPF 635 (arguição de descumprimento de preceito fundamental), que regula as operações policiais no Rio e que Castro desrespeitou— determinou que o governador preste informações apresentando um relatório circunstanciado da operação, a justificativa para o grau de força empregado e a identificação das forças envolvidas.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, cobrou das autoridades brasileiras pronta investigação, assim como relatores especiais de direitos humanos do órgão, reforçando a proteção aos familiares das vítimas. Organizações civis brasileiras, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, fizeram um apelo ao demandarem uma apuração independente e rigorosa.

Apesar desse clamor nacional e internacional, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, manteve um silêncio constrangedor diante dessas cobranças iniciais. No dia seguinte, contudo, ao lado de Castro anunciou a criação de um escritório emergencial para o combate ao crime organizado, unindo as forças federais e estaduais de segurança pública.

Embora a cooperação entre as esferas federativas seja, em geral, positiva, há preocupações sobre sua efetividade e possíveis riscos, especialmente se for comprovado que o governador autorizou ou incentivou a operação policial ilegal. Neste caso, ele poderá ser responsabilizado criminalmente.

O massacre no Rio deve ser compreendido dentro de um contexto político mais amplo, articulado por Castro e outros governadores de extrema direita. Após a condenação e prisão de seu líder máximo e de seus aliados, esses atores políticos buscam utilizar o discurso da guerra contra o tráfico de drogas para desestabilizar o Estado federal e melhorar suas perspectivas nas próximas eleições. Além disso, tentam alinhar-se à narrativa continental de combate ao narcotráfico, atualmente liderada pelos EUA.

Para enfrentar essa ofensiva da extrema direita, é fundamental que haja uma resposta firme das instituições democráticas: uma investigação federal rigorosa, transparente e independente sobre o massacre de Castro.

Esse passo é essencial para garantir a responsabilização dos envolvidos e reforçar o Estado de Direito. Ainda há tempo para que tal resposta seja dada.

*Paulo Sérgio Pinheiro é professor aposentado de ciência política na USP; ex-ministro dos Direitos Humanos; relator especial da ONU para a Síria e membro da Comissão Arns. Autor, entre outros livros, de Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935 (Companhia das Letras) [https://amzn.to/4le1Cnw]

**Publicado originalmente na Folha de São Paulo

terça-feira, 4 de novembro de 2025

O Caos como Política de Segurança

 


 

Nota Política do Comitê Regional do PCB RJ

A política de segurança no estado do Rio de Janeiro, do governo de Cláudio Castro (PL), segue a tradicional lógica do enfrentamento entre polícia e bandido, como ficou claro na chacina dos Complexos do Alemão e da Penha. Uma lógica que já demonstrou há décadas a sua falência, pois coloca a população em meio ao fogo cruzado sem conseguir trazer segurança.

E foi justamente o que ocorreu neste 28 de outubro de 2025, quando a segunda maior cidade do país, a capital carioca, acordou sob o signo do terror. Estava em andamento mais uma operação policial desastrosa contra organizações criminosas que controlam a maior parte do território da cidade e da política no estado. Vale lembrar que, dentre as organizações criminosas, não está apenas o tráfico, mas também as milícias, com profundo enraizamento nos aparatos do Estado. É no mínimo estranho que haja silêncio e omissão sobre o combate a essas organizações.

A operação mais letal das forças policiais do Rio de Janeiro foi responsável pela morte, segundo o próprio governo do estado, de 64 pessoas, das quais quatro eram agentes do estado. As demais pessoas, sem a devida identificação, foram tratadas como sendo bandidos.

Para nós comunistas, a promoção do terror em favelas e comunidades mostra que o estado entende como inimigo interno a própria população, ou seja, a classe trabalhadora.

O caos tomou conta do município do Rio e da Região Metropolitana. A população, sem qualquer orientação das autoridades e deseperada, tentou voltar para casa com segurança e, com a ausência de ônibus, o metrô e os trens da Central do Brasil superlotados se tornaram alternativas viáveis, mas de risco.

O crime organizado respondeu com arrastões e vias públicas fechadas, onde o estado não chega com políticas públicas, mas com represão e morte.

Cabe destacar, entretanto, que apesar de o governador Cláudio Castro (PL) ter sido reeleito no primeiro turno nas eleições de 2022 com a promessa de enfrentar o crime organizado, ele não se constituiu em solução, mas em parte do problema que a população vive hoje. Basta lembrar que em 2021 foi utilizada a mesma estratégia para aparentar uma preocupação em relação à segurança pública, quando se promoveu a chacina do Jacarezinho. Ou seja, quatro anos depois o governador se valeu, às vésperas de mais uma eleição, de mais uma chacina nas áreas pobres da cidade.

O caos que a cidade viveu neste dia 28 de outubro de 2025 faz parte, mais uma vez, do jogo eleitoreiro do governador e do seu grupo político de extrema direita. Essa suposta guerra é portanto uma grande farsa “pirotécnica” e espetacular. As armas do tráfico não são oriundas das favelas, mas sim desviadas dos aparatos policiais e forças militares. Assim como as drogas, que não são produzidas nesses espaços, mas sim trazidas de fora com o beneplácito de poderes corrompidos.

O confronto armado indiscriminado acaba servindo também para retroalimentar a lógica de disputa e partilha territorial do crime, privilegiando algumas das organizações criminosas (milícias) em suas expansões de influência, sob tutela de alguns políticos, enquanto espalha terror na população inocente. Trata-se de um jogo que coloca em risco de vida a população pobre das áreas periféricas e os próprios policiais que são deixados à própria sorte.

O PCB no Rio de Janeiro se coloca publicamente contra a política de segurança pública do governo de Cláudio Castro (PL), que vê a população favelada como inimiga interna.

Cláudio Castro e a extrema direita são parte do problema!

Fora Cláudio Castro, responsável pela maior chacina da história do Rio de Janeiro!

PCB RJ

domingo, 2 de novembro de 2025

Chico Alencar sobre massacre no Rio: chacina foi resultado de uma ação 'política e eleitoreira'

O deputado do PSol denuncia que a megaoperação no Complexo do Alemão e na Penha repete o modelo de “guerra às drogas” que nunca traz resultados


Chico Alencar e Cláudio Castro (Foto: Reprodução)


 





 



Por  Dayane Santos

247 - O deputado federal Chico Alencar (PSol-RJ) rechaçou a megaoperação policial no Rio de Janeiro, que contabiliza mais de 100 mortes, além de dezenas de feridos. Em entrevista, o parlamentar classificou a ação como “irresponsável, sem inteligência, sem planejamento e de viés político-eleitoreiro”, responsabilizando o governador Cláudio Castro (PL) pela tragédia.

 “Essa operação foi política e eleitoreira. Foi uma ação sem estratégia, sem diálogo com outras forças, e com resultados desastrosos. O governador está em baixa popularidade e tenta capitalizar o senso comum do ‘bandido bom é bandido morto’”, afirmou Chico Alencar em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247.

Segundo o deputado, a operação foi anunciada como uma “declaração de guerra” ao tráfico nas comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, regiões onde vivem mais de 200 mil pessoas. A ofensiva paralisou a cidade e provocou um rastro de medo e destruição.

“Cinco unidades de saúde foram fechadas, 28 escolas no Alemão e 17 na Penha ficaram sem aula, mais de cem linhas de ônibus tiveram itinerários alterados. O Rio vive um cenário de guerra, resultado direto da irresponsabilidade de quem deveria garantir segurança, não espalhar terror”, disse.

Alencar também contestou as declarações do secretário estadual de Segurança, Vitor Santos, que classificou a ação como “necessária e planejada”.

“Necessária, sim porque não se pode permitir que territórios fiquem sob controle de traficantes ou milícias, mas planejada, pensada, com inteligência? De jeito nenhum. Se fosse, não teria esse número absurdo de mortos”, criticou o deputado.

Para o parlamentar, o problema central da segurança pública no Rio de Janeiro é a ausência de políticas sociais e de inteligência. Ele lembrou que o governo federal enviou ao Congresso a PEC da Segurança Pública, que prevê um sistema nacional de integração entre forças policiais e políticas preventivas, mas que vem sendo barrada pela direita e pelo centrão.

“A direita não quer votar a PEC da Segurança. Diz que o governo federal vai tirar poder dos estados, mas ao mesmo tempo Cláudio Castro pede ajuda e culpa Brasília. É o cinismo e a hipocrisia típicos de uma política que vive de discurso e cadáveres”, declarou.

Chico Alencar relembrou também o fracasso de experiências passadas, como as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que começaram com uma proposta de proximidade e prevenção, mas se perderam pela falta de continuidade e corrupção dentro das próprias corporações.

“Sem ocupação social, o crime volta. Depois da megaoperação, tudo se reinstala como antes. Falta política pública de verdade — educação, cultura, saúde, emprego — e sobra bala. Isso não é política de segurança, é política de extermínio”, afirmou.

O deputado lamentou ainda o discurso de parte da sociedade que aplaude operações letais, reforçado por líderes da extrema direita e pela retórica bolsonarista.

“A população precisa perceber que essas operações só produzem dor e revolta. São jovens, negros e pobres sendo mortos. Enquanto essa lógica prevalecer, nada muda. É preciso enfrentar o senso comum e a estupidez dos governantes em nome da vida e da civilização.”