Estratégia similar à de Pablo Marçal distribui tokens em troca de divulgação eleitoral e fere a legislação
Conteúdo postado por: Guilherme Levorato
Publicado em 8 de outubro de 2026.
Flávio Bolsonaro. Crédito: Reprodução/Instagram/@flaviobolsonaro. Brasil 247/DALL-E
247 – Um site de venda
de criptomoedas lançou um esquema que distribui “tokens” digitais para usuários
que compartilharem a mensagem “B22” e conteúdos em vídeo que incentivam o voto
em Flávio Bolsonaro (PL), informa a Folha de São Paulo.
O site em questão
vem sendo amplamente divulgado em um perfil do Instagram que conta com 12,9
milhões de seguidores — a conta hyperskidsafrica, dedicada a arrecadar
recursos para construir moradias para crianças em Kampala, Uganda. Em um dos
vídeos veiculados, crianças ugandenses aparecem dançando com camisetas amarelas
estampadas com a marca “B22 token” e cantando “vota, vota e confirma, 22 é
Bolsonaro”. A publicação já ultrapassou a marca de 1,2 milhão de visualizações.
De acordo com a página oficial do projeto, uma parcela das vendas da
criptomoeda “B22” será destinada ao financiamento das ações sociais no país
africano.
No material
gravado, as crianças pedem apoio direto aos eleitores: “Por favor, confiem em
Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal”, declaram. E complementam: “O
propósito do novo token é ajudar o Brasil. Dê uma chance, vote diferente”.
Conforme a
plataforma de criptoativos, os participantes podem receber tokens — que
prometem retorno financeiro por meio de valorização no mercado — desde que
“compartilhem o projeto – faça uma publicação em rede social mostrando que você
participa da comunidade B22”.
Segundo a avaliação
do advogado eleitoral Hélio Silveira, que comandou a equipe jurídica da
campanha de Tabata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024, a manobra
adota o mesmo modus operandi dos campeonatos de cortes de vídeos
promovidos por Pablo Marçal. “Trata-se da mesma lógica e estrutura do que
Marçal fazia – oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a
campanha e o candidato”, avalia Silveira.
O especialista
ressalta ainda que a operação pode configurar doação empresarial proibida:
“potencialmente trata-se de uma doação de uma pessoa jurídica, a empresa de
criptomoedas, à campanha de Flávio Bolsonaro, ao usar sua estrutura e
incentivos financeiros para fazer propaganda do voto no 22, número do senador
na disputa à Presidência da República”.
Vale recordar que
Marçal teve sua inelegibilidade por oito anos confirmada em segunda instância
pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) em dezembro de 2025,
justamente por abuso de poder econômico na realização do concurso de cortes sob
a marca #prefeitomarçal. Na ocasião, a Justiça Eleitoral entendeu que a
concessão de recompensas financeiras para engajar a divulgação de propaganda
eleitoral na internet violou frontalmente a legislação vigente.
Procurada pela
reportagem da Folha de São Paulo, a assessoria da campanha de Flávio Bolsonaro
declarou que enviará manifestação oficial sobre o caso nesta quinta-feira (8).
Em sua defesa
institucional na página da internet, o movimento B22 alega ser “um movimento
que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua
casa em Kampala”. O texto da empresa afirma ainda que “O Brasil 22 Token
defende o voto 22 por acreditar nessa proposta para um Brasil melhor. Essa é a
posição do movimento, apresentada ao público geral”.
O portal faz a
ressalva de que a distribuição dos ativos digitais ocorreria de forma
“independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda
eleitoral” e argumenta que o projeto “não é oficial, não é endossado nem tem
vínculo com nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral, e não
é forma de doação eleitoral”.
Apesar das
alegações, as informações sobre a propriedade do domínio na rede permanecem sob
sigilo nos registros de domínio públicos. Nas redes sociais X e Instagram,
publicações do usuário Kevim Flores vêm alardeando o lançamento do ativo e
atrelando o token à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e à causa humanitária
na África, sem contudo assumir abertamente a titularidade do site.
Em publicações no
X, Flores faz uso ostensivo de imagens de urnas eletrônicas exibindo o número
22 associado à marca do B22 token, projetando lucros expressivos vinculados ao
pleito presidencial. “Acabaram as apostas no Brasil. Viciado tá como, com
dinheiro sobrando e louco pra ver 100x. Normal. Quem não gosta de uma
valorização absurda de um ativo? Até o @FlavioBolsonaro ser eleito no dia
25/08, teremos mais de 3.000% de valorização nesse meme histórico e legítimo”,
publicou o usuário.
Para Nina Santos,
pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia
Digital, a articulação expõe graves irregularidades: “é uma operação complexa
que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais
e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”, adverte.
A pesquisadora enfatiza o descumprimento das normas
eleitorais brasileiras: “Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer
campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido. Além disso,
essa operação, por mais que, supostamente, leve dinheiro para crianças
africanas, atrela isso a um aumento de visibilidade de materiais que estão
claramente pedindo votos a um dos candidatos. Ou seja, quanto mais o vídeo é
compartilhado e quanto mais a tal moeda (que em si já é propaganda política)
vende, mais dinheiro, supostamente as crianças ganham”, conclui.

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