O espelho partido do Brasil: a vitória do bolsonarismo escancara um eleitorado que prefere endossar a perversidade ao invés de defender seus próprios interesses, exigindo da esquerda o abandono da ingenuidade para disputar os ausentes.
Autor: Luis Felipe Miguel - Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).
Flávio Bolsonaro. Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil
Não existe
eufemismo possível para descrever o resultado de anteontem, isto é, 04.10.2026. Foi uma tragédia. A
extrema-direita saiu na frente na corrida presidencial e fez barba, cabelo e
bigode no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais.
O mais triste de
tudo é sermos confrontados com esta imagem, sem disfarces, de quem são os
nossos concidadãos. Afinal, nesta altura do campeonato, é improvável que ainda
exista um único brasileiro que não tenha noção de quem é Flávio Bolsonaro: um
despreparado. Um frouxo. Um mentiroso. Um corrupto. Um amigo de assassinos. Sob
este ponto de vista, o voto no 22 foi “consciente”. Não foi desavisado. E isto
é algo que precisamos encarar de frente.
Como sempre, depois
de uma derrota dessas, não falta quem venha dizer que não se pode culpar o
eleitorado, que a esquerda tem que aprender a respeitá-lo e pensar em seus
próprios erros. A “soberba da esquerda” é, em geral, apresentada como a causa.
Será mesmo?
Sim, há muitos
erros sobre os quais pensar. Vou falar deles depois. Mas cabe, em primeiro
lugar, entender o que estão dizendo os 56 milhões de votos no candidato do PL
no primeiro turno.
Não dá para explicar a vitória de Flávio Bolsonaro pela manipulação da
informação. Ela existe, é claro, mas não a ponto de apagar a imagem de quem é o
candidato. Não dá sequer para explicá-la só pela burrice das pessoas, que serão
as primeiras vítimas das políticas que ele eventualmente implementará, mas que
não aprenderam nem depois de já terem passado pelo governo do pai. Sim,
burrice: vamos chamar as coisas pelo nome.
Alguns argumentam
que o voto na extrema-direita tem suas razões. Por exemplo, que o sacerdote
pilantra que orienta as
escolhas políticas
reacionárias é também alguém que oferece consolo e apoio espiritual em algumas
circunstâncias. Ou que a violência urbana que atinge em primeiro lugar as
classes populares explica a sedução de propostas “duras” de segurança pública.
Mas isso apenas nos
diz que esse voto não é aleatório, que tem alguma motivação. Permanece o fato
de que ele expressa uma profunda incapacidade de relacionar as escolhas
políticas com suas consequências esperadas, de vinculá-las aos interesses
ligados às condições reais de vida.
Ter uma motivação
para o voto não significa que o voto é esclarecido, pelo simples fato de que
essa motivação pode ser… burra. Por exemplo: eu posso ter votado em Augusto
Cury porque acredito em autoajuda. Isso faz com que meu voto tenha uma razão de
ser. Nem por isso ele demonstra qualquer discernimento.
A apneia do sono está ligada a este
item doméstico (pare de usá-lo)Dormez
A ignorância
política das massas – e incluo aqui, igualmente, trabalhadores pobres e classes
médias – é um componente do sistema político vigente, ativamente produzido e
reproduzido por inúmeros aparelhos. Cabe ao campo popular trabalhar
permanentemente para combatê-la. A constatação da burrice dominante é,
portanto, uma acusação contra a esquerda, que não fez ou fez mal o seu
trabalho.
Mas, além disso, um
componente central do voto em Flávio Bolsonaro é o desinteresse pela sorte dos
outros, a ausência de sentimento de solidariedade, o desprezo pela vida alheia.
É o triunfo da antiga Lei de Gérson, de que o que importa é levar vantagem em
tudo. Se pudesse, cada um queria vender um pedaço do país, cobrar uma
rachadinha dos funcionários, ganhar um agrado do Daniel Vorcaro, participar de
uma orgia com prostitutas de luxo, arranjar um pistoleiro para liquidar os
desafetos.
De brinde, vem a
submissão das mulheres, a inferiorização dos negros, a pancada nos gays, nas
lésbicas e nos travestis. O bolsonarismo revela uma pulsão pela violência que
habita muitas pessoas. Racismo, misoginia, homofobia e desprezo pelos mais
pobres seriam atrativos tão poderosos que compensariam todas as perdas. Não tem
só burrice, tem perversidade. O que é muito pior.
É preciso
investigar como chegamos a essa decadência moral generalizada, que é própria da
metástase da sociedade capitalista. E reconhecer que o nosso campo tem
fracassado na disputa dos valores que devem organizar o mundo social. Ou, pior
do que fracassado: desistido da disputa.
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As mentalidades são
produzidas socialmente. Nós sabemos disso. Mas chega um ponto em que temos que
atribuir responsabilidade às pessoas por suas escolhas. Senão, perdoaremos
todos. Quem sabe dos dissabores sofridos por Jack, o Estripador? Os traumas de
Adolf? Os complexos de Jair?
Tem um samba de
Wilson Batista, que Paulinho da Viola canta, que fala de um filósofo popular e
termina com uma síntese de seu pensamento, de claros ecos rousseaunianos: “Se o
homem nasceu bom, e bom não se conservou / A culpa é da sociedade que o
transformou”.
Não sei se nascemos
realmente bons, mas com certeza somos frutos do ambiente. Só que, a partir de
certo momento, não tem jeito, cada um de nós assume seus B.O.s. Passou dos 18
anos, responde por seus atos – e a gente deixa a filosofia no seu canto.
Sendo assim,
investiguemos as causas, lutemos contra elas, mas também enfrentemos a verdade:
metade do eleitorado brasileiro é, se não perverso, seduzível pela
perversidade. Não vamos romantizar o povo. Embora essa romantização tenha uma
longa tradição na sensibilidade da esquerda, de Nicolau Maquiavel a
Jean-Jacques Rousseau e em diante, ela não é boa conselheira.
O reabilitamento dessas pessoas é uma tarefa de longo prazo. Muitas delas são irrecuperáveis e a questão sempre será como contê-las. No curtíssimo prazo, porém, o desafio é outro: como virar a eleição presidencial.
Há pouca esperança
de virar votos de bolsonaristas. Não há escândalo que resolva: rachadinha,
milícia, Daniel Vorcaro, orgia, nem Nossa Senhora dá conta. É preciso garimpar
o que for possível nos menos de 10 milhões de votos dos candidatos que não
chegaram ao segundo turno, mas sabemos que a colheita será magra. Afinal, mais
da metade desses votos foram para extremistas de direita: Ronaldo Caiado, Renan
Santos e Romeu Zema. O melhor resultado possível é que se transformem em voto
nulo.
A luta principal é
pelos eleitores que não foram votar (33,5 milhões) ou que votaram em branco ou
nulo (6 milhões). Esse pessoal é potencialmente mais sensível a temas como o
fim da escala seis por um, a proibição das bets, a manutenção do SUS ou a
conveniência de não ter um miliciano no Palácio do Planalto.
É difícil? Sim. É
impossível? Não. O mais difícil é superar o desânimo depois do resultado de
domingo. Um desânimo que não é só com a eleição. Não sabemos se haverá um
futuro para a humanidade – com Flávio Bolsonaro na presidência, com a política
de devastação ambiental que certamente implantará, fica ainda mais difícil. Mas
não sabemos, sobretudo, se a humanidade merece ter futuro.
Como sou otimista
inveterado, digo que devemos deixar esse desânimo para lá e retomar a campanha.
São 20 dias para superar uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos.
Um pouco mais de 100 mil votos por dia.
É difícil? Sim. É impossível? Não.
EM TEMPO: Convém considerar que a maioria da população brasileira, bem como do mundo inteiro, é de Direita, oscilando entre a Extrema Direita e a Centro Direita. O que ocorreu é que considerável parcela da Centro Direita, a qual sempre deu a vitória ao presidente Lula, desta vez preferiu se ausentar, anular o voto ou até mesmo votar num extremista de Direita. Portanto, a tarefa consiste em reconquistar o voto da Centro Direita. Sendo assim, é imprescindível maior inserção do vice Geraldo Alckmin. Ok, Moçada!

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