terça-feira, 11 de agosto de 2026

Trump faz nova ameaça imperialista às Américas um dia após China se juntar ao Brasil na OMC contra tarifaço

Avanço da China na América Latina desafia hegemonia dos EUA e expõe anacronismo da tentativa de Trump de ressuscitar a Doutrina Monroe

Por Aquiles Lins (Jornalista e colunista do Brasil 247).

Publicado em 11 de agosto de 2026

Trump ressuscita a Doutrina Monroe enquanto a aproximação entre Brasil e China desafia a histórica pretensão de hegemonia dos EUA sobre a América Latina.

 
Crédito: Brasil 247 com IA

O governo Donald Trump ressuscitou nesta terça-feira (11) a Doutrina Monroe e proclamou que a “dominância americana” sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”. A ameaça imperialista de Washington ocorre apenas um dia depois de a China pedir formalmente para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas adicionais de até 37,5% impostas pelos Estados Unidos.

Não dá ainda para cravar que a declaração estadunidense tenha sido uma resposta direta ao movimento chinês na OMC. Mas a sequência dos acontecimentos é politicamente reveladora. Brasil e China aparecem juntos na defesa das regras multilaterais contra medidas unilaterais de Washington justamente quando o governo Trump decide recuperar uma doutrina historicamente associada à hegemonia dos Estados Unidos sobre a América Latina e à tentativa de impedir que outras potências ampliem sua influência no continente.

A Doutrina Monroe foi formulada em 1823 sob o argumento de impedir novas intervenções europeias nas Américas, mas se transformou, ao longo da história, em justificativa ideológica para a construção da esfera de influência dos Estados Unidos na região. Intervenções militares, golpes, pressões econômicas e operações políticas mostraram durante décadas o significado concreto dessa concepção: Washington reivindicava para si uma posição privilegiada na definição dos rumos do continente.

Dois séculos depois, o governo Trump tenta recuperar essa doutrina em um mundo muito diferente. A principal potência externa que disputa influência econômica com os Estados Unidos na América Latina já não está na Europa, mas na Ásia. A China tornou-se a maior parceira comercial do Brasil, aprofundou relações com diversos países latino-americanos e passou a ocupar espaços econômicos, financeiros e tecnológicos antes amplamente dominados pelos norte-americanos.

É nesse contexto que ganha importância o pedido chinês para participar da disputa aberta pelo Brasil na OMC. Pequim alegou possuir “interesse comercial substancial” nas consultas e afirmou que as medidas de Washington também prejudicam seus produtos no mercado norte-americano.

O contraste com a mensagem divulgada no dia seguinte por Washington dificilmente poderia ser maior. Enquanto Brasília e Pequim procuram a OMC, o Departamento de Estado fala em “dominância americana” e recupera uma doutrina baseada na ideia de que o Hemisfério Ocidental constitui uma área estratégica especial dos Estados Unidos. O governo Trump reivindica uma supremacia regional que, segundo suas próprias palavras, não deverá ser questionada. Mas não apenas está sendo questionada, como suplantada.

Porque é justamente a possibilidade de maior autonomia dos países latino-americanos que torna anacrônica a recuperação da Doutrina Monroe. O Brasil não precisa escolher entre ser subordinado aos Estados Unidos ou à China. Uma política externa soberana pressupõe manter relações com diferentes polos de poder, ampliar mercados e alianças e preservar a capacidade de tomar decisões segundo os próprios interesses. Multipolaridade significa precisamente reduzir a dependência em relação a qualquer potência hegemônica.

A sequência das últimas 24 horas resume, portanto, uma disputa muito maior do que o tarifaço. De um lado, Brasil e China recorrem à OMC contra medidas unilaterais dos Estados Unidos. Do outro, Washington responde ao novo equilíbrio mundial ressuscitando uma doutrina do século 19 e proclamando que sua “dominância” sobre as Américas não poderá ser questionada. A América Latina, porém, não é propriedade de nenhuma potência. E o fato de o governo Trump sentir necessidade de reafirmar sua supremacia sobre o continente talvez seja justamente o maior sinal de que essa supremacia já não pode mais ser tratada como incontestável.


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