Avanço da China na América Latina desafia hegemonia dos EUA e expõe anacronismo da tentativa de Trump de ressuscitar a Doutrina Monroe
Por Aquiles Lins (Jornalista e colunista do Brasil 247).
Publicado em 11 de agosto de 2026
Trump ressuscita a Doutrina Monroe
enquanto a aproximação entre Brasil e China desafia a histórica pretensão de
hegemonia dos EUA sobre a América Latina.
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| Crédito: Brasil 247 com IA |
O governo Donald Trump ressuscitou nesta terça-feira (11) a Doutrina Monroe e proclamou que a “dominância americana” sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”. A ameaça imperialista de Washington ocorre apenas um dia depois de a China pedir formalmente para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas adicionais de até 37,5% impostas pelos Estados Unidos.
Não dá ainda para
cravar que a declaração estadunidense tenha sido uma resposta direta ao
movimento chinês na OMC. Mas a sequência dos acontecimentos é politicamente
reveladora. Brasil e China aparecem juntos na defesa das regras multilaterais
contra medidas unilaterais de Washington justamente quando o governo Trump
decide recuperar uma doutrina historicamente associada à hegemonia dos Estados
Unidos sobre a América Latina e à tentativa de impedir que outras potências
ampliem sua influência no continente.
A Doutrina Monroe
foi formulada em 1823 sob o argumento de impedir novas intervenções europeias
nas Américas, mas se transformou, ao longo da história, em justificativa
ideológica para a construção da esfera de influência dos Estados Unidos na
região. Intervenções militares, golpes, pressões econômicas e operações
políticas mostraram durante décadas o significado concreto dessa concepção:
Washington reivindicava para si uma posição privilegiada na definição dos rumos
do continente.
Dois séculos
depois, o governo Trump tenta recuperar essa doutrina em um mundo muito
diferente. A principal potência externa que disputa influência econômica com os
Estados Unidos na América Latina já não está na Europa, mas na Ásia. A China
tornou-se a maior parceira comercial do Brasil, aprofundou relações com
diversos países latino-americanos e passou a ocupar espaços econômicos,
financeiros e tecnológicos antes amplamente dominados pelos norte-americanos.
É nesse contexto
que ganha importância o pedido chinês para participar da disputa aberta pelo
Brasil na OMC. Pequim alegou possuir “interesse comercial substancial” nas
consultas e afirmou que as medidas de Washington também prejudicam seus
produtos no mercado norte-americano.
O contraste com a
mensagem divulgada no dia seguinte por Washington dificilmente poderia ser
maior. Enquanto Brasília e Pequim procuram a OMC, o Departamento de Estado fala
em “dominância americana” e recupera uma doutrina baseada na ideia de que o
Hemisfério Ocidental constitui uma área estratégica especial dos Estados
Unidos. O governo Trump reivindica uma supremacia regional que, segundo suas
próprias palavras, não deverá ser questionada. Mas não apenas está sendo
questionada, como suplantada.
Porque é justamente
a possibilidade de maior autonomia dos países latino-americanos que torna
anacrônica a recuperação da Doutrina Monroe. O Brasil não precisa escolher
entre ser subordinado aos Estados Unidos ou à China. Uma política externa
soberana pressupõe manter relações com diferentes polos de poder, ampliar
mercados e alianças e preservar a capacidade de tomar decisões segundo os
próprios interesses. Multipolaridade significa precisamente reduzir a
dependência em relação a qualquer potência hegemônica.
A sequência das últimas 24 horas resume, portanto,
uma disputa muito maior do que o tarifaço. De um lado, Brasil e China recorrem
à OMC contra medidas unilaterais dos Estados Unidos. Do outro, Washington
responde ao novo equilíbrio mundial ressuscitando uma doutrina do século 19 e
proclamando que sua “dominância” sobre as Américas não poderá ser questionada.
A América Latina, porém, não é propriedade de nenhuma potência. E o fato de o
governo Trump sentir necessidade de reafirmar sua supremacia sobre o continente
talvez seja justamente o maior sinal de que essa supremacia já não pode mais
ser tratada como incontestável.

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