terça-feira, 21 de julho de 2026

Jeffrey Sachs acusa complexo militar dos EUA de alimentar guerras perpétuas

Economista afirma que complexo militar dos EUA influencia presidentes, amplia a dívida pública e sustenta conflitos em busca de hegemonia global

Conteúdo postado por: Luis Mauro Filho

Publicado em 21 de julho de 2026



Jeffrey Sachs. Crédito: Reprodução Youtube

247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que o complexo militar dos EUA exerce influência decisiva sobre a política externa do país, amplia a dívida pública e sustenta conflitos em busca de hegemonia global, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.

As declarações foram dadas na segunda-feira (20) ao programa Judging Freedom, apresentado pelo ex-juiz Andrew Napolitano no YouTube. Na entrevista, Sachs relacionou as guerras conduzidas por Washington nas últimas três décadas aos interesses das indústrias de defesa, de Wall Street, do setor petrolífero e das grandes empresas de tecnologia.

Segundo o professor da Universidade Columbia, os presidentes americanos possuem menos poder sobre a política externa do que sugere o sistema institucional do país. Ele argumentou que agências de inteligência e grupos econômicos operam com baixa transparência, enquanto a população tem pouca capacidade de influenciar decisões militares. “Nossos presidentes realmente não determinam a política externa. Nossa opinião pública, aquilo em que você, eu e o povo americano acreditamos, tem pouquíssima influência”, declarou.

Sachs disse que a sucessão de governos não alterou substancialmente a estratégia internacional adotada pelos Estados Unidos. Em sua avaliação, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Joe Biden e Donald Trump mantiveram uma política de intervenções voltada à preservação da primazia americana.

“Trump venceu uma eleição com base nisso, mas nada mudou. Na verdade, ele apenas iniciou mais guerras”, afirmou. “Os presidentes, em grande medida, fazem parte dessa máquina. Eles realmente não mudam muita coisa.”

Ucrânia como peça da estratégia americana

Para explicar a continuidade da política externa de Washington, Sachs citou o livro O grande tabuleiro de xadrez, publicado em 1997 pelo cientista político Zbigniew Brzezinski, que foi conselheiro de Segurança Nacional do governo Jimmy Carter.

De acordo com Sachs, a obra apresentou a Eurásia como o principal espaço da disputa pela supremacia mundial e classificou determinados países como “pivôs geopolíticos”: territórios relevantes não necessariamente por seu poder próprio, mas pela capacidade de afetar adversários dos Estados Unidos.

“A ideia é que o mundo é um jogo. É como um videogame. Você bombardeia aqui, ataca ali, envia seus drones para outro lugar. Nenhum desses líderes está em risco”, criticou.

Na interpretação do economista, a Ucrânia ocupava posição central nesse projeto porque sua aproximação com a Organização do Tratado do Atlântico Norte poderia limitar a projeção regional da Rússia.

“Se controlarmos a Ucrânia, a Rússia deixa de ser uma grande potência porque fica bloqueada em seu acesso ao Mediterrâneo Oriental. A Rússia não consegue projetar seu poder. Portanto, a Ucrânia é um Estado-pivô geopolítico”, disse Sachs ao resumir a lógica atribuída a Brzezinski.

O professor sustentou que esse pensamento levou Washington a apoiar a expansão da aliança militar em direção às fronteiras russas. Sachs também acusou os Estados Unidos de respaldarem a mudança de governo ocorrida na Ucrânia em 22 de fevereiro de 2014, após os protestos que resultaram na saída do então presidente Viktor Yanukovych.

Ao mencionar o antigo governante ucraniano, Sachs reproduziu sua defesa da neutralidade do país: “Deveríamos ser neutros. Isso é muito perigoso. Vejam onde estamos geograficamente. Estamos ao lado da Rússia, entre a Rússia e a Europa. Temos os Estados Unidos interferindo. Só queremos ser neutros.”

A versão de Sachs sobre os acontecimentos de 2014 é contestada por governos ocidentais, que rejeitam a caracterização da queda de Yanukovych como um golpe patrocinado por Washington. Na entrevista, porém, o economista apresentou o episódio como parte de uma estratégia americana para incorporar a Ucrânia à esfera de influência dos Estados Unidos.

Pressão contra Rússia, China e Irã

Sachs afirmou que a mesma doutrina orientou políticas de pressão contra Rússia, China e Irã. Segundo ele, Washington acreditava que sua superioridade econômica, tecnológica e militar impediria esses países de resistirem ou de formarem uma frente conjunta.

“Brzezinski estava errado em absolutamente tudo o que escreveu”, declarou. “A Rússia resistiu, e resistiu a ponto de haver uma guerra. O mesmo ocorreu com o Irã. Ele não simplesmente cede em um dia porque os Estados Unidos o bombardeiam e matam sua liderança. E a China não entrou em colapso nem sucumbiu às guerras comerciais.”

O economista disse que a estratégia não alcançou os resultados pretendidos e, ao mesmo tempo, aproximou as três potências. Para ele, a tentativa de preservar uma ordem internacional unipolar acabou multiplicando adversários e elevando o risco de confrontos de maior escala.

Sachs também criticou o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, Mark Rutte, ao sustentar que a aliança passou a funcionar como instrumento para projetar o poder dos Estados Unidos além de suas fronteiras.

Dívida, tecnologia e risco de crise financeira

Outro eixo da entrevista foi o custo econômico das operações militares. Sachs afirmou que os governos americanos evitam financiar diretamente as guerras por meio de novos impostos porque a medida enfrentaria resistência popular. Como consequência, segundo ele, as despesas são incorporadas à dívida pública.

“Tudo isso será pago pelas gerações que ainda nem nasceram, porque é dinheiro emprestado”, afirmou Napolitano. Sachs concordou e acrescentou que o endividamento se acumula ao mesmo tempo que as grandes empresas de tecnologia atingem avaliações excessivas no mercado acionário.

O economista relacionou a valorização dessas companhias aos contratos firmados com o Pentágono, sobretudo nas áreas de inteligência artificial, drones e sistemas utilizados em operações militares na Ucrânia e em Gaza.

“Essas grandes empresas de tecnologia, todas elas alimentadas pelo cocho do Pentágono, entre outras coisas, estão absurdamente superavaliadas”, disse.

Na avaliação de Sachs, a combinação entre dívida elevada, guerras sem perspectiva de vitória e valorização excessiva de ativos prepara o terreno para uma crise futura.

“O que estamos preparando é uma crise financeira fenomenal no futuro. Não sei quando. Ninguém pode prever essas coisas, mas estamos excessivamente expostos em todas essas guerras que não podemos vencer”, afirmou.

Sachs chama Trump de expressão de um sistema corrompido

O economista fez críticas diretas a Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Segundo Sachs, embora Trump tenha explorado eleitoralmente a insatisfação com as intervenções externas, seu governo continuou submetido aos mesmos interesses políticos e empresariais.

“Trump obviamente não é uma pessoa com qualquer capacidade. Ele é, como eu digo, a canalização perfeita da ganância e da corrupção do complexo militar-industrial”, declarou.

Para Sachs, o presidente americano é pressionado por bilionários e grupos econômicos que financiam sua atuação política. “Ele adora dominar, mas não domina nada. Ele simplesmente acompanha e trava as guerras dos pivôs geopolíticos colocadas em movimento décadas atrás, e não sabe como interromper nada disso.”

Sachs afirmou que os benefícios econômicos dessa política ficam concentrados em grandes corporações e investidores. “O objetivo final é o enriquecimento de Wall Street, o enriquecimento das grandes petrolíferas, o enriquecimento do Vale do Silício e o enriquecimento da nossa classe de bilionários.”

Críticas a Netanyahu e ao projeto da “Grande Israel”

Na parte final da entrevista, Sachs avaliou que o projeto da chamada “Grande Israel” está perdendo sustentação política porque depende do apoio diplomático, financeiro e militar dos Estados Unidos.

O economista fez duras críticas ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e disse acreditar que sua trajetória política se aproxima do fim. Ressalvou, contudo, que não identifica no atual cenário eleitoral de Israel uma alternativa disposta a mudar profundamente a política em relação aos palestinos.

“Netanyahu, de uma forma ou de outra, provavelmente está chegando ao fim. Ele é um dos grandes desastres da política dos últimos 30 anos”, afirmou.

Ao falar sobre uma eventual sucessão, acrescentou: “Não ouço nada na política israelense que diga: ‘Ei, não deveríamos cometer genocídio. Ei, existem 8 milhões de palestinos. Deveríamos viver juntos em paz com eles. Ei, talvez não seja correto assassinar o líder do Irã’.”

Sachs argumentou que Israel não poderia sustentar suas ações militares sem o respaldo americano e afirmou que esse apoio vem perdendo força entre diferentes parcelas da sociedade dos Estados Unidos, especialmente entre os jovens.

“Israel depende inteiramente dos Estados Unidos. Inteiramente. Israel não pode fazer isso nem por um dia sozinho”, declarou. “Agora, o público americano está cansado do que Israel está fazendo. Isso inclui judeus e não judeus. É algo generalizado, especialmente entre os jovens americanos.”

Alerta sobre uma escalada nuclear

Sachs encerrou sua análise com um alerta sobre a possibilidade de os conflitos atuais escaparem ao controle. Para ele, a continuidade de guerras não declaradas, combinada à ausência de transparência e de mecanismos de responsabilização, aumenta o risco de um confronto envolvendo armas nucleares.

“Em um mundo de armas nucleares, é sempre possível que essa imbecilidade termine em algo muito mais catastrófico e horrível do que realmente conseguimos imaginar em nossas conversas e em nossa vida normal”, disse.

O economista defendeu que os conflitos poderiam ser tratados por meio da diplomacia, mas acusou Washington de priorizar a dominação internacional. “Washington não quer paz. Quer uma dominação que não pode ter. Mas poderia ter paz, e o povo americano poderia ter segurança.”

Na avaliação de Sachs, a insatisfação popular nos Estados Unidos e na Europa torna a atual política insustentável. “Não sei como, quando ou quem virá para mudar isso, mas não é sustentável. A bolha vai estourar. Espero que não seja por meio de uma catástrofe, mas com a decência e a compreensão prevalecendo finalmente sobre este sistema político corrompido e interrompendo essas guerras não declaradas.”

 

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