Como fundos de investimento, arenas multiuso e megaeventos articulam a financeirização global e a extração rentista de recursos locais
Engenheiro e professor titular
"sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ)
Publicado em 24 de julho de 2026.
Jogadores entram em campo para a
final da Copa do Mundo. Crédito: Reuters
A matéria do Valor
“Copa fortalece futebol como um dos grandes negócios do planeta” (19 jul 2026)
[1], do jornalista Humberto Saccomandi, remete a uma questão que tratei em
pesquisa sobre a financeirização e o papel dos fundos financeiros no mundo
contemporâneo.
Em 2019, quando
lancei o livro “A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e
mobilidade no capitalismo contemporâneo” [2], eu chamei a atenção para o papel
do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia
financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
Como mostra o
infográfico (abaixo), há um movimento horizontal transsetorial lubrificado pelo
instrumento dos fundos que já garantia uma hipermobilidade ao capital extraído
na base da pirâmide destes diferentes setores (petróleo, negócios imobiliários,
eventos de futebol, outros esportes e mega shows).
O fato que
despertou e deu clareza para a interpretação desse processo se deu a partir do
caso da transferência de Neymar (em agosto de 2017) para o PSG por cerca de R$
800 milhões. O dono do PSG era um fundo árabe, subsidiária do fundo soberano de
Abu Dhabi. O fundo também controlava o canal de TV francês que transmitia as
partidas e exercia algum controle sobre o campeonato.
A extração dessa
grana do futebol de diferentes territórios (nações) dava a mobilidade vertical ao
capital que se mistura à extração do capital dos outros setores. As gestoras
dos fundos lubrificam esse capital acumulado no andar superior das “altas
finanças”, como se referia Giovanni Arrighi. Um esquema colossal que junta a
FIFA, COI, donas de marcas de espetáculos que ganharam tração, aos estados das
nações centrais e também das periféricas.
Para movimentar e
controlar tudo isso, a lógica da financeirização é essencial. Daí surgem as
SAFs e outros esquemas que envolvem os clubes, as confederações e agentes
nacionais/locais.
Trata-se de um
circuito transsetorial lubrificado pelas finanças em que o capital imobiliário
que envolve construções e a demanda das conhecidas “Condições Gerais de
Produção” em que os Estados entram bancando e os investidores chamam de
“legado” para as populações locais, sem perceber o que é extraído.
Observem que,
atualmente, não se fala mais em estádios, mas sim em “arenas multiuso” que
aproveitam as infraestruturas para os mega shows que também agradam às
plataformas de hospedagem tipo Airbnb, que também extraem frações dessas rendas
locais. São movimentos que juntam capitalização e valorização, mas, sobretudo,
extração de capital local.
Há muitas outras
questões interessantes a serem observadas no entorno desses negócios no capitalismo
contemporâneo. Uma delas, que vale a pena destacar, é a incrível história de a
FIFA também ganhar percentuais nas seguidas vendas de ingressos dos jogos que
são revendidos em sua plataforma e com o seu aval. É como se a plataforma da
entidade conseguisse também extrair uma fração da renda obtida pelos cambistas,
sem nenhum risco.
Para fechar, cito
essa outra ideia mais recente da FIFA de realizar o evento da Copa do Mundo em
dois ou três países. Em 2026, foi nos EUA, México e Canadá; e a Copa de 2030
está prevista para ser na Espanha, Portugal e Marrocos. Essa é também uma forma
de estimular uma disputa entre esses países, extraindo mais das gestões
nacionais para os seus interesses, além de ampliar as possibilidades do público
envolvido.
Os fatos citados
trazem evidências sobre como a hegemonia financeira se ampliou, exercendo um
controle ainda maior sobre os negócios globais com extração de rendas
nacionais, ainda maior concentração e acumulação de capital, exercida por
pequenos grupos rentistas, normalmente ligados às gestoras dos fundos
financeiros com controle dos ativos num processo chamado de assetização.
Referências:
[1] Matéria do
Valor online em 19 jul 2026. SACCOMANDI, Humberto: Copa fortalece futebol como
um dos grandes negócios do planeta. Disponível em: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/07/19/copa-fortalece-futebol-como-um-dos-grandes-negocios-do-planeta.ghtml
[2] PESSANHA, R. M. A ‘indústria’ dos
fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo
contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.


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