sexta-feira, 24 de abril de 2026

Muito cuidado com as pesquisas

·         24/04/2026

  • Texto extraído do Blog do Magno Martins
  • - Edição de Camila Emerenciano

  

 

 

Por Maurício Rands*

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção.

Alguns não se importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que, geralmente, é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha apresentou dados em descompasso com os de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos.

Especialistas apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional estabelecida, cometem lapsos metodológicos, sobretudo quando a eleição ainda está distante. À medida que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os ajustes na metodologia e na amostra.

No caso da Datafolha, em alguns estados, ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E, no início, concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença em relação às demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos, assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto.

Como lembrou Renato Meirelles, em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para Presidente quando, inicialmente, indagados sem o estímulo do disco com as alternativas.

Isso significa 96 milhões de pessoas que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos.

Outro fator que recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43% dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões de pessoas que declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar.

Acrescente-se a frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na última pesquisa Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira de 12%. Mas, na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28% a 26%).

Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição.

No Brasil, o índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro”, embora erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos.

Foi o caso de Jair Bolsonaro, que, em 2022, tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de “ótimo/bom” oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda quando a rejeição individual (o “não voto de jeito nenhum”) for maior que 30%, mesmo com o governo bem avaliado.

Nenhuma dessas exceções se aplica à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as ações do seu governo forem ainda mais conhecidas.

No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível.

*Advogado, professor de Direito Constitucional e PhD pela Universidade de Oxford

EM TEMPO: O TSE deve baixar uma Resolução exigindo que os institutos de pesquisa realizem a devida Prestação de Contas, mensalmente, assim como é exigido dos candidatos. Afinal, que "bondade" é essa de tanto financiamento das pesquisas, as quais não são baratas. Ok, Moçada!

 

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