quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Amorim diz que revogação de vistos americanos por causa do Mais Médicos é provocação de Trump para Brasil reagir

 

Para principal conselheiro de Lula para assuntos internacionais, esse tipo de atitude é uma 'irracionalidade'

Por Eliane Oliveira

 — Brasília

14/08/2025



Celso Amorim, assessor especial de Lula — Foto: Cristiano Mariz







Principal conselheiro do presidente Lula para assuntos internacionais, Celso Amorim avalia que a revogação de vistos americanos de funcionários do governo brasileiro anunciada nessa quarta-feira é uma tentativa de provocar uma reação no Brasil para justificar “ações mais absurdas”.

É a total irracionalidade. Ou, pior, uma provocação à espera de uma reação que sirva de pretextos a ações mais absurdas. Com que objetivo, sinceramente, não sei — afirmou Amorim ao GLOBO.

Em mais uma escalada da crise entre Brasil e Estados Unidos, o Departamento de Estado americano anunciou a revogação de vistos de dois brasileiros que participaram do programa Mais Médicos, programa criado em 2013 para contratar profissionais estrangeiros da área de saúde na rede pública. A medida foi justificada pela necessidade de responsabilização daqueles que permitem o esquema de "exportação de trabalho forçado do regime cubano".

Os brasileiros punidos: são Mozart Sales, homem de confiança do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e Alberto Kleiman, coordenador-Geral para a COP 30, conferência mundial do clima que acontecerá em Belém (PA) no próximo mês de novembro.

A declaração de Celso Amorim reflete uma impressão geral entre integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: os ataques da Casa Branca ao Judiciário brasileiro — e, desde ontem, a servidores públicos federais — têm como objetivo provocar reações em um tom maior do Brasil para justificar sanções mais duras.

Um exemplo seria a expulsão do principal representante dos EUA em Brasília, o encarregado de negócios Gabriel Escobar. Ou, para demonstrar descontentamento, chamar de volta ao Brasil a embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.

Mas não há qualquer decisão a esse respeito e a tendência é continuar buscando uma negociação. Nas palavras de um importante interlocutor, Washington "estica corda".

Gabriel Escobar é o único canal de interlocução entre autoridades brasileiras e americanas. Desde o início da crise, foi chamado quatro vezes pelo Itamaraty, para ouvir manifestações de descontentamento do governo do Brasil.

De acordo com interlocutores envolvidos no assunto, o diplomata americano será chamado sempre que for preciso, embora seja um canal pouco útil. A avaliação é que Escobar não tem entrada alguma com a atual administração e está no posto como "boneco de ventríloquo".

A Embaixada dos EUA está sem titular desde janeiro deste ano, quando o presidente Donald Trump, tomou posse. O posto tinha como embaixadora a empresária e ativista democrata Elizabeth Bagley.

Na última sexta-feira, Escobar foi convocado pelo Ministério das Relações Exteriores. Ouviu queixas do governo brasileiro em relação aos novos ataques da embaixada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, nas redes sociais.

"O ministro Moraes é o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores. Suas flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Trump. Os aliados de Moraes no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes. Estamos monitorando a situação de perto", dizia a mensagem da embaixada.

Na véspera, Gabriel Escobar se reunira com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Os detalhes da conversa não foram divulgados.

A embaixada voltou à tona no sábado passado. Publicou uma mensagem semelhante a um texto divulgado horas antes pelo número dois do Departamento de Estado americano, Christopher Landau, afirmando que Moraes teria "usurpado o poder" do STF.

Desta vez, não houve convocação. O governo brasileiro manifestou à embaixada americana seu "absoluto rechaço às reiteradas ingerências dos EUA em assuntos internos do Brasil. E destacou que a democracia sofreu uma tentativa de golpe de Estado e não se curvará a pressões, conforme relatos de pessoas a par do assunto.

Desde que, no início do mês passado, anunciou uma sobretaxa de 40%, somada aos 10% que já haviam sido aplicados anteriormente, Donald Trump deixou claro que quer proteger o ex-presidente Jair Bolsonaro no processo que corre contra ele no STF. O governo brasileiro descarta essa hipótese e insiste em uma negociação comercial.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Brasil perdeu área do tamanho da Bolívia de vegetação nativa em 40 anos

Mais de 80% da área desmatada no país nas últimas quatro décadas eram de florestas maduras, aponta MapBiomas

13 de agosto de 2025

Área de floresta desmatada (Foto: Arquivo/Agência Brasil)



 







Por Leonardo Sobreira

Brasil de Fato - Entre 1985 e 2024, o Brasil perdeu 111,7 milhões de hectares de vegetação nativa. Trata-se de uma área maior que a Bolívia e equivalente a 13% do território nacional. Mais de 80% dessa supressão ocorreu sobre florestas primárias, segundo a Coleção 10 de mapas de cobertura e uso da terra divulgada pelo MapBiomas nesta terça-feira (13), em Brasília.

No mesmo período, a proporção de municípios com predominância da agropecuária sobre o território subiu de 47% para 59%. A nova série histórica também mostra que a expansão agrícola e de pastagens foi o principal vetor de transformação da paisagem brasileira nas últimas quatro décadas.

A formação florestal foi o tipo de cobertura nativa que mais perdeu área, com redução de 62,8 milhões de hectares (-15%), extensão ligeiramente maior que o território da Ucrânia. Em seguida vem a formação savânica, que encolheu 37,4 milhões de hectares (-25%) – área superior à da Alemanha.

“Até 1985, ao longo de quase cinco séculos com diferentes ciclos da expansão da fronteira agrícola, o Brasil converteu 60% de toda área hoje ocupada pela agropecuária, mineração, cidades, infraestrutura e outras áreas antrópicas. Já os 40% restantes dessa conversão ocorreram em apenas quatro décadas, de 1985 a 2024”, afirmou Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

Amazônia perdeu 52,1 milhões de hectares de áreas naturais nos últimos 40 anos (-13%), sendo que três em cada cinco hectares agrícolas surgiram nos últimos 20 anos. No Cerrado, a redução foi de 40,5 milhões de hectares (-28%); na Caatinga, 9,2 milhões (-15%); e na Mata Atlântica, 4,4 milhões (-11%). Os estados com menor proporção de vegetação natural ficam total ou parcialmente na Mata Atlântica: São Paulo (22%), Alagoas (22%) e Sergipe (23%).

“A cobertura florestal da Mata Atlântica está praticamente estável nas duas últimas décadas, mas enquanto observamos o aumento das florestas secundárias em regeneração, ainda persiste o desmatamento das florestas maduras, mais ricas em biodiversidade e em estoque de carbono”, afirmou Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas.

O levantamento, produzido por uma rede colaborativa de pesquisadores e organizações, mapeou 30 classes de uso e cobertura da terra. A nova edição inclui, pela primeira vez, a identificação de usinas fotovoltaicas, cuja área total no país saltou de 822 hectares em 2016 para 35,3 mil hectares em 2024 – quase dois terços delas na Caatinga.

O mapeamento das usinas fotovoltaicas mostra que Minas Gerais concentra um terço da área instalada no país. Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte, junto com Minas, somam 74% da área total identificada em 2024.

Entre 1985 e 2024, a área ocupada com pastagens cresceu 62,7 milhões de hectares, enquanto a agricultura avançou 44 milhões de hectares. A silvicultura também registrou expansão expressiva, com aumento de 7,4 milhões de hectares – mais da metade deles no bioma Mata Atlântica.

Desmatamento teve pico entre 1995 e 2004

O período entre 1985 e 1994 foi marcado pela expansão de pastagens e aumento da área urbanizada, com 36,5 milhões de hectares convertidos para uso antrópico. Na década seguinte, entre 1995 e 2004, o avanço foi ainda mais intenso: 44,8 milhões de hectares de florestas foram transformados em áreas agropecuárias, principalmente pastagens e lavouras.

“O auge dessa transformação foi entre 1995 e 2004, quando o desmatamento atingiu os maiores picos. Mas entre 2005 e 2014, registrou-se a menor perda líquida de florestas desde 1985. Essa tendência se inverteu nessa última década, que foi marcada por degradação, impactos climáticos e avanço agrícola”, avaliou Julia Shimbo, coordenadora científica do MapBiomas e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A fase de 2005 a 2014 foi marcada também por mudanças no uso de pastagens. “Nesta década, as novas áreas de pastagem sobre áreas naturais recém-desmatadas diminuíram, ao mesmo tempo em que a conversão de pastagens já estabelecidas para o uso agrícola ou para a regeneração de áreas naturais aumentou”, afirmou Laerte Ferreira, coordenador do mapeamento de pastagens no MapBiomas. 

Pampa devastado e Brasil mais seco

Entre 1985 e 2024, o Brasil perdeu 10 milhões de hectares de áreas úmidas, que passaram de 84 milhões (quase 10% do território) para 74 milhões de hectares (8,8%). Todos os biomas registraram redução na superfície de água, exceto a Mata Atlântica, onde a criação de reservatórios e hidrelétricas expandiu o espelho d’água a partir dos anos 2000.

As quedas mais drásticas ocorreram no Pantanal, que apresentou, em 2024, 73% menos superfície de água que a média histórica. No mesmo bioma, a perda total de áreas naturais foi de 1,7 milhão de hectares (-12%), e a cobertura de água caiu de 24% para apenas 3% da área do território.

O Pampa registrou a maior perda proporcional de vegetação nativa nos últimos 40 anos (-30%, ou 3,8 milhões de hectares), com 1,3 milhão de hectares suprimidos apenas na última década. “Ainda nesta década, o desmatamento em vegetação secundária superou o de vegetação primária na Mata Atlântica e no Pampa. Por outro lado, é preocupante o fato de que justamente nesses dois biomas, que são os mais antropizados, as perdas de vegetação nativa não florestal tenham sido as mais altas nessa última década”, destacou Eduardo Vélez, integrante da equipe do MapBiomas no Pampa.

 

sábado, 9 de agosto de 2025

Lula e Putin discutem paz na Ucrânia e fortalecem cooperação Brasil-Rússia

Presidente reiterou que o Brasil mantém posição histórica de apoio ao diálogo e à busca por uma solução pacífica para o conflito

09 de agosto de 2025



Presidente Lula e Vladimir Putin (Foto: Ricardo Stuckert/PR | Sputnik/Alexander Kazakov/Pool via REUTERS)



Redação Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou neste sábado (9) por telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em diálogo que durou cerca de 40 minutos. Segundo nota oficial do governo brasileiro, Putin compartilhou detalhes de suas negociações em curso com os Estados Unidos e sobre os mais recentes esforços para alcançar a paz entre Rússia e Ucrânia. O líder russo agradeceu o empenho e o interesse do Brasil no tema.

Lula reiterou que o Brasil mantém posição histórica de apoio ao diálogo e à busca por uma solução pacífica para o conflito, colocando-se à disposição para colaborar com o que for necessário, inclusive no âmbito do Grupo de Amigos da Paz, iniciativa lançada conjuntamente por Brasil e China.

Cooperação internacional e agenda do BRICS

Durante a ligação, os dois presidentes também discutiram o cenário político e econômico internacional e reforçaram a importância da cooperação no âmbito do BRICS. Putin elogiou o Brasil pelos resultados alcançados na Cúpula do grupo, realizada no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de julho.

No campo bilateral, Lula e Putin reafirmaram a intenção de realizar ainda este ano a próxima edição da Comissão de Alto Nível de Cooperação Brasil-Rússia, instância responsável por aprofundar parcerias estratégicas entre os dois países.

A conversa reforça a diplomacia brasileira como mediadora e defensora do diálogo em conflitos internacionais, ao mesmo tempo em que fortalece os laços entre Brasília e Moscou em áreas políticas, econômicas e multilaterais.

Íntegra da nota da Secom

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu neste sábado, 9 de agosto, telefonema do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Na ligação, que durou cerca de 40 minutos, o presidente Putin compartilhou informações a respeito de suas discussões em curso com os Estados Unidos e os recentes esforços pela paz entre Rússia e Ucrânia. 

O presidente Putin agradeceu o empenho e interesse do Brasil nesse tema. O presidente Lula enfatizou que o Brasil sempre apoiou o diálogo e a busca de uma solução pacífica e reafirmou que o seu governo está à disposição para contribuir com o que for necessário, inclusive no âmbito do Grupo de Amigos da Paz, lançado por iniciativa de Brasil e China.Os presidentes também discutiram o atual cenário político e econômico internacional. Falaram sobre a cooperação entre ambos os países no âmbito do BRICS. 

O presidente Putin parabenizou o Brasil pelos resultados da Cúpula do BRICS realizada nos dias 6 e 7 de julho no Rio de Janeiro. Na esfera bilateral, reforçaram a intenção de organizar a próxima edição da Comissão de Alto Nível de Cooperação Brasil-Rússia ainda este ano.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Fepal: ‘o que está em curso em Gaza é uma fase de administrar a fome'

 

Segundo Ualid Rabah, 'a totalidade do procedimento adotado no território palestino foi de destruição integral do território para torná-lo inabitável'

08 de agosto de 2025

Faixa de Gaza e Ualid Rabah (Foto: Reuters | Divulgação)



 





Por  Leonardo Lucena

Adele Robichez, Aline Macedo e Kaique Santos, Brasil de Fato - Em meio ao avanço do plano israelense de controle total sobre Gaza, o presidente da Federação Palestina Árabe do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, alerta para a gravidade da situação no território palestino. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele afirma que “a totalidade do procedimento adotado até o momento foi de destruição integral do território para torná-lo inabitável”.

Segundo Rabah, o que está em curso é uma “fase de administrar a fome”, com bloqueio da ajuda humanitária para garantir que a população palestina permaneça em condições de extremo sofrimento.

 “Israel se responsabiliza pela ajuda humanitária, tal qual os nazistas se responsabilizaram pela ‘ajuda humanitária’ nos campos de concentração, ou seja, o dono do campo de concentração. Hoje, Gaza, mais do que nunca, é exatamente um campo de concentração e, como tal, necessariamente um campo de extermínio, administrado por Israel”, resume.

O dirigente também destaca o caráter continuado da ocupação militar desde 1967, ressaltando que “a ideia de que Israel desocupou a Faixa de Gaza foi uma lenda inventada a partir de 2005”. A diferença atual, segundo ele, é o agravamento do genocídio, com aumento acelerado do número de mortes. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 61 mil palestinos foram mortos pelas forças israelenses desde outubro de 2023.

Sobre os cidadãos israelenses capturados pelo Hamas, usados por Israel como justificativa para suas operações militares, Ualid Rabah retruca que “Israel nunca esteve preocupada com essa ideia de ‘reféns’. Nunca.” Ele lembra que uma trégua para a libertação dos israelenses cativos foi interrompida por Israel em novembro de 2023, demonstrando que o controle militar e a destruição de Gaza sempre estiveram no centro do plano do governo israelense.

“Israel só depende, hoje, do apoio acrítico, vergonhoso dos Estados Unidos. Do veto dos Estados Unidos e do armamento dos Estados Unidos”, critica o presidente da Fepal, ao comentar as reações internacionais ao genocídio. Ele menciona ainda que países como a Alemanha já começaram a cancelar o envio de armas a Israel, mas enfatiza que “Israel não precisa mais de armamento para administrar a fome e a matança em Gaza”.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Lula não vê em Trump disposição para o diálogo e defende ação coordenada do BRICS sobre tarifaço

Presidente afirma que Brasil buscará articulação com países do BRICS diante do tarifaço e critica postura autoritária de Trump

07 de agosto de 2025



 

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert / PR)




Redação Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (6) que buscará articulação com os países do BRICS para uma resposta coordenada ao aumento das tarifas imposto pelos Estados Unidos. Em entrevista concedida à agência Reuters e repercutida pela Agência Gov com informações da Agência Brasil, Lula explicou que pretende ligar para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e para o presidente da China, Xi Jinping, com o objetivo de construir uma estratégia conjunta frente às sanções econômicas.

"Vou tentar fazer uma discussão com eles sobre como cada um está dentro da situação, qual é a implicação que tem em cada país, para a gente poder tomar uma decisão", declarou. O presidente lembrou que dez integrantes do BRICS fazem parte do G20, o que reforça a força política e econômica do bloco no cenário global. 

As tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos começaram a valer nesta quarta-feira. No mesmo dia, o presidente norte-americano Donald Trump publicou novo decreto elevando em 25% as tarifas sobre produtos indianos, alegando que o país importa direta ou indiretamente petróleo russo.

Governo prepara resposta e quer preservar empregos

Lula reforçou que a prioridade de seu governo neste momento é garantir a manutenção dos empregos e apoiar as empresas brasileiras a encontrarem novos mercados. Segundo ele, o Ministério da Fazenda deve encaminhar ainda hoje ao Palácio do Planalto a minuta da medida provisória com ações planejadas para enfrentar os impactos do tarifaço.

"Temos que criar condições de ajudar essas empresas. Temos obrigação de cuidar da manutenção dos empregos das pessoas que trabalham nessas empresas e ajudar essas empresas a encontrar novos mercados para seus produtos", disse Lula. O presidente também demonstrou disposição para conversar com empresários norte-americanos: “Temos preocupação de conversar com os empresários norte-americanos, a brigar com o presidente Trump para que ele possa flexibilizar isso [as tarifas]”.

“Trump não quer telefonema”, afirma Lula

Durante a entrevista à Reuters, Lula foi questionado sobre a ausência de contato direto com o presidente norte-americano e respondeu com franqueza: “Eu não liguei porque ele não quer telefonema. Não tenho por que ligar para o presidente Trump, porque nas cartas que ele mandou e nas suas decisões ele não fala em nenhum momento em negociação, o que ele fala é em novas ameaças”.

Apesar da resistência de Trump ao diálogo direto, Lula ressaltou que os negociadores brasileiros já mantiveram dez reuniões com representantes oficiais dos Estados Unidos desde maio. “Estou fazendo tudo isso [negociando] quando poderia anunciar uma taxação dos produtos americanos. Não vou fazer porque não quero ter o mesmo comportamento do presidente Trump. Quero mostrar que quando um não quer, dois não brigam — e eu não quero brigar com os Estados Unidos”.

O presidente ainda avaliou que retaliar os EUA com tarifas poderia gerar demissões naquele país e que esse tipo de medida não ajuda a resolver conflitos. “Quero dar exemplo ao presidente Trump”, afirmou.

Soberania brasileira não está em negociação

Lula reagiu com firmeza à tentativa de intromissão do presidente dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil. “Não é uma intromissão pequena, é o presidente da República dos Estados Unidos achando que pode ditar regras em um país soberano como o Brasil. Não é admissível que os Estados Unidos ou qualquer outro país resolva dar um pitaco na nossa soberania”, disse.

“Ele que cuide dos Estados Unidos. Do Brasil, cuidamos nós. Só tem um dono esse país, e só um dono que manda no presidente da República: é o povo, o povo que elegeu, o povo que pode tirar”, completou.

Lula também recordou a atuação norte-americana no golpe civil-militar de 1964, reforçando que a soberania brasileira precisa ser respeitada em qualquer circunstância.

Bolsonaro e Eduardo são “traidores da Pátria”, afirma Lula

Questionado sobre as tentativas de Donald Trump de interferir no processo judicial contra Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, Lula foi direto: “Esse cidadão não estava preparado para disputar eleições e perder. Ele tinha o comportamento de um ditador, ele queria se perpetuar no poder”.

Na visão do presidente brasileiro, Bolsonaro e seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, deveriam responder por novos processos. “Ele e o filho dele deveriam ter outro processo e ser condenados como traidores da Pátria. Traidor da Pátria, isso é o que ele é. Porque não tem precedente na história: um presidente da República e um filho que é deputado ir para os Estados Unidos para insuflar os Estados Unidos contra o Brasil. Isso nunca existiu na história, acho que de nenhum país do mundo”.

Lula critica ataque à regulação das big techs

O presidente também condenou as críticas de Trump à legislação brasileira sobre regulação de empresas de tecnologia. “Esse país é soberano, tem uma Constituição, tem uma legislação. É nossa obrigação regular o que a gente quiser regular de acordo com os interesses e a cultura do povo brasileiro. Se não quiser regulação, saia do Brasil”, afirmou.

Para Lula, a visão de Trump é de destruição do multilateralismo. “Você sabe por que eu entrei no sindicato? Porque um trabalhador sozinho, fazer negociação com a Mercedes, com a Ford, com a General Motors, o acordo sempre será um acordo mau para o trabalhador e bom para o empresário”, comparou.

Segundo Lula, o presidente dos Estados Unidos tenta substituir o diálogo coletivo por negociações unilaterais: “Taxação abusiva não leva a lugar nenhum. As coisas vão ficar mais caras para o povo brasileiro. As coisas vão ficar mais caras para o povo americano. As coisas vão ficar mais caras para o mundo”.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Entrevista de Lula sobre tarifaço de Trump lidera engajamento no Instagram do New York Times em 2025

Publicação com críticas ao tarifaço de 50% imposto por Donald Trump superou 746 mil interações na rede social

06 de agosto de 2025

Lula (Foto: Ricardo Stuckert / PR)








Por Paulo Emilio

247 - A entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal norte-americano The New York Times gerou ampla repercussão nas redes sociais, especialmente após a crítica direta feita pelo petista ao “tarifaço” de 50% adotado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros. Segundo a coluna de Ancelmo Gois, de O Globo, a informação consta de um levantamento realizado pela FGV Comunicação.

De acordo com o levantamento, o conteúdo publicado pelo perfil do NYT no Instagram sobre a entrevista foi o que mais movimentou os debates em torno de Lula durante a última semana. O post se destacou tanto no cenário nacional quanto internacional, alcançando mais de 746 mil curtidas e comentários — marca que o tornou o mais engajado da conta do New York Times em 2025 até agora.

A relevância da postagem é ainda maior quando se observa o desempenho histórico do perfil do jornal na plataforma. Ao longo de todo o ano de 2024, apenas uma outra publicação obteve resultado superior em número de interações: a que noticiou a morte da atriz britânica Maggie Smith, conhecida mundialmente por interpretar a professora Minerva McGonagall na franquia Harry Potter.

Na entrevista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a afirmar que o Brasil, e ele próprio como dirigente político do Executivo, merecem e querem ser tratados com respeito pelo governo estadunidense na questão do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros pretendido por Donald Trump. Em entrevista a um dos jornais mais influentes do mundo, Lula reafirmou que não está sobre a mesa de negociações recuos em relação à soberania política do Executivo e do Supremo Tribunal Federal (STF).

O Estado Democrático de Direito para nós é algo sagrado”, disse Lula. “Porque já vivemos ditaduras e não queremos mais", completou o presidente.

Lula concedeu a entrevista no Palácio do Alvorada, numa "sala imponente coberta por uma tapeçaria colorida no palácio presidencial modernista, onde emas vagam pelos gramados", na descrição do jornal. O NYT retratou o presidente brasileiro como "um esquerdista em seu terceiro mandato e indiscutivelmente o estadista latino-americano mais importante deste século". O jornal ainda destacou a afirmativa de Lula de que não receberá ordens de Trump.

O presidente ressaltou que o Brasil permanece aberto ao diálogo, mas com altivez. “Tenham certeza de que estamos tratando isso com a máxima seriedade. Mas seriedade não exige subserviência”, disse o presidente brasileiro. “Trato a todos com muito respeito. Mas quero ser tratado com respeito.”

Uma das questões levantadas pelo jornal foi a cobrança de Trump para que o Brasil encerre o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, condição para que o tarifaço seja revisto. Bolsonaro está sendo julgado pelo STF sob acusação de golpe de Estado, entre outras. Lula reforçou que o Judiciário brasileiro é independente e que o processo seguirá o seu curso democrático e legal.

“Talvez ele [Trump] não saiba que aqui no Brasil o Judiciário é independente”, respondeu Lula. O presidente do Brasil disse ser “vergonhoso” que Trump tenha feito suas ameaças em sua rede social, Truth Social. “O comportamento do presidente Trump se desviou de todos os padrões de negociação e diplomacia”, disse ele. “Quando você tem um desentendimento comercial, um desentendimento político, você pega o telefone, marca uma reunião, conversa e tenta resolver o problema. O que você não faz é taxar e dar um ultimato.”

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

"A Justiça não permitirá que um réu a faça de tola", diz Moraes em decisão que prendeu Bolsonaro

Ministro decretou prisão domiciliar por descumprimento reiterado de medidas cautelares; decisão cita tentativa de obstrução da Justiça e ataques ao Supremo

04 de agosto de 2025

Bolsonaro e Moraes (Foto: Antonio Augusto/STF)









Por Guilherme Paladino

247 -  Na noite desta segunda-feira (4), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por descumprimento reiterado de medidas cautelares impostas no âmbito da ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. A decisão foi marcada por duras críticas à conduta do ex-mandatário e à sua insistência em desafiar ordens judiciais.

Em um dos trechos mais enfáticos, Moraes escreveu:
“A JUSTIÇA É CEGA, MAS NÃO É TOLA. A JUSTIÇA NÃO PERMITIRÁ QUE UM RÉU A FAÇA DE TOLA, ACHANDO QUE FICARÁ IMPUNE POR TER PODER POLÍTICO E ECONÔMICO.”

O ministro afirmou que Bolsonaro violou as determinações da Suprema Corte ao participar, mesmo que virtualmente, de manifestações que pediam a intervenção estrangeira contra o STF e atacavam diretamente o Judiciário brasileiro. Entre as provas citadas estão vídeos produzidos pelo ex-presidente e divulgados nas redes sociais de seus filhos e aliados, além de uma ligação por vídeo com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), durante o ato bolsonarista deste domingo (3), na Avenida Paulista.

Segundo Moraes, houve “claro conteúdo de incentivo e instigação a ataques ao SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL e apoio, ostensivo, à intervenção estrangeira no Poder Judiciário brasileiro”.

Ainda de acordo com a decisão, o descumprimento das medidas foi tão evidente que o próprio filho do ex-presidente, senador Flávio Bolsonaro, removeu uma publicação do Instagram para tentar apagar os rastros da infração:
“O flagrante desrespeito às medidas cautelares foi tão óbvio que, repita-se, o próprio filho do réu [...] decidiu remover a postagem [...] com a finalidade de omitir a transgressão legal.”

Moraes destacou que esta é a segunda violação por parte de Bolsonaro, o que justificaria a prisão:
“O RÉU QUE DESCUMPRE DELIBERADAMENTE AS MEDIDAS CAUTELARES – PELA SEGUNDA VEZ – DEVE SOFRER AS CONSEQUÊNCIAS LEGAIS.”

O ministro ainda frisou que o ex-presidente atuou com o objetivo de obstruir as investigações e de coagir instituições do Estado:
“O réu reiterou sua conduta delitiva [...] com o claro intuito de obstrução da Justiça, evidenciando a continuidade delitiva em relação aos crimes de coação no curso do processo (art. 344 do Código Penal) e obstrução de investigação de infração penal que envolva organização criminosa (art. 2º, §1º, da Lei 12.850/13).”

Na parte final do despacho, Moraes ordenou:
“Cumpra-se, com urgência.”

Medidas impostas

A decisão determina que Jair Bolsonaro cumpra prisão domiciliar em sua residência, com as seguintes condições:

·          uso obrigatório de tornozeleira eletrônica;

·          proibição de visitas, exceto de familiares diretos e advogados;

·          recolhimento de todos os celulares disponíveis no local.

Assista o vídeo:

domingo, 3 de agosto de 2025

Trump já vê BRICS como ameaça séria e Lula lidera o Sul Global, diz Pepe Escobar

 

Analista destaca que o bloco avança na desdolarização e que o presidente brasileiro retomou protagonismo geopolítico na cúpula do Rio



 

Pepe Escobar | Bandeiras do Brics (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | Reuters)



Redação Brasil 247

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar analisou em entrevista ao canal Think Bricks, no YouTube, os bastidores e os desdobramentos da cúpula do BRICS realizada no Rio de Janeiro. Ele afirmou que o encontro superou todas as expectativas e mostrou ao mundo que o bloco caminha de forma decidida para reduzir a dependência do dólar, provocando reação imediata do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que em seu segundo mandato já percebe o BRICS como uma ameaça estratégica.

Contra todas as expectativas, foi um sucesso”, disse Escobar, destacando que o evento demonstrou a força crescente do bloco no cenário geopolítico. Para o analista, a movimentação do BRICS na direção da desdolarização ocorre de forma prática, sem que o termo precise ser usado oficialmente. “Eles estão fazendo o que precisam fazer”, afirmou. “São vários trens de alta velocidade correndo em trilhos paralelos rumo à estação da desdolarização, ainda que com outro nome.”

Segundo ele, a percepção de risco por parte dos Estados Unidos ficou evidente na reação imediata de Trump, que impôs tarifas de 50% ao Brasil logo após a cúpula. “Mesmo com atenção de menos de dois segundos, ele entendeu que o BRICS é agora uma ameaça séria”, disse Escobar, reforçando que o avanço do bloco representa um desafio direto à hegemonia do dólar.

Lula retoma protagonismo no cenário global

Pepe Escobar também destacou o protagonismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo ele, reencontrou-se como líder do Sul Global. O momento mais simbólico foi o BRICS Business Day, quando Lula discursou diante de empresários de diversas regiões do mundo.

Foi um discurso de líder do Sul Global, atento ao ambiente, reescrevendo o texto a cada instante para reagir ao que acontecia na sala”, disse Escobar. Ele relatou que o presidente brasileiro demonstrou sensibilidade para dialogar com o setor privado, homenageou o Conselho de Mulheres do BRICS e estabeleceu uma ponte direta com líderes de outros países em desenvolvimento.

Para o analista, a atuação de Lula consolida o Brasil como principal voz da América Latina no bloco, abrindo espaço para maior integração com a Ásia e a África. O convite feito pelo primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, para que Lula participe da cúpula da ASEAN em Kuala Lumpur, foi visto como um passo simbólico dessa articulação. “Lula vai adorar a experiência de sentar à mesa de iguais, um conceito central para o Sul Global”, observou Escobar.

BRICS fortalece caminho próprio

A entrevista também reforçou que, além do aspecto político, a cúpula do Rio trouxe avanços concretos para o BRICS. Entre eles:

·           Expansão do comércio em moedas nacionais, reduzindo o uso do dólar;

·          Debates sobre uso do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) como principal canal   de   empréstimos,    com possibilidade de operar fora do Swift;

·      Fortalecimento da coordenação geopolítica e econômica, diante de pressões externas e guerras         híbridas.

Pepe Escobar avalia que o bloco vem consolidando uma arquitetura financeira e política própria, com efeitos que vão muito além de comunicados oficiais. A reação de Trump e o retorno de Lula como articulador global são, segundo ele, sinais claros de que o BRICS deixou de ser visto como apenas uma iniciativa simbólica e passou a ser um ator estratégico na disputa por uma nova ordem mundial. Assista:

https://www.youtube.com/watch?v=zi6obgbrPLY&t=3s