O presidente Lula encarna a defesa intransigente da soberania nacional, enquanto Flávio Bolsonaro escancara um projeto nefasto de alinhamento cego e subordinação humilhante aos EUA
AUTOR: José Reinaldo
Carvalho (É editor
internacional do Brasil 247)
Ato de lançamento da campanha de Lula. Crédito: Ricardo Stuckert
É preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a
reeleição do presidente Lula é uma questão de salvação nacional.
Uma eventual
vitória da extrema-direita pró-imperialista, personificada em Flávio Bolsonaro
em 25 de outubro, desferiria um golpe letal na soberania do Brasil, com
desdobramentos devastadores para toda a América Latina e o Caribe. O
alinhamento subserviente anunciado pelo candidato do PL aos Estados Unidos é a
renúncia deliberada e indecorosa à autonomia indispensável para resguardar as
riquezas e os interesses do povo brasileiro. A oferta escandalosa de colocar
sua própria equipe de transição à disposição direta de Washington constitui o
sinal mais eloquente e vergonhoso desse projeto de vassalagem.
Na carta enviada ao
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro explicitou
a barganha no bojo das negociações de um acordo bilateral de comércio e
investimentos. O senador escreveu, sem qualquer pudor patriótico, estar pronto
para colocar a equipe “imediatamente à sua disposição”. A roupagem comercial
jamais apagará a gravidade política inédita dessa atitude: a transição
presidencial do Brasil deve render contas unicamente ao povo brasileiro e às
suas instituições soberanas. Entregá-la de bandeja a uma potência estrangeira
revela uma concepção de poder indigna, mesquinha e absolutamente incompatível
com a independência de uma nação livre.
Essa prontidão
serviçal de Flávio Bolsonaro se encaixa com perfeição na sanha tutelar de Rubio
sobre o nosso continente. Em audiência no Senado estadunidense, em 2 de junho,
o secretário rotulou o Brasil como uma incômoda exceção em um hemisfério que
Washington quer ver totalmente dobrado aos seus ditames, fazendo referência
explícita ao nosso ciclo eleitoral. Ao arvorar-se no direito de dividir
governos entre “amigos” e “hostis” aos interesses norte-americanos, Rubio
escancarou a lógica imperialista: para a Casa Branca, a autodeterminação dos
povos latino-americanos é encarada como um “problema” a ser suprimido.
O sentido político
dessa ofensiva é cristalino. Um Brasil altivo, que dialoga de cabeça erguida
com múltiplos polos de poder, negocia sem aceitar sujeição ou exclusividades e
sustenta posições firmes e independentes no cenário internacional causa
profundo incômodo aos guardiões da hegemonia estadunidense. A alusão de Rubio
às eleições brasileiras deixa evidente a aposta da potência imperialista: a expectativa
de que uma virada de governo dissipe a altiva resistência do Brasil e escancare
as portas para o alinhamento cego pretendido por Washington.
A promessa de
adesão ao chamado “Escudo das Américas” dá a face militar e operacional a essa
rendição. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente a intenção de atrelar o
Brasil à coalizão liderada por Donald Trump. Anunciou também que proporá
alterações legais para carimbar organizações criminosas brasileiras como grupos
“terroristas internacionais”, subordinando-se à chancela unilateral de Trump.
Trata-se de uma capitulação na política externa e de defesa que ameaça
diretamente o comando e a jurisdição do Estado brasileiro sobre o seu próprio
território.
É óbvio que o
combate às facções criminosas é um dever constitucional indeclinável do Estado.
Todavia, isso exige inteligência de ponta, asfixia financeira do crime
organizado, rigoroso controle de armas e cooperação técnica — jamais a cessão
da nossa soberania. Instrumentalizar esse desafio interno para converter o
Brasil em praça de armas de uma estratégia militar ditada por uma potência
estrangeira cruza uma linha vermelha inaceitável: a internacionalização e a
entrega do controle das nossas forças e da nossa segurança nacional a decisões
tomadas fora do país.
Esse enquadramento
de facções como entidades terroristas guarda armadilhas letais. O Itamaraty
alertou para o risco real de Washington converter essa rotulagem em pretexto
para incursões militares e intervenções em solo brasileiro. Uma designação
unilateral norte-americana não possui validade jurídica internacional para
violar territórios alheios; contudo, o perigo reside na construção de uma
narrativa político-militar agressiva para emparedar governos, atropelar
fronteiras e violar a soberania dos países da região.
A trágica
experiência da América Latina demonstra que esse perigo não é uma mera
abstração teórica. Em março, Estados Unidos e Equador anunciaram operações
militares conjuntas sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Em setembro, a
chancelaria equatoriana confirmou a integração irrestrita ao Escudo das
Américas, entrelaçando inteligência, capacidade operacional e coordenação
política com Washington. A pretexto do combate ao narcotráfico, a presença
militar estadunidense ganha contornos concretos de ocupação estratégica.
Com o vizinho
Paraguai foi firmado um acordo que praticamente transforma o país Guarani em
uma base militar estadunidense na América do Sul.
A ostensiva visita
do comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L. Donovan, à cidade de
Iquitos, na Amazônia peruana, realizada nos últimos dias, escancara essa
engrenagem. Encontrando-se com a cúpula militar do Peru, o general
norte-americano manteve conversações sobre a realização de operações militares
contra grupos rotulados como narcoterroristas e sobre o pertencimento do país
andino no Escudo das Américas. A presença militar norte-americana nas barbas da
Amazônia é um sinal de alerta estrondoso para a defesa nacional e para o
equilíbrio regional.
Essa marcha de
cooptação utiliza múltiplos braços. Na Argentina, o governo anunciou em junho
acordos com Washington que incluem suporte logístico, reabastecimento recíproco
em operações militares e acesso a tecnologias de defesa dos EUA.
Na Colômbia, a
cooperação militar com os EUA avançou para patamares ainda mais gravosos de
operações conjuntas sob a bandeira do Escudo das Américas, consolidando a
integração de inteligência e logística nas faixas de fronteira.
Tudo isso constitui
uma teia bem articulada que busca submeter as estruturas estratégicas dos
países latino-americanos às diretrizes do Pentágono. Vê-se, em pleno curso, uma
perigosa militarização da região, sob a hegemonia estadunidense.
É justamente essa
escalada que torna criminosa e inadmissível a simples hipótese de capitulação
do Brasil. Pela dimensão gigantesca de sua economia, pela extensão de seu
território e por suas fronteiras estratégicas, o Brasil é o escudo e o fiador
da independência da nossa região. Sua submissão a uma coalizão sob comando
norte-americano esmagaria a autonomia de toda a América Latina e do Caribe,
deixando os países vizinhos expostos a um ambiente ainda mais brutal de
ingerência e chantagem hegemonista.
O biombo da
“proteção continental” não passa da roupagem atualizada da nefasta Doutrina
Monroe, que insiste em tratar a nossa região como o “quintal” e área de
influência exclusiva do império. Sob uma perspectiva anti-imperialista
consequente, a questão de fundo é o poder inalienável de decidir: quem define
nossas ameaças, quem maneja as inteligências, quem dita os limites da atuação
militar em nosso solo? Quando a caneta e o comando do destino nacional são
transferidos para fora, a dita “cooperação” nada mais é do que dependência
colonialista.
A antítese dessa
vergonha é a política externa altiva, soberana e destemida conduzida pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pilar inabalável dessa orientação
reside no artigo 4º da Carta Magna de 1988: independência nacional,
autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade soberana entre os Estados,
defesa intransigente da paz e solução pacífica dos conflitos. Mais do que
imperativo legal, a Constituição manda o Brasil perseguir a integração profunda
dos povos da América Latina. São esses princípios que nos armam ideologicamente
para repelir a tutela estrangeira e edificar uma segurança autêntica fundada na
solidariedade entre nações livres.
O engajamento
vibrante de Lula com o multilateralismo, o protagonismo inconteste do Brasil no
Sul Global e o fortalecimento ousado do BRICS são os pilares de um país que se
recusa a se curvar. À frente da presidência do BRICS em 2025, o Brasil colocou
a cooperação soberana e o desenvolvimento dos povos como prioridades absolutas.
É essa coragem diplomática que amplia a voz do Brasil e constrói, na prática,
uma ordem multipolar justa.
Defender a
continuidade do governo Lula é defender a liberdade suprema do Brasil de
dialogar e pactuar com quaisquer países e com todos os povos do mundo a partir
dos nossos interesses nacionais, e não sob ordens de impérios. É exigir com
altivez a reforma das instituições internacionais, a voz ativa dos países em
desenvolvimento e o combate aos grandes dilemas da humanidade sem pedir licença
às potências coloniais. O Brasil de Lula é o motor dessa transformação
libertadora, e a sua soberania é o bastião inexpugnável para a emancipação de
todos os povos latino-americanos e caribenhos.
Portanto, a luta anti-imperialista é a tarefa mais
urgente e inescapável do presente. Ela se concretiza no combate diário pela
reconquista e proteção do nosso território, dos nossos recursos naturais, da
nossa democracia e do direito sagrado do povo brasileiro de trilhar seu próprio
caminho. Perante a fúria dominadora do imperialismo e a expansão de suas garras
militares no continente, a soberania nacional ergue-se como o centro
gravitacional da batalha histórica contemporânea. A vitória de um Brasil
independente e protagonista da integração continental e do mundo multipolar é a
tradução mais pura do espírito do nosso tempo: a libertação definitiva dos
povos e a ruína da hegemonia imperial.

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