domingo, 8 de março de 2026

"Irã acelera colapso do petrodólar e impõe derrota estratégica aos Estados Unidos", diz Pepe Escobar

Analista afirma que resistência iraniana já alterou o equilíbrio global e abriu disputa decisiva pela nova ordem internacional

Pepe Escobar (Foto: Flickr / Brasil 247)


 





Redação Brasil 247

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que a atual guerra no oeste da Ásia pode marcar uma virada histórica no sistema internacional e acelerar o fim do petrodólar, base da hegemonia financeira dos Estados Unidos nas últimas décadas. A avaliação foi feita em entrevista concedida à TV 247, em conversa conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch.

Durante a entrevista, Escobar argumentou que a reação militar do Irã surpreendeu Washington e Tel Aviv e expôs vulnerabilidades estruturais da presença estratégica americana na região. Para ele, a resposta iraniana foi planejada ao longo de meses e executada com rapidez suficiente para alterar o equilíbrio do conflito.

Segundo o analista, a guerra segue duas “estradas paralelas” que não se encontram: de um lado, a estratégia de resistência total do Irã; de outro, a tentativa dos Estados Unidos e de Israel de manter o controle do sistema regional. Na visão de Escobar, a reação iraniana demonstrou que o país estava preparado para atingir alvos estratégicos ligados aos interesses americanos.

"Se vocês nos atacarem, nós vamos atacar tudo de volta. Tudo significa todo o nó dos interesses americanos e israelenses no oeste da Ásia inteiro", afirmou Escobar ao explicar a lógica militar anunciada previamente por Teerã. 

Estratégia iraniana mira infraestrutura estratégica dos EUA

De acordo com Escobar, o Irã respondeu rapidamente aos ataques iniciais e passou a atingir bases militares, radares e centros logísticos ligados à presença dos Estados Unidos na região.

Ele destacou que um dos principais objetivos foi neutralizar sistemas de radar e vigilância instalados em países do Golfo. Segundo o analista, a destruição ou desativação desses sistemas comprometeria a capacidade de coordenação militar americana.

"Se você cega todo o sistema americano que interconecta lançamento de mísseis, satélites e comunicações, o império, por definição, está cego", disse.

O analista também afirmou que os ataques não se limitaram a Israel, mas atingiram toda a rede de infraestrutura estratégica que sustenta a presença militar e econômica dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e no oeste da Ásia. 

Guerra pode atingir o sistema do petrodólar

Para Escobar, um dos efeitos mais relevantes do conflito pode ser o enfraquecimento do sistema do petrodólar — mecanismo que sustenta a predominância do dólar nas transações globais de energia.

Segundo ele, a estratégia iraniana envolve não apenas a expulsão militar dos Estados Unidos da região, mas também a ruptura do vínculo financeiro entre as monarquias do Golfo e o sistema financeiro americano.

"Essa é uma guerra para acabar com o petrodólar", afirmou.

Na análise do jornalista, fundos financeiros globais desempenharam papel central nesse sistema ao intermediar investimentos provenientes das monarquias petrolíferas em ativos ocidentais.

Escobar citou a gestora BlackRock como um dos principais canais dessa reciclagem financeira. Ele afirmou que a decisão da empresa de restringir retiradas de investidores institucionais indicaria tensões crescentes dentro do sistema financeiro global.

"Quando você tem uma corrida financeira e a instituição diz que ninguém pode retirar o dinheiro, isso significa que o sistema está sob enorme pressão", declarou. 

Rússia emerge como ator central no mercado de energia

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Outro efeito do conflito, segundo Escobar, é a ascensão da Rússia como ator ainda mais central no mercado energético global. O analista afirmou que Moscou passou a exercer papel decisivo na coordenação da produção de petróleo dentro da OPEP+.

Ele também destacou que a crise energética global pode ser agravada caso haja interrupção significativa do fluxo de petróleo no estreito de Ormuz.

"Há projeções de analistas financeiros de que, se o estreito de Ormuz for bloqueado, o petróleo pode chegar a US$ 500 por barril", disse.

Na avaliação do analista, esse cenário teria potencial para provocar um colapso em mercados financeiros altamente alavancados por derivativos ligados ao setor energético. 

Guerra redefine alianças no sul global

Escobar também afirmou que o conflito está redefinindo alianças geopolíticas dentro do sul global e dentro do próprio BRICS. Segundo ele, Rússia, China e Irã tendem a aprofundar sua integração estratégica.

Ao mesmo tempo, o analista criticou duramente a postura da Índia no contexto da crise.

"A Índia demonstrou que não é um parceiro confiável do sul global neste momento", afirmou.

Ele também destacou que a cooperação militar e tecnológica entre Rússia e Irã teria se intensificado durante o conflito, incluindo troca de informações e suporte técnico.

Segundo Escobar, a China também desempenha papel relevante ao fornecer dados de satélite e apoio tecnológico indireto. 

Conflito pode levar à reorganização da ordem internacional

Para o analista, o resultado da guerra poderá acelerar uma reorganização profunda das instituições globais criadas após a Segunda Guerra Mundial.

Escobar afirmou que o sistema internacional construído em Bretton Woods estaria em crise e poderia ser substituído por novas estruturas lideradas por potências emergentes.

"Se houver uma reorganização do sistema internacional, os dois condutores principais serão Rússia e China", disse.

Ele também alertou para o risco de escalada nuclear caso o conflito se amplie, cenário que classificou como o mais perigoso para a humanidade.

"Se isso acontecer, Rússia e China entram na história. E aí encerram-se as apostas", afirmou.

Brasil e América do Sul na disputa geopolítica

Ao final da entrevista, Escobar mencionou que uma eventual retração estratégica dos Estados Unidos no oeste da Ásia poderia levar Washington a reforçar sua influência no chamado “hemisfério ocidental”.

Segundo ele, esse cenário pode aumentar a pressão geopolítica sobre a América Latina.

"Na doutrina de segurança estratégica deles, o objetivo é recolonizar o hemisfério ocidental. E é aí que entra o Brasil", disse.

Para o analista, caso o sistema internacional passe por uma reorganização profunda, potências como Rússia e China poderão desempenhar papel importante no equilíbrio estratégico global — inclusive em relação à América do Sul.

Encerrando a entrevista, Escobar resumiu o momento atual como um dos mais decisivos da história recente.

"Esta é a guerra que define o século 21", concluiu.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=SnH5fxCVc8Y&t=2s

Um comentário:

  1. Essa é uma guerra imperialista, imposta por EUA e Israel no sentido de tentar controlar o território árabe como um todo, até para capturar as riquezas contidas no solo da região. É uma guerra que se iniciou descumprindo todas as normas internacionais nas relações entre os povos e países, como também, desrespeitando todas as regras de guerra entre países, iniciou criminosamente assassinando crianças e populações civis, atingindo escolas de forma brutal e desumana, assemelhado aos métodos do nazifascismo...Mas esperavam com isso obter apoio interno no Irã e nos povos vizinhos, e o que encontraram foi uma revolta extraordinária do povo Iraniano e das vizinhanças, e, até do mundo como um todo, indignados com a forma criminosa de agressão desses dois governos e o governo do Irã respondeu com força a essas ações criminosas. Agora o império e seus vassalos não sabem como terminar essa guerra, porque encontraram um povo firme e corajoso, disposto a colocar suas vidas na defesa da pátria, de sua milenar cultura e história e de suas riquezas. A grande mídia inverte tudo, chama de terrorista estados que não agridem, apenas se defendem e chamam de democráticos , estados que assassinam de forma brutal com ações terroristas vis, crianças e populações civis desse países agredidos. Sejamos solidários com os que lutam de forma justa e buscam construir relações de paz e cooperação com o mundo. Isso não é o que os EUA, Israel e seus colaboradores praticam.

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