quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

“O Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá”, diz Lula em meio à ofensiva de Trump

Presidente é aplaudido ao afirmar que o canal é “administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas”

28 de janeiro de 2026

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)


Por Guilherme Levorato

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (28) que o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá como princípio estratégico para a integração regional e o comércio internacional. A declaração foi feita durante a sessão inaugural do Fórum Econômico Internacional da América Latina, realizado na capital panamenha, em um momento marcado por tensões geopolíticas e pela ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em temas ligados à política externa e ao comércio global.

Ao discursar no evento, Lula contextualizou sua posição a partir da necessidade de fortalecer a cooperação latino-americana diante de um cenário internacional instável. As declarações foram feitas no Panamá, país que sediou, há 200 anos, o Congresso que reuniu as jovens nações latino-americanas em busca de consolidar sua independência e definir seu papel no mundo, marco histórico citado pelo presidente ao longo de sua fala.

Lula ressaltou que, embora daquele congresso tenham surgido ideias fundamentais posteriormente incorporadas ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas — como a manutenção da paz, a solução pacífica de controvérsias, a igualdade jurídica entre os Estados e a integridade territorial —, o legado institucional foi insuficiente para consolidar mecanismos regionais eficazes. Segundo o presidente, dois séculos depois, a América Latina enfrenta um dos períodos de maior retrocesso em matéria de integração.

Nesse contexto, Lula criticou a fragmentação política da região e o enfraquecimento de iniciativas de cooperação. Ele mencionou o colapso da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), atribuindo o fracasso à intolerância política, e afirmou que a região voltou a se orientar mais para interesses externos do que para projetos próprios. O presidente alertou ainda para a influência de disputas ideológicas alheias, o avanço do extremismo político e a manipulação da informação, fatores que, segundo ele, esvaziaram cúpulas regionais e paralisaram a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Ao abordar o ambiente global, Lula afirmou que a ruptura da ordem liberal, o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo tornaram insuficientes antigos paradigmas de integração. Ele defendeu que a América Latina observe a experiência da União Europeia como referência, sem ignorar diferenças históricas, econômicas e culturais. Nesse ponto, citou a proximidade geográfica com a “maior potência militar do mundo”, referência direta aos Estados Unidos, ao mencionar o recrudescimento de “tentações hegemônicas” e a falta de convicção regional em torno de um projeto mais autônomo de inserção internacional.

O presidente também destacou indicadores recentes da economia brasileira para sustentar a defesa de um modelo baseado em democracia, multilateralismo e integração regional. Lula afirmou que o país tem registrado estabilidade política, social e econômica, atraído volumes recordes de capital estrangeiro e ampliado o comércio internacional. Segundo ele, em 2025, a corrente de comércio brasileira alcançou US$ 629 bilhões, resultado de uma estratégia de diversificação de parcerias com economias tradicionais e emergentes.

Lula afirmou ainda que, desde 2023, o Brasil cresce acima da média mundial, controla a inflação e registra o menor desemprego de sua história. Ele citou a valorização do salário mínimo, o aumento da renda dos trabalhadores, a saída do país do Mapa da Fome da ONU e a inclusão social de 17,4 milhões de pessoas em dois anos. O presidente também destacou o papel do Brasil na economia verde, com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, liderança em biocombustíveis e projetos voltados à transição energética.

Ao tratar da integração sul-americana, Lula destacou o avanço do programa brasileiro de rotas de integração, com obras em rodovias, hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, infovias e linhas de transmissão. Segundo ele, esse conjunto de investimentos tem potencial para ampliar significativamente o comércio intrarregional. Foi nesse contexto que o presidente afirmou: “Por isso o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas”, declaração que foi recebida com aplausos pelo público presente.

Lula concluiu defendendo que uma integração regional duradoura exige a participação de governos subnacionais, da sociedade civil e da iniciativa privada. Ele citou sistemas de pagamentos digitais, como o Pix, e programas de integração entre universidades e centros de pesquisa como instrumentos capazes de fortalecer laços regionais baseados em inovação, conhecimento e pragmatismo.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Forças Armadas propõem a Lula plano de R$ 800 bilhões para defesa nacional

Proposta prevê investimentos até 2040 e alerta para riscos à soberania nacional

26 de janeiro de 2026

 


16.04.2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do ministro da Defesa, José Mucio Monteiro Filho, comandante do Exército Brasileiro, Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, Comandante da Aeronáutica, Marcelo Kanitz Damasceno, Comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Almirante de Esquadra Renato Rodrigues de Aguiar Freire, durante cerimônia do Dia do Exército e de comemoração do Jubileu de 80 anos das vitórias da Força Expedicionária Brasileira, na Itália.Quartel-General do Exército – Forte Caxias - Brasília - DF. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

Por Paulo Emilio

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu no último dia 15 com os comandantes das Forças Armadas para discutir o cenário internacional e os desafios estruturais da defesa nacional no longo prazo. A reunião teve como pano de fundo a crise na Venezuela e os impactos geopolíticos recentes, que reacenderam alertas sobre a capacidade do Brasil de proteger seu território e seus interesses estratégicos.

De acordo com a coluna da jornalista Marcela Mattos, do SBT News, os chefes militares avaliaram que a ação militar que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um sinal de alerta sobre os riscos à soberania nacional e reforça a necessidade de um sistema de defesa robusto e preventivo.

Reunião abordou cenário internacional e crise na Venezuela

Participaram da conversa os comandantes do Exército, Tomás Paiva, da Marinha, Marcos Olsen, e da Aeronáutica, Marcelo Damasceno, além do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. A pedido do próprio presidente, os militares detalharam quais projetos estratégicos consideram essenciais para garantir a segurança do país nas próximas décadas.

Proposta militar aponta sucateamento e hiato tecnológico

De acordo com a reportagem, cada comandante apresentou uma lista de prioridades que inclui desde problemas imediatos, como o sucateamento de equipamentos e a falta de combustível, até projetos de maior envergadura voltados à modernização da defesa nacional. Nos bastidores, os militares avaliam que o Brasil enfrenta um hiato tecnológico significativo em relação a países mais equipados.

Investimento previsto supera todos os patamares históricos

Os cálculos preliminares indicam a necessidade de cerca de R$ 800 bilhões em investimentos entre 2025 e 2040 para que o país alcance um padrão considerado ideal de defesa. O montante está muito acima de qualquer nível histórico já destinado ao setor, o que evidencia a dimensão do desafio fiscal e político envolvido.

No fim do ano passado, o Congresso Nacional aprovou uma medida que permitiu um gasto adicional de R$ 30 bilhões em defesa ao longo de seis anos, por meio de uma exceção às regras fiscais. Ainda assim, representantes das Forças Armadas consideram o valor insuficiente e defendem alternativas extraorçamentárias para acelerar a modernização.

Drones e defesa antiaérea estão entre as principais preocupações

Entre os pontos de maior preocupação está o avanço das tecnologias de drones, que já operam com armamentos acoplados e sistemas de inteligência artificial. Os comandantes também ressaltaram a importância do fortalecimento da proteção antiaérea, considerada decisiva em conflitos recentes, como o da Ucrânia contra a Rússia.

Lula ouviu os argumentos apresentados e acolheu as preocupações expostas, mas evitou assumir compromissos públicos sobre valores ou prazos. A expectativa entre os militares é de que novas reuniões sejam realizadas para aprofundar o debate e discutir caminhos para ampliar os investimentos e redefinir a estratégia de defesa nacional no médio e no longo prazo.

EM TEMPO: Convém lembrar que foram nos governos Lula e Dilma que as Forças Armadas foram contempladas com verbas, equipamentos e transferência de tecnologia a cargo do Governo da França. Destacando caças e submarino. O que Bozo fez foi armar a população, liberando aquisição de armas e os CAC's. Ok, Moçada!

sábado, 24 de janeiro de 2026

“Só Lula pode nos livrar dos candidatos a vassalos de Trump”, diz Paulo Nogueira Batista Júnior

Economista afirma que a reeleição do presidente é decisiva para defender a soberania brasileira diante da escalada agressiva dos Estados Unidos


“Só Lula pode nos livrar dos candidatos a vassalos de Trump”, diz Paulo Nogueira Batista Júnior (Foto: ABR | Brasil247)

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Redação Brasil 247

247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior afirmou que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 é a principal barreira para impedir que o Brasil seja governado por vassalos de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. A declaração foi feita em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, em uma conversa dedicada aos riscos da conjuntura internacional e aos impactos dessa disputa sobre a política brasileira.

Para Paulo, o mundo atravessa um período de alta instabilidade, marcado por uma escalada de coerção e pressão por parte de Washington. Nesse cenário, ele sustenta que a disputa eleitoral no Brasil não pode ser tratada como uma alternância comum de poder, mas como uma escolha decisiva para preservar autonomia e soberania. H

Na entrevista, ao comentar declarações do ministro Fernando Haddad sobre a importância de Lula no cenário global, Paulo discordou do argumento de que a reeleição se justificaria sobretudo pela capacidade de interlocução diplomática. Para ele, o ponto central é a ameaça direta representada por uma direita que, segundo disse, endossou ações dos Estados Unidos contra a Venezuela.

"Nós estamos numa situação de alto risco por causa do comportamento da superpotência delinquente que são os Estados Unidos. Nós vimos o que eles são capazes de fazer na Venezuela. E nós estamos vendo o quê, Léo? Que todos os candidatos da direita à presidência, pré-candidatos, Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema, Ratinho, todos apoiaram a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. São todos candidatos a vassalos dos Estados Unidos", afirmou.

Em seguida, o economista reforçou que, na sua avaliação, Lula se tornou a única alternativa capaz de evitar que o país “caia na mão” desse campo político. "Então nós estamos numa situação que Lula é a única alternativa para evitar que o Brasil caia na mão dessa corja", declarou, explicando por que passou a adotar o lema: "Eu por isso que eu de Lula nunca critiquei, eu quero dizer o seguinte, que agora o mais importante é cerrar fileiras em torno do Lula para garantir a reeleição dele e afastar esse desastre".

Defesa da soberania nacional

Paulo argumentou que o apoio a uma intervenção estrangeira – e, especialmente, ao sequestro de um chefe de Estado – ultrapassa divergências ideológicas tradicionais e fere um princípio básico das relações internacionais: o respeito à soberania. Para ele, a estratégia mais eficiente no debate público não é “polemizar” sobre a figura do presidente venezuelano, mas sustentar um princípio universal.

"O ponto mais eficaz é a defesa intransigente da soberania de todos os países da América Latina. Isso é que é o ponto básico, não é ficar discutindo se o Maduro era um bom presidente ou não era", disse, ao avaliar que campanhas prolongadas de estigmatização moldaram percepções na opinião pública e reduziram a eficácia de debates personalistas.Na parte final da entrevista, ao ser questionado sobre pesquisas indicando apoio popular a ações contra a Venezuela, Paulo atribuiu esse quadro a processos de desinformação e à influência de veículos tradicionais. "A população brasileira, assim como a população europeia, assim como a população americana, sofre uma lavagem cerebral", afirmou, acrescentando que "a principal fonte de fake news ainda é a mídia tradicional".

Ao longo da conversa, o economista reiterou que o Brasil precisa se preparar para um mundo “duro”, em que pressões externas podem se intensificar. Mas, no recorte político interno, sua mensagem foi direta: a reeleição do presidente Lula, segundo ele, tornou-se um imperativo estratégico para impedir que o país seja conduzido por um projeto subordinado a Washington.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Todas as nações do mundo deveriam rejeitar o absurdo e perigoso "Conselho da Paz" de Trump

A recusa em aderir ao "Conselho da Paz" será um ato de respeito próprio nacional. A paz é um bem público global.

Por Jeffrey Sachs (Professor da Columbia University  e membro da ONU

23 de janeiro de 2026

Donald Trump (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)



Publicado originalmente no Common Dreams

Por Jeffrey Sachs e Sybil Fares - O chamado "Conselho da Paz" criado pelo presidente  Donald Trump  é profundamente prejudicial à busca pela paz e a qualquer nação que lhe conceda legitimidade. Trata-se de um cavalo de Troia para desmantelar as  Nações Unidas . Deveria ser rejeitado de imediato por todas as nações convidadas a participar.

Em sua  Carta , o Conselho de Paz (BoP) afirma ser uma “ organização internacional que busca promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e garantir a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos ”. Se isso lhe parece familiar, não é por acaso, pois esse é o mandato das Nações Unidas. Criada após a Segunda Guerra Mundial, a ONU tem como missão central a manutenção da paz e da segurança internacionais.

Não é segredo que Trump demonstra um desprezo aberto pelo  direito internacional  e pelas Nações Unidas. Ele próprio o afirmou durante seu  discurso  na Assembleia Geral em setembro de 2025 e, recentemente,  retirou-se  de 31 entidades da ONU. Seguindo uma longa tradição da política externa americana, ele tem violado sistematicamente o direito internacional, incluindo o bombardeio de sete países no último ano, nenhum dos quais autorizado pelo Conselho de Segurança e nenhum dos quais realizado em legítima defesa, nos termos da Carta das Nações Unidas (Irã, Iraque,  Nigéria ,  Somália ,  Síria ,  Iêmen e  Venezuela ). Agora, ele reivindica  a Groenlândia , com uma hostilidade descarada e aberta contra os aliados dos EUA na Europa.

E quanto a esse Conselho de Paz?

Em resumo, trata-se de um juramento de lealdade a Trump, que almeja o papel de presidente do mundo e árbitro supremo. O  Conselho Executivo do BoP será composto  por doadores políticos, familiares e assessores de Trump. Os líderes das nações que aderirem terão a oportunidade de interagir e receber ordens de figuras como  Marco Rubio , Steve Witkoff,  Jared Kushner  e  Tony Blair . O magnata dos fundos de hedge e  mega-doador do Partido Republicano,  Marc Rowan, também terá participação. Mais importante ainda, qualquer decisão tomada pelo BoP estará sujeita à aprovação de Trump.

Se a farsa dos representantes não for suficiente, as nações terão que pagar US$ 1 bilhão por um “assento permanente” no Conselho. Qualquer nação que participe deve saber o que está “comprando”. Certamente não está comprando paz ou uma solução para o povo palestino (já que o dinheiro supostamente se destina à reconstrução de Gaza). Está comprando acesso ostensivo a Trump enquanto isso servir aos seus interesses. Está comprando a ilusão de influência momentânea em um sistema onde as regras de Trump são impostas por capricho pessoal.

A proposta é absurda, sobretudo porque pretende "resolver" um problema que já possui uma solução global há 80 anos. As Nações Unidas existem precisamente para evitar a personalização da guerra e da paz. Foram concebidas após a devastação de duas guerras mundiais para estabelecer a paz global com base em regras coletivas e no direito internacional. A autoridade da ONU deriva, corretamente, da  Carta das Nações Unidas,  ratificada por 193 Estados-membros (incluindo os EUA, ratificada pelo  Senado federal dos EUA em julho de 1945) e fundamentada no direito internacional. Se os EUA não desejam cumprir a Carta, a Assembleia Geral da ONU deveria suspender as credenciais americanas, como já fez com a  África do Sul do Apartheid  .

O “Conselho da Paz” de Trump é uma afronta flagrante às Nações Unidas. Trump deixou isso explícito, declarando recentemente que o Conselho da Paz “ poderia ”  de fato substituir as Nações Unidas. Essa declaração por si só deveria encerrar a discussão para qualquer líder nacional sério. Participar, após tal declaração, é uma decisão consciente de subordinar o próprio país à autoridade global personalizada de Trump. É aceitar, de antemão, que a paz não é mais regida pela Carta da ONU, mas por Trump.

Ainda assim, algumas nações, desesperadas para se aproximarem dos EUA, podem morder a isca. Devem lembrar-se das sábias palavras do Presidente John F. Kennedy em  seu discurso de posse  : "  Aqueles que totalmente buscaram o poder cavalgando nas costas do tigre acabaram dentro dele ".

O histórico mostra que a lealdade a Trump nunca é suficiente para aplacar seu ego. Basta observar o longo desfile de ex-aliados, conselheiros e nomeados de Trump que foram humilhados, descartados e atacados por ele no momento em que deixaram de lhe ser úteis.

Para qualquer nação, participar do Conselho da Paz seria uma tolice estratégica. A adesão a esse órgão causará danos duradouros à reputação. Mesmo depois de Trump deixar a presidência, a associação com essa farsa será vista como um sinal de falta de bom senso. Permanecerá como uma triste prova de que, em um momento crítico, um sistema político nacional confundiu um projeto de vaidade com diplomacia, desperdiçando US$ 1 bilhão no processo.

Em última análise, a recusa em aderir ao "Conselho da Paz" será um ato de respeito próprio nacional. A paz é um bem público global. A ordem internacional baseada na ONU, por mais imperfeita que seja, deve ser reparada por meio do direito e da cooperação, e não substituída por uma caricatura idealizada. Qualquer nação que valorize o direito internacional e o respeito pelas Nações Unidas deve recusar-se imediatamente a associar-se a essa farsa do direito internacional.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Carney rasga a máscara do império: acabou o pacto e a farsa, começou a chantagem

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em parte, uma mentira administrada

Por Gustavo Tapioca (Jornalista)

22 de janeiro de 2026

 
Mark Carney (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

O discurso de Donald Trump, em Davos, expôs ao vivo a falência moral e política do projeto que pretende impor ao mundo. Entre ameaças, chantagens e o velho delírio imperial travestido de “patriotismo”, Trump reafirmou a doutrina do ultimato: obedeça ou sofra as consequências.

Foi exatamente esse mecanismo — a transformação do comércio, da diplomacia e até da soberania em instrumentos de coerção — que Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, denunciou com precisão cirúrgica. Em Davos, Carney anunciou o que muitos evitavam dizer em voz alta: a “ordem baseada em regras” acabou. E, com ela, acabou o teatro.

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em parte, uma mentira administrada. Um teatro funcional. Um pacto silencioso para manter o mundo operando. Mas, no discurso de Mark Carney encenação é declarada morta. O que entra em seu lugar é a era Trump em estado puro: coerção, tarifas como arma, soberania sob ameaça e um imperialismo que já não precisa fingir que respeita limites.

A “ordem baseada em regras” era uma mentira útil — e nós aceitamos viver dentro dela - Carney não começa com diplomacia. Começa com uma sentença de sinceridade brutal.

Sim: nós sabíamos que a história da “ordem baseada em regras” era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes escapariam delas quando fosse conveniente. Sabíamos que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. Sabíamos que o direito internacional era invocado com rigor variável, dependendo de quem era a vítima e de quem era o acusado.

E, mesmo assim, o mundo seguia.

Porque aquela mentira tinha função. Era o “pacto” que permitia previsibilidade mínima. A farsa era o amortecedor. A hipocrisia era a engrenagem que evitava o colapso. Carney diz isso sem floreio: a hegemonia americana — apesar dos abusos — forneceu “bens públicos” ao sistema: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro relativamente estável, uma arquitetura de segurança coletiva e um conjunto de mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, diz Carney, “pusemos o letreiro na janela”. Participamos dos rituais. E, na maior parte do tempo, evitamos apontar o abismo entre o discurso e a realidade.

Até que veio o trumpismo.

O momento em que o império decide parar de fingir - O que Carney chama de “fim do pacto” é o que o mundo sente como vertigem histórica: não se trata apenas de mais um ciclo político em Washington. Trata-se de uma mutação do próprio comportamento imperial.

Antes, o império precisava do verniz moral. Precisava do idioma da “democracia”, da “liberdade”, das “regras”, da “responsabilidade”. Mesmo quando violava esse idioma, ele o preservava como instrumento de legitimidade.

O trumpismo rompe essa obrigação.

Ele devolve a política internacional ao terreno nu e cru da coerção: manda quem pode, obedece quem precisa. E não pede desculpas. Ao contrário: exibe a brutalidade como virtude.

Carney descreve o presente como o fim de uma “ficção agradável” e o começo de uma “realidade dura”. O que isso significa, na prática? Significa que já não existe nem sequer o teatro que sustentava o sistema.

O mundo saiu da hipocrisia administrada e entrou na arbitrariedade declarada.

Tarifa não é imposto: é ultimato. Comércio não é acordo: é arma - O trecho mais revelador do discurso de Carney é quando ele identifica a mudança de natureza da economia global.

As tarifas deixam de ser política comercial e passam a ser instrumento de coerção. Cadeias de suprimento deixam de ser planejamento e passam a ser mecanismo de submissão. A integração econômica deixa de ser cooperação e passa a ser um sistema de alavancas usado para punir, chantagear e reordenar o tabuleiro a partir do interesse do mais forte.

Essa é a doutrina trumpista em estado bruto: o mundo não é uma mesa de negociação — é um ringue de pressão. E quem controla o acesso a mercados, tecnologia e financiamento controla o destino de países inteiros.

Não há nada de “loucura” nisso, no sentido clínico. Há método. Há projeto. Há cálculo.

A “loucura” trumpista é, na verdade, a racionalidade da chantagem.

Tucídides volta a governar: “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem” - Carney recorre ao clássico para traduzir a barbárie moderna: o mundo voltou a ser lembrado diariamente do princípio de Tucídides — “os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem”.

Mas ele não recorre a isso para celebrar o cinismo. Pelo contrário: para denunciar o que o cinismo produz.

Porque, quando o mundo aceita esse princípio como “natural”, ele passa a viver de joelhos. O problema deixa de ser apenas o abuso do império; passa a ser a adesão resignada dos demais.

É aqui que Carney muda o eixo: o combate começa com a recusa de aceitar o abuso como destino.

A parábola do lojista: quando o mundo põe o cartaz na vitrine para evitar problema - Carney utiliza uma das imagens mais fortes do discurso: a história do lojista que coloca um cartaz na vitrine — um slogan em que ele não acredita — apenas para evitar problemas. Não é fé. É autopreservação. Não é convicção. É medo.

Essa parábola é o retrato do sistema internacional. Durante décadas, muitos países aceitaram o ritual por prudência: repetiram discursos vazios, assinaram papéis, fingiram equivalências, toleraram seletividades, aceitaram humilhações. Tudo para evitar o pior.

Carney está dizendo: isso acabou.

A era Trump não permite mais o luxo da encenação. Porque ela não se satisfaz com o cartaz na vitrine. Ela quer a loja inteira. Ela quer o estoque. Ela quer o balcão. Ela quer a rua. Ela quer o mapa.

Groenlândia: quando o mapa vira mercadoria, a soberania vira detalhe - Há um símbolo que atravessa o momento global: a obsessão trumpista com a Groenlândia e o retorno de um discurso expansionista que parecia enterrado no século XX.

Carney reafirmou apoio à soberania da Groenlândia e da Dinamarca — e o gesto vale como alerta: se é preciso reafirmar soberania em público, é porque a soberania está sendo tratada como negociável.

Quando o império se permite brincar com território, o mundo inteiro entende a mensagem: ninguém está fora de risco. A soberania deixa de ser princípio e vira variável. O direito vira retórica. E o mapa passa a ser reorganizado pelo músculo, não pela norma.

Esse é o salto civilizatório para trás que o trumpismo tenta normalizar.

“Potências médias” ou colônias do século XXI: a convocação de Carney é um grito de sobrevivência - Carney não oferece consolo. Oferece tarefa.

A única resposta possível, ele sugere, é a união das chamadas “potências médias” — países que não são superpotências, mas têm peso, capacidade de coalizão e algum grau de autonomia estratégica — para impedir que o mundo seja reduzido ao cardápio de um punhado de impérios.

A frase que circulou como síntese brutal do momento — “se você não está à mesa, está no cardápio” — é a chave.

O trumpismo reorganiza a política internacional como banquete. E a pergunta, para países médios, é objetiva: vamos sentar na mesa ou aceitar virar prato?

A palavra proibida em Davos: honestidade - O fecho conceitual do discurso é simples e devastador: “o poder dos menos poderosos começa com honestidade”.

Honestidade, aqui, é abandonar a ilusão de que “cumprir regras” protege. É reconhecer que alianças não são seguros contra agressão. É entender que a integração econômica pode virar algema. É admitir que a norma internacional existe, mas vale — cada vez mais — apenas onde o poder permite.

A honestidade que Carney propõe é, no fundo, uma ruptura psicológica: parar de fingir que o império é árbitro e aceitar que ele se comporta como proprietário.

O Brasil na mira: soberania, tarifas, chantagem e a correia de transmissão bolsonarista - É aqui que o discurso de Davos encontra o Brasil com precisão cirúrgica.

O trumpismo não é um fenômeno isolado. Ele se espalha por meio de satélites: governos de extrema direita e elites subordinadas que repetem o roteiro do caos, da guerra cultural e da submissão econômica. O bolsonarismo, no Brasil, foi exatamente isso: a tentativa de rebaixar o Estado nacional a uma posição de dependência e obediência, enquanto destruía por dentro a democracia e a capacidade de decisão soberana.

A era Trump exposta por Carney é a era em que países como o Brasil podem ser empurrados para três armadilhas ao mesmo tempo:

1.       chantagem comercial (tarifas, restrições, condicionantes);

2.       chantagem tecnológica (dependência de plataformas, dados, infraestrutura);

3.       chantagem política (interferência, deslegitimação institucional, corrosão democrática).

Quando Carney diz que o pacto acabou, ele está dizendo também que o Brasil não pode mais operar como figurante de uma ficção. Porque, na realidade dura do trumpismo, a ingenuidade custa soberania.

E a tragédia brasileira é que existe, aqui, uma força política treinada para atuar como correia de transmissão desse projeto: um campo de extrema direita que já tentou implodir a democracia e que trabalha para reduzir o país a uma peça da engrenagem imperial. Não por patriotismo, mas por alinhamento servil.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

China reafirma defesa da ONU após convite de Trump para integrar Conselho da Paz sobre Gaza

Governo chinês reage a convite do presidente dos EUA para integrar Conselho da Paz de Gaza e reforça compromisso com o multilateralismo

21 de janeiro de 2026



 

Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, durante reunião na Coreia do Sul - 30/09/2025 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

247 - A China declarou nesta quarta-feira (21) que seguirá defendendo a ordem internacional baseada nas Nações Unidas, após a confirmação de que recebeu um convite para integrar o chamado Conselho da Paz, idealizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. As informações são do jornal O Globo

A manifestação ocorre em meio a questionamentos globais sobre a iniciativa americana e seus possíveis efeitos sobre o sistema multilateral. A reação de Pequim acontece um dia após a Casa Branca tornar público o convite feito ao governo chinês para participar do novo órgão internacional proposto por Trump. 

Reação chinesa ao plano dos EUA

Durante coletiva, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, reiterou a posição histórica do país. “Não importa como muda a situação internacional, a China defende firmemente o sistema internacional com as Nações Unidas em seu centro, uma ordem internacional baseada nos objetivos e princípios da Carta da ONU”, afirmou.

Pequim confirmou ter recebido o convite, mas não indicou se irá aceitá-lo. A China é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e, embora defenda reformas na organização, mantém apoio ao multilateralismo liderado pelas Nações Unidas.

Críticas de Trump às Nações Unidas

Questionado por jornalistas na Casa Branca sobre a possibilidade de o novo conselho substituir a ONU, Trump respondeu: “Talvez sim”. Em seguida, criticou o desempenho do organismo internacional. “A ONU simplesmente não tem sido muito útil. Eles deveriam ser capazes de resolver essas guerras. Mas acredito que devemos permitir que a ONU continue, porque o potencial é muito grande”, declarou o presidente dos Estados Unidos. As declarações reforçaram preocupações de diplomatas e aliados históricos de Washington, especialmente na Europa, sobre uma possível tentativa de esvaziamento do papel da ONU.

Conselho da Paz e o futuro de Gaza

O Conselho da Paz foi inicialmente concebido para supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza no pós-guerra, mas, segundo informações da AFP, sua carta constitutiva não limita a atuação ao território palestino. O plano integra a segunda fase do acordo de cessar-fogo proposto pelos Estados Unidos, que prevê a desmilitarização do Hamas, criação de uma governança tecnocrática e reconstrução da região.  O conselho será presidido pelo próprio Trump e prevê mandatos de três anos para seus membros. Para adesão permanente, os países deverão contribuir com até US$ 1 bilhão.

Resistência europeia e posições divergentes

Diplomatas europeus expressaram preocupação com a proposta. Um representante ouvido pela Reuters afirmou que o conselho equivale a uma “Nações Unidas de Trump”, por ignorar fundamentos da Carta da ONU. A França e a Noruega anunciaram que não participarão da iniciativa. A presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, alertou para os riscos de enfraquecer o sistema multilateral. “E se questionarmos isso, recuamos para tempos muito, muito, muito sombrios”, disse à Sky News.

Impactos globais e crise humanitária em Gaza

Apesar das adesões anunciadas por diversos países, o futuro de Gaza segue incerto. O Hamas ainda controla parte significativa do território e se recusa a se desarmar. A ONU alertou que a crise humanitária está longe de terminar, com cerca de 80% das edificações destruídas ou danificadas.

Na madrugada desta quarta-feira, ataques israelenses mataram ao menos 11 palestinos, incluindo crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A organização internacional também destacou que famílias sobreviventes enfrentam escassez de alimentos, abrigo e condições mínimas de sobrevivência durante o inverno.

EM TEMPO: A ONU deve ser  melhorada, fortalecida e respeitada, nunca esvaziada. O que deveria ser criado seria um Conselho de Paz para reconstrução de Gaza e reconhecimento do Estado Palestino. Mas, os ataques bélicos de Israel não cessam, apesar da repulsa da comunidade internacional.  Portanto, a proposta de Trump é uma armadilha que o governo brasileiro, bem como os demais países não devem cair. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Celso Amorim indaga: como é possível viver num mundo sem regras?

Em artigo na The Economist, assessor do presidente Lula alerta para erosão do direito internacional e defende soberania, diálogo e integração regional

19 de janeiro de 2026

Assessor especial da Presidência, Celso Amorim 15/08/2024 (Foto: REUTERS/Andressa Anholete)

Redação Brasil 247

247 – O assessor internacional Celso Amorim, principal formulador da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirma que o mundo atravessa uma fase perigosa de erosão das normas que regulam as relações entre países e questiona até onde a humanidade pode avançar num cenário de crescente insegurança global. Em reflexão de forte impacto político e histórico, ele sugere que a geopolítica entrou num estágio em que a imprevisibilidade se converteu em instrumento de poder, abrindo caminho para intervenções, ameaças e disputas que corroem a estabilidade internacional.

A análise está no artigo “Como é possível viver num mundo sem regras?”, publicado na revista The Economist nesta segunda-feira 19. Amorim parte do episódio ocorrido em Caracas, capital da Venezuela, na madrugada de 3 de janeiro, quando o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado. Para ele, aquele momento não representou apenas uma crise local, mas o abalo de um princípio que muitos sul-americanos consideravam consolidado: a certeza de que o continente permaneceria como uma zona de paz.

Caracas e a quebra simbólica da paz sul-americana

Ao descrever o episódio em Caracas, Amorim afirma que algo mais profundo do que a própria violência foi atingido. Segundo ele, a visão de chamas e aeronaves militares sobre uma capital sul-americana criou uma cena “tragicamente surreal”, por ser incomum para a região e, ao mesmo tempo, por remeter ao tipo de instabilidade que muitos imaginavam restrita a outras geografias.

Ele sustenta que o que se rompeu ali foi a sensação de continuidade histórica de um continente protegido, por tradição e por instrumentos jurídicos internacionais, de ações de força abertas. E alerta que a erosão da paz regional pode produzir efeitos prolongados, porque modifica a percepção coletiva sobre segurança, estabilidade e soberania no espaço sul-americano.

O sequestro de Maduro e a sensação de retorno a uma era de brutalidade

Amorim utiliza uma imagem dura ao se referir às cenas do sequestro do presidente Nicolás Maduro, comparando a operação à captura de Saddam Hussein, ex-líder do Iraque, e contrastando com os golpes de Estado do passado na América Latina. Para ele, há algo particularmente inquietante na simbologia do episódio: a ausência de qualquer “halo de heroísmo” que, em diferentes momentos históricos, cercou resistências dramáticas na região.

No texto, Amorim menciona até mesmo o golpe de 1973 no Chile, quando o presidente Salvador Allende morreu durante a derrubada de seu governo, lembrando que aquele acontecimento, embora sangrento, foi envolvido por uma dimensão histórica de resistência que, segundo ele, não aparece na crise atual. A comparação serve para reforçar a tese central do artigo: a política internacional estaria entrando num estágio mais cínico e mais brutal, em que a força passa a se impor sem o constrangimento mínimo das normas que sustentaram a ordem do pós-guerra.

O direito internacional em ruínas e o risco de um mundo hobbesiano

Para Amorim, o ponto central é que pilares do direito internacional estão sendo corroídos ao mesmo tempo, deixando os países diante de um ambiente menos previsível e mais agressivo. Ele sustenta que instrumentos construídos ao longo do século 20, destinados a organizar a segurança coletiva, disciplinar o comércio global e promover direitos humanos, estariam sendo enfraquecidos numa velocidade alarmante.

Segundo ele, o mundo se aproxima de um estado semelhante ao descrito por Thomas Hobbes, no qual a força militar volta a ser o principal determinante da independência real de um país, e no qual a guerra passa novamente a ser vista como um meio legítimo de transformação política.

“Quando não há lei governando as relações entre países, a imprevisibilidade se torna uma fonte formidável de poder e intimidação”, escreve Amorim, ao destacar que a instabilidade, por si só, vira uma arma.

“Princípio da incerteza”: quando a imprevisibilidade vira método de dominação

Um dos trechos centrais do artigo é a analogia com a física quântica. Amorim afirma que o chamado “princípio da incerteza”, formulado por Werner Heisenberg, pode ser aplicado à geopolítica contemporânea, porque os Estados passaram a agir de forma que impede qualquer previsão estável sobre o que ocorrerá no dia seguinte.

Ele explica que, assim como na física a posição e o movimento de uma partícula não podem ser conhecidos com precisão ao mesmo tempo, na política internacional atual já não se consegue medir de maneira confiável o comportamento de potências e governos, tornando plausível a ideia de que “qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento”.

Essa condição, sustenta ele, não é neutra: ela favorece quem exerce maior poder militar, tecnológico e financeiro, já que o medo do imprevisível opera como mecanismo de coerção indireta sobre países mais vulneráveis.

A resposta do Brasil: diversificação de parcerias e autonomia tecnológica

Diante desse cenário, Amorim defende que países como o Brasil precisam reforçar escolhas estratégicas baseadas na diversificação de alianças e na ampliação da autonomia tecnológica. Ele afirma que o contexto atual reforça o caminho já adotado pelo Brasil de aprofundar a cooperação com parceiros variados, da América Latina ao Brics, sem subordinação e sem aceitar a lógica de alinhamentos automáticos.

Ele sustenta que, para grande parte do mundo, a melhor resposta será investir em maior independência tecnológica, ao mesmo tempo em que se amplia a rede de relações internacionais em bases soberanas.

“O investimento na diversificação de parcerias e na autonomia tecnológica continuará sendo o melhor curso”, afirma, ao indicar que a dependência excessiva de um único centro de poder pode se tornar uma vulnerabilidade em tempos de instabilidade global.

Multilateralismo, soberania e não intervenção como princípios inegociáveis

Mesmo diante do colapso parcial das regras internacionais, Amorim insiste que não se pode abandonar os princípios de soberania, não intervenção e solução pacífica de conflitos. Para ele, a história demonstra que intervenções estrangeiras, sobretudo militares, não resolvem crises: elas aprofundam tensões, destroem instituições e criam novas ondas de instabilidade.

Ele defende que a prioridade deve ser sempre a busca de soluções pacíficas por meio do diálogo e reforça que o Brasil tem um compromisso constitucional com a paz e com a integração regional.

“Devemos aprender com a história. Mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras, a intervenção estrangeira — especialmente a militar — não é a resposta”, afirma, deixando clara sua posição contra aventuras de força e contra a normalização da guerra como instrumento político.

A aposta existencial do Brasil na paz e na integração regional

Amorim recorda que a Constituição brasileira estabelece o uso da energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos, além de afirmar como princípios permanentes a solução pacífica de controvérsias e a integração regional. Ele trata essa escolha como uma orientação estratégica de longo prazo e sustenta que o Brasil deve preservá-la mesmo sob pressões internacionais e em tempos adversos.

“O Brasil fez uma aposta existencial na paz”, escreve, destacando que essa orientação é parte estruturante do projeto nacional e não um detalhe circunstancial de governo.

Nesse ponto, ele reforça que a paz não pode ser vista como fraqueza, mas como um projeto ativo de soberania, desenvolvimento e estabilidade regional, que exige diplomacia, presença e capacidade de articulação internacional.

Mercosul-União Europeia e novos acordos como sinais de que negociar ainda vale

Ao abordar o campo econômico, Amorim afirma que o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ganha ainda mais significado no atual cenário de instabilidade, justamente por demonstrar que negociações longas e difíceis ainda podem produzir resultados.

Ele lembra que o processo levou décadas e que o resultado pode não satisfazer plenamente todos os envolvidos, mas considera que o acordo simboliza um ponto essencial: ainda existem caminhos que não passam pela força e pela ameaça, e sim pela negociação respeitosa.

“Isso mostra que negociações respeitosas, mesmo quando longas e custosas, ainda são a melhor forma”, afirma, reforçando o valor estratégico de manter canais multilaterais e instrumentos diplomáticos ativos.

Amorim também menciona que o Mercosul concluiu acordos comerciais com Singapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio, formada por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, indicando uma ampliação do horizonte internacional do bloco e reforçando o papel da integração regional como plataforma de projeção global.

Reforma das instituições internacionais e a voz do Sul Global

Na parte final do texto, Amorim defende que o mundo precisa avançar na reforma das instituições internacionais, sobretudo para enfrentar o déficit de representação do Sul Global. Ele afirma que a estabilidade internacional depende de um equilíbrio mais justo e da participação efetiva de países historicamente marginalizados nos processos decisórios globais.

Ele também destaca que a Europa precisa ter uma voz autêntica e independente no cenário global, contribuindo para uma multipolaridade positiva e aberta, sem submissão e sem repetição automática de políticas ditadas por centros hegemônicos.

Segundo Amorim, o Brasil seguirá trabalhando com Europa, China e outros atores comprometidos com o multilateralismo e com a primazia do direito internacional, na esperança de impedir que o mundo avance ainda mais rumo à violência e à anarquia.

“Que juntos possamos evitar uma descida ainda maior rumo à violência e à anarquia”, afirma, encerrando seu alerta como um chamado à reconstrução das regras antes que o planeta normalize definitivamente a era do mais forte.