quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

8 de janeiro: o movimento subterrâneo do golpismo é permanente

A invasão de Brasília expôs os figurantes de um golpe que continua sendo articulado em todo o país”, escreve Moisés Mendes (Jornalista)

07 de janeiro de 2026



 

Atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023 (Foto: Fellipe Sampaio /SCO/STF)

Davi Alcolumbre e Hugo Motta fizeram as contas e decidiram que talvez seja melhor se afastar dos eventos sobre o 8 de janeiro. Os dois são as figuras mais visíveis dessas ausências. Mas muita gente está mandando dizer: me deixem fora disso.

Alcolumbre e Motta devem apresentar atestado porque o cálculo político a ser feito, em ano de eleição, é o da sobrevivência. Chega de defesa da democracia. Agora, é disputar voto para a direita, mesmo que no caso de Alcolumbre o mandato lhe assegure mais quatro anos no Senado.

É preciso juntar voto para toda a direita com os eleitores ainda fiéis ao golpismo. Não mexam muito com eles. Hugo Motta, candidato à reeleição na Câmara, necessita do eleitor para a própria sobrevivência com votação inquestionável. 

Mas o que importa para os dois é fortalecer a velha direita e assim ficar sempre por perto do que a extrema direita impositiva determina. As duas direitas se misturaram sem dilemas de consciência.

A direita antiga, cada vez mais subjugada, precisa manter Lula sob controle e o Supremo sob ameaça permanente. Não faz bem ir a eventos, no Planalto e no STF, que tentam preservar a memória do 8 de janeiro como o episódio que mais expressa o fracasso do fascismo e a vitória das instituições.

Motta, Alcolumbre e outros do vasto e vago campo democrático poderão até se reaproximar de Lula, de Moraes e do Supremo mais adiante. Mas não agora, em eventos pela democracia.

Querem desfrutar da retórica genérica dos bons modos protocolares, mas sem afrontar em cerimônias efusivas o fascismo capilarizado em suas bases, o que ajuda a manter Bolsonaro como morto vivo até em pesquisas do Datafolha.

O golpismo permanente ainda soluça, para provar que pode ser acionado com mais força esse ano, enquanto Moraes responde dizendo que sabe dessas manobras, mesmo as mais dissimuladas. 

Sabe que Malafaia vive como bolsonarista intenso, mesmo que pareça só na moita, tanto que mandou que seja intimado a explicar por que chamou os generais do alto comando do Exército de cambada de frouxos e covardes e omissos que não honram a farda que vestem.

Talvez não aconteça nada com Malafaia, que produziu a ofensa em abril, mas Moraes avisa que, apesar das tentativas de cercá-lo, não se sente intimidado. O ministro e o sistema de Justiça podem se sentir exauridos, mas o serviço ainda está incompleto.

O 8 de janeiro é a data que mais representa a tentativa de golpe, como teatro, mas não tem as principais figuras da trama daquele dia. Os personagens da invasão de Brasília não são nem coadjuvantes nas tentativas de explicar o que aconteceu. 

Foram figurantes levados a Brasília por gente ainda impune, os financiadores que repassaram recursos a laranjas e transformaram essa dinheirama em dinheiro miúdo repartido entre os manés. 

Os grandes financiadores do golpe, não só no 8 de janeiro, são os personagens inalcançados até agora. Continuam atuando em acampamentos virtuais do bolsonarismo, com bandeiras às costas, e a maioria goza da certeza de que escapará.

Alcolumbre e Motta não podem ficar mal com essa gente, que até 2018 atuava em suas cidades médias e pequenas apenas como líderes reacionários, que todo mundo conhecia, e em algum momento assumiram a condição de militantes fascistas.

No evento do ano passado no Planalto, no segundo aniversário da invasão, o ministro Edson Fachin leu essa frase de discurso do então presidente do STF, Luís Roberto Barroso:

“Os atentados de 8 de janeiro foram a face visível de um movimento subterrâneo que articulava um golpe de Estado”. 

Os integrantes dessa face visível foram expostos como criminosos e condenados a até 17 anos de prisão. Mas o movimento golpista subterrâneo continua. E nem é tão subterrâneo assim.

EM TEMPO: Na quinta-feira 08.01.2026 haverá manifestações nas principais cidades brasileira em defesa da democracia e da soberania e contra a anistia para os golpistas.  

domingo, 4 de janeiro de 2026

Kamala Harris condena agressão de Trump à Venezuela e denuncia roubo de petróleo

 

Ex-vice-presidente afirma que ofensiva é “ilegal e imprudente”, acusa motivação ligada ao petróleo e alerta para risco de guerra sem plano de saída

04 de janeiro de 2026



 

Kamala Harris discursa na Howard University em Washington (Foto: Kevin Lamarque / Reuters)

 



Redação Brasil 247

247 – A ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, criticou duramente a atuação do presidente Donald Trump na Venezuela e afirmou que a ofensiva não melhora a vida dos norte-americanos nem fortalece a segurança do país. Em declaração pública, Harris disse que “as ações de Donald Trump na Venezuela não tornam a América mais segura, mais forte ou mais acessível”, apontando que a operação representa um risco militar, político e econômico sem qualquer benefício concreto para a população dos Estados Unidos.

Logo no início de sua manifestação, Kamala reconheceu a gravidade do regime venezuelano, mas rejeitou o argumento usado para justificar a intervenção. “O fato de Maduro ser um ditador brutal e ilegítimo não muda o fato de que essa ação foi ilegal e imprudente”, afirmou, sustentando que o episódio repete padrões históricos de intervenções que terminam em caos e geram custos internos elevados.

 “Já vimos esse filme antes”, diz Harris ao comparar com guerras por mudança de regime

Ao enquadrar a operação como um roteiro repetido, Harris fez um alerta direto sobre o histórico de intervenções vendidas como demonstrações de força, mas que produzem instabilidade prolongada. “Nós já vimos esse filme antes. Guerras por mudança de regime ou por petróleo que são vendidas como força, mas se transformam em caos — e as famílias americanas pagam o preço”, declarou.

A vice-presidente também afirmou que a população está exausta de narrativas oficiais que prometem ganhos estratégicos, mas geram frustração. “O povo americano não quer isso, e está cansado de ser enganado”, disse, sugerindo que a insistência em aventuras externas contraria a vontade da maioria e aprofunda a descrença na política externa conduzida pela Casa Branca. 

“Não é sobre drogas ou democracia. É sobre petróleo”, afirma a vice-presidente

O ponto mais incisivo do pronunciamento de Harris foi a acusação de que a ofensiva não tem como motivação real o combate às drogas nem a defesa da democracia. “Isso não é sobre drogas ou democracia. É sobre petróleo e o desejo de Donald Trump de se colocar como o homem forte regional”, disparou.

Na sequência, ela apontou contradições do presidente ao questionar a coerência moral do discurso oficial. Harris afirmou que, se Trump realmente se preocupasse com drogas e democracia, “ele não perdoaria um traficante de drogas condenado” nem “colocaria de lado a oposição legítima da Venezuela enquanto busca acordos com os aliados de Maduro”.

Ao mencionar “traficante condenado” e “acordos com aliados de Maduro”, Harris sugeriu que a Casa Branca estaria operando uma política ambígua: ao mesmo tempo em que promove ações agressivas, abriria espaço para negociações que enfraquecem atores democráticos internos e beneficiam interesses específicos. 

Risco militar, custo bilionário e ausência de justificativa legal

Kamala Harris também elevou o tom ao afirmar que Trump está expondo militares a perigo e comprometendo recursos públicos sem base jurídica clara ou estratégia de encerramento. “O presidente está colocando tropas em risco, gastando bilhões, desestabilizando uma região e oferecendo nenhuma autoridade legal, nenhum plano de saída e nenhum benefício em casa”, afirmou.

A crítica atinge três pilares essenciais: legitimidade, viabilidade e impacto doméstico. Ao dizer que não há “autoridade legal” nem “plano de saída”, Harris atribui à operação um caráter improvisado e potencialmente inconstitucional. Ao afirmar que não há “benefício em casa”, ela reforça a ideia de que a política externa estaria sendo conduzida em detrimento das urgências econômicas enfrentadas pelos trabalhadores norte-americanos.

“A América precisa de liderança que coloque o povo em primeiro lugar”

Em sua conclusão, Harris deslocou o debate para as prioridades internas e afirmou que os Estados Unidos precisam de um governo concentrado em reduzir custos, fortalecer alianças e respeitar o Estado de Direito. “A América precisa de uma liderança cujas prioridades sejam reduzir custos para as famílias trabalhadoras, fazer cumprir o Estado de Direito, fortalecer alianças e — o mais importante — colocar o povo americano em primeiro lugar”, disse.

O pronunciamento amplia a pressão política sobre Trump ao enquadrar a crise na Venezuela como uma escolha que, na visão da vice-presidente, sacrifica estabilidade internacional e segurança militar para atender interesses estratégicos e pessoais. Ao mesmo tempo, Harris tenta posicionar uma alternativa de política externa baseada em alianças, legalidade e foco doméstico — um contraste direto com o que ela classifica como uma intervenção “ilegal e imprudente”.

Com isso, a ex-vice-presidente lança uma das críticas mais severas já feitas a Trump sobre a Venezuela, ao mesmo tempo em que aponta o risco de que uma ação sem transparência e sem objetivo definido produza não apenas instabilidade regional, mas também custos duradouros para o próprio povo norte-americano. 

EM TEMPO: Kamala Harris é ex-vice-presidente dos EUA, isto é, no governo Joe Biden, a qual foi candidata a Presidente na Eleição de 2024, perdendo para Donald Trump. A crítica de Harris, do partido Democrata, é muito forte para o contexto dos EUA e mostra que Trump não tem unanimidade para suas ações terroristas e enfrenta baixa popularidade, além do  escândalo sexual causado pelo caso Epstein. Lembrando que este ano tem eleição nos EUA para o Poder Legislativo e Trump pode perder as eleições parlamentares, ficando com minoria no Parlamento.   O ataque terrorista do governo Trump contra à Venezuela e o sequestro do seu presidente Maduro (apesar de ser anti-democrático), não só agride a soberania de uma nação, como também a própria constituição dos EUA. Portanto, foi uma agressão ilegal e imprudente como afirma o editorial do jornal NYT (New York Times). Convém lembrar que neste domingo 04.01.26, aconteceram milhares de manifestações em  diversas cidades dos EUA pelo "FORA TRUMP". Ok, Moçada!  

sábado, 3 de janeiro de 2026

Repúdio total ao ataque terrorista dos EUA à Venezuela!

3 de janeiro de 2026














Organizar a resistência anti-imperialista!

Nota Política do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) vem a público repudiar a agressão dos EUA contra a Venezuela ocorrida na madrugada deste sábado, 03 de janeiro, em diversas cidades do país, em especial nos estados Miranda, Aragua e La Guaira, bem como o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores.

Esse atentado contra a soberania nacional e popular na Venezuela, promovido pelo governo Trump, tem como objetivo apoderar-se dos recursos estratégicos, em especial o petróleo e minerais raros, além de combater os avanços que a revolução bolivariana proporcionou ao movimento popular nos últimos anos. Trump pretende estabelecer um protetorado imperialista no continente, de modo a coordenar futuros ataques e ameaças aos governos que não sigam as ordens de Washington. É inadmissível que forças estrangeiras sequestrem Maduro e a sua companheira. Trata-se de um ato de terrorismo internacional.

Essa agressão é parte de uma estratégia de dominação de todo o continente latino-americano e não ficará restrita apenas à Venezuela. Colômbia, Cuba, Nicarágua certamente serão os próximos alvos na América Latina. No cenário internacional, seguem também as ameaças ao Irã.

O governo brasileiro, até aqui, manteve uma postura acanhada e pusilânime em relação aos sinais da iminente agressão dos EUA, capitulando diante das chantagens e pressões externas que buscavam isolar o governo venezuelano.

A tentativa de impor o domínio estrangeiro sobre a Venezuela em aliança com as oligarquias fascistas é um sinal de recrudescimento das tensões e conflitos que estão postos e ameaçam a todos os povos da região.

Expressamos nossa total solidariedade ao povo venezuelano e seu direito à autodeterminação e legítima defesa contra os ataques bélicos promovidos pelos EUA, assim como a necessária reação contra aqueles que tentam sabotar e apoiar a invasão estrangeira no território venezuelano. Numa agressão imperialista não existe meio termo: ou se solidariza com o povo agredido e atacado ou se é cúmplice da agressão.

A ação imperialista deve ser respondida com a mais veemente manifestação de repulsa ao intervencionismo imperialista e solidariedade ao povo venezuelano em seu legítimo direito de defesa e luta por sua liberdade.

Convocamos toda a nossa militância a somarem forças nos atos e mobilizações populares contra a agressão terrorista promovida pelo governo dos EUA!

Pela autodeterminação do povo Venezuelano!
Pela defesa da soberania nacional e popular na Venezuela!
Pela imediata libertação do presidente Maduro e de Cilia Flores!
Fora ianques da América Latina!
Mobilizar e organizar a resistência anti-imperialista!

PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO-PCB
Comissão Política Nacional do Comitê Central

EM TEMPO: Apesar do presidente Maduro não ser democrático, não devemos apoiar o sequestro dele e de sua esposa, quando se sabe que o objetivo do governo Trump, dos EUA, consiste em tomar as riquezas minerais do país vizinho. Convém lembrar que o que Maduro fazia na Venezuela, Bozo queria fazer da mesma forma no Brasil. Porém,  a justiça, os movimentos populares e o governo Lula, foram mais eficazes no combate a extrema-direita. A reação do governo Lula está inserida no campo dos limites do próprio governo, uma vez que a situação geopolítica é muito sensível, a qual exige bastante cautela.  Ainda não se sabe dos detalhes do ataque terrorista dos EUA. Portanto, carece de uma análise cuidadosa do ocorrido, uma vez que as Forças Armadas da Venezuela, detém de um razoável poderio bélico, mas não houve reação. O que ocorreu? Houveram informantes? Houve combinação? Há quem diga que foi uma "vitória de pirro"  de Trump. Vide vídeos a seguir:
https://www.youtube.com/watch?v=iZbUZCBIDOo;
https://www.youtube.com/watch?v=nF7Vf1ob5bo


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Sucessão presidencial: China e EUA disputam Brasil em 2026

A luta entre as duas potências para atrair o Brasil já está em curso.

Por César Fonseca (Repórter de política e economia)

02 de janeiro de 2026



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Os presidentes dos Estados Unidos e da China, Donald Trump e Xi Jinping, respectivamente, evidenciaram suas prioridades geopolíticas estratégicas na América Latina, que buscarão implementar em 2026, pelo que prenunciaram ao longo de 2025: ambos desejam o Brasil como parceiro preferencial por se tratar do país latino-americano mais forte economicamente, dotado de riquezas potenciais das quais nem China nem Estados Unidos podem abrir mão para continuar sua luta pela hegemonia internacional.

A luta entre as duas potências para atrair o Brasil já está em curso.

Washington, com sua nova estratégia de segurança nacional, reaviva a Doutrina Monroe para ter maior poder de influência sobre o gigante brasileiro; o tarifaço trumpista demonstrou que os americanos, conforme flexibilidade adotada pelo titular da Casa Branca, cuidam de tratar o Brasil com luvas de pelica, enquanto, por exemplo, baixa o cacete na Venezuela e na Colômbia, com discurso radical, seguido de mobilização militar no Caribe e no Pacífico, para ampliar controle sobre petróleo na região.

O pragmatismo trumpista, ao que se vê, abandonou aquele que esperava ser seu aliado: Jair Bolsonaro; a firmeza da Justiça brasileira, afirmando sua soberania, sintonizada pelo discurso de Lula, nesse sentido, cujo resultado prático é Bolsonaro na cadeia, com pena de 27,3 anos, convenceu Trump de que o líder brasileiro é Lula.

Trump, como denotaram notícias da Casa Branca, explicitou sua realpolitik: disse que gosta de ganhadores, não de perdedores; os Bolsonaro são os perdedores; Lula é o vencedor e, pela realpolitik trumpista, a Casa Branca, com o presidente americano, fez a sua escolha, como os fatos indicam: Lula pode ser o candidato de Trump, com um Congresso dominado pela direita e ultradireita, favorecidas pelas emendas parlamentares de R$ 61 bilhões, de modo a evitar supremacia da esquerda no Legislativo e afogar o presidencialismo constitucional com semipresidencialismo inconstitucional.

Nesse sentido, Trump clarifica a verdade histórica que segue os dois principais partidos americanos – Democrata e Republicano –, em matéria de política externa; o ex-presidente Joe Biden, democrata, apostou em Lula em 2022, barrando tentativa golpista bolsonarista, porque o lulismo, aliado dos democratas nos Estados Unidos, não radicalizou contra as políticas neoliberais emergentes pós-golpe neoliberal pró-americano de 2016, que consolidou políticas privatistas e reformas trabalhistas conservadoras, adequadas aos interesses do capital americano e dos seus sócios no Brasil.

Trump, vitorioso sobre Biden em 2024, embora não tenha dialogado naquele ano com Lula, não se viu ameaçado pelo petismo quanto à retomada da estatização prometida – mas não cumprida – por Lula em campanha eleitoral; esse detalhe, certamente fruto de pressões de Washington, ajudaria na química política que se estabeleceria entre Lula e Trump durante a última reunião anual da ONU, quando ambos levantaram a bandeira branca para discutir o tarifaço; a flexibilidade do protecionismo trumpista produziu novo modus operandi político entre os dois presidentes, cujos resultados, por enquanto, são uma Pax Brasil-EUA, que pode ou não se ampliar, a depender das relações Brasil-China a partir de 2026, pois a prioridade de Trump é afastar a América Latina do BRICS, algo que, certamente, está incomodando o presidente chinês, Xi Jinping.

TENSÃO NO AR: CHINA NÃO ABRE MÃO DA AMÉRICA LATINA - A disputa Xi Jinping–Trump pela América Latina é feroz e tende a se desembocar na disputa presidencial de 2026.

Assim que Trump divulgou a nova Doutrina Monroe, a estratégia de Washington para o século 21, a China publicou também seu documento geopolítico estratégico para a América Latina, reafirmando suas posições das quais não pretende se afastar; Xi Jinping, para tanto, reforçou sua proposição de ampliar a Rota da Seda – projeto chinês de abarcar o mundo com paciência confuciana – e renovou convite a todos para se aproximarem mais da China, inclusive os Estados Unidos, em favor de maratona de cooperação global multilateral.

Xi destacou que os chineses não desistirão da América Latina, e as armas que Pequim utilizará, no plano econômico, já estão dadas: ampliação da oferta monetária global de moeda chinesa, jogando a taxa de juros abaixo de zero, graças à força financeira de que dispõe mediante bancos públicos chineses, comerciais e de investimentos; os EUA não aguentam essa competição; em 2025, a China cresceu 5%, prometendo repetir a façanha, ainda mais ousada, em 2026, com planejamento e projetamento revolucionários, ocupando a América Latina; os chineses, nesse campo, não têm competidores, quando o capitalismo americano está envolvido pelas desconfianças generalizadas decorrentes das formações de bolhas especulativas nos setores de inteligência artificial; o assunto domina as bolsas internacionais no Ocidente em instabilidade aguda, a mobilizar Trump para guerras na América Latina, embora tenha prometido, em campanha eleitoral, não agir mais nesse sentido; certamente, o clima global instável refletirá no Brasil, que está desembolsando R$ 1 trilhão/ano para pagar juros Selic de 15% sobre a dívida pública, com reflexos explosivos no cenário da financeirização especulativa em tempo eleitoral, com virulência desconhecida.

XI ABALA AGRONEGÓCIO NO AMBIENTE DA FINANCEIRIZAÇÃONeste início de ano novo, o agronegócio treme de medo com a decisão da China de adotar salvaguardas comerciais quanto à importação da carne brasileira; trata-se de pressão meramente econômica ou aí guarda-se algum conteúdo político, como pressão da China para que o Brasil não se transforme em refém de Washington?

Pequim fixou cota de importação de 1,16 milhão de toneladas anuais, sendo que o que ultrapassar esse limite pagará tarifa de 55%; somada à tarifa normal já existente para exportar carne à China, de 12%, a partir de 2026 até 2028 o agronegócio brasileiro sofrerá tarifa acumulada de 67% (55% + 12%), como preço para continuar exportando 40% da sua produção ao gigante asiático; com a decisão, na virada do ano, imposta pelo Ministério do Comércio da República Popular da China (MOFCOM), o agronegócio perde anualmente 3 bilhões de dólares.

Os agricultores estão abalados diante da retração forçada das performances extraordinárias que se registram na comercialização da carne: em 2025, segundo a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias de Carnes), o Brasil exportou 18 bilhões de dólares, sendo 55% para o mercado chinês, obtendo receita de 9 bilhões de dólares; os números demonstram a dependência do agro em relação à China: em 2024, receita de 5,4 bilhões de dólares; em 2025, 8,02 bilhões de dólares, crescimento de 48%; em toneladas, 1.212.721 para 1.499.508 (+23,6%); isso significa 48% do faturamento total e 42,7% do volume total.

GOVERNO CHINÊS AGITA BRASÍLIA Xi Jinping, à moda chinesa – paciência confuciana –, dá o seu recado: como Trump, também não abre mão da América Latina e, especialmente, do Brasil, mas faz o seu jogo nada disfarçado, ou seja, avisa, com o tarifaço sobre a carne, que Lula deve ser mais explícito em sua política externa a partir deste ano; o agronegócio, diante da elevada tarifa chinesa, teria à sua disposição, como compensação, abertura do mercado americano à carne brasileira, para evitar prejuízo de 3 bilhões de dólares/ano?

E se Xi Jinping, caso continuem indefinições do governo brasileiro quanto ao BRICS, que Trump quer detonar, resolvesse também diminuir, relativamente, as compras de soja, que começa a ser plantada em toda a região do Oeste, mobilizando bilhões de reais em financiamentos do Banco do Brasil, principalmente?

A dialética de Xi Jinping, que embute também o desejo de que o presidente brasileiro defenda a entrada da Venezuela no BRICS, fica clara: se os Estados Unidos pressionam Lula para deixar o BRICS e a China de lado, Pequim, por sua vez, dá xeque-mate no agronegócio, que representa perto de 35% do PIB nacional.

Em cena, portanto, a disputa do Brasil pelos Estados Unidos e China no ambiente da crise capitalista em que os americanos perdem para os chineses na disputa do mercado global; essa queda de braço, inquestionavelmente, desembocará na disputa eleitoral de 2026.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Destruição ambiental na Terra do Sol



 








Célula Zé Maria do Tomé
PCB do Ceará

A LÓGICA DA EXPANSÃO CAPITALISTA E A DEPREDAÇÃO DA NATUREZA NA TERRA DO SOL

“O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente”.

O capital, como toda relação social, não envolve apenas relações de trabalho, mas também a forma como nós, seres humanos, nos relacionamos com a natureza. Essa dinâmica com o mundo natural trazida pelo capital tem um caráter predatório, onde a produção para o mercado despreza completamente os cuidados para com a própria preservação da vida no planeta.

As consequências diretas de séculos de depredação do meio ambiente ganham hoje intensidade maior, no palco das lutas de classes no Estado do Ceará. É o que ocorre, por exemplo, com a produção de hidrogênio verde (ou hub) na região do complexo do Pecém, a mineração de urânio e fosfato em Santa Quitéria e a aprovação da lei de pulverização por drones no ano passado (2024), que, na prática, anula a lei Zé Maria do Tomé, no qual o Estado proibia a pulverização de pesticidas. Todos esses empreendimentos não só comprometem a reprodução da vida marinha, ameaçam a contaminação da água, do solo e das plantas, como representam diretamente uma ameaça para as populações costeiras, à agricultura familiar, como a população cearense em geral.

Contudo, os empreendimentos do grande capital que ameaçam diretamente não só a vida humana, como nosso ecossistema, não se resumem às iniciativas do agronegócio no interior do estado. Historicamente, a dinâmica de expansão urbana na capital sempre foi orientada pelos interesses da burguesia, revelando um padrão estrutural de conflito entre o crescimento urbano e a preservação de áreas ambientalmente sensíveis. Fortaleza – que já perdeu cerca de 84% de sua cobertura vegetal nativa – enfrenta hoje uma intensificação dessas tensões justamente nos poucos remanescentes de áreas verdes ainda existentes.

Dentro deste tensionamento, tanto o Governo do Estado como a Prefeitura de Fortaleza têm claramente se posicionado dentro dos interesses do grande capital. No caso da Prefeitura, esta aparece como agente central, seja na concessão de conformidade urbanística, seja na flexibilização de normas do Plano Diretor e da Lei de Uso e Ocupação do Solo, seja ainda na condução política de conselhos e instâncias decisórias que autorizam intervenções em áreas protegidas. O caso mais emblemático e recente desse padrão é o desmatamento da chamada “Floresta do Aeroporto”, no entorno do Aeroporto Internacional Pinto Martins. 

Entre 2024 e 2025, foram suprimidos entre 32 e 46 hectares de vegetação nativa caracterizada como Mata Atlântica em estágio médio a avançado de regeneração. Esse episódio não pode ser compreendido como um caso isolado. Ele se insere em um contexto mais amplo de pressões urbanísticas sobre áreas protegidas em Fortaleza, como ocorre historicamente na região da Sabiaguaba, nas margens do rio Cocó e nas lagoas urbanas dos bairros Maraponga, Parangaba e Messejana.

O recente caso de desmatamento em vista das obras do VLT, noticiado pelo jornal Diário do Nordeste, reforça esse padrão estrutural. Desde sua concepção, ainda no contexto dos projetos associados à Copa do Mundo de 2014, o VLT foi anunciado como uma alternativa moderna, menos poluente e socialmente inclusiva de transporte urbano. No entanto, a implantação concreta do traçado revelou uma série de impactos ambientais e sociais pouco debatidos publicamente, entre eles o desmatamento de áreas verdes urbanas e a supressão de vegetação em zonas ambientalmente sensíveis. 

Ao longo do eixo Parangaba–Mucuripe, o VLT atravessa regiões densamente ocupadas, áreas próximas a cursos d’água, fragmentos de vegetação urbana remanescente e zonas de amortecimento de áreas de preservação, como o entorno do rio Cocó. Para viabilizar a obra, houve supressão de árvores, limpeza de faixas vegetadas e remoção de cobertura verde ao longo da antiga linha férrea e de áreas adjacentes, muitas delas já pressionadas historicamente pela urbanização desordenada. Embora parte dessas áreas não estivesse formalmente classificada como unidade de conservação, cumpria funções ecológicas importantes, como regulação microclimática, drenagem natural e abrigo de fauna urbana.

Todo este cenário tem, em sua raiz, quatro fontes dignas de nota: a reorientação estratégica das zonas de interesse do grande capital internacional monopolista (e o novo papel do nosso Estado dentro dessa reorientação); a fragilidade política demonstrada pelos governos de conciliação de classes protagonizados pelo lulo-petismo diante das chantagens e imposições dos interesses do grande capital; o avanço da ultradireita nas casas legislativas (tanto na Câmara Municipal, como na Assembleia Legislativa) e o esvaziamento dos pólos de organização popular da cidade, tais como os sindicatos, as associações de moradores e as comunidades eclesiais de base, o que resultou na grande perda de influência das organizações populares.

Esse novo cenário tende a pulverizar as lutas sociais para questões pontuais que, apesar de terem sua importância, são insuficientes para deter o avanço do processo de reordenamento interno operado pelo grande capital em nossa cidade. No contexto das disputas eleitorais que surgem no ano que vem, o processo político rebaixa-se ainda mais para uma discussão personalista, onde muito se fala sobre a vida pessoal dos candidatos e pouco se discute sobre os eixos estratégicos que orientam a dinâmica política e social de nosso Estado.

Entendendo a gravidade de tais riscos e o sentido político diretamente associado à luta de classes resultante da contradição Capital x Trabalho, o PCB lança às demais organizações sindicais, populares e a toda militância social do Estado do Ceará um chamado que é, ao mesmo tempo, um desafio: o de se discutir a proposição de um programa popular para o nosso Estado a ser assinado por todas as candidaturas de esquerda como seu programa de governo. Entendemos que só barrar o avanço da ultradireita não basta, é preciso oferecer à população cearense uma alternativa popular e de orientação anticapitalista, para recuperar não só as nossas relações como seres humanos, mas também nosso meio ambiente do alto nível de depredação que vem ocorrendo sensivelmente nas últimas décadas.

Lutar, Criar, Poder Popular!
Por um programa popular e anticapitalista para o nosso estado!
Vamos fazer o sol da esperança iluminar a Terra da Luz mais uma vez!

Partido Comunista Brasileiro – Célula Zé Maria do Tomé