Por Rafa Santos
(@rafasantors)
Biografar um ano.
O projeto parece ambicioso em demasia e se torna ainda mais desafiador quando
se trata de um período cheio de idiossincrasias como 2018. Essa foi a tarefa à
qual o jornalista e escritor Mário Magalhães dedicou grande parte do ano passado.
O resultado é um livro que mais parece um instantâneo de alta definição. Com
uma perspectiva à esquerda, mas atento aos detalhes e com a qualidade não tão
comum –ainda mais em tempos de pós-verdade-- de não brigar com os fatos.
Em entrevista
ao Yahoo Notícias, Mário
Magalhães falou sobre o processo de feitura de “Sobre lutas e lágrimas: uma
biografia de 2018”, a conjuntura política brasileira, revelações recentes sobre
a Lava Jato e personagens como Olavo de Carvalho.
Yahoo Notícias – O senhor decidiu começar a escrever
o livro em que ponto do ano? Quais fatores indicavam que 2018 seria um ano tão
relevante na história recente do país?
Mário Magalhães: Comecei a escrever no fim de janeiro de 2018
sem ter consciência de que estava construindo um livro. Muitos capítulos de
“Sobre lutas e lágrimas” foram na origem colunas semanais minhas veiculadas
pelo site Intercept Brasil. Mas os capítulos mais longos, densos e com maior
ambição jornalística e narrativa são inéditos. Eu me dei conta de que 2018 não
seria “mais um ano”, um “ano normal”, na noite de 14 de março, quando Marielle
Franco e Anderson Gomes foram assassinados _aí soube que escrevia um livro.
Antes já havia vários indícios, como na caçada a macacos como se eles fossem
transmissores de febre amarela e na recusa de milhões de pessoas a tomar a
vacina contra aquela doença supondo que a vacina fizesse parte de um plano para
exterminar os brasileiros. Também em janeiro, um tribunal regional federal
condenou o ex-presidente Lula no processo do triplex, abrindo caminho para a
sua prisão. O Carnaval foi extremamente politizado, com o Vampirão da Sapucaí.
E muitas coisas mais.
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Yahoo Notícias – Um dos subtítulos do livro define
2018 como o ano em que o “Brasil flertou com o apocalipse”. Quais os momentos
mais traumáticos desse ano em sua opinião?
Mário Magalhães: São muitos, demais. A caçada a macacos e a
recusa à vacina combinaram brutalidade e ignorância. Houve o reaparecimento de
movimentos com ideário nazifascista. O integralismo da década de 1930 voltou. O
Rio viveu a intervenção federal-político-militar. Mataram Marielle e Anderson.
Prenderam Lula sem provas, em um processo político. Um agrupamento de
inspiração medieval como o Escola Sem Partido se expandiu. Os caminhoneiros
pararam. Os suicídios cresceram em certos segmentos. O feminicídio foi fenômeno
(por outro lado, o combate a ele se intensificou). A censura regressou em larga
escala, atingindo artes, cultura, universidade, jornalismo. O incêndio destruiu
o Museu Nacional. A extrema direita ganhou a eleição. A violência política
recrudesceu, com muitas mortes. Não faltam eventos, como o livro conta.
Yahoo Notícias – Em 2018 tivemos muitos candidatos
–aos mais diferentes postos de poder público-- que mostraram absoluto desprezo
pelos Direitos Humanos. Esse discurso tem encontrado cada vez mais apoio na
população. Qual a sua opinião sobre esse fenômeno (que sempre existiu) ter se
acentuado tanto recentemente?
Mário Magalhães: A maior parte da população se manifesta
contra a tortura, ao contrário do que defende o candidato vencedor da eleição.
A maioria dos brasileiros recusa a violência política, em contraste com a
pregação bolsonarista condensada no mote “vamos fuzilar a petralhada”. O
ideário extremista de direita cresce, a história ensina, em momentos de
degradação econômica e rebaixamento das condições de vida. Foi assim, depois da
quebra da Bolsa nos EUA em 1929. E em seguida à crise econômico-financeira de
2007 e 2008. O raio não castigou somente o Brasil, mas também Hungria, Turquia,
Itália, Estados Unidos e outros países. O direitismo mais radical ocupa o vazio
deixado por organizações políticas que fracassaram na representação de camadas
sociais.
Yahoo Notícias – Um dos elementos históricos mais
marcantes em 2018 e que ainda ecoa em 2019 é a profusão de fake news? O senhor
acredita que a desinformação seguirá ganhando terreno como arma eleitoral?
Existe jeito de enfrentar isso?
Mário Magalhães: Desinformação se combate com informação. O
dito “kit gay”, que nunca existiu, foi a mentira que mais influenciou uma
eleição presidencial no Brasil, como eu escrevo no livro. Dos eleitores de
Bolsonaro, 85% acreditaram nela. Nem as cartas falsas de Artur Bernardes
(década de 1920) nem a expressão “marmiteiros” atribuída ao brigadeiro Eduardo
Gomes (1945) pesaram tanto. Nem a cascata de 1989, quando espalharam que se o
candidato Lula triunfasse todas as famílias seriam obrigadas a ceder um quarto
de suas casas a famílias sem-terra. O combate às mentiras, algumas embrulhadas
com o rótulo eufemístico de “fake news”, foi limitado também devido a decisões
judiciais. A mesma Justiça que chancelou a continuidade de mentiralhadas via
aplicativos de mensagens proibiu propaganda eleitoral mostrando frases que um
candidato havia pronunciado, uma delas exaltando um coronel torturador e
matador.
Yahoo Notícias – O senhor declarou recentemente que
o livro tem lado e que no Brasil atualmente existe um embate entre civilização
e barbárie. O que o levou a chegar a essa conclusão?
Mário Magalhães: Há um lado que defende e tortura, é
nostálgico da ditadura, pensa que mulheres devem ganhar salários menores, que
um ser humano deve ser pesado em arrobas, que cogita estuprar _sob certas
condições estéticas_ uma mulher, que prega o desaparecimento de minorias, que
acredita que feminicídio é “mimimi”, que promete acabar com a Lei do
Feminicídio, que enaltece criminosos como certos agentes da ditadura. Se isso
não é a barbárie, a propaganda escancarada da violação da Declaração Universal
dos Direitos Humanos, eu não sei o que é. Quem recusa esses valores está do
lado da civilização. Por isso o meu livro é partidário, não está em cima do
muro. Perfila com a civilização, contra a barbárie.
Yahoo Notícias – O apoio a discursos radicais
costuma variar de intensidade conforme a região do país? Como o senhor enxerga
esse fenômeno?
Mário Magalhães: Historicamente, há regiões com populações
mais conservadoras ou mais progressistas. No livro, eu mostro em que Estado o
ex-integralista Plínio Salgado amealhou mais votos na eleição presidencial de
1955. O recorte mais marcante na eleição de 2018, contudo, foi o de renda.
Quanto menor a renda, mais forte um candidato no segundo turno. Quanto maior a
renda, mais forte o outro.
Yahoo Notícias – Marielle Franco é um dos nomes que
desperta reações raivosas em parte da população brasileira. Como enxerga essa
rejeição?
Mário Magalhães: Ninguém é obrigado a se identificar com as
ideias que Marielle defendia e sobrevivem nas mentes e corações de muita gente.
Mas não se indignar com a eliminação física de uma vereadora ou endossar a
matança é atitude estranha à democracia e próxima ou própria do fascismo.
Yahoo Notícias – Um nome importante para entender
2018 é o do astrólogo e autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Qual o peso
da influência dele nos acontecimentos da história recente?
Mário Magalhães: Peso? Muito menor, por exemplo, do que o do
dono de uma rede de televisão colocada a serviço de candidatura presidencial,
em episódio que eu reconstituo no livro. Olavo de Carvalho não tem estatura
intelectual para ser reconhecido como filósofo. Tanto que o capítulo do meu
livro dedicado a ele trata de uma obsessão do jornalista e astrólogo.
Intitula-se “O furico alheio” e expõe a ignorância histórica de Carvalho.
Yahoo Notícias – O ano de 2018 também pode ser
encarado como mais um ano em que o Poder Judiciário foi protagonista. Existe
algum precedente histórico disso ou vivemos um momento sui generis?
Mário Magalhães: A Justiça no Brasil tem vasta folha de
serviços prestados aos poderosos. Em 1936, em dobradinha com o presidente
Getulio Vargas, o STF entregou à Alemanha nazista uma militante alemã,
comunista, judia e grávida _Olga Benario, então presa no Rio de Janeiro. Em
1964, o Supremo Tribunal Federal participou do golpe de Estado. Em 2016,
interferiu decisivamente na deposição da presidente constitucional Dilma
Rousseff. Em 2018, a Justiça foi jogador, não árbitro, como eu sustento no
livro com um sem-número de exemplos.
Yahoo Notícias – Outra parcela da sociedade que
ganhou maior protagonismo político foi a representada pela bancada da bíblia e
suas pautas de costumes. O senhor acredita que esse grupo tem fôlego para
ambições maiores nos próximos anos?
Mário Magalhães: Ambições não faltam. Mas o jogo está sendo
jogado, não está definido. Eu nada tenho contra religiões, defendo liberdade de
religião e culto. O inaceitável é a imposição de valores obscurantistas
contrários aos direitos humanos e à tolerância com ideias divergentes. Por
exemplo: a perseguição a religiões e cultos de matriz africana é inaceitável.
Yahoo Notícias – Parte do livro trata da volta da
censura. Recentemente vimos jornalistas serem demitidos após críticas ao governo.
Esse tipo de arbitrariedade pode ser ainda mais recorrente?
Mário Magalhães: Vai aumentar. Já ocorreu em 2018, quando a
caça às bruxas se intensificou.
Yahoo Notícias – A série de reportagens do
“Intercept Brasil” sobre a Lava Jato levantou alguns questionamentos éticos
–promovidos pelo governo e abraçado por alguns profissionais de imprensa. O
principal deles é sobre a validade de divulgar informações que supostamente
teriam sido obtidas mediante um crime. Qual a sua opinião sobre isso?
Mário
Magalhães: O
Intercept Brasil presta um serviço valioso a cidadãs e cidadãos ao revelar o
tesouro histórico e jornalístico das conversas de protagonistas da Operação
Lava Jato. Oferece mais elementos para se constatar o que, em 2018, quem quis
ver viu: uma operação policial-judicial que na verdade constituiu ação política
cuja consequência foi levar ao Planalto um partidário do obscurantismo. Ignoro
a origem do material obtido pelo Intercept. A divulgação dos diálogos é
legítima e admirável. É socialmente necessária e relevante.
Reprodução
de 05.07.2019

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