sexta-feira, 12 de julho de 2019

'Quem quis ver viu', diz Mario Magalhães sobre lado político da Lava Jato



Por Rafa Santos (@rafasantors)
Biografar um ano. O projeto parece ambicioso em demasia e se torna ainda mais desafiador quando se trata de um período cheio de idiossincrasias como 2018. Essa foi a tarefa à qual o jornalista e escritor Mário Magalhães dedicou grande parte do ano passado.

O resultado é um livro que mais parece um instantâneo de alta definição. Com uma perspectiva à esquerda, mas atento aos detalhes e com a qualidade não tão comum –ainda mais em tempos de pós-verdade-- de não brigar com os fatos.

Em entrevista ao Yahoo Notícias, Mário Magalhães falou sobre o processo de feitura de “Sobre lutas e lágrimas: uma biografia de 2018”, a conjuntura política brasileira, revelações recentes sobre a Lava Jato e personagens como Olavo de Carvalho.
Yahoo Notícias – O senhor decidiu começar a escrever o livro em que ponto do ano? Quais fatores indicavam que 2018 seria um ano tão relevante na história recente do país?
Mário Magalhães: Comecei a escrever no fim de janeiro de 2018 sem ter consciência de que estava construindo um livro. Muitos capítulos de “Sobre lutas e lágrimas” foram na origem colunas semanais minhas veiculadas pelo site Intercept Brasil. Mas os capítulos mais longos, densos e com maior ambição jornalística e narrativa são inéditos. Eu me dei conta de que 2018 não seria “mais um ano”, um “ano normal”, na noite de 14 de março, quando Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados _aí soube que escrevia um livro. Antes já havia vários indícios, como na caçada a macacos como se eles fossem transmissores de febre amarela e na recusa de milhões de pessoas a tomar a vacina contra aquela doença supondo que a vacina fizesse parte de um plano para exterminar os brasileiros. Também em janeiro, um tribunal regional federal condenou o ex-presidente Lula no processo do triplex, abrindo caminho para a sua prisão. O Carnaval foi extremamente politizado, com o Vampirão da Sapucaí. E muitas coisas mais.

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Yahoo Notícias – Um dos subtítulos do livro define 2018 como o ano em que o “Brasil flertou com o apocalipse”. Quais os momentos mais traumáticos desse ano em sua opinião?
Mário Magalhães: São muitos, demais. A caçada a macacos e a recusa à vacina combinaram brutalidade e ignorância. Houve o reaparecimento de movimentos com ideário nazifascista. O integralismo da década de 1930 voltou. O Rio viveu a intervenção federal-político-militar. Mataram Marielle e Anderson. Prenderam Lula sem provas, em um processo político. Um agrupamento de inspiração medieval como o Escola Sem Partido se expandiu. Os caminhoneiros pararam. Os suicídios cresceram em certos segmentos. O feminicídio foi fenômeno (por outro lado, o combate a ele se intensificou). A censura regressou em larga escala, atingindo artes, cultura, universidade, jornalismo. O incêndio destruiu o Museu Nacional. A extrema direita ganhou a eleição. A violência política recrudesceu, com muitas mortes. Não faltam eventos, como o livro conta.
Yahoo Notícias – Em 2018 tivemos muitos candidatos –aos mais diferentes postos de poder público-- que mostraram absoluto desprezo pelos Direitos Humanos. Esse discurso tem encontrado cada vez mais apoio na população. Qual a sua opinião sobre esse fenômeno (que sempre existiu) ter se acentuado tanto recentemente?
Mário Magalhães: A maior parte da população se manifesta contra a tortura, ao contrário do que defende o candidato vencedor da eleição. A maioria dos brasileiros recusa a violência política, em contraste com a pregação bolsonarista condensada no mote “vamos fuzilar a petralhada”. O ideário extremista de direita cresce, a história ensina, em momentos de degradação econômica e rebaixamento das condições de vida. Foi assim, depois da quebra da Bolsa nos EUA em 1929. E em seguida à crise econômico-financeira de 2007 e 2008. O raio não castigou somente o Brasil, mas também Hungria, Turquia, Itália, Estados Unidos e outros países. O direitismo mais radical ocupa o vazio deixado por organizações políticas que fracassaram na representação de camadas sociais.
Yahoo Notícias – Um dos elementos históricos mais marcantes em 2018 e que ainda ecoa em 2019 é a profusão de fake news? O senhor acredita que a desinformação seguirá ganhando terreno como arma eleitoral? Existe jeito de enfrentar isso?
Mário Magalhães: Desinformação se combate com informação. O dito “kit gay”, que nunca existiu, foi a mentira que mais influenciou uma eleição presidencial no Brasil, como eu escrevo no livro. Dos eleitores de Bolsonaro, 85% acreditaram nela. Nem as cartas falsas de Artur Bernardes (década de 1920) nem a expressão “marmiteiros” atribuída ao brigadeiro Eduardo Gomes (1945) pesaram tanto. Nem a cascata de 1989, quando espalharam que se o candidato Lula triunfasse todas as famílias seriam obrigadas a ceder um quarto de suas casas a famílias sem-terra. O combate às mentiras, algumas embrulhadas com o rótulo eufemístico de “fake news”, foi limitado também devido a decisões judiciais. A mesma Justiça que chancelou a continuidade de mentiralhadas via aplicativos de mensagens proibiu propaganda eleitoral mostrando frases que um candidato havia pronunciado, uma delas exaltando um coronel torturador e matador.
Yahoo Notícias – O senhor declarou recentemente que o livro tem lado e que no Brasil atualmente existe um embate entre civilização e barbárie. O que o levou a chegar a essa conclusão?
Mário Magalhães: Há um lado que defende e tortura, é nostálgico da ditadura, pensa que mulheres devem ganhar salários menores, que um ser humano deve ser pesado em arrobas, que cogita estuprar _sob certas condições estéticas_ uma mulher, que prega o desaparecimento de minorias, que acredita que feminicídio é “mimimi”, que promete acabar com a Lei do Feminicídio, que enaltece criminosos como certos agentes da ditadura. Se isso não é a barbárie, a propaganda escancarada da violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, eu não sei o que é. Quem recusa esses valores está do lado da civilização. Por isso o meu livro é partidário, não está em cima do muro. Perfila com a civilização, contra a barbárie.
Yahoo Notícias – O apoio a discursos radicais costuma variar de intensidade conforme a região do país? Como o senhor enxerga esse fenômeno?
Mário Magalhães: Historicamente, há regiões com populações mais conservadoras ou mais progressistas. No livro, eu mostro em que Estado o ex-integralista Plínio Salgado amealhou mais votos na eleição presidencial de 1955. O recorte mais marcante na eleição de 2018, contudo, foi o de renda. Quanto menor a renda, mais forte um candidato no segundo turno. Quanto maior a renda, mais forte o outro.
Yahoo Notícias – Marielle Franco é um dos nomes que desperta reações raivosas em parte da população brasileira. Como enxerga essa rejeição?
Mário Magalhães: Ninguém é obrigado a se identificar com as ideias que Marielle defendia e sobrevivem nas mentes e corações de muita gente. Mas não se indignar com a eliminação física de uma vereadora ou endossar a matança é atitude estranha à democracia e próxima ou própria do fascismo.
Yahoo Notícias – Um nome importante para entender 2018 é o do astrólogo e autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Qual o peso da influência dele nos acontecimentos da história recente?
Mário Magalhães: Peso? Muito menor, por exemplo, do que o do dono de uma rede de televisão colocada a serviço de candidatura presidencial, em episódio que eu reconstituo no livro. Olavo de Carvalho não tem estatura intelectual para ser reconhecido como filósofo. Tanto que o capítulo do meu livro dedicado a ele trata de uma obsessão do jornalista e astrólogo. Intitula-se “O furico alheio” e expõe a ignorância histórica de Carvalho.
Yahoo Notícias – O ano de 2018 também pode ser encarado como mais um ano em que o Poder Judiciário foi protagonista. Existe algum precedente histórico disso ou vivemos um momento sui generis?
Mário Magalhães: A Justiça no Brasil tem vasta folha de serviços prestados aos poderosos. Em 1936, em dobradinha com o presidente Getulio Vargas, o STF entregou à Alemanha nazista uma militante alemã, comunista, judia e grávida _Olga Benario, então presa no Rio de Janeiro. Em 1964, o Supremo Tribunal Federal participou do golpe de Estado. Em 2016, interferiu decisivamente na deposição da presidente constitucional Dilma Rousseff. Em 2018, a Justiça foi jogador, não árbitro, como eu sustento no livro com um sem-número de exemplos.
Yahoo Notícias – Outra parcela da sociedade que ganhou maior protagonismo político foi a representada pela bancada da bíblia e suas pautas de costumes. O senhor acredita que esse grupo tem fôlego para ambições maiores nos próximos anos?
Mário Magalhães: Ambições não faltam. Mas o jogo está sendo jogado, não está definido. Eu nada tenho contra religiões, defendo liberdade de religião e culto. O inaceitável é a imposição de valores obscurantistas contrários aos direitos humanos e à tolerância com ideias divergentes. Por exemplo: a perseguição a religiões e cultos de matriz africana é inaceitável.
Yahoo Notícias – Parte do livro trata da volta da censura. Recentemente vimos jornalistas serem demitidos após críticas ao governo. Esse tipo de arbitrariedade pode ser ainda mais recorrente?
Mário Magalhães: Vai aumentar. Já ocorreu em 2018, quando a caça às bruxas se intensificou.
Yahoo Notícias – A série de reportagens do “Intercept Brasil” sobre a Lava Jato levantou alguns questionamentos éticos –promovidos pelo governo e abraçado por alguns profissionais de imprensa. O principal deles é sobre a validade de divulgar informações que supostamente teriam sido obtidas mediante um crime. Qual a sua opinião sobre isso?
Mário Magalhães: O Intercept Brasil presta um serviço valioso a cidadãs e cidadãos ao revelar o tesouro histórico e jornalístico das conversas de protagonistas da Operação Lava Jato. Oferece mais elementos para se constatar o que, em 2018, quem quis ver viu: uma operação policial-judicial que na verdade constituiu ação política cuja consequência foi levar ao Planalto um partidário do obscurantismo. Ignoro a origem do material obtido pelo Intercept. A divulgação dos diálogos é legítima e admirável. É socialmente necessária e relevante.

Reprodução de 05.07.2019



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