quarta-feira, 20 de março de 2019

O inimigo agora é outro: a atualidade de Tropa de Elite 2


Texto que trata do crime organizado a partir do prisma de Tropa de Elite 2, que apresenta outro inimigo, com o contexto da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ)

O tema das milícias ressurge a partir das investigações acerca do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em 14 de março de 2018, as quais apontam o envolvimento dos ex-PMs ligados ao Escritório do Crime, milícia que atua nas comunidades cariocas. 
Os milicianos investigados estão relacionados com o gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, expondo um envolvimento direto de relação íntima entre o clã Bolsonaro com as famílias dos milicianos.
Tal caso resgatou um meme nas redes sociais de uma cena do filme Tropa de Elite 2 (2010), pelo qual se sugere que o povo votou em Bolsonaro achando que era um Capitão Nascimento, quando na verdade era o miliciano Rocha, da trama. Curiosamente, o primeiro filme da franquia, lançado em 2007, criou no imaginário popular a figura do policial que manda porrada em bandido, através do personagem Capitão Nascimento, interpretado pelo ator Wagner Moura.
À revelia do próprio ator e do diretor do filme, José Padilha, que viam na trama uma crítica à segurança pública, essa narrativa foi construída de forma que fortaleceu os setores conservadores da sociedade, que enaltecem o militarismo e atacam os direitos humanos. Tal narrativa foi contestada no segundo filme, em que o capitão, promovido a coronel, mostra que o inimigo agora ‘é outro’.
Continue lendo
A memória é algo que costuma nos trair e, em matéria de cinema, muitos perdem o legado em questão de segundos. José Padilha, que entrou na roda do unlike depois da série O Mecanismo, uma clara alusão à Operação Lava Jato da Polícia Federal, mostrou em Tropa de Elite 2 todos os problemas sociais que não pôde expor no primeiro filme, ou que ficaram acobertados pela estética policialesca do Capitão Nascimento. Diretor polêmico, Padilha também dirigiu o documentário Garapa (2009), que mostrava a realidade das famílias carentes do Nordeste e a importância dos programas Fome Zero e Bolsa Família.
Cena da ação da milícia no filme Tropa de Elite 2 (2010), Direção de José Padilha: https://youtu.be/qpIuXGFgEb4 No segundo filme, prestes a ser exonerado pela chacina no presídio, o agora coronel Nascimento é aplaudido pela classe média, mostrando que, para a sociedade, bandido bom é bandido morto. Algo que, quase dez anos depois do filme, se atualiza nos resultados das eleições do ano passado, com a consolidação da bancada conservadora e da bala enquanto hegemônica no Congresso Nacional.
Temos, assim, o papel de desconstruir o imaginário que os setores conservadores usaram a partir do primeiro filme. Basta ver exemplos como o de Alexandre Frota, eleito deputado federal pelo PSL paulista, que na época participou do quadro que ironizava o filme, Bofe de Elite, no programa do Show do Tom.
O retrato do BOPE, aparentemente enaltecido no primeiro filme, é exposto às contradições da realidade no segundo, quando Matias denuncia a precarização do batalhão, expondo os problemas de segurança pública do estado, que transformou a força de operações especiais num verdadeiro exterminador de pobres, enquanto as milícias se consolidavam, passando por cima dos atravessadores do tráfico comum.
A relação entre a milícia e a política é destrinchada na continuação de forma minuciosa, ao mostrar que a milícia, ao controlar territórios, garantia votos para os políticos que estavam atrelados à corrupção policial. O que explica, na realidade, o crescimento de muitas figuras que hoje são as mais votadas nas favelas cariocas, mesmo sendo estas defensoras abertas de políticas que vão na contramão dos direitos sociais dos menos favorecidos; retomando o voto de cabresto, algo que aparentemente era taxado como proeminente da política coronelista do nordeste brasileiro.
Um dos momentos de redenção do Padilha diante das críticas do primeiro filme ocorre durante as cenas da invasão à Favela do Tanque no segundo filme. Usa a estética agressiva, a exemplo do “saco na cabeça” com o chefe do tráfico, como ferramenta para se chegar à conclusão de que o inimigo agora é outro, nas palavras do subtítulo do filme; ou seja, de que não se resolveria o problema do crime com a violência do BOPE (que é regenerado na cena do atentado ao Nascimento), mas agora com a denúncia da corrupção do Estado.
Essa resolução se dá a partir da morte de Matias, o que chega a ser irônico quando reforça a máxima “a vida imita a arte”, pois vemos hoje o rastro da milícia que começa a ser caçada após o assassinato de Marielle, figura importante na denúncia do projeto de segurança pública carioca. Nas palavras do Coronel Nascimento, o importante é saber quem mandou matar Matias, Marielle e tantos outros.
Para desconstruir o mito do Capitão Nascimento, Padilha mostra um personagem agora frágil, que não é mais linha de frente nas operações, que se emociona e chora diante do filho internado. Seu único tiro durante todo o segundo filme é contra os milicianos, seguido da denúncia dos esquemas de corrupção na CPI das milícias, que na vida real existiu em 2008 e hoje retoma a ordem do dia após as denúncias de envolvimento da família Bolsonaro com os milicianos. Isso resgata o mundo cinematográfico de Padilha, porém, com um viés diferente do que a direita conservadora emplacou, no famoso “parece que o jogo virou”.
Portanto, atualizar a mensagem do segundo filme é importante para derrotar o imaginário que a direita construiu a partir do primeiro  –  enterrando o mito do Capitão Nascimento e fortalecendo a figura de denúncia do Coronel. Na disputa de narrativas, é preciso tomar lado, assim como Nascimento tomou no fim da trama, e mostrar que o inimigo agora é outro; ou na verdade sempre foi o mesmo, não o adversário que apontavam antes.
Texto de Antonio Lima Júnior e editado por João C. Horst Filho. Esta publicação é aberta para colaborações. Confira o nosso Expediente e Editorial.
Publicado originalmente em https://medium.com/cinestesico/o-inimigo-agora-%C3%A9-o-mesmo-a-atualidade-de-tropa-de-elite-2-no-cen%C3%A1rio-pol%C3%ADtico-brasileiro-dfd6db9214fe?fbclid=IwAR0I1rDiQmxX9ab_LRMnxVPQL6XrEw3CWSQoHaYtrzlla5aOq–K76oSBu4
Antonio Lima Júnior
Jornalista proletário, poeta e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) jornalismoproletario.blogspot.com.br subversinhos.blogspot.com.br
Ilustração: Rocha, o PM que vira miliciano e traz à tona o problema das milícias — fotograma de Tropa de Elite 2


Nenhum comentário:

Postar um comentário