sábado, 18 de julho de 2026

Pepe Escobar: Trump fracassou no Irã e a estratégia agora é ditada pelo eixo da resistência

Analista detalha como a nova dinâmica militar no Oriente Médio, a união inédita entre Irã e Iraque e o controle estratégico do Estreito de Ormuz impuseram uma derrota histórica ao imperialismo e ao petrodólar

Conteúdo postado por Redação Brasil 247

Publicado em 17 de julho de 2026

 
Crédito: Brasil 247


247 – O Oriente Médio está diante de uma reconfiguração tectônica em sua geopolítica, e os Estados Unidos perderam definitivamente a capacidade de ditar as regras do jogo. Esta é a avaliação central do jornalista e analista internacional Pepe Escobar, em uma contundente entrevista concedida ao cientista político norueguês Glenn Diesen. Segundo Escobar, a tentativa de Washington de aplicar a clássica cartilha do “dividir para governar” contra o Eixo da Resistência gerou o efeito oposto: uma consolidação regional sem precedentes que colocou o império contra a parede.

Escobar aponta que a fragilidade estratégica da Casa Branca, sob uma liderança marcada por impulsos erráticos e pela ausência de assessoria qualificada, arrastou o Ocidente para um beco sem saída. “Eles perderam no front geopolítico, no front militar e no front geoeconômico”, disparou o jornalista, desenhando o cenário de uma derrota que ele classifica como “praticamente irreversível”.

O consenso de Teerã e a união espiritual do Eixo

O ponto de virada desta nova fase do conflito, explica Escobar, ficou evidente nos impressionantes ritos fúnebres realizados recentemente em memória das lideranças iranianas assassinadas. O analista destaca que as procissões não apenas mobilizaram mais de 40 milhões de pessoas, mas unificaram espiritualmente e politicamente xiitas no Iraque — em cidades sagradas como Najaf e Karbala — e no Irã (Teerã, Qom e Mashhad).

Essa demonstração de solidariedade transfronteiriça sela, de acordo com fontes internas acessadas por Escobar, um consenso absoluto e inabalável no topo do Conselho de Segurança Nacional do Irã e entre os comandantes do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC): a era das concessões ou acomodações diplomáticas com os Estados Unidos acabou.

A liderança iraniana, agora sob a firme e discreta condução de Mojtaba Khamenei, opera sob a premissa de que qualquer diálogo com o Ocidente é uma armadilha. A visão predominante é a de que Washington utiliza acordos e memorandos apenas para ganhar tempo, reabastecer arsenais e preparar ataques surpresa. Se os EUA cruzarem novas linhas vermelhas, o Irã já tem desenhado o seu “Plano B”: a saída formal do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

A resposta de um dia: o fator Iêmen e a nova dissuasão

Um dos episódios mais ilustrativos dessa mudança na correlação de forças foi a resposta das forças iemenitas (Ansarallah) ao recente bombardeio da pista do Aeroporto Internacional de Sana’a, que visava interromper um voo humanitário da companhia iraniana Mahan Air.

Escobar relata que, enquanto o Irã historicamente adota uma estratégia de paciência e respostas calculadas a longo prazo, o Iêmen alterou radicalmente essa dinâmica. Em menos de 24 horas após o ataque em Sana’a, as forças iemenitas responderam na proporção de “dois para um”, atingindo alvos militares e de infraestrutura na Arábia Saudita.

Essa velocidade de retaliação enviou uma mensagem cristalina a Riade e a Washington: qualquer agressão será respondida imediatamente e com poder destrutivo severo. Não por acaso, aponta o jornalista, a monarquia saudita tem demonstrado pânico e extrema cautela, ciente de que suas instalações petrolíferas e a estabilidade de seus megaprojetos econômicos estão ao alcance direto dos drones e mísseis hipersônicos do Iêmen.

A “bomba nuclear” de Teerã: o controle absoluto das artérias comerciais

Mais do que o desenvolvimento de ogivas, a verdadeira “bomba nuclear” do Irã no tabuleiro global é geográfica e estratégica: o controle definitivo do Estreito de Ormuz.

Diesen e Escobar convergiram no diagnóstico de que o conflito atual mudou de patamar. O que começou como uma tentativa ocidental de promover uma “mudança de regime” em Teerã transformou-se em uma batalha desesperada pelo controle das rotas marítimas que oxigenam a economia global. A retórica de Washington de impor taxas de trânsito ou bloqueios na região colide com a realidade militar de que a Marinha do IRGC é quem dita as coordenadas no Golfo Pérsico.

“O Estreito de Ormuz é, a partir de agora, um ponto de estrangulamento sob controle iraniano, ponto final”, afirma Pepe Escobar.

O analista adverte que uma ação combinada entre o Irã em Ormuz e o Ansarallah iemenita no Estreito de Bab al-Mandab tem o potencial de paralisar o comércio internacional. Se o fluxo de petróleo for interrompido, os preços do barril podem saltar rapidamente para a faixa de 150 a 200 dólares. O resultado prático seria o colapso sistêmico das economias ocidentais e o golpe de misericórdia no padrão do petrodólar, pilar de sustentação da hegemonia financeira norte-americana.

A falência da diplomacia ocidental e a emergência de um novo guarda-chuva regional

Diante do cenário em que os Estados Unidos são vistos globalmente como uma entidade “incapaz de cumprir acordos” — vide o abandono unilateral do JCPOA no passado e o esvaziamento recente do Memorando de Entendimento de Versalhes —, o Oriente Médio começa a desenhar sua própria arquitetura de segurança, à revelia de Washington.

Pepe Escobar revelou detalhes de uma intensa atividade diplomática de bastidores liderada pelo Paquistão. Islamabad, que mantém um sólido pacto militar com a Arábia Saudita e, ao mesmo tempo, canais de comunicação diretos e de alto nível com Teerã, desponta como o articulador de um novo arranjo regional.

Este projeto de segurança integraria potências como o próprio Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, Catar e Egito. O objetivo central é criar um mecanismo de estabilização interna que minimize a necessidade — e a interferência — das forças do Comando Central dos EUA (CENTCOM). Trata-se do Sul Global construindo suas próprias salvaguardas contra o caos promovido pelo Ocidente.

A miopia histórica dos impérios e a resiliência dos Estados-Civilização

Ao concluir a análise, Pepe Escobar e Glenn Diesen enfatizaram o erro crasso e repetitivo da mídia corporativa ocidental, que insiste em vender a narrativa de que bombardeios estrangeiros seriam “recebidos com festa” pelas populações locais para derrubar seus governos.

O Irã, lembra Diesen, é uma fortaleza geográfica cercada por cadeias montanhosas, com uma população de 93 milhões de pessoas que compreende o conflito atual em termos existenciais: capitular significa o destino trágico de destruição total visto na Líbia ou na Síria. Além disso, a cultura política local é profundamente moldada por uma teologia de resiliência e justiça de longo prazo, onde o conceito de reparação histórica transcende o imediatismo das agendas eleitorais americanas.

Para Escobar, elites ocidentais falham por serem “historicamente analfabetas” em relação ao que ele conceitua como “Estados-Civilização”, como o Irã e a Rússia. A história demonstra que tentativas externas de subjugar essas nações produzem o efeito inverso: elas enterram suas divisões internas, coalescem e emergem muito mais fortes, ricas e unificadas. Ao ignorar as lições da história, o império caminha a passos largos para acelerar sua própria ruína geoeconômica.

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