terça-feira, 14 de julho de 2026

Institutos criticam proposta do TSE de criar “selo de acurácia” para pesquisas eleitorais

 

Empresas do setor afirmam que levantamentos medem o momento do eleitorado e não podem ser avaliados apenas pela proximidade com o resultado das urnas

Conteúdo postado por  Paulo Emílio

Publicado em 14 de julho de 2026

Nunes MarquesCrédito: Gustavo Moreno/STF








247 – A proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de instituir um selo de qualidade para institutos de pesquisa eleitoral provocou forte reação entre empresas do setor. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, representantes de grandes institutos consideram que a iniciativa parte de uma compreensão equivocada sobre a natureza das pesquisas eleitorais, que, segundo eles, registram a intenção de voto em determinado momento e não têm caráter preditivo.

Apresentada pelo ministro durante reunião realizada nesta terça-feira (14) com representantes de institutos de pesquisa, a proposta prevê a criação do chamado “Selo Acurácia Eleitoral”, destinado às empresas cujos levantamentos apresentarem maior proximidade com os resultados oficiais das eleições. O encontro ocorreu dias após uma decisão de Nunes Marques suspender a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel sobre a disputa eleitoral, medida que foi classificada por empresas do setor como um ato de censura.

Como funcionaria o selo proposto pelo TSE

Segundo a reportagem, o selo teria como objetivos “contribuir para a precisão entre os dados levantados pelas pesquisas e os resultados oficiais das eleições”, “incentivar o aprimoramento contínuo da qualidade metodológica das pesquisas eleitorais” e “conferir visibilidade às empresas com melhor desempenho”.

A certificação seria concedida nos anos de eleições gerais, após o segundo turno, contemplando pesquisas para os cargos de presidente da República e governador. A avaliação consideraria exclusivamente pesquisas de boca de urna e levantamentos realizados nos sete dias anteriores à votação, desde que registrados no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) e divulgados ao público.

Associação vê erro conceitual na proposta

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) reagiu duramente à iniciativa. Em nota, a entidade afirmou que o projeto parte de uma premissa incorreta ao tratar pesquisas como previsões eleitorais.

“Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, declarou a associação.

A Abep também argumenta que a proposta pode gerar efeitos indesejados sobre o mercado de pesquisas. Segundo a entidade, a medida cria um “incentivo perverso”, permitindo que empresas sem rigor metodológico ajustem seus números às pesquisas já divulgadas por institutos consolidados apenas para aumentar suas chances de receber a certificação.

Além disso, a associação criticou a possibilidade de a Justiça Eleitoral assumir o papel de avaliadora da qualidade das pesquisas com base exclusivamente na proximidade dos resultados.

“Causa especial preocupação que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de árbitro da qualidade das pesquisas a partir de um critério tecnicamente equivocado. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas — não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada”, afirmou.

Especialistas apontam risco de desestimular pesquisas

O fundador do instituto Ideia, Maurício Moura, também criticou a proposta. Ele afirmou que o selo não contribuiria para aumentar a transparência das pesquisas e poderia reduzir a divulgação de levantamentos nos dias que antecedem a eleição.

Pesquisa não é um modelo preditivo, é um retrato do momento. Não dá para comparar um levantamento feito cinco dias antes da eleição com outro realizado na véspera. Essa comparação é impossível. E, mesmo que fosse feita, como considerar a margem de erro, que é um aspecto altamente técnico? Não me parece uma boa saída. Acho que isso pode desestimular os institutos a registrar pesquisas nos últimos sete dias de campanha, porque eles ficariam sujeitos a uma métrica bastante inadequada“, afirmou.

Na mesma linha, a diretora do Datafolha, Luciana Chong, avaliou que a proposta ignora aspectos fundamentais da metodologia das pesquisas eleitorais.

“Pesquisas são estimativas estatísticas, sujeitas à margem de erro, diferentes metodologias, momentos distintos de coleta e mudanças no comportamento do eleitorado. Não faz sentido reduzi-las a um ranking baseado apenas na proximidade com o resultado final, como se fosse possível medir sua qualidade exclusivamente por esse critério”, declarou.

AtlasIntel manifesta apoio ao selo

Em posição diferente da maior parte dos institutos presentes na reunião, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, manifestou apoio à proposta do presidente do TSE.

Em publicação na rede social X, Roman afirmou que a “AtlasIntel apoia a iniciativa do Ministro Nunes Marques para a criação do selo de qualidade de pesquisas a partir de critérios objetivos de precisão. Estamos à disposição para contribuir na discussão metodológica, a partir de iniciativas semelhantes a nível internacional.”

A proposta ainda deverá ser debatida pelo Tribunal Superior Eleitoral antes de eventual regulamentação para as próximas eleições.

EM TEMPO: O que deve ser feito  é a aprovação de uma Resolução obrigando os Institutos de Pesquisa a entregarem mensalmente a devida Prestação de Contas antes e durante o pleito eleitoral, assim como é obrigatório para os candidatos. Afinal de contas, faz-se necessário saber quem são os "bondosos e gastadores"  financiadores, uma vez que uma pesquisa em Garanhuns é em torno de R$10.000,00. Já a nível estadual é acima de R$30.000,00. Quem financia? Mas, é bom abrir  o debate, porque pesquisa em demasia pode induzir o eleitor ao erro. Ok, Moçada!

Nenhum comentário:

Postar um comentário