quinta-feira, 7 de maio de 2026

Celso Amorim vê reunião com Xi Jinping como fator para Trump buscar encontro com Lula

Proximidade do governo brasileiro com a China determinou o movimento do presidente dos EUA. Brasil ganha peso estratégico com o debate sobre terras raras

07 de maio de 2026



 

Donald Trump, Lula, Celso Amorim e Xi Jinping (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil I Reuters I Xinhua/Pang Xinglei I Reprodução (YT) I Reprodução (247/IA))

Por  Leonardo Lucena

247 - A proximidade do encontro de Donald Trump com o líder chinês Xi Jinping pode ter influenciado a decisão do presidente dos Estados Unidos de se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em um momento em que o Brasil ganha peso estratégico por suas reservas de minerais críticos, incluindo terras raras.

A avaliação é compartilhada por integrantes da assessoria estratégica de Lula na área de política externa, entre eles Celso Amorim, assessor especial da Presidência e ex-chanceler. As informações são do jornal Valor Econômico.

A visita de Donald Trump à China está prevista para os dias 14 e 15 de maio. O deslocamento ocorrerá em meio a uma agenda sensível envolvendo minerais estratégicos, depois de a China ter concordado em suspender, por um ano, o controle rígido sobre exportações de minerais de terras raras, medida adotada após o tarifaço americano de abril do ano passado.

Apesar da suspensão temporária, não há garantias de que o fornecimento desses insumos não volte a ser restringido. Nesse contexto, a aproximação com o Brasil ganha relevância para Washington, já que o país detém a segunda maior reserva mundial de minerais críticos e estratégicos, categoria que inclui as terras raras.

Celso Amorim afirmou que o tema pode ter influenciado o movimento de Trump, ainda que se trate de uma pauta de longo prazo. "Pode ser que tenha pesado, ainda que seja um tema de longo prazo, e o presidente estará preparado para se posicionar no tema", disse o embaixador ao Valor, antes do término do encontro entre Trump e Lula, realizado nesta quinta-feira (7), em Washington.

Para Amorim, a realização da reunião já representa um ponto central da agenda bilateral. "O mais importante de tudo é a realização desse encontro", afirmou. 

Minerais críticos

A pauta dos minerais críticos ganhou novo elemento político no Brasil com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, na noite desta quarta-feira (6), do marco regulatório para a exploração desses recursos. O texto inclui minerais de terras raras e oferece ao governo uma base para afirmar que o país não discrimina investimentos no setor, desde que sejam cumpridas exigências de agregação de valor na exploração.

Na avaliação de Amorim, o encontro desta quinta-feira não deve resultar em um acordo concreto imediato. A expectativa é de que os dois lados apresentem ideias e posicionamentos sobre temas de interesse comum.

Entre os assuntos que podem aparecer na conversa estão o reforço de acordos de combate ao narcotráfico e uma atenção especial à Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, mecanismo usado em contendas comerciais com outros países.

No caso brasileiro, a disputa envolve acusações de deslealdade relacionadas à concorrência do Pix com bandeiras de cartão de crédito estadunidenses e à suposta vantagem comparativa do agronegócio nacional decorrente do desmatamento. 

Conceitos e peso estratégico do Brasil

O Brasil entrou com mais força no centro da disputa tecnológica global pelas terras raras ao reunir 21 milhões de toneladas em reservas, volume que coloca o país na segunda posição mundial, atrás apenas da China, que concentra 44 milhões de toneladas. A Índia aparece em terceiro lugar, com 6,9 milhões de toneladas, segundo dados de 2024 do Serviço Geológico dos Estados Unidos citados pelo Valor Econômico.

Esses minerais são considerados estratégicos em meio ao avanço da transição energética, da indústria de semicondutores e da produção de equipamentos eletrônicos de alta tecnologia, além do setor de defesa. A aprovação do texto-base do marco regulatório dos minerais críticos também reforça a tentativa do Brasil de ampliar sua presença nesse mercado internacional.

As chamadas terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos com alto valor para cadeias produtivas industriais e tecnológicas. A lista inclui lantânio, cério, neodímio, samário, térbio, disprósio, escândio e ítrio, entre outros minerais usados em aplicações de ponta.

Esses elementos ganharam importância porque alimentam setores decisivos para a economia contemporânea. A indústria utiliza terras raras em turbinas eólicas, veículos híbridos, celulares, televisores de tela plana, lâmpadas fluorescentes compactas, catalisadores automotivos, ímãs permanentes, lentes especiais e sistemas militares guiados.

A demanda por esses materiais cresce na mesma velocidade em que países disputam domínio sobre tecnologias ligadas à energia limpa, à defesa, aos chips e a equipamentos digitais avançados. Esse cenário transforma reservas minerais em ativos geopolíticos e aumenta o peso de nações com capacidade de produção, processamento e agregação de valor.

No caso brasileiro, o tamanho das reservas abre espaço para uma agenda industrial mais ambiciosa. O país tenta evitar o papel de simples exportador de matéria-prima e busca consolidar regras que estimulem etapas produtivas com maior valor econômico dentro do território nacional.

A discussão sobre o marco regulatório dos minerais críticos se insere nesse contexto. O texto-base aprovado pela Câmara dos Deputados inclui as terras raras e oferece ao governo instrumentos para afirmar que o Brasil aceita investimentos no setor, desde que as empresas respeitem exigências ligadas ao desenvolvimento da cadeia produtiva.

Minerais estratégicos e minerais críticos não significam exatamente a mesma coisa. Os estratégicos sustentam áreas consideradas essenciais para o crescimento econômico, a indústria de alta tecnologia, a defesa nacional e a transição energética.

Os críticos, por sua vez, concentram preocupação maior com a segurança de abastecimento. A produção em poucos países, a dependência externa, as tensões geopolíticas, os gargalos tecnológicos, as interrupções logísticas e a dificuldade de substituir determinados insumos aumentam a vulnerabilidade desses materiais.

A classificação muda conforme os interesses de cada país. Um mineral pode ganhar status estratégico em uma economia e receber tratamento diferente em outra. Novas tecnologias, descobertas geológicas, alterações na demanda global e mudanças no cenário internacional também influenciam essa definição.

Atualmente, lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio aparecem com frequência nas listas de minerais críticos e estratégicos elaboradas por diferentes governos. As terras raras também podem integrar as duas categorias, a depender do uso industrial, da disponibilidade global e do grau de dependência de fornecedores externos.

Essa distinção ajuda a explicar por que as terras raras ocupam papel cada vez mais sensível na política internacional. Elas podem ser estratégicas para a expansão econômica e, ao mesmo tempo, críticas quando poucos países controlam a oferta ou o processamento.

Com reservas expressivas, o Brasil passa a disputar espaço em uma cadeia que envolve energia, tecnologia, indústria militar e comércio internacional. A posição do país nesse mercado dependerá da capacidade de transformar o potencial mineral em produção qualificada, investimento, pesquisa e integração industrial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário