A greve resultou em confrontos violentos entre trabalhadores e polícia, resultando na morte de manifestantes e também de policiais
30 de abril de 2026
Ato pelo fim da escala 6x1 (Foto: José Cruz/Agência
Brasil)
Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil
O Dia Internacional do Trabalhador,
também conhecido como Dia do Trabalhador ou Dia do Trabalho, comemorado
anualmente em 1º de maio, é feriado em muitos países.A data tem origem na greve
geral iniciada por trabalhadores norte-americanos em 1º de maio de 1886, em
Chicago, que reivindicavam melhores condições de trabalho, principalmente a
redução da jornada que chegava a 17 ou 16 horas por dia para 8 horas
diárias.
A greve resultou em confrontos
violentos entre trabalhadores e polícia, resultando na morte de manifestantes e
também de policiais. O reconhecimento internacional ocorreu durante o congresso
socialista Segunda Internacional, em Paris, em 1889, que convocou uma
manifestação internacional para 1º de maio de 1890, consagrando a data como dia
de luta pela conquista da jornada de trabalho de 8 horas/dia e em memória aos
operários mortos de Chicago.
“Aí, tornou-se uma efeméride mundial.
A partir daí, os países e os trabalhadores foram adotando essa data, cada um de
um jeito. Mas, de forma geral, o significado é confronto. Era um dia de greve,
um dia de luta, porque o patronato não queria absorver isso. Entendia que era
custo a redução de trabalho”, disse à Agência Brasil o professor do
Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Bernardo
Kocher.
Naquele momento, a indústria estava
trocando a produção: a remuneração por peça, passava a ser de remuneração por
carga, ou seja, por hora trabalhada.
”Então, era possível reduzir a
jornada, mas os patrões não queriam isso, porque era aumento de custo: menos
trabalho e mesmo salário. Implicava diminuir jornada, mas não o salário.”
A produção ia diminuir, porque eram
menos horas trabalhadas e o custo continuaria igual. Então, os trabalhadores
lutavam, através de um dia de greve, como forma de manifestar a viabilidade de
sua reivindicação.
Kocher explicou que com menos horas de trabalho, o operário teria condições de trabalhar melhor e isso resultaria em mais emprego, mais consumo. “Foi uma batalha um tanto, digamos, física. Em alguns lugares, era confronto com a polícia enquanto uma coisa simbólica, de narrativa, para que a lógica dos trabalhadores se sobrepusesse à lógica do capitalismo”.
No Brasil
Ao contrário das informações que
remetem a oficialização do Dia do Trabalho no Brasil a 1924, com o início da
celebração da data em 1925, pelo então presidente Artur Bernardes, o professor
de História da UFF assegurou que o feriado começou em 1890, junto com a
proclamação da República.
“Eu fiz uma dissertação de mestrado
sobre 1º de maio no Rio de Janeiro e constatei isso: 1890. O significado no
Brasil, porém, foi diferente, afirmou o professor. Não foi de confronto. Por
isso, dá impressão que não existiu. Foi uma coisa de cidadania, de manifestação
do direito republicano."
“A classe operária era muito
segmentada. Mal comparando, é como o povo das comunidades, que hoje é
segmentado. Então, ninguém sabe o que acontece lá, não tem serviço. A classe
operária era quase um gueto. Os operários se esforçavam para serem cidadãos,
mas isso foi em 1890”. Quando ocorreu o 1º Congresso Operário Brasileiro, em
1906, os anarquistas sindicalistas conseguiram mudar o significado. Aí passou a
ser um dia de greve, um dia de guerra, um dia de luta de classes.”
Na década de 1920, os comunistas
ocuparam o lugar dos anarcossindicalistas e começaram também a se associar com
a revolução. Isso foi até os anos de 1930, quando ocorreu a Revolução liderada
por Getulio Vargas.
“Aí, o Estado começou a se voltar
para a questão do trabalho”.Nos anos de 1938 e 1939, foi proibida a comemoração
como dia de greve e só em 1940 foi decretada a data como feriado. Segundo o
professor Kocher, foi aí que o movimento operário perdeu a capacidade de
monopolizar o significado do 1º de maio. “O presidente Getulio falava: Não
precisa mais ser dia de greve, nós já estamos fazendo a legislação".
E, então, a data deixou de ser Dia do Trabalhador para ser Dia do Trabalho.
Significado
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Ao longo dos anos, Bernardo Kocher
concluiu que a data passou a significar quase nada. “Tanto que isso já foi dito
várias vezes e você tem que fazer entrevista, porque a cultura se perdeu. Eu
não sei de nenhuma manifestação operária. Sei que é feriado e assim ficou.”
Na concepção do professor da UFF, o
próprio mundo do trabalho mudou muito no decorrer do tempo. A jornada de 8
horas foi incorporada.
“A classe operária perdeu protagonismo com a intervenção estatal na economia e no mundo do trabalho. Isso em todo o planeta. E foi perdendo o significado”. Hoje, o número de trabalhadores industriais em relação à população economicamente ativa é bem menor do que era na época das lutas operárias. Vários setores industriais vêm usando tecnologia, flexibilização, importam partes da China, e isso acabou modificando totalmente o conteúdo da classe operária, manifestou Kocher. “E se perdeu um pouco essa memória coletiva. Se não fosse feriado, ninguém praticamente ia se preocupar”.
Jornada 6x2
Ao ser indagado sobre o projeto de
redução da jornada de trabalho 6x2, Bernardo Kocher avaliou que se trata da
mesma discussão do 1º de maio. “É igualzinho. Eu li os jornais da época (do
início da República) e estou vendo a mesma palavrória. Os argumentos são os
mesmos”.
Ele destacou que a produtividade hoje
é imensa e o empresário tem mil recursos para aumentar a produtividade, mas não
quer ceder.
Segundo o professor, embora um dia a
menos de trabalho se faça necessário para a vida humana, mas não para o
capital, o empresariado não quer assumir.
“Ele quer que o Estado assuma, alega
que tem que cortar benefícios dos trabalhadores, cortar o salário
principalmente. A última análise é isso aí, diminuir o salário. É a mesma
situação.”
No passado, com a redução da jornada
para 8 horas/dia, o trabalhador produziu mais e melhor, houve mais emprego,
mais consumo. “Então; se perde por um lado, ganha pelo outro. Isso só ocorreu
no passado com a intervenção do Estado obrigando. Foi uma ditadura (Getulio
Vargas) que obrigou, porque todo o mundo já estava fazendo isso. A Revolução
Russa, por exemplo, ameaçou e obrigou os empresários a cederem”. Segundo
expressou, os governos tiveram que entrar na questão “porque não ia ter
auto-regulamentação nenhuma”.
A Reforma da Previdência de
2019, que foi o principal projeto da equipe do ministro Paulo Guedes, na gestão
do então presidente Jair Bolsonaro, consolidou na Constituição Federal que a
aposentadoria compulsória para servidores públicos (União, Estados e
Municípios) ocorra automaticamente aos 75 anos de idade, com proventos
proporcionais.
Na avaliação de Bernardo Kocher, a
emenda provocou a perda de direitos trabalhistas ao dar aos empresários a opção
de demitir os trabalhadores celetistas com 75 anos de idade sem direito a
receber indenização pelo tempo trabalhado, nem à multa de 40% do Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
“Eles estão há décadas cortando
direitos, porque o mundo do trabalho mudou muito. O mundo hoje é de serviços. A
competição é global, a China produz tudo muito mais barato. Então, se a classe
trabalhadora está vulnerável, essa legislação (da emenda Paulo Guedes) passa”.
Para o professor da UFF, a
perspectiva para o trabalho não é nada boa. “Hoje, o mercado domina o mundo do
trabalho. E isso leva à precarização, leva à pejotização (contratação de
pessoas jurídicas), à redução de salários e o Estado não quer intervir mais na
economia.”
Sociologia do
trabalho
Na ótica do professor de Sociologia
do Trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), Marco Santana, o 1º de Maio mantém um
significado profundamente político, ainda que seu sentido tenha se transformado
ao longo do tempo.
“É, como se diz, dia de luta e luto.
Ele surgiu no final do século 19 como um dia de luta, ligado à memória das
greves operárias de 1886 em Chicago, que reivindicavam a jornada de oito horas
e foram violentamente reprimidas.”
De acordo com Santana, desde então, o
1º de Maio simboliza a afirmação de que os direitos trabalhistas não são
concessões naturais do progresso ou mesmo das classes dominantes, mas
conquistas obtidas por meio de lutas, conflito social e organização coletiva.
Ao longo do século 20, o dia, marcado
por um feriado, acompanhou a consolidação dos direitos do trabalho em muitos
países, por meio de legislação trabalhista, sindicatos reconhecidos,
previdência social e limites à jornada. Em vários contextos, porém, esse
caráter combativo acabou por ser institucionalizado.
“O 1º de Maio passou a ser celebrado
como data cívica, com cerimônias oficiais e discursos, muitas vezes esvaziando
sua dimensão de protesto e de críticas ao capitalismo”, disse, em entrevista à
Agência Brasil.
Marco Santana observou, entretanto,
que no século 21, o significado do 1º de Maio volta a se tensionar. “As
transformações recentes do mundo do trabalho — como a precarização, a
informalidade, o trabalho por aplicativos, o enfraquecimento sindical e a
redução drástica de direitos laborais — recolocam o 1º de Maio como um dia de
denúncia e reinvenção das lutas trabalhistas”.
Ao mesmo tempo, as pautas se
ampliaram. “Não se trata apenas e somente do emprego industrial clássico, mas
também do trabalho de cuidado, do trabalho racializado, das questões ambientais
e da relação entre trabalho, tecnologia e vida. A luta contra a escala 6x1, por
vida além do trabalho, por exemplo, é uma pauta central e inescapável nesse 1º
de Maio em nosso país”.
No entender do professor do
IFCS/UFRJ, o 1º de Maio expressa hoje uma dupla dimensão: é memória histórica
das lutas que fundaram direitos sociais e, simultaneamente, um alerta sobre sua
fragilidade. “Mais do que comemorar conquistas passadas, o feriado reafirma que
o direito ao trabalho digno, ao tempo livre e à vida para além da
mercantilização continua sendo uma questão aberta e disputada”.
Outras datas
Nos países onde o dia 1º de maio não
é feriado oficial, são organizadas manifestações nesta data, em defesa dos
trabalhadores. Por outro lado, algumas nações celebram o Dia do Trabalhador em
outras datas.
Um exemplo é a Nova Zelândia, que
celebra o Dia do Trabalho na quarta segunda-feira de outubro, em homenagem à
luta dos trabalhadores locais, que levou à adoção da jornada de 8 horas
diárias, antes da greve geral que resultou no massacre nos Estados Unidos.
Na Austrália, o Dia do Trabalho varia de acordo com
a região. Já os Estados Unidos e o Canadá celebram o Dia do Trabalho na
primeira segunda-feira de setembro. Nos Estados Unidos, a escolha teria como
objetivo evitar associar a festa do trabalho com o movimento socialista, então
com alguma relevância no país.

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