A luta entre as duas potências para atrair o Brasil já está em curso.
Por César Fonseca (Repórter de
política e economia)
02 de janeiro de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Os presidentes dos Estados Unidos e da China,
Donald Trump e Xi Jinping, respectivamente, evidenciaram suas prioridades
geopolíticas estratégicas na América Latina, que buscarão implementar em 2026,
pelo que prenunciaram ao longo de 2025: ambos desejam o Brasil como parceiro
preferencial por se tratar do país latino-americano mais forte economicamente,
dotado de riquezas potenciais das quais nem China nem Estados Unidos podem
abrir mão para continuar sua luta pela hegemonia internacional.
A luta entre as duas potências para atrair o Brasil
já está em curso.
Washington, com sua nova estratégia de segurança
nacional, reaviva a Doutrina Monroe para ter maior poder de influência sobre o
gigante brasileiro; o tarifaço trumpista demonstrou que os americanos, conforme
flexibilidade adotada pelo titular da Casa Branca, cuidam de tratar o Brasil
com luvas de pelica, enquanto, por exemplo, baixa o cacete na Venezuela e na
Colômbia, com discurso radical, seguido de mobilização militar no Caribe e no
Pacífico, para ampliar controle sobre petróleo na região.
O pragmatismo trumpista, ao que se vê, abandonou
aquele que esperava ser seu aliado: Jair Bolsonaro; a firmeza da Justiça
brasileira, afirmando sua soberania, sintonizada pelo discurso de Lula, nesse
sentido, cujo resultado prático é Bolsonaro na cadeia, com pena de 27,3 anos,
convenceu Trump de que o líder brasileiro é Lula.
Trump, como denotaram notícias da Casa Branca,
explicitou sua realpolitik: disse que gosta de ganhadores, não de perdedores;
os Bolsonaro são os perdedores; Lula é o vencedor e, pela realpolitik trumpista,
a Casa Branca, com o presidente americano, fez a sua escolha, como os fatos
indicam: Lula pode ser o candidato de Trump, com um Congresso dominado pela
direita e ultradireita, favorecidas pelas emendas parlamentares de R$ 61
bilhões, de modo a evitar supremacia da esquerda no Legislativo e afogar o
presidencialismo constitucional com semipresidencialismo inconstitucional.
Nesse sentido, Trump clarifica a verdade histórica
que segue os dois principais partidos americanos – Democrata e Republicano –, em
matéria de política externa; o ex-presidente Joe Biden, democrata, apostou em
Lula em 2022, barrando tentativa golpista bolsonarista, porque o lulismo,
aliado dos democratas nos Estados Unidos, não radicalizou contra as políticas
neoliberais emergentes pós-golpe neoliberal pró-americano de 2016, que
consolidou políticas privatistas e reformas trabalhistas conservadoras,
adequadas aos interesses do capital americano e dos seus sócios no Brasil.
Trump, vitorioso sobre Biden em 2024, embora não
tenha dialogado naquele ano com Lula, não se viu ameaçado pelo petismo quanto à
retomada da estatização prometida – mas não cumprida – por Lula em campanha
eleitoral; esse detalhe, certamente fruto de pressões de Washington, ajudaria
na química política que se estabeleceria entre Lula e Trump durante a última
reunião anual da ONU, quando ambos levantaram a bandeira branca para discutir o
tarifaço; a flexibilidade do protecionismo trumpista produziu novo modus
operandi político entre os dois presidentes, cujos resultados, por enquanto,
são uma Pax Brasil-EUA, que pode ou não se ampliar, a depender das relações
Brasil-China a partir de 2026, pois a prioridade de Trump é afastar a América
Latina do BRICS, algo que, certamente, está incomodando o presidente chinês, Xi
Jinping.
TENSÃO NO AR: CHINA
NÃO ABRE MÃO DA AMÉRICA LATINA - A disputa Xi Jinping–Trump pela América Latina é feroz e tende a se
desembocar na disputa presidencial de 2026.
Assim que Trump divulgou a nova Doutrina Monroe, a
estratégia de Washington para o século 21, a China publicou também seu
documento geopolítico estratégico para a América Latina, reafirmando suas
posições das quais não pretende se afastar; Xi Jinping, para tanto, reforçou
sua proposição de ampliar a Rota da Seda – projeto chinês de abarcar o mundo
com paciência confuciana – e renovou convite a todos para se aproximarem mais
da China, inclusive os Estados Unidos, em favor de maratona de cooperação
global multilateral.
Xi destacou que os chineses não desistirão da
América Latina, e as armas que Pequim utilizará, no plano econômico, já estão
dadas: ampliação da oferta monetária global de moeda chinesa, jogando a taxa de
juros abaixo de zero, graças à força financeira de que dispõe mediante bancos
públicos chineses, comerciais e de investimentos; os EUA não aguentam essa
competição; em 2025, a China cresceu 5%, prometendo repetir a façanha, ainda
mais ousada, em 2026, com planejamento e projetamento revolucionários, ocupando
a América Latina; os chineses, nesse campo, não têm competidores, quando o
capitalismo americano está envolvido pelas desconfianças generalizadas
decorrentes das formações de bolhas especulativas nos setores de inteligência
artificial; o assunto domina as bolsas internacionais no Ocidente em
instabilidade aguda, a mobilizar Trump para guerras na América Latina, embora
tenha prometido, em campanha eleitoral, não agir mais nesse sentido;
certamente, o clima global instável refletirá no Brasil, que está desembolsando
R$ 1 trilhão/ano para pagar juros Selic de 15% sobre a dívida pública, com
reflexos explosivos no cenário da financeirização especulativa em tempo
eleitoral, com virulência desconhecida.
XI ABALA
AGRONEGÓCIO NO AMBIENTE DA FINANCEIRIZAÇÃO - Neste início de ano novo, o agronegócio treme de
medo com a decisão da China de adotar salvaguardas comerciais quanto à
importação da carne brasileira; trata-se de pressão meramente econômica ou aí
guarda-se algum conteúdo político, como pressão da China para que o Brasil não
se transforme em refém de Washington?
Pequim fixou cota de importação de 1,16 milhão de
toneladas anuais, sendo que o que ultrapassar esse limite pagará tarifa de 55%;
somada à tarifa normal já existente para exportar carne à China, de 12%, a
partir de 2026 até 2028 o agronegócio brasileiro sofrerá tarifa acumulada de
67% (55% + 12%), como preço para continuar exportando 40% da sua produção ao
gigante asiático; com a decisão, na virada do ano, imposta pelo Ministério do
Comércio da República Popular da China (MOFCOM), o agronegócio perde anualmente
3 bilhões de dólares.
Os agricultores estão abalados diante da retração
forçada das performances extraordinárias que se registram na comercialização da
carne: em 2025, segundo a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias de
Carnes), o Brasil exportou 18 bilhões de dólares, sendo 55% para o mercado
chinês, obtendo receita de 9 bilhões de dólares; os números demonstram a
dependência do agro em relação à China: em 2024, receita de 5,4 bilhões de
dólares; em 2025, 8,02 bilhões de dólares, crescimento de 48%; em toneladas, 1.212.721
para 1.499.508 (+23,6%); isso significa 48% do faturamento total e 42,7% do
volume total.
GOVERNO CHINÊS
AGITA BRASÍLIA - Xi Jinping, à moda
chinesa – paciência confuciana –, dá o seu recado: como Trump, também não abre
mão da América Latina e, especialmente, do Brasil, mas faz o seu jogo nada
disfarçado, ou seja, avisa, com o tarifaço sobre a carne, que Lula deve ser
mais explícito em sua política externa a partir deste ano; o agronegócio,
diante da elevada tarifa chinesa, teria à sua disposição, como compensação,
abertura do mercado americano à carne brasileira, para evitar prejuízo de 3
bilhões de dólares/ano?
E se Xi Jinping, caso continuem indefinições do
governo brasileiro quanto ao BRICS, que Trump quer detonar, resolvesse também
diminuir, relativamente, as compras de soja, que começa a ser plantada em toda
a região do Oeste, mobilizando bilhões de reais em financiamentos do Banco do
Brasil, principalmente?
A dialética de Xi Jinping, que embute também o
desejo de que o presidente brasileiro defenda a entrada da Venezuela no BRICS,
fica clara: se os Estados Unidos pressionam Lula para deixar o BRICS e a China
de lado, Pequim, por sua vez, dá xeque-mate no agronegócio, que representa
perto de 35% do PIB nacional.
Em cena, portanto, a disputa do Brasil pelos Estados Unidos e China no
ambiente da crise capitalista em que os americanos perdem para os chineses na
disputa do mercado global; essa queda de braço, inquestionavelmente,
desembocará na disputa eleitoral de 2026.

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