Célula Zé Maria do
Tomé
PCB do Ceará
A LÓGICA DA EXPANSÃO
CAPITALISTA E A DEPREDAÇÃO DA NATUREZA NA TERRA DO SOL
“O sol há de brilhar
mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente”.
O capital, como toda relação social, não envolve apenas relações de trabalho, mas também a forma como nós, seres humanos, nos relacionamos com a natureza. Essa dinâmica com o mundo natural trazida pelo capital tem um caráter predatório, onde a produção para o mercado despreza completamente os cuidados para com a própria preservação da vida no planeta.
As consequências diretas de séculos de
depredação do meio ambiente ganham hoje intensidade maior, no palco das lutas
de classes no Estado do Ceará. É o que ocorre, por exemplo, com a produção de
hidrogênio verde (ou hub) na região do complexo do Pecém, a mineração de urânio
e fosfato em Santa Quitéria e a aprovação da lei de pulverização por drones no
ano passado (2024), que, na prática, anula a lei Zé Maria do Tomé, no qual o
Estado proibia a pulverização de pesticidas. Todos esses empreendimentos não só
comprometem a reprodução da vida marinha, ameaçam a contaminação da água, do
solo e das plantas, como representam diretamente uma ameaça para as populações
costeiras, à agricultura familiar, como a população cearense em geral.
Contudo, os
empreendimentos do grande capital que ameaçam diretamente não só a vida humana,
como nosso ecossistema, não se resumem às iniciativas do agronegócio no interior
do estado. Historicamente, a dinâmica de expansão urbana na capital sempre foi
orientada pelos interesses da burguesia, revelando um padrão estrutural de
conflito entre o crescimento urbano e a preservação de áreas ambientalmente
sensíveis. Fortaleza – que já perdeu cerca de 84% de sua cobertura vegetal
nativa – enfrenta hoje uma intensificação dessas tensões justamente nos poucos
remanescentes de áreas verdes ainda existentes.
Dentro deste tensionamento, tanto o Governo do Estado como a Prefeitura de Fortaleza têm claramente se posicionado dentro dos interesses do grande capital. No caso da Prefeitura, esta aparece como agente central, seja na concessão de conformidade urbanística, seja na flexibilização de normas do Plano Diretor e da Lei de Uso e Ocupação do Solo, seja ainda na condução política de conselhos e instâncias decisórias que autorizam intervenções em áreas protegidas. O caso mais emblemático e recente desse padrão é o desmatamento da chamada “Floresta do Aeroporto”, no entorno do Aeroporto Internacional Pinto Martins.
Entre 2024 e
2025, foram suprimidos entre 32 e 46 hectares de vegetação nativa caracterizada
como Mata Atlântica em estágio médio a avançado de regeneração. Esse episódio
não pode ser compreendido como um caso isolado. Ele se insere em um contexto
mais amplo de pressões urbanísticas sobre áreas protegidas em Fortaleza, como
ocorre historicamente na região da Sabiaguaba, nas margens do rio Cocó e nas
lagoas urbanas dos bairros Maraponga, Parangaba e Messejana.
O recente caso de desmatamento em vista das obras do VLT, noticiado pelo jornal Diário do Nordeste, reforça esse padrão estrutural. Desde sua concepção, ainda no contexto dos projetos associados à Copa do Mundo de 2014, o VLT foi anunciado como uma alternativa moderna, menos poluente e socialmente inclusiva de transporte urbano. No entanto, a implantação concreta do traçado revelou uma série de impactos ambientais e sociais pouco debatidos publicamente, entre eles o desmatamento de áreas verdes urbanas e a supressão de vegetação em zonas ambientalmente sensíveis.
Ao longo do eixo Parangaba–Mucuripe, o VLT atravessa regiões
densamente ocupadas, áreas próximas a cursos d’água, fragmentos de vegetação
urbana remanescente e zonas de amortecimento de áreas de preservação, como o entorno
do rio Cocó. Para viabilizar a obra, houve supressão de árvores, limpeza de
faixas vegetadas e remoção de cobertura verde ao longo da antiga linha férrea e
de áreas adjacentes, muitas delas já pressionadas historicamente pela
urbanização desordenada. Embora parte dessas áreas não estivesse formalmente
classificada como unidade de conservação, cumpria funções ecológicas
importantes, como regulação microclimática, drenagem natural e abrigo de fauna
urbana.
Todo este cenário
tem, em sua raiz, quatro fontes dignas de nota: a reorientação estratégica das
zonas de interesse do grande capital internacional monopolista (e o novo papel
do nosso Estado dentro dessa reorientação); a fragilidade política demonstrada
pelos governos de conciliação de classes protagonizados pelo lulo-petismo
diante das chantagens e imposições dos interesses do grande capital; o avanço
da ultradireita nas casas legislativas (tanto na Câmara Municipal, como na
Assembleia Legislativa) e o esvaziamento dos pólos de organização popular da
cidade, tais como os sindicatos, as associações de moradores e as comunidades
eclesiais de base, o que resultou na grande perda de influência das
organizações populares.
Esse novo cenário
tende a pulverizar as lutas sociais para questões pontuais que, apesar de terem
sua importância, são insuficientes para deter o avanço do processo de
reordenamento interno operado pelo grande capital em nossa cidade. No contexto
das disputas eleitorais que surgem no ano que vem, o processo político
rebaixa-se ainda mais para uma discussão personalista, onde muito se fala sobre
a vida pessoal dos candidatos e pouco se discute sobre os eixos estratégicos
que orientam a dinâmica política e social de nosso Estado.
Entendendo a
gravidade de tais riscos e o sentido político diretamente associado à luta de
classes resultante da contradição Capital x Trabalho, o PCB lança às demais
organizações sindicais, populares e a toda militância social do Estado do Ceará
um chamado que é, ao mesmo tempo, um desafio: o de se discutir a proposição de
um programa popular para o nosso Estado a ser assinado por todas as
candidaturas de esquerda como seu programa de governo. Entendemos que só barrar
o avanço da ultradireita não basta, é preciso oferecer à população cearense uma
alternativa popular e de orientação anticapitalista, para recuperar não só as
nossas relações como seres humanos, mas também nosso meio ambiente do alto
nível de depredação que vem ocorrendo sensivelmente nas últimas décadas.
Partido Comunista
Brasileiro – Célula Zé Maria do Tomé

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