Isso não significa não fazer negócios com a China
10 de janeiro de 2026

John Mearsheimer (Foto: Universidade de Chicago)
247 – A volta da
competição entre grandes potências e o fim do período de unipolaridade dos
Estados Unidos estão reorganizando a geopolítica global e restringindo as
margens de manobra de países emergentes como o Brasil. Essa é uma das
principais conclusões do cientista político John J. Mearsheimer, um dos nomes
mais influentes do realismo estrutural nas relações internacionais, ao analisar
o novo cenário mundial em entrevista ao canal Horizons, no YouTube.
Ao tratar do papel de potências
médias e emergentes, Mearsheimer foi direto ao abordar o caso brasileiro. Para
ele, a posição do Brasil no Hemisfério Ocidental impõe limites claros à
política externa do país, independentemente da expansão econômica da China. “O
Brasil está no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma política chamada
Doutrina Monroe. E a Doutrina Monroe diz que não há como o Brasil formar uma
aliança com a China. E eu acho que os brasileiros entendem muito bem que podem
ter relações econômicas com a China. Mas não têm escolha a não ser serem
amistosos com os Estados Unidos, a não se aliarem à China”, afirmou.
A declaração sintetiza um argumento
central do realismo: para os Estados, a sobrevivência e a segurança pesam mais
do que a prosperidade econômica. Mesmo que países tentem “fazer hedge” — isto
é, equilibrar relações com múltiplos polos —, essa estratégia tende a se tornar
inviável quando a rivalidade entre potências se intensifica. Segundo o
professor, a pressão do sistema internacional empurra os Estados, em
situações-limite, a escolher um lado.
O fim da “pausa da
história” e o retorno da multipolaridade
Mearsheimer afirmou que o mundo viveu
entre os anos 1990 e 2017 um período excepcional, no qual os Estados Unidos
foram a única grande potência. “De aproximadamente 1992, pouco depois do
desaparecimento da União Soviética — e, claro, a Guerra Fria tinha terminado
naquele momento — até por volta de 2017, quando China e Rússia emergiram como
grandes potências, nós vivemos em um mundo unipolar”, disse, ao explicar que a
ausência de rivais tornava impossível a competição de segurança típica entre
potências.
Essa realidade, segundo ele, começou
a mudar de maneira decisiva quando China e Rússia passaram a atuar como centros
de poder global. “O meu argumento é que isso aconteceu por volta de 2017,
quando China e Rússia entraram em cena como grandes potências”, afirmou. A
partir daquele momento, o mundo teria voltado à lógica multipolar — e, com ela,
reapareceu a disputa estratégica em escala global.
Mearsheimer sustenta que previu esse
retorno da rivalidade, especialmente no Leste Asiático e na Europa. Ele
recordou que defendia há anos que a ascensão chinesa resultaria em tensão
crescente com Washington. “Eu discordei completamente disso e achei que a
ascensão da China e a China se tornando uma grande potência levariam a todo
tipo de problema no Leste Asiático e haveria uma competição intensa de
segurança entre os Estados Unidos e a China nessa região”, disse.
Sobre a Europa, ele reafirmou que
alertou para as consequências da expansão da OTAN e da tentativa de integrar a
Ucrânia ao bloco ocidental. “Eu argumentei por muito tempo que tentar se
expandir, especialmente para a Ucrânia, era uma receita para o desastre. Isso
levaria a problemas com a Rússia”, afirmou. E acrescentou que o conflito em
território ucraniano, em sua visão, reforça que suas advertências estavam
corretas. “E, mais uma vez, com tristeza eu digo que eu estava certo também
nesse ponto”, completou.
A mudança dos EUA e
o declínio da “hegemonia liberal”
A entrevista também abordou a mudança
de postura dos EUA sob “Donald Trump 2.0”, descrita pelo entrevistador como uma
transição do projeto de “refazer o mundo à imagem americana” para uma política
mais transacional e focada no interesse nacional.
Mearsheimer rejeitou a ideia de que
isso represente uma guinada ao isolacionismo ou uma “retirada da liderança
global”. “Isso é um absurdo. Isso não é o que está acontecendo”, afirmou.
Segundo ele, durante o período
unipolar, como não havia competição direta com outras potências, Washington
tentou impor uma estratégia de “hegemonia liberal”, baseada na expansão de
instituições e valores ocidentais. “O que os Estados Unidos decidiram fazer, em
vez de se engajar em competição entre grandes potências, foi refazer o mundo à
sua própria imagem. Seguir uma política externa liberal — o que eu chamo de
hegemonia liberal”, explicou.
O resultado, para ele, foi
desastroso. “O resultado final disso é que nós entramos nas guerras sem fim.
Foi desastroso”, disse. Mearsheimer afirma que essa sequência de fracassos
ajudou a reduzir o apoio doméstico nos EUA para intervenções militares,
enquanto o retorno da multipolaridade obrigou o país a redirecionar
prioridades. “Uma vez que você está em um mundo multipolar depois de 2017, os
Estados Unidos tiveram que focar na competição entre grandes potências”, afirmou.
Rússia e China:
“uma situação que não faz sentido para os EUA”
Mearsheimer também insistiu na ideia
de que o Ocidente — especialmente a política adotada durante a guerra na
Ucrânia — contribuiu para aproximar Moscou e Pequim, o que ele considera contrário
ao interesse estratégico americano. “Como resultado da guerra na Ucrânia, nós
empurramos os russos para os braços dos chineses”, disse.
Para ele, essa composição de forças
cria um cenário em que os EUA enfrentam simultaneamente a principal potência
rival (China) e uma potência nuclear com peso geopolítico decisivo (Rússia),
sem conseguir separá-las. Mearsheimer afirmou acreditar que Trump tenta
“corrigir” esse quadro. “Eu acredito que o que Trump quer fazer é, em primeiro
lugar, encerrar a guerra na Ucrânia e, em segundo, ter boas relações com
Moscou. Ele quer melhorar as relações entre EUA e Rússia para poder afastar os
russos dos chineses”, disse.
Ele comparou a ideia a uma estratégia
usada por Nixon e Kissinger nos anos 1970. “Isso é semelhante ao que Kissinger
e Nixon fizeram em 1972. Naquele caso, nós afastamos a China da União
Soviética”, afirmou.
Mas, embora considere a lógica
“racional”, Mearsheimer avalia que há obstáculos quase intransponíveis no curto
prazo. “Eu diria que é extremamente improvável que isso vá funcionar num futuro
previsível”, disse, citando a russofobia instalada nas elites ocidentais e a
falta de confiança da Rússia no Ocidente.
Europa mais
fragmentada e com relações “venenosas” com Moscou
No debate sobre a Europa, Mearsheimer
argumentou que o enfraquecimento da “proteção americana” tende a aumentar as
divisões internas do continente. “A minha argumentação é que o oposto vai
acontecer: as relações europeias vão ficar mais conflituosas”, afirmou, dizendo
que a presença dos EUA funcionava como “cola” entre os países europeus.
Segundo ele, mesmo que a guerra na
Ucrânia seja interrompida, o cenário seguinte tende a ser de instabilidade
duradoura. “Uma vez que os tiros pararem e você tiver um conflito congelado, as
relações entre a Europa de um lado e a Rússia do outro serão venenosas”,
afirmou. E apontou que Moscou poderá explorar divergências entre governos
europeus em relação ao grau de hostilidade ou reaproximação.
Instituições
internacionais enfraquecem, “ordens limitadas” avançam
Outro eixo central da entrevista foi
a crise das instituições globais construídas no pós-guerra. Mearsheimer
concordou que organismos como ONU e OMC sofrem paralisia e fragmentação, mas
afirmou que esse processo não deve ser interpretado como “falência total”, e
sim como consequência natural do equilíbrio de poder.
“Nós saímos da unipolaridade e agora
estamos na multipolaridade. Então essas instituições internacionais... vão
tornar cada vez mais difícil, ao longo do tempo, obter muita cooperação entre
as três grandes potências”, afirmou.
Em vez de uma ordem verdadeiramente
global, ele vê o surgimento de “ordens limitadas”, lideradas pelas potências em
disputa. “O que a China está fazendo e o que os Estados Unidos estão fazendo é
criar suas próprias ordens limitadas... projetadas para travar competição de
segurança”, afirmou. E citou como exemplos iniciativas lideradas por Pequim:
“Pense na Nova Rota da Seda. Pense no Brics. Pense na Organização de Cooperação
de Xangai. Pense no AIIB”, disse.
Interdependência
econômica não garante paz — e pode virar vulnerabilidade
Mearsheimer também criticou a crença
liberal de que integração econômica reduz riscos de guerra. “Muitas pessoas
acreditam que interdependência econômica causa paz... isso não faz sentido
nenhum”, afirmou, lembrando que a Europa tinha forte integração econômica antes
da Primeira Guerra Mundial.
Para ele, o problema real hoje é a
dependência estratégica. Mearsheimer citou um exemplo ligado à disputa
tecnológica e à cadeia de suprimentos de minerais críticos. “Os Estados Unidos
dependem da China para certas matérias-primas, e isso dá à China grande
alavancagem sobre os Estados Unidos... principalmente terras raras e ímãs de
terras raras”, disse.
Ele relatou que, ao tentar impor
tarifas e “jogar duro” contra Pequim, Trump teria sido contido por esse fator.
“Os chineses disseram ao presidente Trump, sem nenhuma dúvida, que cortariam
essas terras raras para os Estados Unidos se os EUA jogassem duro. E o
resultado final é que o presidente Trump recuou”, afirmou.
Onde o mundo pode
explodir: Taiwan, Mar do Sul da China e sete pontos perigosos na Europa
Ao ser questionado sobre o risco de
guerras “por acidente” num sistema multipolar, Mearsheimer apontou que o Leste
Asiático concentra os principais focos entre EUA e China.
“Há três grandes pontos de tensão no
Leste Asiático... o primeiro é Taiwan... mas há outros dois que me preocupam
muito: o Mar do Sul da China e o Mar da China Oriental”, afirmou. Sobre Taiwan,
foi categórico: “Os chineses estão profundamente comprometidos em recuperar
Taiwan... acreditam que Taiwan é território sagrado”, disse.
Quanto à Europa, ele alertou que a
Ucrânia continuará sendo um foco perigoso mesmo após eventual cessar-fogo.
“Mesmo que você pare os combates na Ucrânia, você vai acabar com um conflito
congelado... e sempre há o perigo de esse conflito congelado virar novamente
uma guerra quente”, afirmou.
Além da Ucrânia, ele listou outras
seis áreas onde a disputa Rússia-Ocidente pode escalar: “O Ártico, o Mar
Báltico, Kaliningrado, Belarus, Moldávia e o Mar Negro”, disse, afirmando que
cada uma dessas regiões tem potencial para produzir choques diretos.
Brasil entre
pragmatismo econômico e limites geopolíticos
A fala sobre o Brasil, colocada no
centro da entrevista ao tratar das potências intermediárias, sintetiza o dilema
dos emergentes na era multipolar. Para Mearsheimer, o Brasil pode ampliar
comércio, investimentos e laços econômicos com a China, mas não pode, em
hipótese alguma, transformar isso em uma aliança estratégica no sentido
clássico, especialmente por conta da doutrina histórica dos EUA no Hemisfério
Ocidental.
“O Brasil está no Hemisfério
Ocidental... não há como o Brasil formar uma aliança com a China... mas pode
ter relações econômicas com a China”, afirmou, ao reforçar que a geopolítica,
mais do que a economia, define o teto das escolhas nacionais.
Na lógica do realismo, a autonomia existe — mas é
sempre condicionada pela estrutura de poder. E, no novo cenário descrito por
Mearsheimer, com competição cada vez mais intensa entre polos, o espaço para
“equilíbrios diplomáticos” tende a se estreitar, exigindo pragmatismo e cautela
para evitar que disputas globais se tornem armadilhas para países como o
Brasil.
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