A invasão de Brasília expôs os figurantes de um golpe que continua sendo articulado em todo o país”, escreve Moisés Mendes (Jornalista)
07 de janeiro de 2026
Atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023 (Foto:
Fellipe Sampaio /SCO/STF)
Davi Alcolumbre e Hugo Motta fizeram as contas e
decidiram que talvez seja melhor se afastar dos eventos sobre o 8 de janeiro.
Os dois são as figuras mais visíveis dessas ausências. Mas muita gente está
mandando dizer: me deixem fora disso.
Alcolumbre e Motta devem apresentar atestado porque
o cálculo político a ser feito, em ano de eleição, é o da sobrevivência. Chega
de defesa da democracia. Agora, é disputar voto para a direita, mesmo que no
caso de Alcolumbre o mandato lhe assegure mais quatro anos no Senado.
É preciso juntar voto para toda a direita com os
eleitores ainda fiéis ao golpismo. Não mexam muito com eles. Hugo Motta,
candidato à reeleição na Câmara, necessita do eleitor para a própria
sobrevivência com votação inquestionável.
Mas o que importa para os dois é fortalecer a velha
direita e assim ficar sempre por perto do que a extrema direita impositiva
determina. As duas direitas se misturaram sem dilemas de consciência.
A direita antiga, cada vez mais subjugada, precisa
manter Lula sob controle e o Supremo sob ameaça permanente. Não faz bem ir a
eventos, no Planalto e no STF, que tentam preservar a memória do 8 de janeiro
como o episódio que mais expressa o fracasso do fascismo e a vitória das
instituições.
Motta, Alcolumbre e outros do vasto e vago campo
democrático poderão até se reaproximar de Lula, de Moraes e do Supremo mais
adiante. Mas não agora, em eventos pela democracia.
Querem desfrutar da retórica genérica dos bons
modos protocolares, mas sem afrontar em cerimônias efusivas o fascismo
capilarizado em suas bases, o que ajuda a manter Bolsonaro como morto vivo até
em pesquisas do Datafolha.
O golpismo permanente ainda soluça, para provar que
pode ser acionado com mais força esse ano, enquanto Moraes responde dizendo que
sabe dessas manobras, mesmo as mais dissimuladas.
Sabe que Malafaia vive como bolsonarista intenso,
mesmo que pareça só na moita, tanto que mandou que seja intimado a explicar por
que chamou os generais do alto comando do Exército de cambada de frouxos e
covardes e omissos que não honram a farda que vestem.
Talvez não aconteça nada com Malafaia, que produziu
a ofensa em abril, mas Moraes avisa que, apesar das tentativas de cercá-lo, não
se sente intimidado. O ministro e o sistema de Justiça podem se sentir
exauridos, mas o serviço ainda está incompleto.
O 8 de janeiro é a data que mais representa a
tentativa de golpe, como teatro, mas não tem as principais figuras da trama
daquele dia. Os personagens da invasão de Brasília não são nem coadjuvantes nas
tentativas de explicar o que aconteceu.
Foram figurantes levados a Brasília por gente ainda
impune, os financiadores que repassaram recursos a laranjas e transformaram
essa dinheirama em dinheiro miúdo repartido entre os manés.
Os grandes financiadores do golpe, não só no 8 de
janeiro, são os personagens inalcançados até agora. Continuam atuando em
acampamentos virtuais do bolsonarismo, com bandeiras às costas, e a maioria
goza da certeza de que escapará.
Alcolumbre e Motta não podem ficar mal com essa
gente, que até 2018 atuava em suas cidades médias e pequenas apenas como
líderes reacionários, que todo mundo conhecia, e em algum momento assumiram a
condição de militantes fascistas.
No evento do ano passado no Planalto, no segundo
aniversário da invasão, o ministro Edson Fachin leu essa frase de discurso do
então presidente do STF, Luís Roberto Barroso:
“Os atentados de 8 de janeiro foram a face visível
de um movimento subterrâneo que articulava um golpe de Estado”.
Os integrantes dessa face visível foram expostos como criminosos e
condenados a até 17 anos de prisão. Mas o movimento golpista subterrâneo
continua. E nem é tão subterrâneo assim.
EM TEMPO: Na quinta-feira 08.01.2026 haverá manifestações nas principais cidades brasileira em defesa da democracia e da soberania e contra a anistia para os golpistas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário