MATHEUS TEIXEIRA
*ARQUIVO* BRASÍLIA,
DF, 03.02.2020 - O procurador-geral da República, Augusto Aras. (Foto: Pedro
Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF
(FOLHAPRESS) - O ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal),
votou nesta quarta-feira (10) pelo prosseguimento do inquérito das fake news,
que apura a disseminação de notícias falsas e ameaças a integrantes da corte.
O magistrado foi
o único a votar nesta quarta. A análise do caso será retomada na próxima
semana, a partir da sessão de 17 de junho.
Fachin propôs
que o objeto do inquérito seja limitado a ações que ofereçam "risco
efetivo" à independência do Poder Judiciário. Como exemplo de atos desta
natureza, citou ameaças a ministros e a incitação ao fechamento do Supremo.
Sem mencionar o
ministro da Educação, Abraham Weintraub, Fachin ressaltou que pedir a prisão de
integrantes do STF também se enquadra nas hipóteses do inquérito.
O chefe da pasta
da Educação do governo Jair Bolsonaro afirmou, em reunião ocorrida no dia 22 de
abril, que, por ele, botaria "esses vagabundos todos na cadeia, começando
pelo STF".
Fachin é o
relator da ação que questiona a legalidade do ato do presidente do Supremo,
ministro Dias Toffoli, de abrir a investigação de ofício, ou seja, sem
provocação da PGR (Procuradoria-Geral da República).
Também é
contestada a indicação do ministro Alexandre de Moraes como relator sem
realização de sorteio entre todos os ministros, como ocorre geralmente.
Fachin defendeu
a exclusão de "matérias jornalísticas" das investigações. Foi neste
inquérito, por exemplo, que Moraes mandou tirar do ar uma reportagem da revista
Crusoé que envolvia Toffoli.
Também foi neste
inquérito que Moraes determinou operação policial, em 27 de maio, contra
deputados, empresários e blogueiros bolsonaristas.
Fachin também
sustentou que as apurações não podem se voltar contra manifestações pessoais
que não integrem um sistema de financiamento e divulgação em massa de fake
news.
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O relator
admitiu que o assunto é "controverso", mas salientou que o regimento
interno do STF, que tem força de lei, permite a apuração de supostos crimes
contra a corte quando há omissão da PGR ou da Polícia Federal.
Ao final do
voto, Toffoli fez questão de elogiar o colega. "Vossa excelência nos
brindou com um aprofundado voto, um dos mais brilhantes já proferidos nesta
Suprema corte", disse. Moraes fez o mesmo e enalteceu a posição do relator
da ação da Rede.
Fachin defendeu,
ainda, que o Congresso e o Supremo têm o desafio de determinar os limites entre
entre liberdade de expressão e notícias fraudulentas, as chamadas fake news.
Para ele, o
exercício da liberdade de expressão deve obedecer três limites: proteção a
direitos ou à reputação de terceiros; proteção da segurança nacional e da ordem
pública; e proibição de propaganda a favor da guerra e de apologia ao ódio.
Além disso,
Fachin deu a entender que a omissão da PGR e da Polícia Federal em investigar
ataques à corte justificaram a abertura do inquérito.
"O artigo
43 do regimento interno é, sem dúvida alguma, regra excepcional, que confere ao
Judiciário, diante da omissão dos órgãos de controle, função atípica na seara
da investigação, de modo que a fim de preservar preceitos fundamentais",
disse, antes de votar pelo prosseguimento do inquérito.
O ministro
também fez um discurso enfático na defesa da democracia e contra os movimentos
que pedem o fechamento do STF e do Congresso.
"Não há
liberdade de expressão que ampare a defesa desses atos. Quem os pratica precisa
saber que enfrentará a Justiça constitucional do seu país. Precisa saber que
este Supremo não os tolerará, não há direito e não há princípios que possam ser
invocados para que se autorize transigir com a prevalência dos direitos
fundamentais", comentou.
Fachin observou
que a Constituição dá ao STF a palavra final sobre a interpretação correta da
Constituição, e não às Forças Armadas, como sustentaram alguns bolsonaristas
após os movimentos contra o Supremo protagonizados por apoiadores do presidente
Jair Bolsonaro ganharem força.
"Não há no
texto constitucional qualquer norma que autorize outro poder ou instituição a
última palavra sobre e a Constituição Federal, que cabe ao Judiciário. A espada
sem a justiça é o arbítrio", frisou.
Além do voto de
Fachin, o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o advogado-geral da
União, José Levi, fizeram sustentações orais a favor do inquérito.
Aras ressaltou
que as fake news são espalhadas por "todos os segmentos da comunicação
moderna" e disse que não tem mais a mesma confiança nos jornais
tradicionais.
"Reconhecemos
todas as dificuldades, sabemos que este fenômeno maligno das fake news não se resume
a blogueiros nas redes sociais, ele é estimulado por todos os segmentos da
comunicação moderna sem teias, sem aquele respeito que a nossa geração --eu
digo a minha geração-- aprendeu a ler o jornal acreditando que aquilo era
verdade", frisou.
Segundo Aras,
hoje em dia é necessário "ter mais cuidado na leitura das notícias para
fazermos um filtro para encontrar o mínimo de plausibilidade em relação a essa
campanha de fake news, que não guarda limites de nenhuma natureza".
Aras defendeu a
continuidade do inquérito, mas com novas balizas. Ele solicitou "constante
participação da procuradoria". E pediu que, a partir de agora, passe a ter
o poder de avalizar ou não medidas como buscas e apreensões e quebras de
sigilos passem pelo crivo da procuradoria.
Aras também
solicitou que a apuração tenha objeto delimitado com mais precisão.
Para o PGR, é
necessário dar interpretação conforme à Constituição ao artigo 43 do regimento
interno do STF, que foi usado por Toffoli para assinar a portaria que instaurou
o inquérito.
O dispositivo
prevê que, caso ocorra "infração à lei penal na sede ou dependência do
tribunal", o presidente pode instaurar inquérito e designar um relator
para o caso.
Aras afirmou que
é necessário interpretar o artigo de acordo com a Constituição e,
consequentemente, impor os parâmetros propostos, como participação da PGR e
poder da procuradoria para avalizar medidas cautelares que exigem autorização
judicial.
O
procurador-geral também assegurou que tem atuado na defesa das instituições e
citou como exemplo o pedido de abertura de inquérito apresentado em 20 de abril
após manifestações em frente ao quartel general do Exército pedirem fechamento
do Congresso e do STF.
Apesar de o
presidente Jair Bolsonaro ter feito duras críticas ao inquérito após seus
apoiadores serem alvo de operação policial, a Advocacia-Geral da União (AGU)
defendeu a continuidade do inquérito e propôs balizas para ter continuidade.
O
advogado-geral, José Levi, afirmou ser indevido criminalizar a liberdade de
expressão ou a liberdade de imprensa, "inclusive e em especial na
Internet".
Na dúvida entre
a liberdade de expressão e uma possível fake news, disse, é necessário
assegurar a liberdade de expressão.
Levi lembrou,
ainda, que não há um tipo penal geral para fake news, mas, sim, os tradicionais
crimes contra a honra.
Ele destacou que
a Polícia Federal deve "exercer, com exclusividade, as funções de polícia
judiciária" e que nenhuma polícia estadual pode participar das
investigações.
EM TEMPO: Bolsonaro foi eleito com a ajuda do ex-Juiz Sérgio Moro, com a divulgação de boatos, com a ausência nos debates, com a despolitização e conservadorismo da maioria da população brasileira. Bolsonaro era o pior candidato de Direita, além de ser ex-militar indisciplinado e expulso do Exército e do "baixo clero" (políticos despreparados) quando era Dep. Federal. Agora durmam com essa bronca.

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