ESTADÃO - Redação
Lula discursou por quase 30 minutos na COP-27.
Foto: Nariman El-Mofty/AP© Fornecido por Estadão
O presidente eleito Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) discursou nesta quarta-feira, 16,
na Cúpula do
Clima (COP-27), em Sharm el-Sheik, no Egito. Entre outros pontos,
ele afirmou que o “Brasil está de volta” ao debate climático global e falou no
desafio de enfrentar o aquecimento global. O pronunciamento foi feito na área
da Organização das Nações (ONU) e durou quase 30 minutos.
“Não haverá futuro enquanto
estivermos cavando um poço sem fundo entre ricos e pobres”, disse Lula, que
lembrou do compromisso firmado pelos países ricos em 2009, de oferecer, a
partir de 2020, US$ 100 bilhões anuais para que as nações mais pobres enfrentassem
os efeitos da crise climática. “Esse compromisso nem foi nem está sendo
cumprido”, criticou Lula.
Leia a íntegra do discurso de
Lula na COP-27
“Em primeiro lugar, quero agradecer a
oportunidade de estar aqui no Egito, berço da civilização, que desempenhou um
papel extraordinário na história da humanidade. Quero também agradecer o convite para
participar da vigésima sétima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças
Climáticas. Sinto-me especialmente honrado, porque sei que este convite não foi
dirigido a mim, mas ao meu país.
Este convite, feito a um presidente
recém-eleito antes mesmo de sua posse, é o reconhecimento de que o mundo tem
pressa de ver o Brasil participando novamente das discussões sobre o futuro do
planeta e de todos os seres que nele habitam. O planeta que a todo momento nos
alerta de que precisamos uns dos outros para sobreviver. Que sozinhos estamos
vulneráveis à tragédia climática.
No entanto, ignoramos esses alertas.
Gastamos trilhões de dólares em guerras que só trazem destruição e mortes,
enquanto 900 milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer. Vivemos um momento de crises
múltiplas – crescentes tensões geopolíticas, a volta do risco da guerra
nuclear, crise de abastecimento de alimentos e energia, erosão da
biodiversidade, aumento intolerável das desigualdades.
São tempos difíceis. Mas foi nos
tempos difíceis e de crise que a humanidade sempre encontrou forças para
enfrentar e superar desafios. Precisamos de mais confiança e
determinação. Precisamos de mais liderança para reverter a escalada do
aquecimento.
Os acordos já finalizados têm que
sair do papel.
Para isso, é preciso tornar
disponíveis recursos para que os países em desenvolvimento, em especial os mais
pobres, possam enfrentar as consequências de um problema criado em grande
medida pelos países mais ricos, mas que atinge de maneira desproporcional os
mais vulneráveis.
Senhores e senhoras,
Estou hoje aqui para dizer que o
Brasil está pronto para se juntar novamente aos esforços para a construção de
um planeta mais saudável. De um mundo mais justo, capaz de acolher com
dignidade a totalidade de seus habitantes – e não apenas uma minoria
privilegiada. O Brasil acaba de passar por uma das
eleições mais decisivas da sua história. Uma eleição observada com atenção
inédita pelos demais países.
Primeiro, porque ela poderia ajudar a
conter o avanço da extrema-direita autoritária e antidemocrática e do
negacionismo climático no mundo. E também porque do resultado da
eleição no Brasil dependia não apenas a paz e o bem estar do povo brasileiro,
mas também a sobrevivência da Amazônia e, portanto, do nosso planeta.
Ao final de uma disputa acirrada, o
povo brasileiro fez a sua escolha, e a democracia venceu. Com isso, voltam a
vigorar os valores civilizatórios, o respeito aos direitos humanos e o
compromisso de enfrentar com determinação a mudança climática. O Brasil já mostrou ao mundo o
caminho para derrotar o desmatamento e o aquecimento global. Entre 2004 e 2012,
reduzimos a taxa de devastação da Amazônia em 83%, enquanto o PIB agropecuário
cresceu 75%.
Infelizmente, desde 2019, o Brasil
enfrenta um governo desastroso em todos os sentidos – no combate ao desemprego
e às desigualdades, na luta contra a pobreza e a fome, no descaso com uma
pandemia que matou 700 mil brasileiros, no desrespeito aos direitos humanos, na
sua política externa que isolou o país do resto do mundo, e também na
devastação do meio ambiente.
Não por acaso, a frase que mais tenho
ouvido dos líderes de diferentes países é a seguinte:
“O mundo sente saudade do Brasil.”
Quero dizer que o Brasil está de
volta.
Está de volta para reatar os laços
com o mundo e ajudar novamente a combater a fome no mundo. Para cooperar outra vez com os países
mais pobres, sobretudo da África, com investimentos e transferência de
tecnologia. Para estreitar novamente relações com
nossos irmãos latino-americanos e caribenhos, e construir junto com eles um
futuro melhor para nossos povos.
Para lutar por um comércio justo
entre as nações, e pela paz entre os povos.
Voltamos para ajudar a construir uma
ordem mundial pacífica, assentada no diálogo, no multilateralismo e na
multipolaridade. Voltamos para propor uma nova
governança global. O mundo de hoje não é o mesmo de 1945. É preciso incluir
mais países no Conselho de Segurança da ONU e acabar com o privilégio do veto,
hoje restrito a alguns poucos, para a efetiva promoção do equilíbrio e da paz.
No pronunciamento que fiz ao fim da
eleição no Brasil, em 30 de outubro, ressaltei a importância de unir o país,
que foi dividido ao meio pela propagação em massa de fake news e discursos de
ódio. Naquela ocasião, eu disse que não
existem dois Brasis. Quero dizer agora que não existem dois planetas Terra.
Somos uma única espécie, chamada Humanidade, e não haverá futuro enquanto
continuarmos cavando um poço sem fundo de desigualdades entre ricos e pobres.
Precisamos de mais empatia uns com os
outros. Precisamos construir confiança entre nossos povos. Precisamos nos
superar e ir além dos nossos interesses nacionais imediatos, para que sejamos
capazes de tecer coletivamente uma nova ordem internacional, que reflita as
necessidades do presente e nossas aspirações de futuro. Estou aqui hoje para reafirmar o
inabalável compromisso do Brasil com a construção de um mundo mais justo e
solidário.
Senhoras e senhores,
A Organização Mundial da Saúde alerta
que a crise climática compromete vidas e gera impactos negativos na economia
dos países. Segundo projeções da Organização,
entre 2030 e 2050 o aquecimento global poderá causar aproximadamente 250 mil
mortes adicionais ao ano – por desnutrição, malária, diarreia e estresse
provocado pelo calor excessivo. O impacto econômico de todo esse
processo, apenas no que se refere aos custos de danos diretos à saúde, é
estimado pela OMS entre 2 a 4 bilhões de dólares por ano até 2030.
Ninguém está a salvo.
Os Estados Unidos convivem com
tornados e tempestades tropicais cada vez mais frequentes e com potencial
destrutivo sem precedentes.
Países insulares estão simplesmente
ameaçados de desaparecer.
No Brasil, que é uma potência
florestal e hídrica, vivemos em 2021 a maior seca em 90 anos, e fomos assolados
por enchentes de grandes proporções que impactaram milhões de pessoas. A Europa enfrenta uma série de
fenômenos meteorológicos e climáticos extremos em várias partes do continente –
de incêndios devastadores a inundações que causam um número inédito de mortes. Apesar de ser o continente com a
menor taxa de emissão de gases do efeito estufa do planeta, a África também vem
sofrendo eventos climáticos extremos.
Enchentes e secas no Chade, Nigéria,
Madagascar e parte da Somália.
Elevação do nível dos mares, que num
futuro próximo será catastrófica para as dezenas de milhões de egípcios que
vivem no Delta do rio Nilo. Repito: ninguém está a salvo. A emergência
climática afeta a todos, embora seus efeitos recaiam com maior intensidade
sobre os mais vulneráveis.
A desigualdade entre ricos e pobres
manifesta-se até mesmo nos esforços para a redução das mudanças climáticas. O 1 por cento mais rico da população
do planeta vai ultrapassar em 30 vezes o limite das emissões de gás carbônico
necessário para evitar que o aumento da temperatura global ultrapasse a meta de
1,5 grau centígrado até 2030.
Este 1 por cento mais rico está a
caminho de emitir 70 toneladas de gás carbônico per capita por ano. Enquanto
isso, os 50 por cento mais pobres do mundo emitirão, em média, apenas uma
tonelada per capita, segundo estudo produzido pela ONG Oxfam e apresentado na
COP 26. Por isso, a luta contra o aquecimento
global é indissociável da luta contra a pobreza e por um mundo menos desigual e
mais justo.
Senhores e senhoras,
Não há segurança climática para o
mundo sem uma Amazônia protegida. Não mediremos esforços para zerar o
desmatamento e a degradação de nossos biomas até 2030, da mesma forma que mais
de 130 países se comprometeram ao assinar a Declaração de Líderes de Glasgow
sobre Florestas. Por esse motivo, quero aproveitar
esta Conferência para anunciar que o combate à mudança climática terá o mais
alto perfil na estrutura do meu governo.
Vamos priorizar a luta contra o
desmatamento em todos os nossos biomas. Nos três primeiros anos do atual
governo, o desmatamento na Amazônia teve aumento de 73 por cento. Somente em 2021, foram desmatados 13
mil quilômetros quadrados.
Essa devastação ficará no passado.
Os crimes ambientais, que cresceram
de forma assustadora durante o governo que está chegando ao fim, serão agora
combatidos sem trégua. Vamos fortalecer os órgão de
fiscalização e os sistemas de monitoramento, que foram desmantelados nos
últimos quatro anos. Vamos punir com todo o rigor os
responsáveis por qualquer atividade ilegal, seja garimpo, mineração, extração
de madeira ou ocupação agropecuária indevida.
Esses crimes afetam sobretudo os
povos indígenas.
Por isso, vamos criar o Ministério
dos Povos Originários, para que os próprios indígenas apresentem ao governo
propostas de políticas que garantam a eles sobrevivência digna, segurança, paz
e sustentabilidade. Os povos originários e aqueles que
residem na região Amazônica devem ser os protagonistas da sua preservação. Os
28 milhões de brasileiros que moram na Amazônia têm que ser os primeiros
parceiros, agentes e beneficiários de um modelo de desenvolvimento local
sustentável, não de um modelo que ao destruir a floresta gera pouca e efêmera
riqueza para poucos, e prejuízo ambiental para muitos.
Vamos provar mais uma vez que é
possível gerar riqueza sem provocar mais mudança climática. Faremos isso
explorando com responsabilidade a extraordinária biodiversidade da Amazônia, para
a produção de medicamentos e cosméticos, entre outros. Vamos provar que é possível promover
crescimento econômico e inclusão social tendo a natureza como aliada
estratégica, e não mais como inimiga a ser abatida a golpes de tratores e
motosserras.
Tenho o prazer de informar que logo
após nossa vitória na eleição de 30 de outubro, Alemanha e Noruega anunciaram a
intenção de reativar o Fundo Amazônia, para financiar medidas de proteção
ambiental na maior floresta tropical do mundo. O Fundo dispõe hoje de mais de 500
milhões de dólares, que estão congelados desde 2019, devido à falta de
compromisso do governo atual com a proteção da Amazônia. Estamos abertos à cooperação
internacional para preservar nossos biomas, seja em forma de investimento ou
pesquisa científica.
Mas sempre sob a liderança do Brasil,
sem jamais renunciarmos à nossa soberania.
Conjugar desenvolvimento e meio
ambiente também é investir nas oportunidades criadas pela transição energética,
com investimentos em energia eólica, solar, hidrogênio verde e bicombustíveis.
São áreas nas quais o Brasil tem um potencial imenso, em particular no Nordeste
brasileiro, que apenas começou a ser explorado.
Cuidar das questões ambientais também
é melhorar a qualidade de vida e as oportunidades nos centros urbanos. Fornecer
alternativas de meios de transporte com menor impacto ambiental. Gerar empregos em indústrias menos
poluentes na cadeia industrial da reciclagem, que melhora o aproveitamento das
matérias primas, e no saneamento básico, que protege a nossa saúde e nossos
rios cuidando da água, elemento indispensável para a vida.
A produção agrícola sem equilíbrio
ambiental deve ser considerada uma ação do passado. A meta que vamos perseguir
é a da produção com equilíbrio, sequestrando carbono, protegendo a nossa imensa
biodiversidade, buscando a regeneração do solo em todos os nossos biomas, e o
aumento de renda para os agricultores e pecuaristas.
Estou certo de que o agronegócio
brasileiro será um aliado estratégico do nosso governo na busca por uma
agricultura regenerativa e sustentável, com investimento em ciência, tecnologia
e educação no campo, valorizando os conhecimentos dos povos originários e
comunidades locais. No Brasil há vários exemplos exitosos de agroflorestas.
Temos 30 milhões de hectares de
terras degradadas. Temos conhecimento tecnológico para torná-las agricultáveis.
Não precisamos desmatar sequer um metro de floresta para continuarmos a ser um
dos maiores produtores de alimentos do mundo.
Este é um desafio que se impõe a nós
brasileiros e aos demais países produtores de alimentos. Por isso estamos
propondo uma Aliança Mundial pela Segurança Alimentar, pelo fim da fome e pela
redução das desigualdades, com total responsabilidade climática.
Quero aproveitar a ocasião para
garantir que o acordo de cooperação entre Brasil, Indonésia e Congo será
fortalecido pelo meu governo. Juntos, nossos três países detêm 52
por cento das florestas tropicais primárias remanescentes no planeta.
Juntos, trabalharemos contra a
destruição de nossas florestas, buscando mecanismos de financiamento
sustentável, para deter o avanço do aquecimento global. Quero também propor duas importantes
iniciativas, a serem apresentadas formalmente pelo meu governo, que se iniciará
no dia primeiro de janeiro de 2023.
A primeira iniciativa é a realização
da Cúpula dos Países Membros do Tratado de Cooperação Amazônica.
Para que Brasil, Bolívia, Colômbia,
Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela possam, pela primeira vez, discutir
de forma soberana a promoção do desenvolvimento integrado da região, com
inclusão social e responsabilidade climática. A segunda iniciativa é oferecer o
Brasil para sediar a COP 30, em 2025. Seremos cada vez mais afirmativos diante
do desafio de enfrentar a mudança do clima, alinhados com os compromissos
acordados em Paris e orientados pela busca da descarbonização da economia
global. Enfatizo ainda que em 2024 o Brasil
vai presidir o G20. Estejam certos de que a agenda climática será uma das
nossas prioridades.
Senhoras e senhores,
“Em 2009, os países presentes à COP
15 em Copenhague comprometeram-se em mobilizar 100 bilhões de dólares por ano,
a partir de 2020, para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentarem a
mudança climática.
Este compromisso não foi e não está
sendo cumprido.
Isso nos leva a reforçar, ainda mais,
a necessidade de avançarmos em outro tema desta COP 27: precisamos com urgência
de mecanismos financeiros para remediar perdas e danos causados em função da
mudança do clima. Não podemos mais adiar esse debate.
Precisamos lidar com a realidade de países que têm a própria integridade física
de seus territórios ameaçada, e as condições de sobrevivência de seus
habitantes seriamente comprometidas.
É tempo de agir. Não temos tempo a
perder. Não podemos mais conviver com essa corrida rumo ao abismo. Se pudermos resumir em uma única
palavra a contribuição do Brasil neste momento, que essa palavra seja aquela
que sustentou o povo brasileiro nos tempos mais difíceis: Esperança.
A esperança combinada com uma ação
imediata e decisiva, pelo futuro do planeta e da humanidade.
Muito obrigado a todos”
Assista os vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=GmggJVJVJuM&t=73s Discurso de Lula
https://www.youtube.com/watch?v=sS2-KY_zws4 Carta dos governadores da Amazônia Legal
https://www.youtube.com/watch?v=KAmVQyJSXtQ Canal UOL,
Jornalistas comentam o discurso de Lula.