quinta-feira, 25 de junho de 2026

Parlamentares do PT vão à Justiça contra anúncios de bets ao vivo

Pedro Uczai e Alencar Santana pedem suspensão de anúncios, odds ao vivo, QR Codes e bônus durante partidas

25 de junho de 2026

 
Pedro Uczai e Alencar Santana (Foto: Agência Câmara)

247 - Deputados do Partido dos Trabalhadores protocolaram nesta quinta-feira (25) na Justiça Federal uma liminar para barrar anúncios de bets durante transmissões esportivas ao vivo, com pedido de suspensão imediata de propagandas, odds ao vivo, QR Codes, cupons, bônus e outros estímulos às apostas durante partidas e eventos esportivos. A ação popular tem autoria de Alencar Santana (PT-SP), vice-líder do governo na Câmara, e Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara dos Deputados.

A ação mencionou a CazéTV, que adquiriu os direitos de transmissão dos 104 jogos da Copa do Mundo de 2026 no Brasil, em formato gratuito e com forte presença no ambiente digital. Segundo o documento, a combinação entre audiência massiva, linguagem interativa e publicidade de bets amplia a exposição de crianças, adolescentes, consumidores vulneráveis e famílias em situação de endividamento. A exibição constante de mercados, probabilidades e chamadas comerciais associa emoção esportiva a consumo imediato de apostas, acrescentou o documento.

A ação pede aplicação específica da vedação às transmissões realizadas pela LiveMode/CazéTV e pelo YouTube. O texto também prevê extensão da medida a qualquer emissora, plataforma de streaming, rede social, aplicativo ou veículo que transmita eventos esportivos ao vivo ao público brasileiro.

“A CazéTV adquiriu os direitos para transmissão integral dos 104 jogos da Copa do Mundo de 2026 no Brasil, gratuitamente pelo YouTube, com linguagem digital, interativa e especialmente atrativa para o público jovem. A concentração de audiência, associada à publicidade de bets durante a transmissão, cria ambiente de exposição massiva de crianças, adolescentes, consumidores vulneráveis e famílias endividadas a um produto que o próprio poder público já reconhece como problema de saúde pública”, ressalta o documento.

O pedido também cobra providências da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda diante dos riscos associados à expansão das apostas online no país. 

Estatísticas

Dados citados na ação, com base no Ministério da Saúde, apontam que 25,9% dos brasileiros acima de 14 anos já fizeram apostas ao menos uma vez. Entre os apostadores, 7,3% apresentaram comportamento de risco ou problemático, enquanto 4,4% se enquadraram nos critérios de transtorno do jogo.

As apostas online e os jogos de azar, impulsionados pela expansão das chamadas bets, geram impactos econômicos e sociais estimados em R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil. O cálculo reúne prejuízos associados a suicídios, desemprego, despesas com saúde e afastamentos do trabalho.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, afirmou nesta sexta-feira (19) que cerca de 25,2 milhões de brasileiros apostam em plataformas ilegais na internet. A declaração ocorreu durante a apresentação de ações contra o mercado irregular, que, segundo o governo federal, movimenta bilhões de reais e passou a atrair organizações criminosas. 

Jogatina ao vivo

Na ação, Alencar Santana e Pedro Uczai afirmam que a publicidade em tempo real altera a forma como o público acompanha o esporte e transforma a transmissão em ambiente de incentivo permanente ao jogo. “Esse formato produz estímulo ativo e imediato. A partida deixa de ser apresentada como competição desportiva e passa a funcionar como vitrine de jogatina. O jornalismo esportivo, que deveria narrar e analisar o fato esportivo, é convertido em marketing permanente de aposta”, apontou.

“A competição, por sua vez, sofre uma distorção simbólica e econômica na qual o torcedor é interpelado como apostador, o lance deixa de ser apenas lance e a expectativa esportiva passa a ser capturada por mercados instantâneos, probabilidades comerciais e indução ao consumo impulsivo”, afirmam os autores da iniciativa.

“O Brasil vive uma expansão explosiva das apostas online. A Copa do Mundo, por sua dimensão cultural e econômica, amplia o risco de captura de milhões de espectadores, inclusive crianças e adolescentes, por mensagens comerciais em tempo real”,afirmam Alencar Santa e Pedro Uczai. 

Saúde pública e endividamento

A ação reúne dados sobre ludopatia, sofrimento mental, endividamento, autolesão e suicídio relacionados às apostas online. Os deputados também apontam impactos sobre famílias vulneráveis e beneficiários de programas sociais.

Alencar Santana e Pedro Uczai acusam a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda de omissão por permitir a exploração comercial das bets durante transmissões esportivas ao vivo sem normas compatíveis com os riscos à saúde pública.

O documento compara a situação das apostas ao tratamento dado a produtos lícitos, mas potencialmente nocivos, como cigarros e bebidas alcoólicas. Para os autores, o Estado já reconhece o problema, mas ainda não adotou restrições adequadas ao ambiente das transmissões esportivas. 

Riscos à saúde física e mental

A Nota Técnica nº 4/2025 do Ministério da Saúde aponta consequências associadas às apostas, como perda financeira, endividamento, problemas de saúde física e mental, violência doméstica, aumento da criminalidade, rompimento de vínculos familiares, perda de emprego e maior risco de suicídio.

Segundo o documento, cada pessoa que desenvolve transtorno relacionado ao jogo afeta outras seis. A ação também registra que uma em cada três pessoas com problemas ligados às apostas pensa em suicídio ao menos uma vez, e uma em cada oito tenta tirar a própria vida, principalmente em contextos de endividamento.

Os parlamentares sustentam que a publicidade ao vivo agrava esse cenário ao expor o espectador a estímulos sucessivos em momentos de forte emoção. A ação afirma que esse tipo de propaganda atinge adultos, jovens e grupos vulneráveis de forma direta durante transmissões de grande audiência. 

Pedido de tutela de urgência

No pedido à Justiça, os deputados solicitam tutela de urgência para suspender imediatamente a publicidade de apostas durante transmissões esportivas ao vivo. Eles também querem que a Secretaria de Prêmios e Apostas edite normas específicas, em curto prazo, para fiscalizar plataformas, emissoras, operadores, influenciadores e entidades esportivas.

“O pedido alcança publicidade direta e dissimulada. A proibição deve abranger anúncios, merchandising, ações de patrocínio verbalizadas, odds ao vivo, vinhetas, quadros comerciais, chamadas de ação, leitura de mercados, links, QR Codes, cupons, bônus, logomarcas em sobreposição gráfica, inserções de “aposte agora”, comentários patrocinados e qualquer forma de estímulo ativo ao jogo durante o período da transmissão ao vivo, desde a abertura da cobertura até o encerramento do pós-jogo ao vivo”, apontam os parlamentares no documento.

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