"Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação Condor"
Por Alex Solnik (Jornalista)
12 de maio de 2026
Juscelino Kubitschek
De acordo com a investigação realizada pela
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério de
Direitos Humanos, a morte do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek de
Oliveira não foi acidental, como se supunha até então. Uma nova perícia
constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação
Condor, que foi criada nos Estados Unidos, pela CIA, para eliminar os
principais opositores dos regimes ditatoriais no Brasil, no Chile, na Argentina
e no Uruguai. O jornalista Ivo Patarra descobriu algo mais: os possíveis
mandantes do atentado.
EU: O que aconteceu naquele dia com o ex-presidente
Juscelino Kubitschek de Oliveira?
IVO: Dia 22 de agosto de 1976. Era um domingo. O
acidente, entre aspas...
EU: Não, peraí, peraí, era um domingo, era um
domingo. Onde estava o Juscelino e para onde ele foi?
IVO: Ele estava hospedado na Casa da Manchete, em
São Paulo. E, por volta das 14:00, viajou ao Rio de Janeiro, de carro.
EU: Qual era o carro? Quem era o motorista?
IVO: Era o Opala dele, quer dizer, o Opala que ele
deu para o Geraldo Ribeiro, que era o motorista dele há 36 anos, motorista
executivo da mais alta confiança, e eles pegaram esse carro para ir ao Rio de
Janeiro. No caminho, pararam em Resende, onde Juscelino tinha uma reunião.
EU: Quem o chamou para essa reunião?
IVO: Ele foi chamado para essa reunião por pessoas
que se apresentaram como emissários do governo do general-presidente Ernesto
Geisel. Juscelino, supondo que poderia ser candidato, digamos assim, nas
eleições de 78, mesmo que fosse no Colégio Eleitoral, achava que tinha que
fazer uma ponte com os setores militares, a gente estava num regime militar,
ele não poderia encarar uma eleição sem o mínimo apoio militar. Então, ele foi
para essa reunião, que se deu no Hotel Fazenda Villa-Forte, em Resende, logo
após a divisa São Paulo-Rio. Era um hotel que ficava a 500 metros da pista São
Paulo-Rio e lá ele ficou por 90 minutos, das 16h30 às 18h00.
EU: Quem era o dono do hotel?
IVO: O proprietário era o Brigadeiro Newton
Junqueira Villa-Forte (*), e o hotel ficou conhecido como “o Hotel do SNI”. O
Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte foi um dos organizadores, um dos
criadores do temível SNI, o Serviço Nacional de Informações, a Polícia Secreta do
Regime Militar, que foi criado em 1964. O primeiro chefe do SNI foi o general
Golbery do Couto e Silva. É importante dizer isso porque, em 1976, esse mesmo
Golbery era o braço direito do general presidente Ernesto Geisel como
ministro-chefe da Casa Civil. E lembrando que, em 1955, o mesmo Golbery foi
preso numa rebelião militar que tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek.
Então, já tinha um problema entre os dois.
EU: Quem estava nessa reunião no Hotel Fazenda
Villa-Forte?
IVO: Não se sabe. Não se sabe quem estava nessa
reunião.
EU: Enquanto Juscelino ficou lá dentro... onde
ficaram o carro e o motorista?
IVO: Havia um estacionamento no local. E o
motorista, como todo motorista executivo, não só de presidente da República, de
governador, prefeito, deputado, senador, vereador, o motorista executivo fica
sempre do lado do carro porque a autoridade chega e vai embora e está sempre
com pressa e, além de tudo, ele guarda o carro estando ao lado do veículo sem
que ninguém chegue perto. E aí você tem já uma contradição enorme na saída do
JK desse hotel, onde ele ficou noventa minutos, não se sabe o que aconteceu lá
dentro, eu entendo que ele pode ter sido humilhado ali, e quando o Geraldo
Ribeiro, o motorista dele, engata a marcha ré, para tirar o carro do estacionamento
- e quem contou à Comissão da Verdade foi o jornalista Carlos Heitor Cony -
perguntou ao encarregado do estacionamento se alguém havia mexido no carro.
EU: Mas espera aí, o Geraldo não ficou o tempo todo
ao lado do carro?
IVO: O Geraldo foi provavelmente atraído para
dentro do hotel. para tomar um café, será que ele foi drogado?, será que ele
foi envenenado?... o fato é que ao perguntar isso para o guardador, e pela
resposta que o guardador dá, ele também não estava lá, porque ele não é um cara
assertivo e categórico, claro que não mexeram no carro, estava aqui tomando
conta, não, ele simplesmente disse, “não, eu não vi nada”.
EU: O Cony contou se o Geraldo em algum momento
saiu de perto do carro?
IVO: Não. O Cony só contou que esteve lá e, conversando
com o guardador de carros, o guardador relatou isso para ele, que quando o
Geraldo Ribeiro engatou a ré no Opala, perguntou se alguém tinha mexido no
carro.
EU: Cony conversou com mais alguém no hotel?
IVO: Até onde se sabe, só com o encarregado do
estacionamento.
EU: Bom, se o estacionamento tinha um guardador e o
motorista perguntou se alguém tinha mexido no carro, é óbvio que ele não ficou
o tempo todo ao lado do carro, não é?
IVO: Sim, isso é o mais provável.
EU: Então pronto, agora... o Juscelino entra no
carro, o Geraldo já estranhou alguma coisa no carro, e eles pegam a Via Dutra
em direção ao Rio de Janeiro. E o que acontece, então?
IVO: Eles vão andar só três quilômetros. E aí você
tem o acidente. O que acontece? Na hora que o Opala entra na Dutra, pelo trevo,
ali em Resende, onde está o hotel, está vindo pela esquerda de São Paulo um
ônibus da Viação Cometa, e ele vem em alta velocidade, porque saiu com atraso
de São Paulo, ele estava descontando o atraso. O motorista da Cometa, Josias
Nunes de Oliveira, viu o Opala entrando na Dutra, mas ele vinha pela esquerda e
passou e foi embora. Três quilômetros adiante, numa manobra arriscada, que um
motorista com a competência do Geraldo Ribeiro, com a responsabilidade de estar
levando o Juscelino Kubitschek dentro do carro, não faria em circunstâncias
normais, ele ultrapassa o ônibus do Josias Nunes de Oliveira pela direita.
Lembrando que o ônibus vinha razoavelmente rápido, porque ele estava atrasado.
Numa situação normal, o carro do Juscelino esperaria atrás do ônibus, que iria
passar dois caminhões que estavam logo à frente à direita, e normalmente o
ônibus iria para a direita e o carro do Juscelino passaria o ônibus pela
esquerda. Não. O carro do Juscelino faz uma manobra arriscada, temerária, de passar
em alta velocidade o ônibus pela direita, lembrando que a Dutra ainda é assim,
são duas pistas só, pista da esquerda e pista da direita. Então, ele comete
esse ato grave, temerário, e logo…
EU: Sabe-se a quantos quilômetros por hora ele
estava?
IVO: Eu imagino que o carro estivesse talvez a 120
por hora, o ônibus a 90, que é uma velocidade razoável, e passageiros que
estavam dentro do ônibus repararam que o carro estava instável, meio
descontrolado, não a ponto de estar desgovernado ainda. Mas, assim que ele
ultrapassa o ônibus pela direita, faz uma inflexão radical para a esquerda e já
passa quase que imediatamente para a outra pista da Dutra. Ele pula um canteiro
central que tinha dez ou doze centímetros e cai na pista da contramão da Dutra.
De repente.
EU: Quem contou isso? O motorista do ônibus?
IVO: Sim, isso está, inclusive, nas perícias feitas
na época.
EU: O motorista depôs na Comissão da Verdade?
IVO: Sim, localizamos o Josias em Campinas. Mas
deixa eu te explicar. O carro vai para a outra pista da Dutra, a pista Rio -
São Paulo. Agora, vamos tentar congelar essa cena. Você tem um Opala, uma
situação gravíssima, quer dizer, ele atravessa o canteiro central e entra na
contramão na Dutra. Vamos congelar ali, para a gente tentar entender. Se fosse
uma situação normal, pela velocidade que ele estava, em meio segundo ele
atravessaria a faixa da esquerda, a faixa da direita e o acostamento da Dutra,
e estaria do outro lado da pista, onde até hoje é assim, e você tem um campo de
gramíneas no mesmo nível, ou seja, não teria acontecido nada se ele depois de
atravessar o canteiro central tivesse atravessado a Dutra, mas ele não faz
isso, o carro desgovernado começa a andar para a direita na contramão e ele
começa a andar exatamente contra os carros ou veículos que viriam na pista Rio
- São Paulo! Uma loucura! Não há nas perícias sinal de marca de pneu brecando.
Então, o carro simplesmente começa a andar na contramão e vai andar nessa
contramão por quatro, talvez cinco segundos, até se chocar contra uma carreta
carregada com 30 toneladas de gesso. Um detalhe. Depois da Comissão da Verdade,
o motorista que estava numa outra carreta, exatamente atrás da carreta contra a
qual o carro do Juscelino bateu, relata ter visto Geraldo Ribeiro, o motorista
do Juscelino Kubitschek, com a cabeça tombada entre o volante e a porta. Ou
seja, se isso realmente aconteceu, ele já não estava consciente, talvez ele já
não estivesse nem vivo, se isso for verdade.
EU: Então, com esse choque, com essa colisão, os
dois morreram na hora, o motorista e o Juscelino?
IVO: Morreram, tiveram mortes ali praticamente na
hora.
EU: O Juscelino estava no banco da frente?
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IVO: Não, no banco de trás, mas foi uma pancada
muito forte. Agora, é interessante notar o que fez o regime militar na época.
As autoridades acusaram o motorista da Viação Cometa de ter batido no carro do
Juscelino, e isso é que desgovernou o carro e fez com que ele fosse para o outro
lado da pista. Mas isso não aconteceu, porque ele não foi demitido. Nem
advertido. No dia seguinte, levou o mesmo ônibus para São Paulo, porque não
tinha nenhum problema no ônibus. Depois ele foi julgado e absolvido. E mais uma
vez julgado. Foi julgado pela segunda vez. Os promotores entraram com recursos,
ele foi julgado de novo. E mais uma vez foi inocentado. Não houve a batida e,
portanto, não havia uma explicação razoável para o que levou o carro do JK ir
para o outro lado da pista, para a pista da contramão. Os passageiros que
estavam dentro do ônibus, nenhum disse que houve a batida. Um deles, o Paulo
Oliver, prestou um depoimento no ano seguinte, para a Justiça e tudo mais, e
falou num clarão sobre o Opala na hora que ele estava passando na frente do
ônibus, como se aquilo pudesse ter sido um tiro, uma explosão. O fato é que
Juscelino saiu do Hotel Fazenda e rodou três quilômetros em alta velocidade,
mas o carro havia sido sabotado, provavelmente, dentro do estacionamento. Não
levaria muito tempo para alguém entrar debaixo de um Opala e cortar a mangueira
alimentadora do freio da roda dianteira direita, que é a hipótese mais
provável, nós nunca vamos saber isso com certeza, porque esse carro depois foi
mexido, foi adulterado, etc. Mas o fato é que, quando ele precisou frear, logo
após passar o ônibus da Cometa, talvez para dar uma ajustada no carro e voltar
para a pista da esquerda, ele devia estar em fuga, não é?
EU: Então, espera aí, essa informação eu não
conhecia. Alguém estava perseguindo o carro do Juscelino?
IVO: A gente não sabe que tipo de coisa aconteceu
ali. Na época se falou numa Caravan amarela, mas isso nunca foi confirmado, mas
o fato é que o carro estava em alta velocidade fazendo uma ultrapassagem
temerária e isso indica que ele poderia estar fugindo. E quando ele pisa no
freio e ele não tem o freio na roda dianteira direita, porque em um segundo
alguém cortou aquela mangueira no carro do estacionamento, quando o carro
estava no estacionamento, ele, naturalmente, para diminuir a velocidade do
carro, pisa mais no freio. É instintivo. E aí o que ele faz? Não tem freio na
roda dianteira direita, trava a roda dianteira esquerda e o carro vai para a
esquerda. E é um movimento que ele faz para cair na outra pista da Dutra, na
pista da contramão. Então, essa é uma hipótese.
EU: Foi aberto um inquérito policial para apurar as
causas, não é?
IVO: Sim, foi feito.
EU: Houve perícia no Opala, na carreta? Nos corpos?
IVO: Olha, os encarregados do inquérito trocaram o
perito, tem uma série de irregularidades. Nós temos, por exemplo, uma
fotografia do Opala, depois do acidente, o Opala todo destruído, uma pancada de
frente, só que a lanterna traseira do lado esquerdo está intacta. No dia
seguinte, de manhã, essa lanterna esquerda está destruída.
EU: Mas teve alguma perícia assinada por alguém?
IVO: Não. Nem exame toxicológico eles fizeram. Tem
uma série de irregularidades nisso. Agora, nós pedimos a reabertura do caso
porque, em 2019, foi feita uma perícia de 200 páginas pelo Sérgio Ejzenberg, um
dos peritos mais competentes do país, que provou por A mais B que não houve a
batida do ônibus contra o Opala. Portanto, ficou em aberto o que fez com que o
Opala fosse parar na pista da contramão. E com base nessa perícia e outras
investigações que foram feitas agora pela Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos do Ministério de Direitos Humanos, e que nós esperamos
que seja votada nos próximos dias, é que fica claro que JK foi vítima de um
atentado político. E quem ganha a eleição seguinte é justamente João
Figueiredo, o chefe do SNI, que havia sido aluno do brigadeiro Newton Junqueira
Villa-Forte na Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro.
EU: E como é que os jornais noticiaram esse
acidente?
IVO: Como um acidente normal, era a versão da
época.
EU: Os jornais foram censurados?
IVO: Acho que não. E até recentemente, em 2014, a
Comissão Nacional da Verdade corroborou a versão do regime militar, de que
havia sido um acidente de trânsito normal.
EU: Os corpos do Juscelino e do motorista foram
submetidos a algum exame?
IVO: Muito pouco, quase nada. Não foram periciados.
Na época da nossa Comissão Municipal da Verdade, aqui em São Paulo, concluída
em 2014, eu fiz um relatório com 114 fatos que questionavam a versão oficial.
Então, tem todo um rol de coisas. Inclusive, uma coisa que a gente está
discutindo agora no Brasil - a anistia - eu gostaria de comentar rapidamente.
Juscelino cometeu dois erros, que foi anistiar as duas rebeliões militares, as
duas tentativas de golpe que houve no governo dele, em 1956 e 1959, Aragarças e
Jacareacanga. Foram duas tentativas de golpe. Na primeira, eles tentaram
controlar o estado do Pará e, a partir daí, dar o golpe. E, na segunda,
planejaram até bombardear Brasília. Mas qual foi o erro do Juscelino? Ele
anistiou os golpistas. E, ao anistiar os golpistas, ele praticamente
incentivou, estimulou o golpe próximo, que foi o de 64. Ele anistiou os
brigadeiros, os generais do ar. E o dono do Hotel Fazenda Villa-Forte era um
brigadeiro.
EU: Esse brigadeiro prestou algum depoimento?
IVO: Não. Naquela época, obviamente que não. Em
tese, não teve nada a ver com isso. Foi um acidente de trânsito, né?
EU: Ninguém foi investigar o local de onde o
Juscelino saiu na época?
IVO: Nada. Eles centraram fogo no motorista negro.
Ele bateu no carro do Juscelino, ele é o responsável.
EU: E o motorista da carreta?
IVO: O motorista da carreta ficou ferido, quebrou o
braço. O da outra carreta, que viu a cabeça do Geraldo Ribeiro tombada entre o
volante e a porta só foi ouvido muitos e muitos anos depois. Nós o ouvimos na
Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, em 2014. Trouxemos ele de Santa
Catarina para depôr.
EU: Mas o motorista da carreta que bateu no carro,
o carro que bateu na carreta, esse nunca depôs?
IVO: Ele simplesmente contou que o carro veio e
bateu nele. Ele é vítima também.
EU: Sim, mas tem o depoimento dele ou na polícia,
ou na Comissão da Verdade?
IVO: Não, na Comissão da Verdade não, porque ele
morreu já faz algum tempo. Eu cheguei a entrevistá-lo em 1999, quando fiz a
matéria para a revista Caros Amigos, que foi a primeira matéria sobre o caso,
mas ainda era superficial, quer dizer, já estava claro...
EU: O que ele disse para você?
IVO: Ele não disse nada de relevante. Ele
simplesmente recebeu um impacto forte no caminhão dele.
EU: E o que ele fez em seguida? Ele foi ver o que
aconteceu, fugiu?
IVO: Quem acudiu mais, inclusive ajudou a desligar
o caminhão, que ficou todo arrebentado, foi o Ademar Jahn, que era o motorista
da carreta de trás, e que foi ver as condições dos dois passageiros do Opala já
agonizando.
EU: E o motorista da Cometa, fez o quê?
IVO: Ele parou o ônibus, também foi tentar socorrer
os acidentados, ele e alguns passageiros. E aí ele retoma a viagem, e pára em
seguida no primeiro posto da Polícia Rodoviária Federal e avisa “olha, teve um
acidente gravíssimo ali, você precisa correr para lá e tal”. Se o ônibus seguiu
viagem foi porque não esbarrou no Opala. Caso contrário, teria que esperar a
perícia da Cometa. Avaliar o prejuízo. Não houve a batida do ônibus contra o
Opala, isso foi uma fraude, e isso, na verdade, justifica, em parte, toda essa
investigação que se fez, porque se as autoridades da época centraram fogo numa
tese mentirosa, foi porque estavam escondendo alguma coisa. Por que insistir em
responsabilizar o motorista do ônibus da Cometa? Por quê? Para esconder o
atentado que provavelmente foi executado a mando do general, do brigadeiro
Newton Junqueira Villa-Forte, que tinha relação com esses dois generais
estratégicos do Geisel - Golbery e Figueiredo.
EU: Como o Golbery entra nessa história?
IVO: O Golbery entra na história já em 1955, quando
participa de uma rebelião que tenta impedir Juscelino de assumir a presidência
da República. Em 1964, depois de JK ter anistiado duas vezes militares
golpistas, eles dão o golpe e Golbery é o primeiro chefe do SNI. Em 1976,
Golbery é o segundo homem mais importante da República.
EU: Qual é a ligação desses fatos com a Operação
Condor? Ou seja, tem alguma prova, algum indício de que Figueiredo e Golbery
tinham vínculos com a Operação Condor, cujo comando estava no Chile?
IVO: Tem uma carta do Manuel Contreras, o general
chileno, cabeça da Operação Condor, em que fala da ameaça que Juscelino
Kubitschek, entre outros, como Orlando Letelier, que também morreu num atentado
com carro, eles chamavam de “Código 12” os atentados feitos em carros. A Zuzu
Angel é outra vítima disso daí também. Você forja um acidente de trânsito para
eliminar um inimigo. E o Contreras escreveu essa carta para o Figueiredo,
falando da importância deles se unirem para combater os radicais de esquerda no
Cone Sul, entre eles o Juscelino Kubitschek, que nunca foi nem radical e nem
homem de esquerda, né? Ele era um cara de centro.
EU: Você teve acesso a essa carta? Essa carta
existe?
IVO: Sim, ela foi publicada, faz parte do
relatório, é um dos 114 pontos, por exemplo, do nosso trabalho, o relatório JK
da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, presidida pelo vereador
Gilberto Natalini e que concluiu os trabalhos em 2014.
EU: E há nos autos algum vínculo entre Figueiredo,
Golbery e o Brigadeiro dono do hotel, eles conversavam?
IVO: O que se sabe é que Golbery era frequentador
do hotel e que o Figueiredo foi aluno do Brigadeiro na Escola Militar do
Realengo. Mas a ligação deles passa pelo SNI. O Brigadeiro, Newton Junqueira
Villa-Forte é um dos criadores do SNI, Golbery do Couto Silva é o primeiro
chefe do SNI, e Figueiredo é o chefe do SNI em 1976.
EU: E o que se sabe sobre as visitas do Golbery a
esse hotel?
IVO: Sabe-se que ele era um frequentador do hotel,
e isso quem diz é o próprio filho do Brigadeiro. Quando a gente fez a Comissão
Municipal da Verdade, o Brigadeiro já havia morrido, ele é de uma geração que
antecede a geração do Golbery e do Figueiredo, ele já havia morrido, mas o
filho dele depõe, e diz que Golbery era frequentador do hotel. Não conta mais
detalhes. Só diz que era um frequentador.
EU: Houve uma versão anos depois de um tiro no
motorista. Isso foi descartado?
IVO: Os corpos não foram periciados. Porque quem
mandava ali era o Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro.
E aquilo era tudo dominado por eles. Eles que deram a versão do acidente, eles
que foram atrás do motorista. Foi tudo falseado ali, né? Não tem fotografia dos
corpos, nada disso, o que é um absurdo! A gente tem relatos de que o corpo do
Geraldo Ribeiro foi imediatamente colocado num caixão, no Instituto Médico
Legal de Resende, e fechado ali, e deixaram o corpo do ex-presidente Juscelino
Kubitschek jogado no chão!
EU: Quando os corpos foram removidos para o IML de
Resende?
IVO: Na noite de domingo. Inclusive, antes disso,
mexeram na cena do caminhão… do Opala… segundo testemunhos de repórteres que já
estavam na Dutra, antes da perícia chegar já tinha gente do Exército, da AMAN,
Academia Militar das Agulhas Negras, que fica ali do lado, e os militares
mexeram no posicionamento do Opala e do caminhão.
EU:De onde vem essa informação, que o corpo do
Juscelino estava no chão?
IVO: De depoimentos de funcionários, que a gente
recuperou. Eu recuperei isso anos depois.
EU: Os funcionários da ML não depuseram no
inquérito, nem na Comissão da Verdade?
IVO: Não.
EU: O que aconteceu com o corpo do Juscelino
depois?
IVO: O caixão do Juscelino foi fechado e ele foi
velado em Brasília. O país praticamente parou nos dias seguintes para o enterro
dele em Brasília.
EU: Ele foi colocado no caixão no próprio IML de
Resende?
IVO: Sim, caixão simples. E o caixão foi remetido a
Brasília.
EU: E o que aconteceu nesse enterro do JK? Quando
foi? Como é que foi?
IVO: Foi em seguida, em Brasília e teve uma certa
comoção popular, quer dizer, não deixaram o caixão ser levado no carro do corpo
de bombeiro, os populares levaram o caixão no ombro. Ele foi um presidente
muito popular, né? E apesar de ter 74 anos quando morreu, é possível que ele
tivesse condições de saúde para enfrentar uma presidência da República a partir
de 1976, ele, Jango e Carlos Lacerda formaram a Frente Ampla por isso, com
vistas à redemocratização do país. Ele apostava nisso, ele em tese estava bem
de saúde.
EU: Como eram os encontros dele com Jango e com
Lacerda? O que você sabe desses encontros?
IVO: Eles tiveram poucos encontros, mas foi um
movimento que assustou, eu imagino, o regime militar, porque eram três
políticos importantes, à direita o Carlos Lacerda, à esquerda o Jango e, pelo
centro político, o Juscelino Kubitschek. Quer dizer, a união deles poderia ser
uma união poderosa para tirar o poder das mãos dos militares e...
coincidentemente ou não, eles morrem, os três, num período de nove meses. Sendo
que a morte do JK é a mais flagrante. O atentado político contra o JK é o mais
flagrante, ele é inquestionável, o relatório tem 1000 páginas, mais 6000
páginas de anexos e que inclui a grande novidade que foi a perícia de 222
páginas feita pelo engenheiro Sérgio Ejzenberg.
EU: Nesse relatório de 1000 páginas tem algum tipo
de incriminação do brigadeiro dono do hotel, ou do Figueiredo, ou do Golbery?
Há alguma menção a eles? Ou são suas conclusões?
IVO: São as minhas conclusões de quem investiga
isso há 29 anos. Não se sabe o teor das 1000 páginas. Quem sabe são os sete
integrantes dessa comissão especial, sendo que foi feito, pelo que eu estou
informado, um resumo de 150 páginas, para que eles pudessem ler e entender.
EU: A tua conclusão, o que você pode afirmar como
manchete? O SNI mandou matar JK?
IVO: Olha, eu digo a você que a minha conclusão é
essa, agora, nós jamais vamos poder saber os detalhes. Para você ter uma ideia,
quando reabriram o caso, no governo Fernando Henrique Cardoso, no ano 2000 e
foram periciar o Opala, que deveria estar nesse pátio da delegacia de polícia,
o que se verificou foi que o número do motor não era o do carro do Geraldo
Ribeiro. Ou seja, trocaram o Opala, botaram outro Opala lá. E, portanto, não
deu para verificar nada ali. Essa é mais uma evidência, um indício... ou mesmo
uma prova de que nós temos um conjunto indiciário tão grande que não dá para
ter outra conclusão que o regime de exceção é responsável pelo que aconteceu.
EU: Mas você daria essa manchete? “O SNI mandou
matar JK”?
IVO: Eu teria que ver o teor desse relatório, mas
eu não tenho dúvida que o SNI é suspeito de matar. Eu lembro a você que depois
das Comissões da Verdade, veio a público um documento da Secretaria de Estado
dos Estados Unidos, de um informante deles, que diz que quando o Geisel assume
a presidência da República, ele recebe a informação de quase 100 execuções que
foram feitas no período anterior, do general presidente Médici, e que a
resposta do Geisel, porque ele é perguntado pelo Serviço de Informações do
Exército, se podem continuar essas operações para eliminar inimigos do governo
militar, Geisel diz que sim, desde que tudo passe pelo Figueiredo, que estava
assumindo a chefia do SNI. Então, tudo passava pelo SNI. Se você me pergunta,
mas o Geisel está por trás disso? Eu acho que até estrategicamente era bom que
ele não soubesse, que o Golbery e o Figueiredo fizessem isso sem o Geisel
saber, talvez um dia eles tenham contado isso para ele. Também não acredito que
deixaram de contar isso para ele depois de resolvido o problema. E uma das
formas de resolver o problema, só para te trazer mais um dado, é que o JK tinha
um diário. E esse diário caiu na mão de um interlocutor do Golbery. E isso foi
usado como pressão contra a dona Sara Kubitschek para não pedir a investigação
sobre a morte do marido, porque tinha ali nas páginas diálogos, enfim,
reflexões do JK sobre a relação dele com a namorada. Então, para evitar esse
escândalo, a dona Sara não deixa, quer dizer, não pede uma investigação, é um
obstáculo para isso, e as investigações só começam após a morte da dona Sara,
por meio do Serafim Melo Jardim, que era o secretário particular do Juscelino
Kubitschek, que foi o grande incentivador das investigações para descobrir o
que de fato aconteceu naquele final de tarde de domingo na Via Dutra.
EU: O diário está com o Serafim?
IVO: Não, esse diário eles, na verdade, devolveram,
mas eles xerocaram, e por isso eles ameaçavam a dona Sara com a cópia do
diário. Isso atrapalhou as investigações na época, foi uma forma habilidosa de
barrar as investigações sobre o que aconteceu com o JK.
EU: Mas não se sabe onde está esse diário?
IVO: Deve estar com a família, hoje em dia. Mas
como eles tiraram cópia, chegaram para a dona Sara e disseram assim, “olha, se
a senhora fizer alguma coisa, infelizmente isso aqui vai cair nas mãos da
imprensa”. Alguma coisa do gênero, eu imagino. Então, a dona Sara não foi um
agente ativo para que se investigasse a morte do JK.
EU: Nesse diário poderia ter o porquê ele foi
naquela reunião?
IVO: Não, aquilo foi marcado um dia antes.
EU: Alguém da comissão de que você participou teve
acesso ao diário?
IVO: Não, não tivemos acesso, mas aquela reunião teria
sido marcada quando Juscelino estava hospedado na Casa da Manchete, em São
Paulo, no dia anterior, ou pelo menos foi confirmada no dia anterior, talvez já
estivesse pré-marcada, mas no sábado que ela fica confirmada.
EU: Sim, mas ele poderia ter escrito alguma coisa a
respeitos dias antes, não precisa ser no dia exatamente anterior. Mas ninguém
teve acesso a esse diário, então?
IVO: Eu não saberia dizer a você se ele punha
questões políticas ali dentro e não apenas questões pessoais. Mas acredito que
não, porque senão isso viria à tona, porque a própria Márcia Kubitschek nunca
engoliu esse acidente. Enquanto viveu, ela pediu, ela reclamou e ela afirmou
que o pai foi vítima de um atentado político. Então, ela certamente teve acesso
a esse diário, e dali nunca saiu nada.
EU: Quem poderia ter esse diário?
IVO: Talvez, hoje, a Ana Cristina, que é a filha da
Márcia, que é a presidente do Memorial JK, e que se manifestou nesses últimos
dias francamente favorável à tese de que o avô dela não foi vítima de um acidente
de trânsito.
EU: Ela é a única parente viva do JK, direta, a
única neta?
IVO: Tem uma filha adotiva dele que também está
viva.
EU: Mas a única neta é a Ana Cristina?
IVO: Isso, exatamente, Ana Cristina Kubitschek.
EU: A comissão nunca pediu esse diário?
IVO: Não, nunca pediu. Posso tentar verificar. Eu
vou tentar verificar isso com o Serafim Mello Jardim e entro em contato com
você e digo se ele sabe alguma coisa do diário.
EU: Você acha que o Serafim me daria uma entrevista
também?
IVO: Claro que sim.
EU: Então, por favor, faça contato com ele.
IVO: O Serafim é o grande incentivador dessas
investigações. Ele publicou um livro, “Onde Está a Verdade sobre a Morte de
JK?”.
EU: E você, vai escrever um livro?
IVO: Talvez. Vamos ver. Tem uma das teorias também,
que eu não dou muito valor, mas é uma hipótese para o que pode ter acontecido,
é um tiro na cabeça do Geraldo Ribeiro. Anos depois, foi descoberto um resto
metálico dentro do crânio dele quando houve a autópsia, mas as autoridades
disseram que foi um resto do prego do caixão onde ele foi enterrado. Então
ficou sempre essa dúvida também sobre se teria sido um tiro. Eu acho mais
provável que ele tenha sido drogado ou envenenado no momento em que levaram ele
lá para dentro para oferecer um café, um suco, sei lá, que foi o tempo que
precisaram para sabotar a suspensão do automóvel, mais o freio dianteiro
direito, e eles fizeram várias coisas, e ainda por cima deram um susto neles,
fizeram uma tocaia ali na hora que ele entra na Dutra, para que ele saísse em
disparada, e é o que explica ele estar naquela velocidade, passando pela
direita, pelo ônibus, quer dizer, não há o que explique aquilo. É o crime mais
grave cometido pelo regime militar.
EU: Bom, eu vou dar o título “SNI é suspeito de
matar JK”. Você concorda?
IVO: Sim, não tenho dúvida nenhuma. Não tenho
dúvida nenhuma. É isso mesmo.
(*) No dia 23 de dezembro de 2024, o senador Flávio
Bolsonaro participou da inauguração de um busto em homenagem ao brigadeiro
Newton Junqueira Villa-Forte, no Aeroporto Municipal de Resende, que leva o
nome desse militar, durante a entrega de obras naquele aeroporto, feitas com
dinheiro de emenda parlamentar do senador.
(A entrevista de Ivo Patarra irá ao ar numa edição extra do programa “Cessar-fogo”,
dia 14, quinta-feira, às 14h00, na TV 247.)

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