Inquéritos conectam produtora de Karina Gama a repasses de emendas, ao escândalo do Wi-Fi Livre em SP e ao empresário Alex Bispo, preso por morte da companheira
18 de maio de 2026
Por Joaquim de Carvalho (Jornalista)
Ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no longa "Dark Horse", e Karina Ferreira da Gama, produtora do filme (Foto: Reprodução )
O filme Dark Horse,
cinebiografia de Jair Bolsonaro vendida como uma produção internacional
financiada por capital privado estrangeiro, passou a ocupar o centro de uma
teia de investigações que envolve suspeitas de desvio de emendas parlamentares,
contratos públicos milionários, fintech, sorteios regionais, lavagem de
dinheiro e até um caso de feminicídio.
No epicentro desse enredo aparece
Karina Ferreira da Gama Bernassi, executiva da produtora Go Up Entertainment e
presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que firmou um contrato de R$
108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de redes de Wi-Fi
gratuito.
Segundo o dossiê elaborado por fontes
policiais, Karina teria construído um ecossistema empresarial baseado em ONGs,
produtoras audiovisuais, uma fintech e empresas de “filantropia premiável”,
criando uma estrutura capaz de captar dinheiro público, pulverizar recursos e remeter
valores ao exterior por meio de contratos culturais.
O caso ultrapassou a esfera municipal
e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo o dossiê, no que diz respeito ao
Congresso Nacional, o gabinete do ministro Flávio Dino abriu diligências para apurar
a destinação de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia
Nacional de Cultura, ambas ligadas a Karina Gama.
Os nomes citados na investigação
incluem os deputados federais Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. O
objetivo seria verificar se verbas enviadas às ONGs acabaram beneficiando
direta ou indiretamente a estrutura da Go Up Entertainment e a produção
de Dark Horse.
O dossiê afirma ainda que Mário Frias
destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil e também
aparece como produtor executivo do filme. Já Eduardo Bolsonaro é apontado como
produtor executivo com influência direta sobre decisões financeiras da
produção.
A suspeita central é de que parte das
emendas teria sido triangulada através das ONGs para financiar despesas
estruturais e operacionais do longa-metragem. A produção sustenta,
oficialmente, que o projeto não utilizou recursos da Lei Rouanet nem dinheiro
público direto, o que, à luz das revelações recentes, soa com piada.
Paralelamente, o Departamento
Estadual de Investigações Criminais, da Polícia Civil de São Paulo, apura o
contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura paulistana e o Instituto
Conhecer Brasil para expansão do programa Wi-Fi Livre SP. A investigação aponta
suspeitas de direcionamento do edital, superfaturamento e pagamento por
serviços inexistentes.
Segundo auditorias citadas no dossiê,
menos de 3.200 pontos de internet teriam sido efetivamente entregues, apesar do
contrato prever cerca de 20 mil instalações. Há ainda relatos de pagamentos
integrais por manutenção de redes que sequer funcionavam.
O ponto mais delicado envolve a
empresa Favela Conectada, ligada ao empresário Alex Leandro Bispo dos Santos. A
companhia recebeu R$ 12 milhões do Instituto Conhecer Brasil para
operacionalizar parte do projeto.
O nome de Alex Bispo ganhou
notoriedade nacional após sua prisão sob suspeita de espancar a companheira, a
influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva, e jogá-la do 10º andar de um
prédio em São Paulo.
A empresa dele havia recebido os R$
12 milhões ligados ao programa de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo, como previa
o contrato com uma das ONGs de Karina, que a influenciadora Maria Katiane (a
vítima do feminicídio) assinou como testemunha.
A empresa Favela Conectada teria sido
subcontratada para instalar 2 mil pontos de internet, embora o serviço
efetivamente entregue tenha sido muito inferior ao previsto.
A pergunta que não pode ser calada:
Alex devolveu dinheiro para Karina? Se devolveu, esse dinheiro entrou no
esquema de lavagem de dinheiro que a Polícia Civil de São Paulo teria
detectado?
A pergunta é necessária porque a
morte de Katiane acabou atraindo atenção da Polícia Civil para os extratos
bancários e contratos ligados ao núcleo operacional de Karina Gama, abrindo uma
nova frente investigativa sobre lavagem de dinheiro e movimentações financeiras
suspeitas.
Outro eixo da investigação envolve a
Cactvs Instituição de Pagamento S.A., descrita no documento como uma espécie de
“cofre regulado” do grupo. A fintech seria responsável por processar pagamentos
relacionados tanto ao Wi-Fi Livre quanto a operações de títulos de
capitalização e sorteios regionais.
O dossiê -- a que a influenciadora
Aline Dutra, conhecida como Esquerdogata, teve acesso -- cita operações como
“Tapajós de Prêmios”, sistema de filantropia premiável que movimentaria milhões
em microtransações pulverizadas no Norte e Nordeste.
Apurações realizadas por mim
confirmam a veracidade das informações contidas no dossiê. Esse modelo
permitiria criar grande volume de entradas financeiras difíceis de rastrear
individualmente.
As investigações sustentam a hipótese
de que a combinação entre ONGs, fintech e sorteios regionais teria criado um
circuito fechado de circulação financeira: o dinheiro público entra nas ONGs,
mistura-se ao caixa dos sorteios, é processado internamente pela fintech e
reaparece como investimento cultural na produtora cinematográfica.
O dossiê aponta ainda o empresário
Michael Brian Davis como operador internacional do esquema. Naturalizado norte-americano,
ele aparece como sócio da Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos e
responsável pela estrutura financeira internacional da produtora.
Segundo a análise, contratos de
coprodução audiovisual permitiriam remessas ao exterior sob justificativa de
investimentos culturais, dificultando o rastreamento das autoridades
brasileiras. O documento também menciona supostas conexões financeiras com
Daniel Vorcaro, apontado como possível financiador da operação.
O que emerge do conjunto de
informações é que Dark Horse pode ser apenas a face mais
visível de uma estrutura muito maior, que conecta política, dinheiro público,
produção cultural, operações financeiras e influência internacional.
Embora boa parte das acusações ainda
esteja sob investigação e não existam condenações, o caso já reúne elementos
suficientes para provocar reações no STF, no Ministério Público, na Polícia
Civil e em órgãos de controle financeiro.
E quanto mais as investigações avançam, mais o filme sobre Bolsonaro deixa de parecer cinema, e assume contornos de thriller político-policial em plena vida real, um escândalo que revela o submundo corrupto e violento da extrema direita.

Nenhum comentário:
Postar um comentário