Presidente brasileiro é recebido com honras excepcionais em Hannover, participa da maior feira industrial do mundo e cobra mais equilíbrio comercial
20 de abril de 2026
19.04.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, durante recepção oficial. Jardins do Palácio de Herrenhausen,
Alemanha. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)
247 – O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com honras raramente concedidas pelo
governo alemão neste domingo, em Hannover, numa visita marcada pela tentativa
de aprofundar os laços econômicos e políticos entre Brasil e Alemanha em meio a
um cenário internacional de instabilidade. Segundo reportagem da Deutsche Welle,
Lula foi recepcionado pelo chanceler federal Friedrich Merz com um protocolo de
excepcional prestígio no palácio Herrenhausen, antiga residência dos reis de
Hannover.
A recepção incluiu honras militares e
um tratamento descrito como de “realeza”, protocolo que, segundo o relato, só
havia sido oferecido anteriormente pelo governo alemão ao ex-presidente dos
Estados Unidos Barack Obama, cerca de uma década atrás. A visita de Lula ocorre
no contexto da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, que neste ano
tem o Brasil como país parceiro — um destaque que não ocorria com tamanha
projeção desde 1980.
Após a cerimônia oficial e um
encontro com Merz, Lula seguiu para a abertura da feira ao lado do líder
alemão. A programação do presidente brasileiro na Alemanha se estende até
terça-feira e inclui novos encontros bilaterais, participação em eventos
empresariais e uma visita a Wolfsburg, sede mundial da Volkswagen. A agenda
também prevê a terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível
entre Alemanha e Brasil, mecanismo diplomático reservado a poucos parceiros
estratégicos de Berlim.
O peso político da visita foi reforçado pela presença de oito ministros alemães que deixaram Berlim para participar das reuniões com integrantes do governo brasileiro. O gesto sinaliza o interesse da Alemanha em fortalecer sua relação com o Brasil num momento em que a economia alemã enfrenta estagnação, revisões negativas de crescimento e forte ansiedade em torno do ambiente global.
Alemanha vê Brasil como parceiro estratégico
A imprensa alemã deu grande destaque
à visita de Lula. Um artigo publicado pelo jornal Süddeutsche Zeitung, citado pela reportagem, sustentou que o
Brasil se tornou mais importante do que nunca para a Alemanha. A avaliação está
ligada tanto ao potencial econômico brasileiro quanto ao papel de estabilidade
que o país pode desempenhar num mundo tensionado por guerras, tarifas, disputas
geopolíticas e enfraquecimento do multilateralismo.
Nesse contexto, o acordo entre
Mercosul e União Europeia apareceu como um dos principais eixos da visita.
Negociado ao longo de mais de duas décadas, o tratado volta ao centro da agenda
de Brasil e Alemanha como instrumento para ampliar mercados, reduzir barreiras
comerciais e dar novo impulso às economias dos dois blocos.
Durante a cerimônia de abertura da
Hannover Messe, Merz deixou claro o entusiasmo com a aproximação. “Nossas
relações se tornarão ainda mais estreitas. O acordo com Mercosul vai fortalecer
todas as economias envolvidas”, afirmou o chanceler, na presença de Lula.
O dirigente alemão também destacou que o momento combina oportunidades e desafios. “Estamos reunidos num momento que, por um lado, não poderia ser melhor em termos de relações entre a Europa e a América do Sul”, disse, em referência ao acordo. Em seguida, acrescentou: “Mas também estamos reunidos num momento de grandes desafios e mudanças.”
Lula destaca relação de Estado e critica cenário internacional
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Ao lado de Merz, Lula buscou
enfatizar o caráter institucional e pragmático da relação entre os dois
países. “Não estou aqui em uma relação ideológica com o
primeiro-ministro Merz, mas de Estado”, declarou o presidente brasileiro,
demarcando que a parceria bilateral deve estar acima de afinidades partidárias
e responder aos interesses permanentes das duas nações.
O discurso de Lula na abertura da
feira teve forte conteúdo político e incluiu críticas indiretas ao governo de
Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, embora sem mencionar seu
nome diretamente em um primeiro momento. Ao defender o multilateralismo e
condenar atitudes unilaterais no comércio e na política internacional, o
presidente afirmou:
“Nós não podemos permitir que o mundo
se curve ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por
Twitter pode taxar produtos, pode punir países, e pode fazer guerra”
A fala foi interpretada como um
recado ao governo norte-americano, sobretudo em meio ao agravamento das tensões
geopolíticas e à escalada de conflitos internacionais. Lula também condenou a
guerra no Irã, associando o conflito à ação dos Estados Unidos e de
Israel. “O Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice da
guerra feita com o Irã”, disse.
Merz, por sua vez, evitou juízos diretos sobre o conflito, mas também fez uma defesa enfática da cooperação econômica baseada na redução de barreiras. Ao mencionar a aproximação entre Europa e América do Sul, afirmou que ela se sustenta numa confiança construída “numa cooperação com o menor número de tarifas possível, e, se possível, sem tarifas algumas”. Em seguida, completou: “A força econômica, e não só a força militar é a base de uma política de segurança.”
Reforma da ONU volta à pauta
Outro tema central abordado por Lula
foi a crise de governança internacional e a paralisia do Conselho de Segurança
da ONU. A reforma do órgão é uma bandeira histórica tanto do Brasil quanto da
Alemanha, que integram, ao lado de Japão e Índia, o chamado G4, grupo que
defende a ampliação do número de membros permanentes.
Em seu discurso, Lula criticou
duramente a incapacidade do sistema internacional de conter a multiplicação de
guerras. “Não é possível que as pessoas não compreenderam que os cinco
membros do conselho permanente da ONU foram criados para que mantivessem a paz,
a harmonia e evitassem a repetição da Segunda Guerra Mundial. E hoje o mundo
vive a maior quantidade de conflitos de sua história depois da Segunda Guerra”,
afirmou.
Na sequência, fez um apelo direto às
lideranças das grandes potências. “É preciso perguntar ao presidente
Trump, ao presidente Vladimir Putin, ao presidente Xi Jinping, ao presidente
Emmanuel Macron e ao primeiro-ministro do Reino Unido: Para que serve o
Conselho de Segurança da ONU? Por que não se reúnem e param com essas guerras?”
A fala de Lula reforça a posição tradicional da diplomacia brasileira em defesa de uma ordem internacional mais equilibrada, multipolar e menos sujeita ao poder de veto concentrado nas mãos de poucos países.
Terceiro encontro entre Lula e Merz
A reunião em Hannover marcou o
terceiro encontro entre Lula e Friedrich Merz. Também foi a primeira vez em que
os dois se reuniram fora do ambiente de uma cúpula internacional. Antes disso,
haviam se encontrado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul.
Os encontros anteriores haviam sido
ofuscados por um comentário negativo de Merz sobre a cidade de Belém, episódio
que gerou ruídos diplomáticos. Segundo a reportagem, tanto Lula quanto o
chanceler alemão trataram posteriormente de minimizar o incidente, permitindo
que a agenda bilateral avançasse.
Após a cerimônia de abertura da Hannover Messe, Merz, Lula e a primeira-dama Janja da Silva retornaram ao palácio Herrenhausen, onde o líder alemão ofereceu um jantar privado. O gesto reforçou o esforço de Berlim para conferir à visita um caráter altamente simbólico e estratégico.
Comércio bilateral e busca por maior equilíbrio
A dimensão econômica da visita também
foi destacada pelas autoridades dos dois países. A Alemanha é atualmente a
quarta maior parceira comercial do Brasil e ocupa o primeiro lugar entre os
países europeus. Em 2025, a corrente de comércio entre as duas nações alcançou
20,9 bilhões de dólares. Já o estoque de investimentos diretos alemães no
Brasil foi estimado em 38,5 bilhões de dólares em 2024.
A relação comercial, no entanto,
ainda é marcada por assimetrias. O Brasil exporta sobretudo produtos primários,
enquanto importa majoritariamente bens industrializados da Alemanha. Esse
padrão faz com que a balança comercial seja favorável aos alemães — um ponto
que Lula ressaltou em entrevista concedida nesta semana à revista Der Spiegel.
“A Alemanha tem um superávit
comercial de 7 bilhões de dólares com o Brasil. Queremos continuar comprando da
Alemanha, mas precisamos trabalhar para alcançar um equilíbrio. Isso significa
que o Brasil deve produzir mais produtos de alta qualidade e vendê-los na
Alemanha. Isso depende muito de nós”, afirmou o presidente.
A declaração resume uma das principais preocupações do governo brasileiro: transformar o estreitamento com a Alemanha e com a União Europeia em uma oportunidade para a reindustrialização, a agregação de valor às exportações e a ampliação da presença de produtos brasileiros de maior sofisticação tecnológica no mercado internacional.
Brasil no centro da agenda europeia
A visita de Lula à Alemanha mostra
que o Brasil voltou a ocupar posição relevante na estratégia europeia em um
período de incerteza global. Em meio à crise energética, à desaceleração alemã,
ao avanço de guerras e à erosão do multilateralismo, Berlim enxerga em Brasília
um parceiro confiável, com peso político, capacidade de interlocução global e
potencial econômico.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro
busca aproveitar esse interesse para ampliar investimentos, fortalecer sua base
industrial, destravar o acordo Mercosul-União Europeia e reafirmar sua defesa
de uma ordem internacional menos subordinada a impulsos unilaterais das grandes
potências.
Com recepção solene, agenda empresarial robusta e
mensagens políticas claras, a passagem de Lula por Hannover consolidou a
tentativa de reposicionar o Brasil como ator central nas disputas econômicas e
diplomáticas do presente.

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