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| Foto: Rafael Ayres |
PARTE 2 – O PCB DIANTE DO GOVERNO LULA / O PROGRAMA POLÍTICO DO PCB
Breno Altman:
Deixe-me retomar o tema que estávamos discutindo sobre a caracterização do
governo Lula. Acho até que acabei interrompendo um pouco a sua análise. Eu
havia perguntado como você avalia o desempenho do governo nesse terceiro
mandato. Você mencionou uma série de políticas com as quais discorda — o
arcabouço fiscal, por exemplo, talvez a principal. Esses seriam os pontos
negativos. Quais são, então, os pontos positivos do governo Lula? Porque
imagino que, se só houvesse aspectos negativos, vocês estariam na oposição.
Edmilson Costa: Eu
acho que, quando Lula resiste às sanções do governo Trump e não se submete,
isso é um movimento importante do ponto de vista das relações internacionais.
Da mesma forma, a participação nos BRICS também é relevante. Hoje, os BRICS são
vistos como um dos principais contrapontos ao governo Trump.
É claro que os BRICS
não são uma organização socialista, mas funcionam como um contraponto ao
sistema imperialista, especialmente à política do governo norte-americano.
Portanto, fortalecer a integração regional e também a articulação internacional
é algo importante. Nesse aspecto, considero que há elementos positivos.
Breno Altman: Em
relação a medidas tributárias, o governo isentou do Imposto de Renda quem ganha
até R$ 5.000 e adotou algumas iniciativas de taxação dos mais ricos — como a
tributação de rendas mais altas, fundos offshore e outros mecanismos que antes
gozavam de isenção. Essas medidas não representariam, ainda que de forma
inicial, o cumprimento da promessa de colocar os ricos no Imposto de Renda,
feita na campanha de 2022?
Edmilson Costa: Não,
porque essas medidas são muito tímidas para resolver — ou mesmo iniciar de
forma consistente — um processo de transformação na estrutura tributária. Hoje,
mais de 50% da arrecadação vem de impostos sobre o consumo, o que penaliza os
mais pobres. Além disso, lucros e dividendos pagam muito pouco — ou
praticamente nada, historicamente.
Então, podemos até
dizer que essas medidas são um primeiro passo, mas ainda são insuficientes diante
das necessidades de uma reforma tributária no Brasil.
Breno Altman: Ao
criticar o arcabouço fiscal, você levanta uma questão importante: o Brasil não
tem um problema de dívida pública? Não precisa controlar sua dívida interna?
Edmilson Costa: Esse
é um tema muito importante, sobre o qual boa parte da esquerda ainda tem pouco
conhecimento. Por isso, vale a pena refletir melhor sobre a dívida interna.
Quando Fernando
Henrique assumiu, a dívida interna era de 123,6 bilhões de reais. Ao final do
seu governo, já estava em cerca de 800 bilhões. Hoje, ela chega a
aproximadamente 8,6 trilhões de reais. Diante disso, podemos perguntar: esse
endividamento foi feito para construir escolas, hospitais, estradas, saneamento
básico ou habitação popular? Não. A maior parte da dívida interna brasileira
tem caráter essencialmente financeiro. É uma dívida que aprisionou a economia
brasileira e se tornou um dos principais mecanismos de apropriação do fundo
público. Trata-se de uma sangria que precisa ser interrompida.
Breno Altman: Como
seria, então, um governo de poder popular liderado por Edmilson Costa para
resolver o problema da dívida?
Edmilson Costa:
Inicialmente, faríamos uma auditoria da dívida, para identificar o que é dívida
legítima e o que tem caráter meramente financeiro. Durante esse processo,
seriam suspensos os pagamentos de juros e amortizações. Ao final da auditoria,
seria definido qual é o estoque da dívida que o Estado reconheceria. A partir
desse montante, seria feita uma reestruturação com títulos de longo prazo, já
que a dívida brasileira hoje está baseada, em grande medida, em títulos de
curto prazo. Com essa reestruturação, seria possível sanear o Estado, conter
essa sangria do fundo público e criar novas condições para o desenvolvimento
econômico, sem o peso atual dos juros.
Para se ter uma
ideia, até 31 de janeiro de 2026, o pagamento de juros já alcançava cerca de 1
trilhão de reais. Esse valor vai para banqueiros, especuladores e rentistas.
Como um país pode se desenvolver quando o fundo público é direcionado dessa
forma? Isso é uma distorção profunda, que limita a capacidade do governo de
implementar políticas econômicas e sociais. Sem enfrentar o problema da dívida
interna — um dos principais instrumentos da política neoliberal —, não há
condições de realizar as reformas necessárias.
Breno Altman: Há quem
diga que essa auditoria é inviável, por causa do mecanismo de consolidação da
dívida a partir dos anos 1990. Ou seja, seria impossível rastrear sua origem.
Edmilson Costa: Não,
isso não é impossível. É possível rastrear, por exemplo, as taxas de juros
praticadas desde o governo Fernando Henrique. Basta comparar essas taxas com a
inflação do período. Houve momentos em que os juros chegaram a 40%. Hoje temos
taxas de cerca de 15% com inflação em torno de 4,5%. Isto é uma distorção
evidente. Esse componente financeiro pode ser identificado com relativa
facilidade.
Breno Altman: Mas uma
postura como essa — auditoria com suspensão de pagamentos — não poderia
provocar um colapso do Estado? Afinal, os investidores poderiam deixar de
comprar títulos da dívida, dificultando sua rolagem, gerando fuga de capitais e
comprometendo o financiamento estatal.
Edmilson Costa: Não necessariamente. A fuga de capitais só ocorre se o governo não adotar controle cambial. Eu não expus todo o programa, mas temos um conjunto completo de propostas, e o controle cambial é fundamental. Sem ele, você não impede que capitais especulativos entrem e saiam do país livremente. Com controle cambial, o Estado passa a ter instrumentos para estabilizar a economia.
No campo econômico,
defendemos a nacionalização do sistema financeiro e sua transformação em uma
atividade pública. Hoje, o sistema financeiro brasileiro não está articulado
com o setor produtivo. Ele opera basicamente na lógica da especulação e da
cobrança de juros elevados. Diferentemente de economias centrais, onde o
sistema financeiro está mais conectado ao investimento produtivo, aqui ele
funciona como um sistema voltado à especulação com títulos e à cobrança de
spreads altíssimos. Taxas de juros de cartão de crédito que chegam a 270% ao
ano são completamente incompatíveis com uma economia saudável.
Além disso, criaremos
o Banco dos Trabalhadores, que passaria a gerir os fundos patrimoniais e os
fundos previdenciários, hoje administrados por bancos privados. Com esse volume
de recursos, o Banco dos Trabalhadores teria condições de atuar na política
econômica e contribuir com o processo de desenvolvimento. O novo banco seria
criado com recursos especificamente destinados — como os fundos patrimoniais e
previdenciários. Esses fundos se tornariam instrumentos diretos de política
econômica. Os demais bancos continuariam como bancos estatais, cumprindo suas
funções, enquanto este teria um papel específico e estratégico.
Breno Altman: Além da
reforma financeira, quais são as outras quatro transformações propostas pelo
PCB?
Continue lendo.
Edmilson Costa: Além
da reforma financeira, resgataremos as empresas estratégicas que foram
privatizadas em um processo marcado por irregularidades, como o uso de “moedas
podres” e o financiamento, pelo próprio BNDES, da compra dessas empresas.
Portanto, recuperaríamos essas empresas para o controle estatal. Por exemplo,
vamos tornar a Petrobras novamente 100% estatal, encerrando contratos de risco.
Ou seja, teríamos uma Petrobras integralmente pública. Além disso, recuperamos
setores como siderurgia, telecomunicações e outras áreas essenciais à vida da
população, como energia elétrica e serviços básicos.
Breno Altman: Então
essa seria a segunda transformação. E as outras três?
Edmilson Costa:
Teríamos também uma grande transformação na área social e trabalhista.
Revogaremos toda a legislação considerada antipopular implementada no período
neoliberal — como a reforma trabalhista, a reforma previdenciária e a lógica da
Lei de Responsabilidade Fiscal. Em seu lugar, instituiríamos uma Lei de
Responsabilidade Social, que garantiria recursos para políticas públicas. Nessa
área, buscaremos recompor o poder de compra dos salários, especialmente o
salário mínimo. Em um prazo de cinco anos, pretendemos alcançar o valor de
referência calculado pelo DIEESE.
Breno Altman: Que
está próximo de R$ 8.000.
Edmilson Costa:
Exatamente. Não faz sentido que um país como o Brasil tenha um salário mínimo
inferior ao de países menores, como a Costa Rica, ou mesmo inferior ao do
Uruguai. Nossa proposta é recuperar o poder de compra do salário mínimo. Como
isso ocorreria ao longo de um período mais longo, daria tempo para o setor
produtivo se adaptar a esse novo patamar de consumo. Além disso, propomos
reduzir a jornada de trabalho para 30 horas semanais, sem redução de salários.
E defendemos o fim da escala 6 por 1.
Por que 30 horas?
Estamos vivendo um processo de avanço da inteligência artificial e da robótica.
Enquanto há esse desenvolvimento das forças produtivas, a jornada de trabalho,
na prática, aumenta, ou as classes dominantes resistem até mesmo à redução de
44 para 40 horas. As classes dominantes brasileiras são extremamente
conservadoras, com uma mentalidade ainda marcada por heranças do passado. Nossa
proposta é dar um choque de renda na população, criando um grande mercado de
massas, no qual as pessoas possam usufruir de bens hoje restritos à burguesia.
Propomos também a
reforma na saúde e a reforma na educação. Entendemos que a saúde é um direito
universal e não pode ser tratada como mercadoria. O Brasil possui um
instrumento fundamental, que é o Sistema Único de Saúde (SUS), cuja importância
ficou evidente durante a pandemia. No entanto, o SUS sofre constantes ataques,
com o setor privado tentando se inserir cada vez mais em sua estrutura. Nossa
proposta seria retirar a presença do setor privado e fortalecer o SUS como um
sistema público integral, capaz de oferecer à população o mesmo nível de
atendimento disponível para quem tem renda mais alta ou plano de saúde.
Breno Altman: Isso
implicaria alguma mudança institucional no SUS? Ele seria diferente do que é
hoje?
Edmilson Costa: Não
no sentido de criação de um novo sistema, mas de aprofundamento do caráter
público. Retiraremos o setor privado de sua estrutura e ampliaremos
investimentos na produção de medicamentos, na pesquisa e na expansão da rede de
atendimento, desde a atenção básica até os níveis mais complexos.
Na educação,
defendemos que ela também seja um direito garantido pelo Estado, com acesso
público, gratuito e de qualidade. Propomos incorporar as universidades privadas
ao sistema público e investir recursos para elevar o padrão de ensino. Hoje,
muitas instituições privadas operam com foco no lucro e não garantem a mesma
qualidade das universidades públicas.
Também ampliaremos os
investimentos nas universidades públicas, fortalecendo sua capacidade de
pesquisa, que já é significativa mesmo com recursos limitados. Além disso,
vamos implementar um programa de valorização dos professores, da educação
infantil à pós-graduação, tanto em termos salariais quanto de formação.
Breno Altman: Ainda
há uma transformação, certo? Ainda não chegamos a cinco.
Edmilson Costa:
Exato. A quinta transformação diz respeito às relações internacionais. Um país
como o Brasil, que está entre as maiores economias do mundo, precisa ter maior
protagonismo internacional e exercer solidariedade com povos em luta contra o
imperialismo. Consideramos problemático, por exemplo, que o governo não consiga
enviar apoio concreto a países como Cuba em determinadas situações. Há quem
argumente que isso geraria sanções, mas esta é justamente a questão: é preciso
redefinir a relação com o imperialismo.
Breno Altman: Mais
grave ainda: como a Petrobras tem ações negociadas na Bolsa de Nova York, ela
pode ser diretamente afetada por sanções dos Estados Unidos.
Edmilson Costa:
Exatamente. Pode haver sanções, mas, em um novo governo, a relação com o
imperialismo seria outra. Defendemos uma política de solidariedade ativa com
povos em luta, ao mesmo tempo em que incentivamos uma integração internacional
que envolva não apenas as forças produtivas, mas também os trabalhadores.
Ou seja, as relações
internacionais do Brasil dariam um salto de qualidade. O país dispõe de um
corpo diplomático altamente qualificado — o fundamental é direcionar essa
capacidade para uma nova política externa.
Breno Altman:
Estariam previstas mudanças nas Forças Armadas?
Edmilson Costa: Sim,
haveria mudanças também nas Forças Armadas. Entendemos que, em toda a América
Latina, elas foram profundamente influenciadas pela doutrina de segurança
nacional. Com exceção de casos como o da Venezuela, que passou por mudanças
importantes, a maioria das Forças Armadas da região ainda está marcada por essa
ideologia.
Por isso, seria
necessária uma reforma profunda — tanto na Escola Superior de Guerra quanto na
Academia Militar das Agulhas Negras — para formar um oficialato comprometido
com a defesa do país, e não voltado contra o próprio povo. Precisamos superar a
visão que enxerga o povo brasileiro como inimigo interno.
Também é importante
destacar que essas não são mais as Forças Armadas do período de setores
nacionalistas. Hoje, grande parte dos militares ainda está influenciada por
essa doutrina. Nossa proposta é reformular profundamente a formação dos
oficiais, para construir forças armadas alinhadas às necessidades políticas e
econômicas do povo brasileiro, e não aos interesses do imperialismo.
Breno Altman: Haveria
aumento de recursos para as Forças Armadas, considerando o cenário
internacional atual?
Edmilson Costa: Sim,
evidentemente. Não é possível manter forças armadas com equipamentos defasados.
Seria necessário estabelecer parcerias internacionais, por exemplo com países
como China e Rússia, para modernizar os equipamentos e garantir capacidade de
dissuasão. O objetivo é evitar que o país fique vulnerável a pressões externas.
Experiências recentes mostram que forças armadas bem equipadas e alinhadas aos
interesses nacionais têm maior capacidade de resistir a intervenções externas.
Breno Altman: Se você
fosse presidente, o Brasil romperia com o Tratado de Não Proliferação Nuclear e
buscaria desenvolver armas nucleares?
Edmilson Costa: Esse
tema ainda não foi debatido no Partido. No entanto, considero importante
garantir autonomia na pesquisa nuclear, especialmente diante do cenário
internacional. É o que posso dizer neste momento.
Breno Altman: Como
você viabilizaria esse programa político? Ou seja, o que faria de diferente do
presidente Lula, caso fosse eleito nas mesmas condições parlamentares — com
maioria conservadora no Congresso e sem controle do Judiciário?
Edmilson Costa: Como
mencionei anteriormente, uma eventual eleição significaria uma mudança
importante na correlação de forças e no ânimo das massas. Governaríamos com a
população mobilizada. Mas isso não seria suficiente. Após dois anos de governo,
convocaríamos uma Constituinte de novo tipo, com o objetivo de transformar a
maioria social em maioria política. A proposta é que o novo parlamento seja
unicameral, com a extinção do Senado. Metade dos parlamentares seria eleita por
sufrágio universal, e a outra metade por meio de entidades do movimento popular
e sindical.
A Constituinte
serviria para promover uma transformação profunda do sistema político, de modo
a que o parlamento passasse a refletir de fato a maioria social. Além disso,
enfrentaremos o monopólio dos meios de comunicação. Hoje, poucas famílias
concentram o controle da mídia no país, utilizando esses meios como
instrumentos políticos. Nossa proposta seria romper esse monopólio e
transformar essas empresas em cooperativas de trabalhadores. A mudança seria na
propriedade — de monopólica para cooperativa —, sem prejuízo à continuidade dos
serviços. Em um segundo momento, também buscaríamos construir uma grande
empresa pública de comunicação, abrangendo rádio, televisão e internet, para
democratizar a produção de conteúdo e permitir maior participação dos trabalhadores
nesse processo.
Breno Altman: Quem
você chamaria para compor o seu governo? Quem seriam seus aliados? Ou o PCB
imagina governar sozinho, caso você fosse eleito presidente da República?
Edmilson Costa:
Evidentemente, o PCB não pretende governar sozinho. Governaríamos com todos
aqueles que fossem favoráveis às propostas de grandes transformações.
Entendemos que o campo dos trabalhadores e da juventude constitui a maioria da
população. A partir dessa maioria, seria possível compor um governo que refletisse
essa dinâmica democrática do campo do trabalho, dentro do programa proposto.
Formaríamos um ministério com um amplo leque de forças comprometidas com essas
transformações, as forças da esquerda revolucionária.
Prefiro não citar
partidos específicos. Chamaria todas as forças comprometidas com a
transformação social expressa nas grandes mudanças que o PCB propõe.
Buscaríamos os melhores quadros dessas organizações para compor o governo.
Breno Altman: Por
exemplo, você chamaria o PT para o seu governo?
Edmilson Costa: Se
setores do PT se incorporassem a esse processo e concordassem com as propostas
das grandes transformações, não haveria problema.
EM TEMPO: O maior líder político da atualidade é o presidente Lula e as forças progressistas não estão sabendo viabilizar mudanças importantes mesmo no limite do sistema capitalista. O primeiro passo consiste em reeleger o presidente Lula e um Congresso Nacional mais progressista. Evidentemente, que algumas propostas em tela poderão ser implantadas com mais rapidez. Agora, sonhar é preciso, mas não dar para ter ilusão que as denominadas "massas populares" serão o motor de todas as mudanças, uma vez que a maioria da população brasileira é de Direita e isso tem consequência na cultura, na educação, nas artes, na vida cotidiana, nas relações interpessoais, nas forças armadas, etc. As forças progressistas devem contribuir com a politização das massas populares, premissa ausente nos programas de governo das diversas matizes progressistas deste país. Ok, Moçada!

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