Cessar-fogo expõe fragilidade dos EUA e avanço da China no tabuleiro global
Bandeiras nacionais iranianas são vistas em praça de Teerã (Foto: Leonardo Attuch)
Foi sempre uma questão de
civilização.
“Toda uma civilização morrerá esta
noite, para nunca mais voltar”. A História registrará essa frase com um olhar
tão impiedoso quanto o Sol. Um estarrecedor imprimatur bárbaro, cortesia do
Presidente dos Estados Unidos, por meio de uma postagem na mídia social.
Em poucas palavras, a “civilização”
mequetrefe que nos deu o Big Mac ameaçando aniquilar a antiga civilização
que nos deu a álgebra; que influenciou a arte, a ciência e a arte de governar
de formas inigualáveis; que produziu figuras eminentes, de Ciro, o Grande a
Avicena, de Omar Khayyan ao supremo poeta Jalaladdin Rumi; que criou
incontáveis jardins e tapetes sublimes, maravilhas arquitetônicas e estruturas
filosóficas e éticas.
É de importância crucial que não
tenha se ouvido um pio sequer sobre esse ataque de nervos da Barbária por parte
das lideranças políticas de todo o Ocidente Coletivo “civilizado”, que nem
mesmo fingiu indignação, provando mais uma vez sua absoluta e irreversível
falência moral e política.
Os iranianos responderam na mesma
moeda. Mais de quatorze milhões de pessoas se registraram para formar muralhas
humanas em torno de suas usinas elétricas por toda a nação, ao mesmo tempo
protegendo seu sustento e enfrentando cara a cara o poder de fogo do Sindicato
Epstein.
Quando o momento fatal se aproximava,
o Babuíno da Barbária se metamorfoseou – no que mais seria? – em um TACO, imortalizado
pelos caras do LEGO.
É absolutamente impossível que o
Paquistão tenha oferecido “garantias” ao Irã de que um cessar-fogo era a
maneira pôr fim à guerra. Tal como confirmado por fontes diplomáticas, o que
realmente aconteceu foi que Pequim, na undécima hora, se colocou como
garantidora, assegurando a Teerã que os Estados Unidos aceitariam pelo menos
algumas das exigências iranianas colocadas em seu plano de 10 pontos.
Esse fato foi confirmado pelo
embaixador iraniano na China, Abdolreza Rhamani Fazili. As negociações
começarão nesta sexta-feira em Islamabad.
O Presidente dos Estados Unidos, o
Babuíno Babão da Barbária, confrontado com as terríveis e inevitáveis
consequências de seus próprios erros estratégicos, usou o Paquistão como rampa
de saída. O que foi confirmado por um outro erro épico do próprio
primeiro-ministro paquistanês: ele se esqueceu de remover o cabeçalho da
postagem do Twitter/X redigida pela Casa Branca para ser publicada por ele.
O atual regime paquistanês – comandado
de fato pelo Marechal Asim Munir, que tem Trump na lista de discagem rápida de
seu telefone – pode ter se beneficiado, e continuará a se beneficiar
geopoliticamente de seu singular status: uma nação muçulmana nuclear com uma
significativa minoria xiita, boas relações com o Conselho do Golfo (GCC);
vizinho e amigável ao Irã; tendo assinado um pacto de defesa com a Arábia
Saudita, parceiro estratégico da China e sem bases militares dos Estados Unidos
em seu solo.
Mas Islamabad foi sempre um mero intermediário,
jamais o arquiteto de qualquer tipo de “mediação”. Por mais que a Casa Branca
tenha tentado criar um ofuscamento, foi a China que teve que traçar os
contornos de uma possível détente.
O Sindicato Epstein (leia-se Trump - grifo nosso) pede uma trégua
Havíamos chegado a um ponto em que o
culto à morte do Oeste Asiático vinha sendo esmagado simultaneamente pelo Irã e
pelo Hezbolá, no sul do Líbano. Apesar de toda a avalanche de versões
fantasiosas, seus gritos de socorro desempenharam um papel significativo na
decisão de Trump de pedir um cessar-fogo.
O Sindicato Epstein como um todo
pediu esse cessar-fogo. Nada a ver com geopolítica, mas com um inferno
operacional: o Império do Caos havia esgotado seus recursos militares.
A pista reveladora foi quando o USS
Tripoli bateu em retirada – sob fogo – para as profundezas do Oceano Índico,
com 2.500 fuzileiros navais a bordo. Isso significava que a Marinha dos Estados
Unidos estava de fora do teatro da guerra – exceto pelos submarinos com
Tomahawks, dos quais cerca de metade erram o alvo com surpreendente
(im)precisão.
E os problemas estão longe de
terminar. O inferno financeiro assoma no horizonte, o que quer que seja
decidido em Islamabad e mais além, com dez trilhões em títulos do Tesouro para
serem rolados em 2026. E o petrodólar está rapidamente a caminho do lixo da
História.
Entra em cena, mais uma vez, o insano
culto à morte (Governo de Israel - grifo nosso).
Não esquecer jamais. O Sindicato
Epstein é incapaz de cumprir acordos. E o culto à morte (Governo de Israel - grifo nosso) não pratica
cessar-fogo: na melhor das hipóteses, ele encontra brechas que lhe permitam
continuar a matar todos os que vê pela frente.
Os sinais do desastre já são
evidentes. Se o culto à morte quebrar o cessar-fogo – o que já aconteceu
– o Iran e o Hezbolá revidarão, de forma massiva, sem atacar ativos dos Estados
Unidos.
Mas ainda é cedo para afirmar que o
Babuíno da Barbária tenha perdido a guerra com base em todas as métricas
possíveis: morais; legais, políticas, econômicas e estratégicas.
Afinal, o Império do Caos (Governo Trump - grifo nosso) sempre
será, intrinsecamente, incapaz de respeitar acordos firmados, em especial
quando a ficha corrida fala de dois ataques consecutivos no decorrer das
negociações diplomáticas, matando a todos, desde o Aiatolá Khamenei a
dezenas de possíveis negociadores.
O Grande Quadro permanece o mesmo
(cantando!): esta é uma guerra de morte contra os três principais proponentes
do mundo multipolar: Irã, China e Rússia.
O jogo de poder da China, mais alguns fatos estabelecidos
Antes do cessar-fogo, a China vinha
recebendo 1,2 milhões de barris de petróleo iraniano por dia, trazidos, principalmente
por 26 navios-tanque fantasmas, com seus transponders no escuro, com
pagamentos feitos em yuan no pedágio do Estreito de Hormuz, usando o CIPS.
Tudo isso deixando de lado o SWIFT, as sanções, o petrodólar e os seguros
ocidentais.
É isso que se chama de um sistema de
pagamentos novo e alternativo implementado de fato, no gargalo mais
crucial de todo o planeta.
Essa complexa arquitetura de
energia-sombra permanece inalterada durante o cessar-fogo – supondo-se que ele
se sustente. Mas o ponto principal é que a China consegue mais uma pausa
para tomar fôlego: a sombria ameaça de pôr fim a toda a exportação de petróleo
iraniano criada pelo suspense do Dia da Usina de Energia declarado pela
Barbária parece ter desaparecido. Isso explica a base lógica por trás da
garantia de último minuto oferecida pela China ao Irã.
Compare-se isso aos “objetivos”
declarados do Império do Caos: provocar mudança de regime, se apoderar do
urânio enriquecido, destruir o programa de mísseis e a capacidade do Irã de
projetar poder. Tudo isso se transformou em um épico erro estratégico,
culminando com o novo status do Estreito de Ormuz.
Irã e Oman irão coordenar a cabine de
pedágio para cada navio que cruzar o Estreito durante o cessar-fogo – e
certamente depois que ele terminar, com base em uma minuciosa estrutura
jurídica. Navios estadunidenses cruzando o Estreito de Ormuz após pagar sua
taxa em yuan – é difícil pensar em algo mais poeticamente intoxicante, no
sentido da Ironia da História.
Mesmo assim, está claro que o Império
do Caos está tentando ganhar tempo – mesmo que o Irã mantenha a iniciativa.
Aqui segue o principal ponto colocado pelo Supremo Conselho de Segurança
Nacional iraniano:
“Ficou decidido no mais alto escalão
que o Irã irá conduzir duas semanas de negociações em Islamabad com base
unicamente nos seguintes princípios [os dez pontos iranianos]. Isso não
significa que a guerra tenha terminado. O Irã só aceitará o fim da guerra
quando esses princípios tiverem sido confirmados em detalhe”.
Recapitulemos brevemente os 10 pontos
que, em tese, foram aceitos por Trump:
1. Compromisso de não-agressão;
2. Manutenção do controle iraniano sobre o
Estreito de Ormuz;
3. Acordo sobre enriquecimento de urânio;
4. Cancelamento de todas as sanções primárias;
5. Cancelamento de todas as sanções secundárias;
6. Revogação das resoluções do Conselho de
Segurança da ONU;
7. Revogação das resoluções do Conselho de
Dirigentes da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA);
8. Pagamento de indenização ao Irã;
9. Retirada das forças militares dos Estados
Unidos da região;
10. Cessação da guerra em todas as frentes,
incluindo a guerra contra o Hezbolá no Líbano.
Não há hipótese de o Irã vir a
aceitar uma solução de compromisso com relação à maioria desses pontos. O
pagamento de indenização pode ser transformado em renda proveniente do pedágio
do Estreito de Ormuz. Mas o alívio das sanções não irá acontecer, o Congresso
dos Estados Unidos jamais o permitiria. A garantia de que os Estados Unidos não
atacarão o Irã novamente não se qualifica nem como piada. Além do mais, o
Império do Caos, simplesmente, não conseguiria garantir coisa alguma com
relação a Gaza ou ao Líbano.
Esse, contudo, é um plano
extremamente arriscado para o Irã e um enorme teste para a China, na qualidade
de maior garantidora. O Irã sofreu danos horrendos – principalmente na
indústria petroquímica. Mesmo com muito investimento chinês, levará anos para o
Irã se recuperar.
Os Três Patetas podem ir a Islamabad nesta
sexta-feira. Curly é Vance, Shifty é Witkoff e Mo é Kushner. Mas o Irã –
representado por seu chanceler Araghchi – só falará a sério com um deles:
Curly.
Assim, a Civilização sobrevive – por
enquanto. Acrescentando alguns fatos. Fato 1: os Estados Unidos não são mais
uma superpotência, Fato 2: o Irã volta como uma das grandes potências mundiais.
Fato 3: a maioria das covardes petromonarquias do Golfo acabará por expulsar
definitivamente as bases militares estadunidenses. Fato 4: Qatar e Omã montarão
um acerto de segurança com o Irã.
O principal imperativo continua o
mesmo – e interessa a todo o planeta: como encontrar uma cura para aquele
câncer do Oeste Asiático.
Tradução de
Patricia Zimbres

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