quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Abuso da força letal pela polícia gera mais insegurança no Brasil, diz Human Rights Watch

Quase 6 mil pessoas morreram em ações de forças de segurança em 2025

04 de fevereiro de 2026



Protesto contra a chacina policial que deixou mais de 120 pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

 



Por Leonardo Sobreira

Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil - O uso irrestrito da força letal pela polícia como estratégia de segurança no país tem resultado em mais violência e insegurança, em vez de deixar as cidades brasileiras mais seguras. A avaliação é do diretor da organização não governamental Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz.

A entidade divulgou, nesta quarta-feira (4), seu Relatório Mundial 2026, em que analisa a situação dos direitos humanos em mais de 100 países. H

Os dados compilados no relatório mostram que, entre janeiro e novembro de 2025, forças policiais mataram 5.920 pessoas no país, e que os brasileiros negros têm três vezes e meia mais chances de se tornarem vítimas do que os brancos.

A entidade destaca a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, que matou 122 pessoas em outubro do ano passado. Chamada de Operação Contenção, a ação foi realizada nos Complexos da Penha e Alemão para capturar lideranças da facção Comando Vermelho.

“O que não funciona é entrar na favela atirando. Isso não desmantela grupos criminosos, só cria mais insegurança e coloca os próprios policiais em risco”, disse César Muñoz.

Saúde mental dos policiais

Em 2025, 185 policiais foram mortos, segundo dados do Ministério da Justiça. Outros 131 cometeram suicídio.

Segundo a HRW, a taxa de suicídio entre policiais é muito mais alta do que no restante da população, o que reflete a exposição desses agentes à violência e o apoio inadequado à sua saúde mental.

“O nosso pedido é que tenha propostas baseadas na ciência e em dados. Propostas que realmente desmantelem grupos criminosos, que atuem com base em inteligência na investigação, [de forma] independente, para identificar essas ligações ou vínculos entre grupos criminosos e agentes do Estado, e sua infiltração na economia legal”, explicou Muñoz.

Muñoz afirma que a letalidade policial continua em níveis tão altos, principalmente, pela falta da devida apuração dos casos de morte decorrente de intervenção policial.

“Podemos ver isso na Operação Contenção, do Rio de Janeiro, em outubro [de 2025]. Um dos problemas no Rio, especialmente, é que a perícia é totalmente subordinada à Polícia Civil, e não tem a necessária independência para fazer o trabalho de forma adequada”, criticou.

Ele ressalta que, embora algumas mortes pela polícia sejam em legítima defesa, muitas são execuções extrajudiciais.

Corrupção policial

Além disso, os abusos cometidos pela polícia e a corrupção dentro das forças de segurança pública são fatores que levam as comunidades a desconfiar das autoridades. Isso faz com que fiquem menos propensas a denunciar crimes e colaborar com as investigações.

“Polícias violentas e polícias corruptas fortalecem a ação do crime organizado”, afirmou a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, no lançamento do relatório da HRW.

“A gente não pode ignorar que essas facções só tomaram a dimensão que tomaram e se expandiram de tal forma no Brasil porque elas contam com a corrupção do Estado.”

Ela acrescenta que “uma polícia violenta não é uma polícia forte, é uma polícia frágil que fica vulnerável ao crime organizado”.

A especialista avalia que é preciso investir em mecanismos de controle da atividade policial e destacou o papel do Ministério Público no processo de investigar os casos.

“A polícia pode, sim, fazer o uso da força para proteger a si mesma e para proteger a terceiros. Mas a gente não pode aceitar que isso seja utilizado como uma desculpa para execuções sumárias e abusos, como a gente viu no caso do massacre no Rio de Janeiro, no final do ano passado, com mais de 120 mortos”, destacou.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Por que Lula incomoda Trump e seu projeto fascista

A lógica silenciosa da guerra híbrida contra o Brasil num mundo em rearranjo

Por  Reynaldo José Aragon Gonçalves (Jornalista)


 

Lula e Trump se reúnem na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Quando o ataque é direto, a soberania unifica. Quando o conflito se disfarça de cordialidade, o desgaste opera por dentro. Trump sabe disso. Por isso evita o confronto com Lula, desloca a pressão para instituições, economia e narrativas e transforma a "boa relação" em instrumento de contenção. Nada é acaso. Tudo é método.

Quando Donald Trump afirma ter boas relações com Vladimir Putin, Xi Jinping, Recep Tayyip Erdogan ou Narendra Modi, ninguém sério entende isso como ausência de conflito. Ao contrário. Trump elogia, respeita e conversa, enquanto sanciona, tarifa, cerca militarmente, bloqueia tecnologia e pressiona aliados. A cordialidade verbal nunca foi sinônimo de conciliação. Sempre foi forma de conduzir o conflito. O erro é tomar o tom pela substância.

Esse padrão é recorrente e verificável. Trump não rompe relações para atacar. Ele mantém canais abertos enquanto age por outros vetores. A guerra comercial contra a China não impediu elogios públicos a Xi. As sanções contra a Rússia coexistiram com declarações amistosas sobre Putin. A pressão sobre a Turquia veio acompanhada de gestos pessoais a Erdogan. A lógica é simples: o conflito não precisa ser anunciado para ser exercido. Ele opera melhor quando não se apresenta como guerra.

É nesse padrão que o caso brasileiro precisa ser lido. Não como exceção, mas como variação. Trump não evita confrontar Lula por simpatia, nem por fraqueza. Evita o confronto direto porque ele sabe exatamente o que o confronto produz quando o adversário ocupa uma posição específica no tabuleiro global. E Lula, hoje, ocupa essa posição.

Aqui está a diferença central. Ao contrário de outros líderes, Lula não aceita o jogo do conflito silencioso. Ele expõe. Ele nomeia. Ele fala em público, nos fóruns certos, diante das audiências certas. Ele chama a falta dentro da grande área, com o estádio cheio e o juiz olhando. Denuncia assimetrias, cobra responsabilidade das potências centrais, defende autonomia e recusa a naturalização da tutela. Isso muda a equação.

Quando Lula confronta, ele não o faz por bravata. Ele faz porque sabe que a disputa central é política, simbólica e estrutural. E sabe que, nesse plano, o silêncio favorece sempre o lado mais forte. O incômodo nasce daí. Não do conteúdo isolado de uma fala, mas do efeito acumulado de expor o jogo diante do mundo.

Trump percebe isso. E não cai. Não transforma o embate em duelo pessoal. Não responde na mesma moeda. Não eleva o conflito ao plano simbólico direto, onde Lula ganha densidade, visibilidade e capacidade de articulação internacional. Ao contrário. Ele absorve o ataque, mantém cordialidade pública e desloca a disputa para onde ela rende mais e custa menos.

Esse deslocamento tem método. O primeiro vetor é institucional. A pressão deixa de mirar o presidente e passa a incidir sobre a arquitetura do Estado. Questiona-se a legitimidade das decisões, constrói-se a narrativa do abuso, acusa-se a Justiça de extrapolar limites. Não é uma divergência jurídica. É uma tentativa de corroer a capacidade soberana de decidir, regular e punir.

O segundo vetor é econômico. Tarifas, ameaças comerciais e instabilidade induzida aparecem como respostas técnicas, não políticas. Esse enquadramento é deliberado. Ele oculta o conteúdo coercitivo sob a linguagem da economia e dificulta a mobilização social. O custo é imposto sem barulho, sem bandeira, sem inimigo visível. Funciona como disciplina material.

O terceiro vetor é narrativo. Ao deslocar o conflito para temas como liberdade de expressão, plataformas digitais e regulação, cria-se uma inversão eficaz. O Estado que regula passa a ser retratado como agressor. A potência que pressiona se apresenta como defensora de princípios universais. Não é necessário convencer a maioria. Basta gerar confusão suficiente para paralisar a reação.

Esses vetores operam juntos. A pressão institucional fragiliza a autoridade do Estado. A pressão econômica desgasta por dentro. A pressão narrativa fornece justificativa moral para ambas. O resultado é um conflito permanente, porém difuso. Sem choque, sem clímax, sem fechamento soberano. É nesse ponto que a normalização se torna mais eficaz do que o ataque aberto.

Por isso Trump mantém o discurso cordial. Não é contradição. É amortecedor. Ele reduz a percepção de agressão externa ao mesmo tempo em que a coerção segue operando nos pontos sensíveis. A ausência de confronto direto não sinaliza recuo. Sinaliza sofisticação. O conflito não diminuiu. Ele apenas se tornou menos visível e mais difícil de enfrentar.

Lula incomoda porque rompe essa lógica. Porque insiste em tornar o conflito legível. Porque expõe o caráter político do que se vende como técnico. Porque recoloca o Brasil como ator, não como variável. Em um mundo em rearranjo, onde a multipolaridade deixa de ser abstração e passa a ser disputa concreta, isso tem peso real.

Transformar Lula em antagonista direto seria um erro estratégico. Isso ampliaria sua estatura, facilitaria a construção de solidariedades e reforçaria sua imagem como liderança capaz de desafiar assimetrias. Trump sabe disso. Por isso evita o duelo. Prefere conter sem personalizar, pressionar sem confrontar, desgastar sem provocar fechamento.

O alerta é simples e urgente. Quando o conflito parece diminuir, ele pode estar apenas mudando de forma. Quando a retórica amacia, a pressão pode estar se reorganizando. Normalização não é paz. Muitas vezes, é a etapa mais perigosa da disputa. Entender isso não é exercício acadêmico. É condição para não ser derrotado sem perceber que a guerra continua.

EM TEMPO: Convém lembrar que os Democratas, nos EUA, são simpáticos ao presidente Lula. Tanto é verdade que o Senado apoiou o fim do "Tarifaço" com apoio de alguns Republicanos do governo Trump. Lembrando que o Brasil é o segundo maior fornecedor de alimentos do mundo. Lula é "Pop Star" e quem quiser chorar que fique à vontade. Ok, Moçada!