Ministro diz que tratar o País como empresa revela “falta de projeto nacional” e afirma que “na direita, quem tem voto é o Bolsonaro”
18 de janeiro de 2026
Guilherme Boulos (Foto: Fabio
Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
247 — O ministro da
Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, criticou duramente a visão
de que o Brasil deveria ser administrado como uma empresa e ironizou a tese de um
“novo CEO” para o País. Para ele, essa concepção revela “falta de um projeto
nacional” e, na prática, reduz a população à condição de “empregados” do
governante. “Tratar um País como se fosse a gestão de uma empresa privada
mostra falta de um projeto nacional”, disse. “Se o presidente é CEO, ele
(Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados”, completou.
As declarações foram dadas em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, na qual Boulos também
mirou o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ambiente
político-eleitoral que começa a se desenhar para 2026. Há três meses no cargo,
o ministro afirma ter recebido do presidente Lula a missão de colocar “o
governo na rua” e reacender a base social da esquerda, com foco em
trabalhadores que, segundo ele, passaram a ser disputados pela direita —
incluindo motoristas e entregadores de aplicativos, além de pequenos
empreendedores.
“Bolsonarismo envernizado” e disputa na
direita
Boulos afirmou que setores do mercado
financeiro desejariam uma direita com aparência mais palatável, mas sem romper
com o bolsonarismo. “O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado”,
disse, ao falar sobre a projeção de Tarcísio como alternativa. “Tudo o que eles
querem é um bolsonarismo que coma de garfo e faca. Mas a Faria Lima não tem
voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro”, completou, referindo-se ao
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe.
O ministro também disse que, na
prática, a definição do nome competitivo da direita dependerá da indicação de
Bolsonaro. “Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será o
candidato”, afirmou.
Polarização,
pesquisas e o desafio de comunicação do governo
Questionado sobre a pesquisa
Genial/Quaest em que a avaliação negativa do governo superou a positiva, Boulos
atribuiu o resultado ao ambiente de polarização. “Hoje tem uma situação da
polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai
desaprovar o governo do presidente, por mais que possa sentir melhora na vida
dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso”,
declarou, destacando que o mesmo levantamento aponta Lula como favorito à
reeleição em diferentes cenários.
Trump, soberania e
recado ao “vira-lata”
Ao comentar o impacto eleitoral da
política externa, Boulos defendeu a posição do presidente Lula diante das ações
do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que o governo vai
transformar o tema em eixo de campanha. “O que o presidente fez foi defender a
paz no continente e dizer que nem o Brasil nem a América Latina devem admitir
nenhum tipo de colonialismo, de imperialismo”, disse.
Boulos também citou episódios
envolvendo Trump e criticou quem, segundo ele, relativiza agressões à soberania
de países da região. “Mas no dia seguinte o Trump foi lá e sequestrou o Maduro
e fez um ataque militar numa República soberana. Ele (Trump) disse que faria (a
mesma coisa) na Colômbia, que tomaria a Groenlândia. Então, para defender esse
tipo de política tem que ser muito vira-lata. Patriotismo não é só na hora de
levantar a bandeira em manifestação”, afirmou.
Três temas para
2026 e promessa de fim da escala 6x1
Boulos disse que a eleição será
marcada por três grandes temas. “Primeiro: soberania nacional. Haverá uma
discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou o Brasil como
uma colônia dos Estados Unidos. Quem usou o bonezinho do MAGA vai ter que se
explicar”, afirmou.
O segundo tema, segundo ele, será a
tributação. “Justiça tributária. Esse é o governo que pela primeira vez mexeu
no vespeiro de taxar super rico no Brasil e zerar o Imposto de Renda (para quem
ganha até R$ 5 mil). Qual é a posição daqueles que vão ser nossos
adversários?”, questionou.
O terceiro eixo é a pauta
trabalhista. “Defesa dos trabalhadores. Este governo defende o fim da escala
6x1”, declarou, sustentando que o Planalto quer aprovar ainda neste ano duas
agendas: o fim da escala 6x1, com redução da jornada de 44 para 40 horas
semanais sem redução salarial, e um marco de direitos para trabalhadores de
aplicativos.
Aplicativos: limite
de retenção e transparência do algoritmo
Sobre a regulamentação das
plataformas, Boulos descreveu um cenário em que a parcela retida pelas empresas
pode chegar a metade do valor das corridas. “No caso dos motoristas, a taxa de
retenção pode chegar a 50%. O texto do projeto de lei coloca um limite de 30%”,
disse.
Para entregadores, apontou a disputa
por um ganho mínimo por entrega e citou parâmetros debatidos no setor. “O iFood
já trabalha com taxa mínima de R$ 7,50, em entregas até 3 quilômetros, e R$
1,50 por quilômetro adicional. A demanda deles é que isso chegue a R$ 10
(fixos) e R$ 2,50 por quilômetro adicional. O projeto chegou a R$ 8,50”,
afirmou.
O ministro também enfatizou a
exigência de transparência algorítmica. “É inadmissível que um motorista não
saiba o quanto o cliente está pagando; só saiba o quanto ele recebe. E que um
motoboy, ao não aceitar uma corrida, receba uma punição algorítmica e fique
duas horas sem receber outra chamada”, afirmou, defendendo ainda “uma
contribuição majoritária das empresas para o INSS e uma minoritária dos
trabalhadores”.
Emendas, “captura
do Orçamento” e freio de arrumação
Boulos minimizou o impacto político
do veto presidencial a cerca de R$ 400 milhões em emendas parlamentares e
criticou o volume total aprovado no Orçamento. “Nós estamos vivendo um negócio
do rabo abanando o cachorro. R$ 61 bilhões em emenda aprovados no Orçamento?
Gente, isso é uma esculhambação. Como é que você vai governar o Brasil desse
jeito? Você perde a noção de projeto de país”, disse. “Nesse estágio, em algum
momento, nós vamos ter que fazer um freio de arrumação”, completou.
Segurança pública e
confronto com Flávio Bolsonaro
Na disputa eleitoral, o ministro
disse estar pronto para enfrentar ataques relacionados à sua trajetória em
movimentos sociais e reagiu a críticas sobre “invasões”. “Existe um preconceito
tremendo contra o movimento social. O Movimento Sem-Teto nunca invadiu a casa
de ninguém”, declarou, explicando que o MTST “identificou imóveis em situação
ilegal” e pressionou pelo cumprimento do Estatuto da Cidade.
Sobre segurança pública, Boulos
afirmou que, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja candidato, o governo
pretende confrontá-lo diretamente. “Eu estou doido para o Flávio Bolsonaro, se
for o candidato, falar de segurança pública porque daí a gente vai falar de
milícia do Rio de Janeiro, de Rio das Pedras, de Adriano da Nóbrega, que teve
familiar assessor no gabinete dele, de Escritório do Crime”, disse. “Qual é a
autoridade moral do Flávio Bolsonaro para falar de segurança?”, completou,
defendendo a PEC enviada por Lula para ampliar responsabilidades federais no
tema.
Evangélicos, nova
classe trabalhadora e lições de 2024
Boulos afirmou que a esquerda precisa
aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora e disse ter tirado lições da
eleição municipal de 2024, quando concorreu à Prefeitura de São Paulo. “A gente
aprende mais na derrota do que na vitória”, afirmou, defendendo “um diálogo
franco” com segmentos que hoje vivem de ocupações informais.
Sobre evangélicos, apontou a
necessidade de reconstruir pontes. “Nós temos que repensar, inclusive, a
relação de resistência que se construiu, dos dois lados, entre a esquerda e o
povo evangélico”, disse, descrevendo o perfil majoritário do grupo como
“mulheres das periferias que usam o SUS” e têm filhos na escola pública.
Permanência no
governo e papel em São Paulo
Questionado sobre deixar o cargo para
disputar as eleições, Boulos disse que pretende permanecer. “Eu pretendo ficar,
porque entrei no governo em outubro. O presidente me fez pedidos, me deu
missões, e eu não largo missão no meio do caminho”, afirmou, acrescentando que
tem compromisso de ajudar na construção do palanque em São Paulo.
Ao comentar a indefinição de nomes para o governo
paulista, voltou a criticar a retórica do “CEO” e a postura de Tarcísio.
“Tratar um país como se fosse a gestão de uma empresa privada? Isso mostra a
cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular”, declarou,
retomando a síntese de sua crítica: “Se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve
enxergar a população como seus empregados”.
EM TEMPO: Está certo a estratégia de elevar o nível de discussão política, especialmente no período eleitoral. Pois o que à Direita quer é a despolitização para facilitar sua influência eleitoral e sua dominação.

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