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| (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress) |
IGOR GIELOW
***FOTO DE
ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 15-05-2020, 08h00: O presidente Jair Bolsonaro
fala com apoiadores e imprensa ao sair do Palácio da Alvorada na manhã de hoje.
SÃO PAULO, SP
(FOLHAPRESS) - A nota em que o presidente Jair Bolsonaro, o vice Hamilton
Mourão e o ministro Fernando Azevedo (Defesa) dizem que as Forças Armadas não
cumprirão "ordens absurdas" foi reprovada por setores da cúpula
militar e pelo seu alvo, os ministros do Supremo Tribunal Federal.
O texto foi
elaborado na noite de sexta (12), após o ministro Luiz Fux conceder uma decisão
provisória delimitando a interpretação do artigo 142 da Constituição, que
regula o emprego dos militares.
Na liminar, Fux
respondia a um questionamento do PDT acerca da interpretação corrente no
bolsonarismo de que o artigo permitiria às Forças Armadas intervir caso um
Poder tentasse tolher o outro.
A visão vem
sendo ventilada pelo presidente, pelo vice e outros membros do governo. A nota
de sexta dizia também que as Forças não tolerariam "julgamentos
políticos", uma referência nem tão velada à ação de cassação da chapa
Bolsonaro-Mourão que corre no Tribunal Superior Eleitoral.
A reportagem
conversou com oficiais-generais da ativa dos três ramos armados. Enquanto
muitos consideram que o Judiciário tem exagerado em suas decisões, e todos
ressaltem que os signatários da nota são seus superiores hierárquicos, o tom
foi reprovado.
Para um
almirante, a nota coloca as Forças Armadas como um poder moderador acima da
lei. Ele disse que é óbvio que os militares têm de responder a decisões e que,
se não concordarem, sempre caberá recurso dentro da Constituição.
Em grupos de
WhatsApp de oficiais, a crítica mais comum era a de que as Forças foram
colocadas como uma extensão do bolsonarismo militante, que tem no confronto com
Poderes uma de suas características.
Já havia grande
irritação pela entrevista que o general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de
Governo) havia concedido à revista Veja, no qual ele falou em tom ameaçador
contra a oposição ao mesmo tempo em que se apresentava como representante das
Forças.
Ramos, já no
centro de insatisfações quando foi cogitado por Bolsonaro para substituir o
comandante Edson Pujol, ao mesmo tempo cedeu a pressões e decidiu passar à
reserva -irá deixar o interino da Saúde, Eduardo Pazuello, como último general
da ativa com cargo de primeiro escalão.
A nota coroou
uma semana de ruídos entre a ativa e o governo Bolsonaro. A tentativa de
maquiagem de dados da Covid-19 na Saúde, a frustrada portaria para dar direito
ao uso de aviões ao Exército e a revelação de negócio entre a Força e uma
empresa americana de armas favorecida pelo filho presidencial Eduardo Bolsonaro
não foram bem digeridos.
Ante todo esse
clima, com efeito, Mourão concedeu entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na
manhã deste sábado (13) e tentou modular a nota, dizendo que não há
indisciplina possível entre os fardados da ativa.
Há relatos
divergentes acerca de uma consulta do Planalto aos comandantes de Forças sobre
o tom da nota. A reportagem questionou o general Azevedo sobre isso, mas ainda
não obteve resposta.
Já entre
ministros do Supremo, o tom variou de desânimo a irritação.
O desapontamento
veio do fato de que o Planalto havia dado sinais de uma tentativa de
normalização na relação com a corte, que está em processo de votação que deverá
manter vivo o inquérito das fake news -que atinge o coração do bolsonarismo.
A principal
sinalização foi dada acerca do ministro Abraham Weintraub (Educação), que na
reunião ministerial de 22 de abril disse que queria ver os integrantes do
Supremo, a quem chamou de vagabundos, na cadeia.
Nas últimas
semanas, emissários fizeram chegar a ministros da corte que o Planalto estaria
disposto a rifar Weintraub como punição pela fala. Em vez disso, o ministro
envolveu-se em nova polêmica, com a rejeitada medida provisória que previa
nomeação de reitores de universidades federais nesta semana.
A esse
empoderamento somou-se a nota de sexta. A liminar de Fux havia sido alvo de
contestações interna por parte de alguns ministros, que viram nela um certo
truísmo ao reafirmar o que já está na Constituição e pela vacuidade do objeto:
é uma decisão retórica, na prática.
Mas há
simbolismos inescapáveis, e aí entra a contrariedade geral. Fux será o próximo
presidente da corte, a tomar posse em setembro, e em momentos de crise entre
Poderes os 11 integrantes do Supremo costumam agir em bloco.
Assim, o ataque
direto a Fux se tornou, por extensão, mais uma afronta à corte por parte de
Bolsonaro, que já participa de modo contumaz de atos pedindo o fechamento do
órgão máximo do Judiciário e do Congresso.
A assinatura
conjunta com Mourão foi vista como um recibo de ambos pelo fato de serem objeto
da ação no TSE. Já a presença de Azevedo reforçou um sentimento que vem se
consolidando na classe política: Bolsonaro tem usado as Forças Armadas como
escudo por extrema fragilidade.
Assim, a
banalização das ameaças, que assustam muitos devido ao passado intervencionista
das Forças, tem sido vista pelo decrescente valor de face. Preocupa mais o
Supremo a eventual perda de controle nas ruas, estimulada por Bolsonaro.
Chocou
especialmente a sugestão do presidente para que hospitais sejam invadidos para
provar a hipótese de que governadores estão inflando politicamente números da
Covid-19.
Situações de
violência implicam o uso das polícias militares, consideradas muito próximas do
espírito bolsonarista. O motim da PM do Ceará no começo do ano, apoiado
veladamente pelo governo, é um exemplo sempre lembrado.
Seja como for,
no Distrito Federal a polícia acabou com o acampamento do "300 do Brasil" neste
sábado sem incidentes. O grupo pró-Bolsonaro prega violência e fechamento de
Poderes, e não houve a temida adesão de policiais a ele.
As consultas que
começaram na noite de sexta prosseguem neste sábado no mundo político, dado que
Bolsonaro conseguiu elevar ainda mais o patamar de suas provocações institucionais,
mas por ora o clima é mais de observação de cenário do que de reações
exacerbadas.
EM TEMPO: Por muito menos, cassaram a presidente Dilma. Os militares, cerca de 3.000 deveriam desembarcarem do governo Bolsonaro. Ao agirem dessa maneira, a nossa situação seria bem melhor, incluindo democracia e saúde, e o Bolsonaro deixaria de dizer tantas bravatas, provocações e usar as Forças Armadas. Agora durmam com essa bronca.

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